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5. PRESENTATION OF CASE STUDIES

6.3 T RANSNATIONAL A CTIVIST P RESSURE

Em 1789, a colônia de Santo Domingo nas Antilhas francesas representava dois terços do comércio da França com o exterior e era a saída comercial mais importante para o tráfico europeu de escravos. Era parte integrante da vida econômica da época: a melhor colônia do mundo, o orgulho da França e a inveja de todas as demais nações imperialistas. Toda sua estrutura repousava sobre o trabalho de meio milhão de escravos.

Em agosto de 1791, dois anos depois da Revolução Francesa e de que os ecos da revolução se fizessem sentir em Santo Domingo, os escravos se rebelaram. Seu combate durou 12 anos. Os escravos derrotaram paulatinamente os brancos da ilha e aos soldados da monarquia francesa, resistiram a uma invasão espanhola, a uma expedição britânica composta por 60 mil homens e a uma expedição francesa de tamanho similar comandada pelo cunhado de Napoleão Bonaparte. A derrota do exército de Bonaparte em 1803 desembocou na criação do Estado negro do Haiti, que perdura na atualidade.

É a única revolta escrava da história que se encerrou com sucesso, e os obstáculos que teve de superar demonstram a magnitude dos interesses que estavam em jogo. A transformação dos escravos, turbas amedrontadas pela presença de um simples homem branco, em seres capazes de organizar-se e de derrotar as nações europeias mais poderosas da época compõem um dos grandes momentos épicos da luta e das conquistas revolucionárias. (JAMES, 2004, 17).

Muitos anos antes de realizar suas viagens à ilha de Toussaint Louverture – o

Espártaco haitiano –, Zapata Olivella já moldava em sua imaginação a apaixonante e

exemplar história da pequena ilha do Caribe. Havia lido com entusiasmo e fervor, Los

Tobago que se atreveu a relatar – entre o rigor histórico e os recursos do romance –, a vida de Toussaint, o herdeiro negro do Século das Luzes, líder da revolução dos escravos na colônia francesa de Saint-Domingue, hoje Haiti, a colônia mais rica do hemisfério ocidental; destacando, como nunca antes se havia feito, a significação deste acontecimento

ímpar da história das Américas. E com certeza tinha lido El reino de este mundo, o romance

de Alejo Carpentier. Resgatar a valorosa epopeia dos haitianos combinava com o ambiente de efervescência intelectual revolucionária que florescia ao final dos anos 1940 na Colômbia; foram os anos da militância comunista de Zapata, leitor atrevido e irrequieto, quando seu compromisso pelos pobres despertou nele a consciência sobre os negros, os

índios, os mulatos e os mestiços – 90 % da população colombiana – na conformação da

nação.

C.L.R. James contagiou o jovem Zapata com o apaixonante relato dos valentes e atrevidos escravizados haitianos que alcançaram sua própria liberdade, fixando o foco de atenção neles mesmos e em sua história; registrava-os como agentes de sua própria história, uma premissa justa e surpreendentemente original para a época, e de grande utilidade para o jovem Zapata em seu afã de compreender a presença africana na Colômbia. O Haiti constitui o ponto de partida para recriar o mundo dos escravizados. Desentranhar a humanidade destes seres se tornaria um grande desafio para várias gerações de escritores e historiadores do século XX no Caribe e na América Latina. Como foi o caso, para citar

alguns exemplos, do livro Cahier d'un retour au pays natal, do martiniquense Aimé

Césaire (1939); do livro do coetâneo de James, Eric William, Capitalism and Slavery

(1944); do livro fundacional do realismo maravilhoso, El reino de este mundo (1949), do

cubano Alejo Carpentier; do livro que rediscute a visão quilombola, Rebeliões na senzala

(1950), do brasileiro Clóvis Moura; textos escritos na rota aberta pelo autor de Los

jacobinos negros. O clima e a história intelectual dessa grande mudança de paradigma se caracterizou pela riqueza de olhares, a diversidade de propostas estéticas e políticas e a complexidade dos mundos tratados; em seu advento, é claro, se entrecruzaram correntes intelectuais vindas de muitos ambientes. Aqui apenas assinalo a mudança para destacar o contexto particular que vislumbra a genealogia da atenção de Zapata pelo Haiti e por sua revolução.

