3 TEORETISK PERSPEKTIV
3.3 Tekst og forståelse
Para o senso comum, incluindo o senso comum culto das escolas de arquitetura e engenharia, a história da construção é algo similar à história natural. As tecnologias substituiriam umas às outras em razão de suas características inerentes, “como resultado de um processo de seleção natural do tipo darwinista” (CASTRO e KRUGER, 2013, p.218). Nessa perspectiva, as mudanças tecnológicas que caracterizam a história da construção no Brasil – do pau-a-pique e do adobe à alvenaria de tijolos e dessa ao concreto armado – são vistas como resultado de uma competição cujo vencedor é o sistema tecnológico mais eficiente e que, portanto, passa a ser o mais empregado, tendo assim sua hegemonia legitimada. Essa crença, por si só, já contribui para um descrédito apriorístico dos sistemas não convencionais (contra-hegemônicos), que passam a ser associados com dispêndio de tempo e dinheiro, com falta de segurança, etc.
A crença na evolução dos sistemas construtivos decorre de um fetichismo tecnológico, que desconsidera a interferência dos fatores históricos e das relações econômicas, políticas, culturais etc., no emprego das tecnologias. Nessa abordagem, a superação da manufatura é necessária para que ocorra o “desenvolvimento” tecnológico do setor e daí decorra a ampla disseminação de processos industrializados e racionalizados nos canteiros. A falta de progresso das forças produtivas ou o atraso tecnológico no subsetor de edificações são temas comuns aos discursos daqueles que apoiam essa
linha de pensamento. Villela (2007, p.83) identifica que os autores defensores da neutralidade tecnológica apontam que o “longo tempo de rotação do capital, presença da renda da terra, a utilização intensiva do trabalho, a função de contrapor à queda tendencial da taxa de lucro” são fatores que contribuem para a condição de atraso na construção civil.
Contudo, o ponto de vista que se sustenta neste texto é contrário às teorias de caráter evolucionista, amparadas numa espécie de seleção natural de sistemas construtivos, já que essa é uma visão restrita e pouco crítica do papel da tecnologia no emprego dos processos construtivos. Também se questiona a crença de que as tecnologias estejam disponíveis como num cardápio e possam ser selecionadas apenas a partir de suas boas qualidades. Ao contrário, o pressuposto da pesquisa é de que tais escolhas são sempre condicionadas por fatores externos, para além das características próprias das tecnologias. Portanto, “um novo método de produção não precisa ser tecnologicamente superior para ser adotado; a inovação depende igualmente das instituições econômicas e sociais, dos que controlam a produção e das pressões de que esse controle acompanha” (MARGLIN, 1996, p.44).
Considera-se que as tecnologias construtivas não são neutras e tampouco lineares, mas socialmente construídas, articuladas em torno da disponibilidade de recursos e dos interesses dos diversos grupos sociais e das práticas que eles põem em jogo. Na mesma linha, entende-se a inovação tecnológica (e sua estabilização) como a correlação entre fatores econômicos, sociais, políticos e científicos e não uma característica própria do artefato, ou seja, produto de suas particularidades (LAW, 1989). A aparente disponibilidade de sistemas construtivos é ilusória, em lugar de autonomia para escolha da tecnologia há uma imposição velada.
Pelli (1889), por exemplo, justifica o uso de determinadas tecnologias segundo a subordinação das culturas periféricas às culturas centrais, em que as supostas “opções tecnológicas” estariam diretamente influenciadas por determinados países. Para Pelli (1889) todas as culturas têm sua própria estratégia tecnológica, fruto das características locais, contudo, cada uma delas estaria condicionada aos interesses da própria produção, do ensino e das normas estabelecidas. Um arranjo que, de certa
maneira, pré-estabeleceria o desenvolvimento e a transmissão do conhecimento tecnológico.
Ainda sobre o esquema de Pelli, no que o autor denomina como países centrais coexistiriam três categorias de tecnologia, sendo elas: a tradicional ou formal; a “de ponta”, desenvolvida em centros tecnológicos com disponibilidade de muitos recursos; e as “marginais ricas”, caracterizadas por soluções tecnológicas alternativas à formal. Já nos países que se enquadrariam na categoria cultura periférica, se conformaria a
tecnologia formal adaptada, um tipo de apropriação da tecnologia formal dos países
centrais à realidade local. Como os países periféricos têm características que os distinguem dos demais, nem sempre todos os procedimentos, materiais e normas utilizados nas culturas centrais são necessariamente incorporados, o que faz com que os improvisos sejam comuns nessa categoria de tecnologia. Exemplo da tecnologia formal adaptada é a utilização do concreto armado na construção civil brasileira, que, a partir da década de 1920, absorve não só o material difundido nos países centrais, mas também seus métodos e normas. No entanto, difere-se por utilizar mão de obra predominantemente desqualificada, uma adaptação do sistema construtivo a uma realidade com excedente de operários sem formação. Portanto, na realidade brasileira o conhecimento acerca da tecnologia do concreto se mostra desqualificador.
