A instalação de um centro de pesquisa já era planejada por Anísio Teixeira desde sua posse, como registra o primeiro número de Educação e Ciências Sociais.
A primeira semente do C.B.P.E. foi lançada no discurso pronunciado por Anísio Teixeira ao empossar-se como Diretor do I.N.E.P. em 1952, no qual, depois de fazer uma análise crítica da situação educacional brasileira, traçou em suas grandes linhas, o escopo dos estudos que deveriam ser feitos como ponto de partida para aquela reforma “que todos anseiam, mas temem”. (EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS SOCIAIS, 1956, p. 36)
Nesse mesmo ano o Diretor do Departamento de Educação da UNESCO, Dr. Wiliam Beatty, visitou o Brasil sondando a possibilidade de aqui instalar um centro latino-americano de preparação de educadores rurais e especialistas em educação de base. O projeto não foi realizado por não ter encontrado as condições necessárias. Em reunião com representantes do Ministério da Educação e do Ministério da Agricultura, Anísio Teixeira propôs que a viagem não ficasse reduzida à tal constatação negativa, apresentando a proposta de realizar “[...] um grande ‘survey’ sobre a situação educacional brasileira, feita por especialistas do Brasil e da UNESCO, do qual resultassem elementos sôbre os quais fôsse possível planejar em todos os níveis e graus do ensino, medidas de longo alcance visando à reconstrução educacional do país.” (EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS SOCIAIS, 1956, p. 37). Em agosto de 1953, Anísio confiou a Charles Wagley e Carl Withers a redação de um relatório a UNESCO, que já não mais propunha um survey, mas apresentava sugestões sobre a organização e as finalidades de uma instituição permanente de pesquisa. Esse relatório serviu de ponto de partida para as ideias apresentadas mais tarde por Oto Klineberg.
Em janeiro de 1954 veio ao Brasil o Dr. Willian Carter, chefe do UNESCO Exchange of Persons Programe, para acertar as medidas prática em vista da execução do projeto, agora em definitivo, de instalação de uma instituição permanente, a qual recebeu o nome provisório de Centro de Altos Estudos Educacionais. Nessa ocasião, em vista do recrutamento de quadros técnicos a serem enviados pela UNESCO, Anísio Teixeira formulou os objetivos e finalidade da instituição planejada, bem como os meios para realizá-los: pesquisar as condições culturais do Brasil, em suas diversas regiões; formular uma política institucional referente à educação para orientar o desenvolvimento de cada região; pesquisar as condições escolares do país; elaborar planos para a reconstrução educacional de cada região; elaborar livros de apoio aos profissionais da educação; treinar administradores e especialistas em educação.
A assinatura do convênio entre o MEC e a UNESCO, responsável pela assessoria técnica, trouxe ao Brasil o primeiro técnico, Bertram Hutchinson, seguido de Otto Klineberg, que chegou em 1955. Este sugeriu que se mudasse no nome da instituição para Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais e propôs seus objetivos e sua organização, enfatizando a relação entre a pesquisa em ciências sociais e as reformas pedagógicas.
O documento elaborado por Otto Klineberg ficou conhecido por propor, como objetivo do Centro, a realização de um mapa cultural e um mapa educacional brasileiros. O mapa cultural não deveria ser algo estático, mas sim um mapa que representasse o processo dinâmico da evolução social do Brasil. Seria composto pelo “conhecimento completo da cultura brasileira contemporânea, no seu sentido mais amplo, incluindo a vida de família e criação de filhos; atividades econômicas e sociais, o uso do tempo de lazer, atitudes psicológicas, objetivos e ideais, com a devida atenção à herança religiosa e ética do povo” (KLINEBERG, 1955, p. 119). O mapa educacional deveria apresentar um “[...] quadro completo e satisfatório do estado atual da educação brasileira, em todos os níveis e em todas as regiões.” (KLINEBERG, 1955, p. 120). Esses mapas deveriam ser comparados e superpostos para que fosse verificado até que ponto a prática educacional correspondia à realidade cultural e social. Dessa forma seria possível atingir o objetivo do CBPE, isto é, “[...] a renovação do sistema educacional brasileiro, baseada nos conhecimentos obtidos sôbre a cultura brasileira.” (KLINEBERG, 1955, p. 122).
