6. Detection and Tracking of Point Features 61
6.6. Improvements
6.6.3. Robust Image Alignment
Para analisar as dinâmicas e os sistemas migratórios referentes a Barcarena, não basta somente a identificar as estruturas já consolidadas e em processo de construção. É necessário, também, levar em conta o relato das experiências e histórias das pessoas que migram e que ficam. Ao pesquisar a comunidade São Lourenço, em Barcarena, Wellington Souza (2006) alertou para a importância de uma abordagem e olhar comprometido com a realidade e a história das pessoas.
O que percebo é que boa parte da bibliografia que analisa estas questões, trata as pessoas de forma indiferenciada e, além disto, registra sua realização e seu enfoque, muitas vezes, somente para o momento de implantação dos grandes projetos e para o momento seguinte a este fato. Esta demarcação temporal que tenta resgatar somente aquilo que refere aos “impactos sociais imediatos”, de alguma forma, naturaliza e homogeniza as diversas situações não permitindo enxergar a complexidades dos efeitos, as variações na forma com que cada família, cada indivíduo assimila e constrói sua compreensão e, em decorrência, à luz desta percepção, produz suas práticas (SOUZA, 2006, p. 26).
Neste capítulo apresento alguns relatos e depoimentos de pessoas que expressam as vivências no seu o lugar, a sua territorialidade e as transformações sociais ocorridas e ocorrentes no município, em face dos processos migratórios e suas consequências, e identifico quatro sistemas migratórios contemporâneos. Trata-se de uma tentativa de registrar as impressões do lugar onde as dinâmicas ocorrem e das pessoas que nele vivem. É um território dividido em comunidades, recortadas, isoladas, e ao mesmo tempo conectadas, e que são referências nos processos identitários dos moradores de Barcarena, para quem o município é vivenciado como um conjunto de comunidades, famílias, pessoas, histórias, empresas, ilhas, rios e igarapés.
A apresentação dos relatos forma a base dos próximos capítulos. Ela não é uma mera ilustração; mas constitui a fundamentação da minha análise, que identifica e respeita a condição desses agentes das transformações sociais, estando, eles mesmos, em processo de transformação.
Antes de apresentar as histórias de vida dos moradores, apresento dados estatísticos e informações que considero relevantes para caraterização do território e da população de Barcarena, referentes aos locais de origem dos moradores, com base no Censo de 2010 do IBGE. Apresento dois levantamentos de dados constantes em fichas cadastrais de dois centros comunitários (comunidades Murucupi e Vila Nova, 2013), as informações de um levantamento socioeconômico das comunidades do distrito industrial (COSTA, 2012) e os depoimentos anexados em processos judiciais dos ribeirinhos atingidos pelo vazamento de lama vermelha – resíduo proveniente das atividades da Alunorte em 2009.
Algumas perguntas antecedem os dados estatísticos e as apresentações. O que é ser um agente das transformações sociais na condição de migrante, como parte de um sistema migratório? O que é ser migrante ou ter a condição de migrante na vida dessas pessoas?
O migrante não é, certamente, uma figura libertada de suas relações territoriais; um ser nômade que escapa ao controle e ao status quo; um indivíduo desterritorializado e sem rumo definido, num mundo de fronteiras fluidas. Haesbaert (2010) deixa isto claro, quando se refere à mobilidade humana e à desterritorialização.
Migrante é uma categoria muito complexa e no seu extremo podemos dizer que há tantos tipos de migrantes quanto de indivíduos ou grupos sociais envolvidos nos processos migratórios (HAESBAERT, 2010, p. 246).
Através da figura do migrante podemos entender melhor as diversas formas da desterritorialização. O migrante é parcela integrante – ou que está em busca da integração – numa (pós)modernidade marcada pela flexibilização – e precarização – das relações de trabalho (HAESBAERT, 2010)
O trabalho e a realidade social em que a pessoa está inserida são essenciais para entender o que é um migrante, segundo Maria Aparecida de Moraes Silva (2007, p. 57):
[...] sob duas óticas: inicialmente, trata-se de um(a) trabalhador(a) produzido(a) no bojo de determinadas relações sociais, que, muitas vezes, resultam de um processo violento e expropriação. Esta situação remete à análise das condições históricas responsáveis por este processo; em seguida, o migrante insere-se numa realidade social, definida por laços sociais (familiares, grupos de vizinhança, valores, ideologias etc.), que o caracterizam como pertencente a um determinado espaço social e cultural. Estas duas perspectivas conduzem às reflexões, segundo as quais, os fatores econômicos não são os únicos a serem levados em conta na análise da migração e dos migrantes.
