5. PRESENTATION OF CASE STUDIES
5.3 I NTRODUCTION OF S TAKEHOLDERS
A loba branca diminuída ante nossos olhos; suas correntes não separarão nossos corpos da sombra mãe. Vivos estamos, sopro de sombras, sempre enriquecidos jamais rebaixados! (ZAPATA, 2010:120)
Durante a viagem de Nagô a bordo do Nueva India em 1540 – da África até as
Américas, do porto de Nembe até Cartagena das Índias –vinha sendo urdido um motim a
bordo, a rebelião dos escravos neste navio cargueiro, o navio negreiro. No fortuito
transcurso da Middlepassage,101 os navios negreiros levavam seus porões abarrotados de
africanos aprisionados, atônitos e desesperados diante do destino incerto, sempre alertas ao menor descuido da tripulação para amotinarem-se. Não era para menos diante dessa situação limite de degradação humana: não havia nada a perder, não se temia a morte e até o suicídio se converteu em ato libertário.
O padre jesuíta Alonso de Sandoval havia dedicado sua vida, junto com seu companheiro de sacerdócio, Pedro Claver, a socorrer os escravizados trazidos a Cartagena
nos tempos da Inquisição, no começo do século XVII – a curá-los e batizá-los para salvar
suas almas –,em seu Tractatus de instauranda aethiopum salute (1627) descreve as
condições da viagem desumana:
Vão tão apertados, tão asquerosos e tão maltratados, que eles me certificam que são trazidos de seis em seis com argolas no pescoço nas correntes e, estes mesmos, de duas em duas com grilões nos pés, de modo que vêm aprisionados dos pés às cabeças, debaixo do convés, trancados por fora, onde não chega o sol nem a lua, que não há espanhol que se atreva a pôr a cabeça no escotilhão sem nausear, nem a
101 O Passo Médio, Passagem Média ou Travessia Média (Middlepassage, não há uma tradução reconhecida
desse termo em português), é a parte do comércio triangular Europa-África-América que abrange o trajeto África-América e que implicava o transporte dos escravos africanos ao Novo Mundo. O primeiro trecho consistia na venda na África das mercadorias manufaturadas em Europa, e o terceiro trecho se baseava na comercialização de matérias-primas da América na Europa. Algumas referências bibliográficas identificam o Passo Médio sob a denominação de Rota do Escravo. (REDIKER, 2014, 9) [N. do T.]
persistir dentro por uma hora sem risco de doença grave. Tamanha é a fedentina, aperto e miséria daquele lugar. (SANDOVAL, 1987: 152)
As descrições das misérias suportadas pelos escravizados durante a travessia
abundam no livro de Sandoval; lê-las 400 anos depois – como os eventos do holocausto
judeu perpetrado pelos nazistas –, nos desnudam diante da condição humana, diante da sua
infinita capacidade para sobrepor-se a situações limite de crueldade, violência e
aniquilação. Daí o imperativo “Dispa-se!”, cumprimento de recepção ao leitor de Changó, el gran putas, convite para acompanhar a viagem de Nagô com seus companheiros de infortúnio às Américas. Sobreviver à travessia era um teste de resistência à fome, aos maus- tratos e às doenças padecidas. Como relata Sandoval:
Em poucos dias, o navio está como um hospital de doentes, de onde se povoa o cemitério de mortos, acabando alguns de diarreias cruéis, de dor nas costas, de fortes febres, outros de varíola, tifo e sarampo, e de um mau que chamam de Loanda incurável, que lhes incha o corpo inteiro, e apodrecem as gengivas, de que costumam morrer de repente; doença que se origina parte na ilha (da qual a doença toma este nome) parte com os maus tratamentos. (SANDOVAL, 1987: 152).