As experiências vividas no Haiti nos anos 1960 permitiram a Zapata conhecer

diretamente o poder do vodu,106 participar de seus ritos e apreciar sua importância como

religião na vida do povo haitiano; acumulou importante bibliografia para a escrita do

capítulo que dedicaria anos depois à revolução haitiana em Changó, el gran putas;

vivenciou como o vodu se dirigia às forças da natureza e aos ancestrais divinizados, formando vastos sistemas que unem aos mortos e aos vivos num todo familiar, contínuo e solidário; familiarizou-se com sua cosmovisão complexa, com sua maneira de ordenar e entender o mundo, e, além disso, entendeu como o vodu mantinha vivo o vínculo com as origens africanas. A memória da epopeia revolucionária estava viva na tradição popular, suas vivências entre as pessoas lhe confirmaram o papel do vodu como força político- mítica para a resistência diante da opressão escravista; ritos e cerimônias que haviam servido para camuflar as conspirações e direcionar as rebeliões; conhecimento definitivo para a consciência de Zapata na futura elaboração de seu relato, no qual mostraria, muitos anos depois, ao soarem os couros dos tambores (personagens anáforas), os cultos nas matas

de sociedades secretas com fins políticos; os sacerdotes (houngan) oficiavam como

dirigentes na organização dos levantes, como fizeram os escravizados Mackandal e Bouckman. Zapata e sua irmã Delia haviam dedicado anos a percorrer o Caribe e o Pacífico para resgatar o folclore de negros e índios, e, de maneira especial, a religiosidade. Enquanto participava de cerimônias religiosas no Haiti, comprovou o papel central dos tambores na evocação dos ancestrais, na vida comunitária e nas formas de organização política; ao ritmo dos tambores do vodu se organizaram as sublevações negras; entendeu, em suma, as razões pelas quais o vodu foi tão perseguido e satanizado pelos amos brancos, a administração colonial e a Igreja Católica demonizaram o tambor e as danças rituais, apesar dos sobrepostos sincretismos com o cristianismo dessa religião vinda do Daomé.

No caso do créole haitiano, a língua crioula provém das misturas do francês com as

diferentes línguas africanas, outro dos interesses de Zapata como pesquisador. Ele obteve valiosas informações e estudos sobre sua configuração como o meio por excelência das

relações conflituosas entre escravos e amos, sobretudo do détour, do desvio,107 que permitiu

ao africano transplantado confiscar a língua imposta e apropriá-la às exigências de trabalho,

suas crenças e seus interesses na resistência, o marronage, o cimarronaje, com todas as

106 Mantemos aqui a grafia usada por Zapata, vodu, entre outras como vodoun e vudu. 107Ver ensaio “El desplazamiento y el rodeo” em (GLISSANT, 2005).

suas implicações materiais e culturais. As palavras sacramentais pronunciadas por

Bouckman, no dia da rebelião, simbolizam em toda sua dimensão o lugar do créole na

nação haitiana, como se analisa em Ainsi parla l´Oncle (PRICE-MARS, 1928, pp. 53-54).

Estes antecedentes explicam as razões pelas quais Zapata assumiu o vodu como

ritual e cosmovisão ordenadora de sua recriação ficcional. Os grandes líderes – François

Mackandal, o jamaicano Dutty Bouckman, Toussaint Louverture, Jean Jacques Dessalines

e Henri Christophe – se comunicam entre si por intermédio dos deuses e dos espíritos dos

ancestrais. Configurando-se assim outro horizonte de interpretação dos eventos históricos, mais amplo, sob a óptica da comunicação dos espíritos com o passado, verdadeiras viagens

à procura dos sentidos mais profundos da história por meio da “possessão” de deuses e

ancestrais. Os personagens históricos da revolução, vivos ainda na mitologia popular haitiana, avivaram a imaginação de Zapata e lhe entregaram as chaves para armar a trama de La revolución de los vodús; chaves sustentadas nessa cosmogonia de origem africana, sem as quais seria impossível a compreensão do universo narrado. Comprovação que foi minha experiência de leitura, depois de vários anos, somente agora, auscultando a partir do vodu, de tanto relê-lo e estudá-lo, consigo atingir a compreensão de múltiplos detalhes significativos na urdidura do relato.

A trama argumental é sustentada por uma rigorosa pesquisa documental, respeitando datas, nomes de personagens, lugares e processos históricos; trama narrada através de uma sucessão de fragmentos que modelam o heterogêneo universo mítico no qual aparecem imersos os acontecimentos históricos da revolução haitiana. Essa característica determina a própria composição do argumento, a estruturação e acionamento dos personagens, a montagem das três partes que compõem o capítulo, as vozes narrativas empregadas, a perspectiva, e, sobretudo, a seleção da referência histórica e textual, dos quais se vale Zapata para narrar essa sucessão de eventos significativos que sintetizam a revolução haitiana.