O terceiro enviado da UNESCO foi Charles Wagley, que junto com Roberto Moreira, deram início à instalação do Centro e a reunir os primeiros pesquisadores13. Segundo Corrêa (1988), “Os documentos sobre o Centro se sucederam, as reuniões também, mas alguns estudos concretos começaram a ser feitos mesmo antes de sua criação formal. Pesquisas em andamento incluíam estudos sobre escolas, sobre o aspecto da educação nos estudos de comunidade existentes, e sobre imigrantes, relações étnicas, manifestações religiosas etc.” (CORRÊA, 1988, p. 19). Essas atividades de pesquisa do CBPE tiveram como característica específica a aproximação entre a educação e as ciências sociais, a qual pode ser percebida no título do periódico que o Centro publicou: Educação e Ciências Sociais.
Por iniciativa de Anísio Teixeira, reuniu-se no dia 18 de agosto de 1955, um grupo de cientistas sociais e educadores14 para: “1) discutir um primeiro esboço de plano de trabalho, preparado por J. Roberto Moreira e Wagley e 2) assentar idéias fundamentais sobre os objetivos e a organização do C.B.P.E. e dos Centros Regionais, especialmente de São Paulo.” (EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS SOCIAIS, 1955, p. 43). Foram discutidos o documento de Klineberg, o esboço de plano de trabalho elaborado por Moreira e Wagley, um memorando de Hutchinson sobre problemas de pesquisa, e Florestan Fernandes fez uma exposição crítica sobre tais estudos e sobre os objetivos propostos inicialmente por Anísio Teixeira. Assim afirmou Florestan:
A criação de um centro de pesquisas, que pusesse a serviço do Ministério da Educação a investigação científica, racionalmente aproveitada para fins práticos, era algo que se fazia prementemente necessário. Até hoje, o que nos tem faltado, exatamente, no terreno da orientação e da realização das reformas educacionais, é o apoio nos dados da pesquisa científica. Por isso acredito que a criação do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais marca uma data das mais importantes na história do ensino no Brasil; e que ele poderá prestar inestimáveis serviços ao nosso país, na medida em que corresponder efetivamente às necessidades que tornaram obrigatória a sua fundação. (EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS SOCIAIS, 1955, p. 45)
A criação oficial do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE), com sede no Rio de Janeiro, aconteceu através do Decreto-Lei nº 38.460, de 28 de dezembro de 1955.
13 Conforme registro do Boletim do CBPE, publicado no primeiro número da Revista EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS SOCIAIS (1955), os “primeiros cientistas” a colaborar no Centro eram Josildeth Gomes, Carlo Castaldi, José Bonifácio Rodrigues, Orlando F. de Melo, L. de Castro Faria e L. A. Costa Pinto.
14 Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, Almeida Júnior, J. Roberto Moreira, Charles Wagley, Mário de Brito, Jaime Abreu, L. de Castro Faria, Antônio Cândido de Melo e Souza, José Bonifácio Rodrigues, Lourival Gomes Machado, Bertram Hutchinson, Florestan Fernandes, Egon Schaden, L. A. Costa e Pinto e o representante da Assistência Técnica da ONU no Brasil, Henri Laurenti.
No mesmo documento foram criados os Centros Regionais de Pesquisa, em Recife, Salvador, Belo Horizonte, Porto Alegre e São Paulo. No início da década de 1960 foram realizados estudos para a criação de mais três centros, em Brasília, Belém e Fortaleza. Estruturado a semelhança do Centro de Documentação Pedagógico da França, o Centro Brasileiro e os Centros Regionais deveriam “[...] dotar o INEP de meios adequados à pesquisa educacional em toda a extensão do território brasileiro, para o melhor cumprimento de seus objetivos fundamentais de estudo e aperfeiçoamento do magistério brasileiro, primário e normal” (BRASIL, Decreto n. 38.460). Para cumprir tal meta, foram estabelecidos os seguintes objetivos:
I - pesquisa das condições culturais e escolares e das tendências de desenvolvimento de cada região e da sociedade brasileira como um todo, para o efeito de elaboração gradual de uma política educacional para o país; II - elaboração de planos, recomendações e sugestões para a revisão e a reconstrução educacional do país - em cada região - nos níveis primário, médio e superior e no setor de educação de adulto;
III - elaboração de livros de fontes e de textos, de material de ensino e estudos especiais, sobre administração escolar, construção de currículos, psicologia educacional, filosofia da educação, medidas escolares, preparo de mestres, etc., a fim de propiciar o aperfeiçoamento do magistério nacional; IV - treinamento e aperfeiçoamento de administradores escolares, orientadores educacionais, especialistas em educação professôres de escolas normais e professôres primários. (BRASIL, Decreto n. 38.460).
