5. PRESENTATION OF CASE STUDIES
6.13 M ANAGEMENTS ’ E NVIRONMENTAL A WARENESS
Como mostrado na dissertação de Mestrado Retratos literários: o discurso científico na obra de Jules Verne,38 os retratos dos personagens que compõem as Viagens extraordinárias apresentam interdiscursividade com a ciência e a história e são carregados de sentidos. Para chegarmos a essa conclusão, analisamos as passagens descritivas concernentes aos personagens de Cinq semaines en ballon (1863), Les enfants du capitaine Grant (1867-1868) e Le Chancellor (1875),com base na teoria do descritivo de Philippe Hamon.
Em geral, por se tratar de romances de aventura, Verne recorre à intriga, à expectativa típica do narrativo, e preenche seus romances de imagens pitorescas, de
36 MAINGUENEAU, 2005, p. 72. 37 MAINGUENEAU, 2006, p. 271.
38 Cf. SANTOS, Edmar Guirra dos. Retratos literários: o discurso científico na obra de Jules Verne. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras – UFRJ, 2010a. Dissertação de Mestrado.
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passagens que podem ser recriadas visualmente pelo leitor ao elaborar mentalmente a imagemsugerida pela descrição. Assim, é evidente a importância que o descritivo assumirá no conjunto da obra. Não são raras as referências picturais nessas passagens na sua obra romanesca. Elas aparecem ao longo das tramas, seja através de citações diretas, ou através de passagens de dominante descritiva. Como na Dissertação de Mestrado, pretendemos, nesta Tese, estudar o descritivo dessas passagens, porém, desta vez, a fim de identificar as referências picturais que compõem o projeto estético do autor e definir marcas de seu posicionamento na luta pela autonomia do campo artístico.
Eventualmente evocaremos o aparato conceitual da teoria do descritivo com base nos estudos de Philippe Hamon (1981 e 1993) e Adam & Petitjean (1989), mas manteremos o foco nos índices picturais no texto. Para tanto, basearemos a pesquisa nos trabalhos de Liliane Louvel (1997; 2002; 2013).
Muitas das construções em Jules Verne, mescladas ao enredo pelo mecanismo da descrição, estão diretamente relacionadas às artes visuais e à pintura. Elas constituem menções que o leitor experimentado deve deter e ativar, para obter bom desempenho no ato de fruição da obra. Assim, as teorias do descritivo de Philippe Hamon encontram eco nos trabalhos de Liliane Louvel e sua proposta de identificação e análise da picturalidade de uma descrição.
A relação entre os sistemas semióticos adquire configurações diversas nos trechos em que aparece, uma vez que o emprego da referência pictural no texto literário se dá a partir de diferentes mecanismos. Em um texto, a representação do pictural pode ocorrer tanto por meio de uma forma mais subjetiva e rarefeita, como o “efeito-quadro”, quanto a partir de um adensamento da referência pictórica, com o emprego da descrição pictural e, enfim, da ekphrasis, representação com maior grau de picturalidade, categorias de que trataremos a seguir. Para inquirir essa aproximação entre visual e verbal, em que o texto literário se imbui de pictórico, a metodologia de análise sugerida por Liliane Louvel, que propõe uma reflexão em torno da presença do pictural no escritural, torna-se bastante pertinente.
Pesquisadora das relações entre pintura e literatura, Liliane Louvel averigua os diferentes níveis de saturação pictural das obras literárias.39 Fundamentando sua proposta e identificando as nuances ou variações do grau de picturalidade do texto, a autora
39Cf. LOUVEL, Liliane. A descrição “pictural”: por uma poética do iconotexto. In: ARBEX, Márcia (Org.). Poéticas do visível: ensaios sobre a escrita e a imagem. Belo Horizonte: Programa de Pós-graduação em Letras/Estudos Literários, Faculdade de Letras da UFMG, 2006 (1997), p. 191-220.
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estabelece a existência de diversos marcadores picturais, que podem ser diretos ou indiretos, explícitos ou implícitos. Grosso modo, esses marcadores podem ser definidos como tudo que abre o texto à imagem pictural. Muitos já sendo reconhecidos nas propostas de Hamon, Louvel destaca as evidências que marcam a picturalidade de uma passagem: 1) o enquadramento que limita o espaço (início e fim da passagem) reservado ao “quadro”; 2) a presença de personagem pintor ou esteta que evidenciam a qualidade pictural do texto e exercem efeito de real; 3) o uso de dêiticos que designam o lugar e o tempo da imagem, mas também recupera o focalizador e/ou enunciador; 4) a presença de mise-en-abyme ou “a narrativa dentro da narrativa”; 5) a presença de personagem em posição de voyeur; 6) a modalização que marca o ponto de vista daquele que vê e informa o leitor; 7) os tempos e aspectos verbais com suas propriedades de suspensão da ação e dilatação que evidenciam o quadro; 8) o uso de léxico especializado como menção a técnicas da pintura, destaque de cores, formas, luz, claro-escuro, perspectivas etc.; 9) a presença de temas dos quais a pintura se serve como aqueles ligados à religiosidade, à mitologia ou à história; 10) a presença de objetos de arte como pinceis, telas, cavaletes etc., ou objetos caros à pintura como quadros, miniaturas, esculturas, joias, móveis, livros etc.; 11) as referências metapicturais como a menção a gêneros e escolas de pintura.