“La revolução de los vodús” divide–se em três partes, cada uma composta de

fragmentos – I. (16), II. (10) e III. (12) – narrados por diversas vozes intercaladas que

incorporam ao relato o desenvolvimento desigual e combinado das temporalidades da revolução haitiana; uma lógica narrativa, que por um lado atenta frontalmente, como

veremos, contra a linearidade tanto da trama como da “história” que esta supostamente “representa”; por outro, o relato conjuga intimamente vinculadas, tão ferreamente quanto

possível, a função narrativa e a experiência do tempo, como considera Paul Ricoeur (RICOEUR, 1999, 191). Vejamos:

I. “Falam os cavalos e seus cavaleiros” alude à relação essencial no vodu dos deuses (Loas) e os seres humanos. Os loas são forças que o homem põe dentro de si durante a possessão; seu ser cresce, cresce a força que ele mesmo é.108 Os homens são os

cavalos por meio dos quais falam os deuses, os cavaleiros, no ato de possessão, um ritual adotado aqui como princípio de interpretação na elaboração poética da narrativa.

II. “Los tambores de Bouckman” refere-se a cerimônia vodu de Bois Caiman, em Morne-Rouge, o ritual coletivo com o qual se iniciou a rebelião dos escravos. O líder jamaicano presidiu essa cerimônia denominada para a posteridade como “O Pacto Maior” por historiadores e romancistas da revolução haitiana; pacto de sangue selado pelos 200 líderes presentes à cerimônia, simbolizando a morte de suas lealdades anteriores e o nascimento de outras totalmente novas. A oração pronunciada por Bouckman originou ao credo inspirador da revolução.109

III. “Liberdade ou Morte!” Cita o lema do texto que conclamou a defensa da revolução contra a invasão do exército francês enviado por Napoleão em 1802, comandado pelo general Leclerc. Firmada por Jean Jacques Dessalines e pelos principais generais e chefes do exército haitiano, sob o juramento de renunciar permanentemente à França, de morrer antes que viver sob sua dominação, e de combater até o último suspiro pela independência.

Os títulos de cada parte condensam diferentes momentos históricos da revolução, todos entrelaçados pelas vozes de Toussaint Louverture e o papaloa Petro, em quem se sustentam os fios centrais da narrativa, junto com as outras vozes secundárias que a completam ao longo de 38 fragmentos. Vale a pena nos determos na configuração narrativa, na maneira como se estruturam os fragmentos. O quadro a seguir permite apreciar os narradores e a maneira como se intercalam nas três partes.

108Ver “Vudu, la encarnación de los dioses”, um texto de referência essencial para a compreensão de Zapata

(JAHN, 1970).

Narradores Part. I Falam os cavalos e seus cavaleiros Part. II O tambor de Bouckman Part. III “Liberdade ou Morte!” Fragmentos n.º Toussaint Louverture 1, 7 4, 10 6, 8 Papaloa Petro 2, 5, 6, 13, 15 2, 5, 6, 9 1, 2, 5, 9, 11 Marie Jeanne 3, 12 4, 7, 10 Ngafúa 4, 11 1 Mackandal 8 Christophe 9 8 3, 12 Terceira Pessoa 10 Papa Damballa Cavaleiro de Mackandal 14 Mashoma Cavaleiro de Christophe 16 Escravo 3 Ecóbio 7

Para facilitar a análise detalhamos como se organizam os 38 fragmentos de acordo com cada narrador, colocados na ordem de aparecimento para observar a sequência ao longo de todo o relato.

Toussaint Louverture

Narra da prisão de Fort Joux, na França.

(I, 1). Às vezes como prisioneiro ou como espírito vindo da morte. Conta a visita do espírito de Napoleão Bonaparte à estreita cela onde está confinado. O diálogo sustentado entre eles apresenta o contexto da história da revolução haitiana e do império colonial francês. Ambos confessam seus erros.