Bonsiepe (1983) também aborda o tema da tecnologia apropriada, ou o que ele prefere denominar tecnologia endógena, como uma solução às necessidades e realidades específicas de uma cultura, em que: “os problemas, contexto e recursos nos países periféricos são tão diferentes dos problemas, contextos e disponibilidade de recursos nos países centrais que requerem uma nova forma de tecnologia, preferencialmente criada, na própria periferia, com a indispensável participação dos usuários” (p.165-166). Porém, o autor considera os riscos na utilização de tecnologias adaptadas, e aponta que a idealização de um saber popular causaria propostas “tecnologicamente inferiores e obsoletas”. Sendo assim, de modo a desenvolver produtos mais condizentes com a realidade dos países periféricos, Bonsiepe (1983) propõe uma atuação conjunta entre usuários, que deveriam ser agentes ativos em todas as etapas de desenvolvimento do produto e entre projetistas, detentores de um conhecimento técnico. Mesmo que essa metodologia sirva como um contraponto à produção capitalista, e possa originar produtos mais próximos às necessidades dos
seus usuários finais, ela é restrita a pequenas escalas ou a iniciativas de autogestão, ou seja, seria impraticável no contexto de produção em massa de habitações, em que Estado e construtoras tomam todas as decisões sobre o produto, inclusive, sobre sua localização, já que a construção de edificações padronizadas é o modo mais produtivo e lucrativo.
Pelli (1889) entende que a apropriação de materiais construtivos e ferramentas remanescentes da produção formal, assim como a utilização do conhecimento empírico (sem qualificação), compõem a denominada tecnologia informal. O exemplo brasileiro mais típico da tecnologia informal é a habitação das favelas, ou o que aqui se caracteriza como autoprodução, parte da produção artesanal, que será mais bem detalhada adiante, no capítulo 3. Nesse quadro, há um grande número de favelas construídas hegemonicamente com o uso do concreto armado, sem que ao menos se cogite o emprego de outro material para composição da habitação14. Se de
um lado, a tecnologia informal se caracteriza na apropriação da ralé estrutural de tudo o que está disponível (terreno, ferramentas e materiais) para elaborar sua habitação e aí não se pode esperar uma produção crítica, de outro, a tecnologia formal adaptada possui uma característica perversa que se constitui na importação deliberadamente acrítica de princípios e produtos (normas, materiais e padrões de habitações) dos países centrais para os periféricos. No caso brasileiro isso se evidencia, por exemplo, nos certificados (selos) que buscam atestar a qualidade, eficiência e comprometimento ambiental das edificações “formais” frente a padrões internacionais e na utilização, muitas vezes incoerente, de sistemas como o Drywall.
Ainda que o esquema de Pelli (1889) consiga caracterizar a difusão do concreto armado no Brasil, ele é restrito e pouco profundo, pois a difusão da tecnologia é “uma rede de fatores e agentes de interação complexa, não determinada, embora tenha um motor de ordem econômica e política” (SANTOS, 2008, p.41). A tecnologia apropriada é muito mais do que uma simples transposição de tecnologias de uma realidade à outra, ela implica improvisações ou readaptações, o que é mencionado, porém não explicado pelo modelo de Pelli, que também não considera a tecnologia como fruto de
14 A hegemonia do concreto armado no contexto da autoprodução urbana é mais evidente no Sudeste
uma construção social, ou seja, não somente como uma imposição econômica dos países centrais.
Farah (1996) se mostra uma relevante referência ao tema, pois descreve com rigor e precisão o funcionamento da indústria da construção civil na década de 80, por meio de uma análise do processo de trabalho na construção de habitações. A autora foca nas mudanças sofridas tanto no âmbito tecnológico como organizacional, no decorrer do desenvolvimento da indústria da construção civil brasileira. Além do panorama geral da construção nessa época, ela vincula o trabalho aos aspectos mais abrangentes de transformação da sociedade brasileira e demonstra que trabalho e tecnologia são resultados dos processos sociais e políticos, que vão além do plano de produção de habitações.
Outras duas abordagens entendem a tecnologia como uma construção social; a primeira denominada construtivismo social15 trata os artefatos (que neste trabalho
podem ser entendidos como os próprios sistemas construtivos) e suas práticas, como construções de indivíduos e, principalmente, de grupos sociais, expondo que diferentes grupos possuem diferentes interesses e, que por isso, articulariam diversos recursos para a consolidação de um determinado artefato; A segunda abordagem entende a inovação tecnológica e sua estabilização como uma correlação entre fatores econômicos, sociais, políticos e científicos e não apenas como uma característica intrínseca ao artefato. Ambos os enfoques partem da teoria de Law (1989) que considera que a tecnologia não é fruto essencialmente de suas particularidades, mas sim de um conjunto de fatores que representariam interesses de determinados grupos.
A tecnologia quando entendida como um artefato social consegue justificar o fato de que “alternativas tecnicamente comparáveis possuem implicações distintas em termos da distribuição do poder” (NOVAES, 2010, p.77). Sempre que há uma disputa pelo emprego de uma determinada tecnologia, por mais que suas características sejam semelhantes, tende a ser implementada aquela que beneficia os interesses dos donos
dos meios de produção (capitalistas), em detrimento das alternativas propostas por operários, ou grupos que representam interesses de pessoas sem grande pressão econômica ou política.