Em seu livro Texte Image, de 2002,40 Louvel aborda as eventuais marcas que
indicariam o grau de saturação pictural de um texto. Ela salienta que, em função de sua dimensão pictural, concretizada ou não a partir de marcadores de picturalidade, podemos encontrar efeitos que indicariam diferenças no grau de picturalidade.41 Assim, Louvel
classifica os textos em função da quantidade e dos tipos de marcadores observados, assim como em função dos efeitos que são produzidos. Louvel destaca os possíveis graus de saturação pictural: 1) efeito-quadro: aparecimento na narrativa de imagens-pintura produzindo um efeito de sugestão. Sem referências diretas à pintura, esta seria a forma mais diluída de inscrição pictural no texto (ex.: um barco que aporta sugeriria uma marinha); 2) vista pitoresca: em diálogo mais próximo com as fontes da pintura, a vista pitoresca era de fato um gênero pictórico.42 Implicando a presença e identificação de um nome que evoca um lugar particular, a vista pitoresca, reconstruída pela memória, faz surgir no pensamento do leitor cenas de lugares que sugerem paralelos com quadros; 3)
40 LOUVEL, Liliane. Texte Image; images à lire, textes à voir. Rennes: Presses Universitaires de Rennes, 2002.
41 Cf. LOUVEL, 2002, p. 33-43. 42 Cf. LOUVEL, 2002, p. 35.
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hipotipose: citando Fontanier, Louvel explicita que, essafigura de retórica que designa a ação de descrever uma cena ou circunstância, utiliza cores intensas, afim de fazer com que o leitor tenha a sensação de que as percebe pessoalmente. Sendo um modo híbrido entre descrição e narração ou descrição narrativizada,43 Louvel salienta que este grau está ligado à pintura de história, mas se faz presente sem referências diretas à pintura; 4) quadros-vivos: grau que se aproxima da cena teatral na qual personagens se encontram em posição que sugere a ação de falar e, portanto, reproduzem uma cena pictural específica. Menos sujeito à subjetividade do leitor, os quadros-vivos são criados pela vontade do narrador; 5) organização estética: inscrito o olhar do personagem ou do narrador, a organização estética pressupõe uma intenção consciente de que se produza um efeito artístico. Concentrando-se em um quadro, o narrador funciona como operador de visão.44 Esse grau permitiria realizar, por exemplo, uma cena de banquete em natureza morta; 6) descrição pictural: neste grau, os marcadores de picturalidade repertoriados por Louvel devem necessariamente estar presentes para que o pictural fique evidente; 7) ekphrasis: mais alto grau na escala de saturação, a ekphrasis é a descrição de uma obra de arte, ou de um objeto estetizado que valha como tal.45
Além das peças La Guimard e Monna Lisa, com suas referências metapicturais, da crítica ao Salão de 1857, que surge da observação de obras de arte, Jules Verne, na maioria de seus romances, se vale do tema da viagem para erguer suas tramas, nas quais o visual é muito importante. O subtítulo dado ao conjunto da obra – “Viagens extraordinárias aos mundos conhecidos e desconhecidos” – sugere não só a importância que o descritivo assumirá no texto, mas a dimensão pitoresca da obra romanesca de Verne, na medida em que busca apresentar aos leitores personagens e espaços exóticos, desconhecidos, pouco explorados ou inexplorados à época. No intuito de trazer o quadro para o texto, ou de fazer do texto um quadro, verificamos em que medida Verne parece lançar mão da sua única experiência como crítico de arte na composição de descrições picturais na sua obra romanesca, além de inquirir sobre a função das mesmas. Verificamos igualmente de que maneira estas descrições estão vinculadas ao projeto estético do autor e ao seu posicionamento no campo literário.
43Cf. LOUVEL, 2002, p. 37. 44 Cf. LOUVEL, 2002, p. 40.
45 Em artigo mais recente, Liliane Louvel revisita seus conceitos, revisa e resume as definições de Ekphrasis. “Disputes intermédiales: le cas de l’Ekphrasis. Controverses.” Textimage – Nouvelles
approches de l’Ekphrasis. Le conférencier. Revue online: mai/2013. Disponível em:
http://www.revue-textimage.com/conferencier/02_ekphrasis/louvel1.html#_ftnref2> Consultado em 17/08/2015
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3- JULES VERNE E O CAMPO LITERÁRIO
Qualquer que seja a pesquisa empreendida sobre a obra de Jules Verne, não se pode deixar de reservar interesse ao seu encontro com o editor Pierre-Jules Hetzel. As biografias do escritor inscrevem esse momento da sua trajetória no campo literário, em 1862, como o acontecimento inaugural que conduzirá a carreira de Verne para horizontes de notoriedade e para a posteridade, engajando o escritor na arte da ficção pelas vias do “romance científico”, programada através do lançamento das Viagens extraordinárias.
Atribuir um espaço a esse encontro em um trabalho de pesquisa que leva em conta a trajetória de Verne no campo literário é, portanto, legítimo. Definitivamente, Pierre- Jules Hetzel, editor capaz de verificar o valor literário de Verne, caucionado por um público ávido pela ciência, será promotor de uma renovação da visão editorial sobre a literatura para crianças e jovens e integrará Verne à equipe fundadora do Magasin d’Éducation et de Récréation, em 1864. Em suma, é engajando-se na editora Hetzel que Jules Verne dispõe de um potencial de publicação que lhe permitirá adquirir status de “escritor”, garantido pelos sucessivos contratos assinados entre os anos de 1862 a 1871. No entanto, como apresentado sumariamente na Introdução desta Tese, antes de 1862, data do primeiro contrato de Verne, o escritor já havia realizado diversas tentativas de entrada no universo da literatura escrevendo poemas, textos dramáticos, novelas para o periódico Musée des familles e um artigo crítico sobre o Salão de 1857. Neste capítulo, apreciaremos criticamente, portanto, os possíveis estéticos para Jules Verne até o momento que caracterizamos como o de sua “hetzelização”, incluindo este último na análise. Levaremos em consideração as indeterminações do campo literário no Segundo Império e na Terceira República, relacionando-as à(s) escolha(s) genérica(s) do escritor.