Migrante também é uma condição de existência, um processo de produção de identidade e, como Marandola Junior e Gallo (2010, p. 407), entendo, numa abordagem geográfica e filosófica, que: [“...] o migrante é um ser deslocado, movido de seu lugar primevo” e que “o sair do seu lugar envolve processos de redefinições das territorialidades que não são necessariamente sucessivos nem ordenados”. Eles perguntam e respondem “Que significa, para a constituição da identidade e do eu, o rompimento da ligação original ser-lugar natal? Há um abalo na segurança existencial e na identidade territorial como elemento central do processo migratório”. (MARANDOLA JUNIOR; GALLO, 2010, p. 409).
A identidade de um migrante é relacionada a seus processos de deslocamentos e (des)territorializações, o que envolve, portanto, todos os espaços por onde os migrantes passam, numa interligação de “territorialidade (lugar) e existência (ser)”.
O processo descrito por Marandola Junior e Gallo (2010, p. 410), pelo qual passa o migrante, parece fazer parte da maioria das migrações:
O processo de desenraizamento original iniciado pelo movimento migratório se dá, em termos existenciais, pela alteração da territorialidade consolidada, a modificação desta relação originária self-lugar, saindo do lugar-natal, o que implica deixar os lugares de infância, juventude ou idade adulta, responsáveis pela nossa formação enquanto pessoa e sobre os quais está edificada nossa identidade. Implica, portanto, sair dos territórios da segurança e lançar-se no mundo, em lugares de pouca ou nenhuma familiaridade, onde há pouco ou nenhum controle, uma das raízes da insegurança.
Cynthia Martins, pesquisando as dinâmicas de deslocamentos no Maranhão entre roça, garimpo e floresta, sugere a importância de se analisarem as categorias usadas pelas pessoas envolvidas nas dinâmicas migratórias, ou seja, considerar a maneira pela qual os agentes sociais representam os deslocamentos dentro do seu contexto social, ou como os fenômenos são pensados, vividos e administrados pelos
agentes sociais (MARTINS, 2012). A autora percebeu que mais do que se caracterizar como migrante, as pessoas se referem a uma existência coletiva, como etnia, formas de organização política, atividade econômica ou a relação com a terra, que envolvem certas lógicas e dinâmicas de deslocamento (MARTINS, 2012). É um entendimento importante para o diálogo com as pessoas em movimento, para o entendimento do significado do deslocamento e para a compreensão da categoria migrante.
Nos relatos neste capítulo, tento apresentar alguns elementos da vida antes, durante e depois dos deslocamentos, de pessoas que conheci durante a pesquisa, considerando que se trata de um processo permanente de des-re- territorialização, no qual a origem é fundamental, pois o imigrante, antes de “nascer” para a imigração, é primeiro um emigrante (SAYAD, 1998, p. 17). Neste sentido, Sayad reflete:
Como dar conta da vulnerabilidade particular? Não se pode fazê-lo sem remontar o curso da imigração em toda sua extensão e além dela, até mesmo acima da emigração, sem nos perguntarmos sobre todo itinerário do imigrante e sem interrogá-lo sobre seu itinerário profissional e social a fim de poder caminhar com ele e tentar reconstituir, retrospectivamente e com sua ajuda, a trajetória social que fez dele o representante de um certo modo de emigração (e imigração) (SAYAD, 1998, p. 112).
As narrativas que apresento na sequência deste capítulo não se configuram como estudos de caso, mas sim um mosaico de experiências, cuja diversidade, conectividade e similaridades nos situam numa realidade em movimento. São depoimentos de pessoas e famílias deslocadas de seus lugares de vivência no território de Barcarena, que se inseriram no sistema de migrações em busca de trabalho temporário, que “pendularam” entre Barcarena e Belém, que voltaram para as comunidades de onde foram expulsas ou que enfrenaram uma ou mais experiências de deslocamento, considerando que uma mesma pessoa pode se envolver em várias dinâmicas migratórias; pois cada membro de uma família pode migrar ou manter o seu modo de vida e relacionar-se com sua família, com o território e com as forças estruturantes da situação.
São pessoas que sentem na própria pele (experiência total), na sua prática cotidiana, as contradições das transformações sociais ocorridas e ocorrentes no município, em virtude das complexas dinâmicas de migração em que se inserem e se movimentam para viver, sobreviver e resistir. Todas essas pessoas, com suas
trajetórias expressas nos relatos aqui apresentados nos permitem conhecer e entender melhor os sistemas migratórios apresentados, sistematizados e analisados nos capítulos seguintes.