(I, 7). Lamenta seu exílio e compreende o de Xangô quando foi expulso da Oyó imperial. Lembra de Mackandal e de Bouckman e a travessia no navio que o trouxe prisioneiro da sua ilha até a França. (II, 4). Reflete sobre a traição dos franceses e os ensinamentos de Ogum Ngafúa, do tempo limitado para aprender a enfrentar os ataques

e as intrigas dos impérios europeus coligados contra o Haiti. “E,

sobretudo, governar com erros a primeira república fundada por

escravos livres” (ZAPATA, 2010, 197). Sua reflexão busca assinalar as tergiversações sobre a revolução haitiana dos “escribas da Loba

Branca” e o manto de esquecimento sobre suas verdadeiras façanhas. (II, 10). Acende os cem olhos de Ogum Ngafúa e descobre a frota de Napoleão pronta para invadir o Haiti. Faz um chamado a Christophe, Dessalines e a Jacques François: A revolução está em perigo! Narra a chegada da frota francesa sob o comando do geral Leclerc, cunhado de Napoleão, que lhe aconselha a estratégia que não os salvará da derrota pelo Muntu, aliança de vivos e mortos. Menciona o papel dos líderes mulatos, Rigaud e Pétion, que vêm na frota francesa para orientar a ocupação.

(III, 6). Volta à sua infância em Breda e ao dia da despedida, cativo dos franceses. Lembra o grito de seu Bom Anjo Maior alertando-o para não cair na armadilha. Toussaint nesta confissão é acusador e acusado em seu próprio espírito. A partir do jantar nefasto oferecido por Leclerc, Toussaint pressentia a interminável batalha contra seus

próprios remorsos. Faz uma profunda reflexão: “Parece que existe um

instante em que Orunmilá, esquecido das Tábuas de Ifá, permite que o Muntu mude seu destino. [...] Orunmilá ainda oferece a opção de me

rebelar.” (ZAPATA, 2010:296).

(III, 8). É visitado pelos defuntos e conversa com o espírito de um de seus generais, Brunet, sobre as propriedades que os rebeldes tomaram dos amos e a brutal arremetida das tropas sob o comando de Leclerc para restaurar a escravidão. a seguir, conta sua própria morte e os

lhe cantam. Persiste em seu espírito a crença de que ao pactuar com o inimigo conquistaria a liberdade, uma dúvida que o atormentará ao longo do relato. Continua convencido, como expressa ao general

francês, Savary, de que “me destruindo, somente derrubaram em

Santo Domingo o tronco da árvore da liberdade, mas suas raízes

profundas e numerosas logo renascerão”. (ZAPATA, 2010:301).

Papaloa Petro.

(I, 2) Narra do mundo dos mortos por intermédio do cavalo (corpo) de um dos líderes da rebelião, o jamaicano Dutty Bouckman. Encerra

com a premonição de Bouckman, uma mise en abyme, dos desenlaces

trágicos da revolução haitiana.

(I, 5) Conta a Toussaint a história de Xangô, Orunmilá e as Tábuas de Ifá. Dessa maneira se apresenta o papel dos deuses africanos.

(I, 6) Conta por intermédio de seu cavalo, Bouckman, a história de Mackandal. Faz um reconhecimento aos índios aborígenes e menciona a metáfora dos três lenços por meio da qual o líder explicava os desígnios da sublevação de negros e índios contra os amos brancos. (I, 13) Em sua qualidade de Bom Anjo Maior de Bouckman, conta como este chegou à fazenda de Mr. Turpin e o sentimento de ser um prisioneiro e não um escravo. E, a seguir, apresenta um relato do próprio Bouckman em forma de poema sobre a história do Haiti e dos africanos. Dois elementos essenciais de toda a cosmovisão do livro

são mencionados, o Muntu e Xangô. “Muntu / que procura teu lar

perdido / em terras estranhas / [...] “Ninguém anda só /nenhum

extraviado / na noite da escravidão. / Rompidas as correntes, livre /

cada vida /cada morte / nos aproximam de Xangô.” (ZAPATA,

2010:187-188).

(I, 15) O papaloa Petro narra o famoso julgamento do sanguinário senhor de escravos, Le Jeunne. Por meio de Bouckman, seu cavalo, explica os pormenores dos crimes de Monsieur Le Jeunne: o envenenamento de sua mulher, uma rica mulata, para ficar com sua

plantação. Depois o que sucede no julgamento contra Le Jeunne e o veredito de absolvição que gera o protesto dos mulatos.

(II, 2) Narra a cerimônia vodu de Bois-Caimán, um lugar nas densas

matas de Morne-Rouge. Este ritual selou o chamado “Pacto Maior”

que deu início à rebelião na noite de 22 de agosto de 1791. É impossível distinguir os vivos dos mortos, pois aqui todos são vodus (espíritos) entre os quais estão Toussaint, Cristophe, Dessalines, Jean François, sob o comando do líder oficiante Bouckman, que profere a famosa evocação em créole convocando para a rebelião. Toussaint é ungido, como Orunmilá tinha predestinado nas Tábuas de Ifá, como o mensageiro de Elegbá, Louverture, abridor das portas da liberdade. (II, 5) Narra os preparativos da rebelião e o papel de Toussaint, Dessalines e Christopher na organização da luta e os incêndios como a principal arma dos sublevados.