As doenças foram as maiores causadoras de morte durante a travessia – outras
foram os enforcamentos, os suicídios e os maus-tratos físicos –. Segundo Sandoval, poderia
chegar a um terço da carga, como eram denominados os africanos levados a bordo como prisioneiros. Os relatos destes seres socorridos por Sandoval na chegada a Cartagena lhe causavam grande pena e compaixão; depoimentos de primeira mão, inestimáveis para conhecer as misérias do tráfico negreiro, apesar da peneira do olhar de comiseração cristã, tão distante da intimidade dos africanos, de sua espiritualidade, de suas ideias; desconhecimento explicável na lógica da evangelização redentora de algumas almas necessitadas de consolo e luz divina para adequar-se com resignação a sua nova condição de mão de obra nas colônias das metrópoles europeias. A visão missionária do cristianismo a serviço da colonização do Novo Mundo, sintetizada na obra do padre Sandoval, constituiu o aparelho ideológico dominante, tão bem denominado e analisado por Aníbal Quijano
como “colonialismo do saber”.102 A estratégia ideológica utilizada pelos colonizadores
consistiu em despojar os africanos de suas línguas e religiões, de sua liberdade, de sua identidade. Apropriar-se do ideário facilitou a sujeição brutal à escravidão e à exploração
como bens de consumo. Sandoval chegou a ter 18 “línguas” (assim eram chamados os
intérpretes das línguas africanas) para comunicar-se com os escravizados recém-chegados e iniciar sua catequização. A condenação da espiritualidade africana permitiu aos europeus legitimar a escravidão e obter a colaboração da Igreja no processo de exploração econômica das colônias. Apesar de todos os mecanismos empregados para subjugar as crenças e ritualismos religiosos de origem africana, para apagar qualquer vestígio de africanismo, estes esforços da cristianização nunca alcançaram plenamente seus objetivos. Adriana Maya Restrepo demonstrou para o caso da Nova Granada:
A permanência dessas heranças entre os cativos boçais (escravos negros recém- chegados da África) e seus descendentes.[…] serviu como arma simbólica para lutar contra o regime de terror escravista e também apoiou a reconstrução de novas memórias histórico-culturais ao criar estratégias de adaptação à cultura e a ambientes específicos do Mundo. (MAYA, 1996: 29).
A resistência alimentada pela espiritualidade, depois de vários séculos, de muitas tensões e lutas para abolir a escravidão, originou a contracorrente que pôs no centro a humanidade dos africanos, tanto do continente de origem, quanto nos âmbitos aos quais chegou a diáspora negra; batalha iniciada pelos escravizados que escreveram sobre sua
própria experiência de travessia no século XIX. No livro La voz de los esclavizados, estão
reunidos alguns dos textos mais notáveis (McD. BECKLES & SHEPHERD, 2008). Ayayi, um menino iorubá sequestrado, entre os 13 e os 15 anos de idade, embarcado no navio Esperanza Félix com outras 181 pessoas escravizadas rumo ao Brasil. Olaudah Equiano, o Ibo, nascido numa aldeia conhecida como Essaka, na terra Ibo, Nigéria, por volta de 1745; perto dos seus catorze anos, ele e sua irmã caçula foram capturados por raptores nos arredores da aldeia. Asa-Asa, escravizado pelo dono de uma plantação francesa no Caribe. Ottobah Cugoano, o fanti, cujas memórias foram publicadas em Londres em 1787, viveu como escravo nas Antilhas, mas, já como homem livre, revelou-se como defensor dos ideais antiescravistas, como escritor e orador público. O Príncipe Zamba do Congo legou um dos documentos mais extraordinários da era escravista escrito por um chefe tribal, filho
de um “rei ” de uma comunidade do Congo. Temos conhecimento de primeira mão do
vivido durante o translado da África ao Novo Mundo.