Destarte, os Centros Regionais proporcionaram uma ampliação estrutural das ações do INEP, pois os estudos regionais dos problemas educacionais possibilitaram a intervenção nas realidades regionais e até mesmo na política educacional nacional. Sobre a nova configuração que recebeu o INEP neste período, afirma Castro (1999): “A teia multifuncional do INEP se esboçava, pela sua importância estratégica, pela sua competência técnica e pelo valor dos recursos que aplicava.” (CASTRO, 1999, p. 7), no que chama de “mútua potencialização de atividades integradas”, pois o Instituto pesquisava, disseminava a pesquisa, capacitava professores utilizando os resultados das pesquisas e demonstrava as inovações em escolas específicas, ligadas aos Centros. Ainda sobre as estratégias do INEP no período de 1950-60, três merecem destaque segundo Leite Filho e Santos (2006):
a) A criação de uma rede de Centros Regionais de Pesquisa e de um Centro Nacional de Formação de Professores; b) A produção de materiais impressos, oriundos dos Centros Regionais de Pesquisa, e do CBPE; c) A criação de Escolas experimentais e o investimento maciço de recursos provenientes do MEC na construção de prédios escolares voltados para a
alocação de classes do ensino primário. (LEITE FILHO; SANTOS, 2006, p. 5.132)
Por meio do CBPE e dos Centros Regionais, Anísio Teixeira reafirmou quatro objetivos, em vista da melhoria quantitativa e qualitativa da educação brasileira: pesquisa das condições culturais escolares e das tendências de desenvolvimento de cada região e da nação; elaboração de planos e recomendações tendo em vista a reconstrução educacional do país; elaboração de livros e outros materiais de ensino e prática pedagógica; aperfeiçoamento do pessoal ligado a educação, desde administradores aos professores.
Para Gatti (2001), os Centros Regionais se tornaram “[...] focos produtores e irradiadores de pesquisas e de formação em métodos, técnicas de investigação científica em educação, inclusive os de natureza experimental.” (GATTI, 2001, p. 66), favorecendo certa institucionalização da pesquisa, com organização de banco de dados e o início da interação com as universidades, pois muitos pesquisadores também eram professores universitários.
Segundo Gouveia (1971), a partir da criação do Centro Brasileiro e dos Centros Regionais de Pesquisa, teve início o segundo período da pesquisa educacional no Brasil. As pesquisas do CBPE sobre educação e mobilidade social, sobre relações de raça, processo de socialização, estrutura social da escola, estratificação social, revelam que a ênfase da pesquisa fora deslocada para assuntos de natureza sociológica.
Nesse período, que se prolongou até 1964, produziram-se, sob a responsabilidade de sociólogos e antropólogos, monografias, surveys e tentativas de análise macroscópica em que o foco da atenção são as relações entre a escola, ou o sistema escolar e certos aspectos da sociedade local, regional ou nacional. (GOUVEIA, 1971, p. 2-3)
Na análise de Saavedra (1988), sob a direção de Anísio Teixeira, o Instituto identificou-se com seu diretor, o qual
[...] fazia de suas próprias idéias o pequeno pavês do órgão em seu avanço para uma certa independência das amarras do pensamento oficial, mostrando que, de certa maneira, o Instituto se assumia com uma maturidade de instituição cuja finalidade era contribuir efetivamente com as causas sociais da educação. (SAAVEDRA, 1988, p.120)
A etapa da pesquisa sociológica na educação fora inaugurada no INEP com Anísio
Teixeira, pois ele acreditava que não era possível fazer educação sem pesquisar em profundidade as necessidades do país e do mercado de trabalho. Apesar desse olhar
sociológico, não houve um trabalho conjunto entre o INEP e as experiências de educação popular que estavam ocorrendo na época. E se isso não ocorreu no período de democratização, tornar-se-ia muito mais difícil no período de ditadura militar que viria em seguida.