(II, 6). Continua referindo-se às lutas nos dias que seguiram à cerimônia de Bois-Caimán, centrado no acionamento de Bouckman. (II, 9) Narra seu papel na cerimônia em Bois-Caimán. Abre o caminho dos Orixás, desenha os vevês sagrados, a cruz de Elegbá, os símbolos

que abrirão as trilhas da rebelião. “Bouckman enche a noite com o

grito de seu tambor: Venham todos, mortos e vivos, lutar ao lado de nossos Orixás contra a escravidão! (ZAPATA, 2010:204).

(III, 1) Narra às crianças a história da revolução. Sintetiza todas as peripécias dos vivos e dos mortos, com o apoio dos deuses, para cortar as garras da Loba Branca.

(III, 2) Narra as ações de Toussaint no comando dos sublevados. Os

deuses e os ancestrais participam das batalhas. “As tropas imperiais

nunca enfrentaram soldados defuntos, que saem de suas tumbas

armados com os fuzis de seus assassinos” (ZAPATA,2010, 209). O

próprio Xangô convoca para a guerra com o grito: Liberdade ou morte!

(III, 5) Narra às crianças os momentos difíceis da resistência. Pede auxílio aos Loas. O defunto Bouckman tira as nozes sagradas e as joga para ler que os franceses serão derrotados por seus próprios erros. E expressa o mandato dos Orixás para recorrer aos incêndios como o grande verdugo contra a Loba Branca. Relata a tomada de uma mansão incendiada sob o comando de Christophe. Depois penetra nos quartos incendiados do hotel da Coroa até encontrar o grande espelho onde se viu pela primeira vez com a casaca vermelha de estafeta. Nesse instante reconhece a si mesmo coroado como rei. Os haitianos

aplicam a lei do Talião: “Por cada prisioneiro negro que assassinem, meu tenente Dessalines levantará o cadafalso de cem brancos”

(ZAPATA, 2010, 295).

(III, 9) Narra a morte de Leclerc, anunciada pelos búzios e flautas dos Xemes e defuntos índios assassinados pela Loba Branca. Dançam em torno do moribundo, que em seu derradeiro delírio exclama:

“Napoleão, meu querido cunhado, é inútil vencer estes negros

brandindo contra eles ideias contrárias à liberdade.” (ZAPATA, 2010,

301). A essa dança da morte assiste o espírito de Caonabó, o indígena levado por Colombo diante dos reis da Espanha, junto com sua mulher Anacaona, índia de raça cativa, corajoso combatente contra os invasores espanhóis. Mackandal relembra os tempos em que os índios e negros quilombolas pactuaram a luta até a morte contra os brancos escravistas. Leclerc pede que sua esposa Josefina lhe tire a falsa coroa com a qual seu irmão pretendeu fazê-lo imperador de Santo Domingo. (III, 11) Narra a traição dos mulatos a Dessalines. O Barão de Samedi recebe o Imperador ainda moribundo, traído por um negro liberto, o soldado Garat, instigado pelos conspiradores, que o acusam de querer igualar negros e mulatos e que os bens arrebatados dos brancos lhes pertençam por igual.

Marie Jeanne

(I, 3). Seu relato dá conta do mundo dos escravos e dos amos. Essa mulata é noiva do líder assassinado da rebelião dos mulatos, Vincent

Ogé. As elites brancas a rejeitam num episódio infame na catedral, fato que a empurra a unir-se à rebelião dos escravizados.

(I, 12) Narra a busca do cadáver de Vincent Ogé e a história de sua rebelião e morte. O espírito de Ogé toma consciência de que os mulatos jamais triunfarão contra os brancos sem o apoio dos escravos. (III, 4) Narra os episódios da invasão dos soldados franceses comandados por Leclerc e a resistência do exército de Christophe. Menciona o traidor Pétion guiando às tropas inimigas. Conta o episódio brutal de Fort-Liberté no qual o general Rochambeau massacrou a sangue frio a guarnição e como arrojou os moribundos amarrados pelos pulsos. Diante dessa investida, as tropas de Christophe se retiram para as montanhas.

(III, 7) Narra a resistência no quartel de Crête-à-Pierrot diante do sítio de Leclerc. O Barão de Samedi semeia suas cruzes entre os mortos. Contra a vontade de Dessalines, um católico ardoroso, que proibiu