Em todos estes relatos a travessia, esse espaço intermediário, simbolizado pelo mar, irrequieto, instável, tempestuoso, de ninguém, emerge como o cenário onde se incubou a
rebeldia desses prisioneiros africanos que não cessavam de conspirar, de ansiar pela liberdade, e ao menor descuido de seus verdugos organizavam o temido motim que enchia de medo e pavor os capitães no comando. Os porões urdiram a solidariedade, a malungagem, entre esses seres cuja grande maioria não cruzaria nunca mais suas vidas. Zapata se situa nessa tradição ao escrever a aterradora e infame travessia na qual o Muntu africano chega às Américas. Essa migração forçada trouxe a grande contribuição da África, os milhões de escravizados arrancados de seu seio, ao surgimento do capitalismo, à modernidade do Ocidente, como o historiador caribenho Eric Williams analisa em seu
brilhante livro Capitalismo y esclavitud (WILLIAMS, 2011). Processo complexo que
depois de esgotar a mão de obra nativa e dos brancos pobres lançou mão dos escravizados africanos. Compreensão compartilhada por Zapata, como intelectual vinculado ao marxismo e ao pan-africanismo, da qual se vale quando poetiza sua própria narração do navio negreiro, consciente de seu papel para a história da humanidade; no simbolismo do
romance, os personagens que vêm no Nueva India em 1540 – Nagô, Ngafúa, Sosa Illamba,
Kanuri “May” e Olugbala, junto com os espíritos de Xangô, Iemanjá, Ogum e demais
orixás – acompanham, protegem e influenciam as lutas dos escravizados durante quase
quatrocentos anos, até os tempos dos movimentos pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Malcolm X, o mais destacado líder dos afro-americanos em meados do século XX, metaforiza ao final do romance a rebeldia dos deuses e ancestrais que vinham no Nueva India.
Nos acontecimentos inspiradores da obra de Zapata, subjazem os processos centrais da conformação do capitalismo atlântico: a desapropriação, a luta para criar modos de vida alternativos, os modelos de cooperação e resistência, e a imposição de uma disciplina para a exploração econômica das colônias. É excepcional o olhar de sua alucinante narração a partir de baixo: recuperando a história perdida desses seres humanos tão essenciais para o surgimento da economia moderna. Esse olhar tira da invisibilidade histórica todas as crueldades e ardis desencadeados contra esses seres anônimos no porão escuro de um navio. Zapata trouxe à luz uma infinidade de conexões negadas, ignoradas ou simplesmente não vistas durante séculos, mas que, configuraram em profundidade a história do mundo no qual vivemos e morremos.
Sobressai-se a maneira como Zapata metaforiza no Livro de Derrota, o diário de
contraponto a perspectiva do capitão e a dos africanos sequestrados. Assim a tragédia se torna épica e instala outra visão da abominável travessia. É contada por Ngafúa, babalaô de Ifá, acompanhante de Nagô, que estimula seu espírito rebelde e alimenta a profunda relação espiritual com a África, a sombra mãe.
Narrar dos porões dos navios negreiros, do coração das trevas, permite a Zapata explorar os legados de raça, classe e escravidão para a humanidade. Mesmo que não saibamos, esses barcos são fantasmas que navegam pelas bordas da consciência moderna. O navio escravista promoveu a modernidade, moldou o sistema do mundo capitalista, a chamada acumulação originária do capital, como Karl Marx analisaria no memorável
capítulo XXIV do primeiro tomo de O Capital:
Essa acumulação originária vem a desempenhar na economia política o mesmo papel que o pecado original desempenha na teologia. Quando mordeu a maça, Adão concebeu o pecado e o transmitiu a toda a humanidade. [...] Desse pecado original parte a pobreza da grande maioria, que ainda hoje, apesar do muito que trabalha, não tem nada que para vender além de suas pessoas, e a riqueza de uma minoria, riqueza que não cessa de crescer, embora seus proprietários tenham deixado de trabalhar já há muitíssimo tempo. [...] Sabe-se que na história real desempenham um grande papel a conquista, a escravização, o roubo e o assassinato; a violência, numa palavra. Na doce economia política, pelo contrário, reinou sempre o idílio. As únicas fontes de riqueza foram desde o primeiro momento a lei e o “trabalho”, excetuando- se sempre, naturalmente, “o ano em andamento”. Mas, na realidade, os métodos da acumulação originária foram qualquer coisa menos idílicos. (MARX, 1960: 427).