A origem dos moradores indica somente um dos movimentos migratórios pelos quais podem ter passado na sua trajetória, pois entre o lugar de origem, a última residência antes de chagar a Barcarena e a moradia atual há muitos movimentos migratórios possíveis, como se pode constatar nas histórias e na análise dos sistemas migratórias nos tópicos seguintes. Além de outros movimentos intermunicipais não registrados neste tipo de abordagem, não se considera aqui os deslocamentos internos no município.
A carteira de identidade pode certificar a origem das pessoas, mas não comprova a sua procedência, o local da última moradia ou aonde foram criadas. A despeito disso, a carteira de identidade serviu como referência documental, no levantamento realizado pelos centros comunitários e no processo judicial movido contra Alunorte. Tal fato pode dar margem a interpretações e julgamentos errôneos. Entretanto, outras fontes oficiais comprovam a veracidade dos dados de identificação pessoal, constantes no processo; como poderá ser observado mais adiante.
No Mapa 2 pode ser identificada a localização das principais empresas multinacionais, portos de grande porte e as comunidades onde uma parte do trabalho de campo foi realizado e onde vivem as pessoas entrevistadas. No Anexo 1 há uma listagem completa dos entrevistados com algumas das suas características.
A população de Barcarena é formada basicamente por moradores nativos ou oriundos dos municípios vizinhos, com quem (con)vivem uma dinâmica de compartilhamento de atividades econômicas, culturais e familiares. A fase da construção e contratação em massa de trabalhadores temporários de outros municípios e estados parece ter impactado pouco, em longo prazo, a composição dos habitantes no município. Isto contrasta com a época de construção da Albras, do porto e da Vila dos Cabanos, quando, segundo Amaral et al. (2002): “se observava nos bairros um número bastante alto de pessoas provenientes de outros estados brasileiros”.
Segundo o Censo 2010, 55% da população de Barcarena é nativa, ou seja, nasceu em Barcarena, 45% dos moradores de Barcarena nasceram em outros municípios (Tabela 3).
Tabela 3 - Nascidos no município de Barcarena segundo o Censo 2010. Nascidos em Barcarena Total Percentual
Sim e sempre morou 53343 53
Sim, mas morou em outro
município ou país estrangeiro 2022 2
Não 44494 45
Total 99.859 100
Fonte: Censo (2010). Elaboração do autor.
Das 25.204 pessoas que moram a menos que 10 anos no município, 84% (21183) são oriundas de municípios do Pará (61% de municípios próximos a Barcarena) e somente 16% de outros estados. Belém é o principal município de residência anterior, seguido por outro município vizinho, Abaetetuba. Os municípios vinculados ao grande projeto do Jari, a hidrelétrica de Tucuruí e o complexo portuário-industrial São Luís se fazem presentes entre as principais residências anteriores, sugerindo uma relação entre as obras, trabalhadores e circulação.
A Tabela 4 apresenta os municípios de maior incidência de origem de 75% das pessoas que moram menos que 10 anos em Barcarena, segundo o Censo 2010.
Tabela 4 - Município da última residência das pessoas que moram a menos de 10 anos em Barcarena.
Município Total % % Acumulativo
Belém 7926 31,45 31,45 Abaetetuba 1647 6,53 37,98 Ananindeua 864 3,43 41,41 Capanema 676 2,68 44,09 Tailândia 604 2,40 46,49 Moju 573 2,27 48,76 Igarapé-Miri 568 2,25 51,02 Cametá 553 2,19 55,45 Bragança 495 1,96 57,41 Castanhal 486 1,93 59,34 Muaná 398 1,58 60,92 Acará 373 1,48 62,40
São Luís (Maranhão) 367 1,46 63,86
Tucuruí 317 1,26 65,12 Viseu 310 1,23 66,35 Almeirim 308 1,22 67,57 Laranjal do Jari 291 1,15 68,72 Breves 243 0,96 69,69 Portel 224 0,89 70,57 Macapá (Amapá) 223 0,88 71,46 Tomé-Açu 217 0,86 72,32 Marituba 212 0,84 73,16 Ponta de Pedras 171 0,68 73,84
São Sebastião da Boa Vista 160 0,63 74,47
Vigia 160 0,63 75,11
Outros 6272 24,89 100
Fonte: Censo (2010): Tabela sobre a residência de anterior de quem mora a menos de
10 anos em Barcarena. Elaborada pelo IBGE para esta pesquisa (2014).
Comunidades com histórias e realidades diferentes, porém, conectadas, foram abordadas nesta pesquisa. Na Tabela 5 encontram-se os estados de origem das comunidades em que foram coletados dados estatísticos, com base em fontes distintas. Todas apontam para a mesma direção: o Pará é o principal estado de origem de 81% a 89% dos moradores, sendo que nas comunidades mais tradicionais este percentual oscila entre 86% e 89% e nas comunidades onde houve uma chegada de um número maior de trabalhadores entre 81% e 85%. O Maranhão é o segundo estado de maior índice de origem dos moradores das comunidades de Barcarena, representando a origem de 5% a 9 % dos moradores, seguido por outros dois estados do Nordeste – Piauí e Ceará.
Tabela 5 - Estado de origem dos moradores das comunidades no Distrito Industrial, Murucupi, Vila
Nova e comunidades ribeirinhas que constam no processo contra a Alunorte.
RIBEIRINHOS DISTRITO INDUSTRIAL VILA NOVA MURUCUPI
ESTADO N % ESTADO N % ESTADO N % ESTADO N %
Pará 880 88,9 Pará 5241 84,71 Pará 204 85,71 Pará 268 81,46 Maranhão 48 4,8 Maranhão 489 7,9 Maranhão 15 6,3 Maranhão 31 9,42 Piauí 14 1,4 Sem
informações 146 2,36 Piauí 7 2,94 Ceará 8 2,43 Alagoas 8 0,8 Ceará 84 1,36 Ceará 2 0,84 Amapá 7 2,13 Ceará 7 0,7 Piauí 84 1,36 Sem
informações 2 0,84 Sem informações 5 1,52 Amazonas 5 0,5 Bahia 29 0,47 Paraíba 1 0,42 Piauí 4 1,22 Amapá 4 0,4 Minas Gerais 27 0,44 Paraná 1 0,42 Mato Grosso 2 0,61 Rio grande
do Norte 4 0,4 Amapá 24 0,39 Amazonas 1 0,42 Pernambuco 2 0,61 Distrito
Federal 3 0,3 Amazonas 12 0,19 Bahia 1 0,42 Rio Grande do Norte 1 0,30 Pernambuco 3 0,3 Goiás 8 0,13 Pernambuco 1 0,42 Tocantins 1 0,30 Bahia 3 0,3 Rio Grande
do Sul 8 0,13 Rio Grande do Norte 1 0,42 Minas
Gerais 3 0,3 Pernambuco 4 0,06 Rio Grande do Sul 1 0,42 Paraíba 2 0,2 Santa
Catarina 3 0,05 Distrito Federal 1 0,42 Paraná 2 0,2 Alagoas 2 0,03
Rio de
Janeiro 2 0,2 Espirito Santos 2 0,03 Sergipe 1 0,1 Rio de Janeiro 2 0,03 São Paulo 1 0,1
Total 990 100 Total 6165 100 Total 238 100 Total 329 100
Fonte: Processo (2010); Costa (2012), Levantamento Murucupi e Nova Vida (2013).
Elaborado pelo autor
Com relação aos municípios de origem, as informações coletadas se referem às comunidades Murucupi, Vila Nova e as comunidades ribeirinhas. Na Tabela 6 encontram-se os principais municípios de origem.
Tabela 6 - Principais municípios de origem dos moradores da Vila Nova, Murucupi e comunidades
ribeirinhas.
MURUCUPI VILA NOVA RIBEIRINHOS
Município Nº % Município Nº % Município Nº %
Belém 54 21,69 Barcarena 55 23,11 Belém 254 28,9
Barcarena 34 13,65 Belém 46 19,33 Barcarena 250 28,4 Abaetetuba 24 9,64 Abaetetuba 10 4,20 Abaetetuba 77 8,8 Igarapé Miri 15 6,02 Viseu 8 3,36 Ponta de Pedras 22 2,5 Cametá 14 5,62 Igarapé Miri 7 2,94 Moju 20 2,3 Capanema 9 3,61 Moju 7 2,94 Capanema 19 2,2 Moju 9 3,61 Ponta de Pedras 6 2,52 Muaná 19 2,2 Bragança 7 2,81 Acará 4 1,68 Primavera 14 1,6 Muaná 7 2,81 Bragança 4 1,68 Bragança 13 1,5
Viseu 7 2,81 Baião 3 1,26 Curuçá 9 1
Ourém 6 2,41 Capanema 3 1,26 Tomé Açu 9 1
Ponta de Pedras 6 2,41 Piracuruca 3 1,26 Viseu 9 1 São Luís 5 2,01 Primavera 3 1,26
Turiaçu 5 2,01
Fonte: Processo (2010), Costa (2012), levantamento Murucupi e Nova Vida (2013).
Elaborado pelo autor.
Em geral, os municípios de origem não são localidades onde se implantaram ou estão sendo implantados grandes projetos. A cidade de Belém, próxima de Barcarena, possui o maior contingente populacional do Pará, e disputa com Barcarena o primeiro lugar em relação à origem dos moradores das comunidades. E os demais municípios em destaque, em sua maioria, são cidades ribeirinhas.