A nada idílica acumulação originária do capital entrelaçou a Europa, a África e as Américas, criando fantásticas riquezas e a mais atroz, insanável e crescente miséria do mundo. Esses viagens infernais continuam ensombrecendo nossas vidas como mostra
Marcus Rediker em El barco de esclavos (REDIKER, 2007). Esse sentimento abala a
consciência e ajuda a compreender a pungente chave de viagem que Zapata proporciona
ao leitor de Changó, el gran putas com os imperativos: Suba a bordo e Dispa-se. Assim
como Rediker, considerado um dos maiores historiadores do oceano Atlântico, Zapata recriou a travessia abominável, várias décadas antes, com os materiais à disposição em sua época. Representação literária cheia de dor e coragem, uma viagem pela mão dos deuses e a respiração dos ancestrais. O relato de Zapata preserva profunda relação poética e humana com a extraordinária pesquisa de Rediker, que destrincha com grandeza de detalhes, recorrendo a todo tipo de fontes, as viagens de milhares de seres humanos nos navios de
carga, solicitando suas histórias com um conhecimento impressionante, às vezes relatado como se fosse um romancista cheio de memória, registrando as modificações significativas e as rupturas morais geradas pelo ignóbil tráfico de africanos. O livro de Rediker oferece luzes valiosas para a compreensão e interpretação dedicado à travessia na primeira parte de Changó, um dos mais poéticos e dilacerantes relatos da literatura afro-americana. Como
El barco de esclavos, o relato de Zapata é um tour de force que transmite a realidade do tráfico negreiro mais vívida e convincente jamais escrita antes na literatura latino- americana. Como na obra-prima de Rediker, ouvimos no relato de Zapata os bramidos de dor, os gemidos da perda, e o alvoroço da rebelião. A versão livre da narração de uma mulher realizada pelo marinheiro William Butterworth, com a qual Rediker abre seu livro, sobre uma escravizada levada a bordo de seu navio, o Huidibras, no velho Calabar, na enseada de Biafra, condensa o drama humano da viagem sem retorno (REDIKER, 2014, pp. 1-4).
A história dessa mulher simboliza um dos atos que o grande estudioso e ativista
afro-norte-americano, W.E.B. Dubois, muito apreciado por Zapata,103 considerou:
[...] o drama mais tremendo dos últimos mil anos da história da humanidade, mais de dez milhões de seres humanos arrancados da sombria beleza de seu continente natal e trasladados ao recém-descoberto Eldorado do Ocidente. Foi um descida ao inferno. (DUBOIS, 1999: 188).
O perturbador relato da escrava, conhecido por intermédio do capitão que a transportou e a vendeu, constitui a fonte para o discurso histórico, digamos, a origem fática deste. Para a literatura, a partir dos tantos relatos resgatados em arquivos e memórias, Zapata empreende sua própria interpretação e elaboração poética da travessia no navio de carga, criando o quadro completo de personagens da tripulação e os personagens centrais da saga, encabeçados por Nagô, que simboliza o Muntu africano que chegará às Américas.
103 Segundo as palavras de Zapata: “W.E.B Dubois foi para ele uma Sombra Pai, uma bússola inestimável.
Seu livro The Souls of Black Folk, (DUBOIS, 1999) me ajudou a nadar nas águas da memória ancestral africana que subsiste no inconsciente coletivo do povo negro norte-americano. Apegado a seus remos pude compenetrar-me da imponderável magia musical e religiosa que inspirou os personagens fabulados de Changó, el Gran Putas. A mesma memória que estimulou e enriqueceu o gênio dos escritores, atores e músicos do Renascimento Negro do Harlem nos anos vinte, e o “black is beautiful” do Renascimento Literário dos anos sessenta” (ZAPATA, 2011: 211).
Rediker, seguindo as pegadas do perturbador relato da escrava com o qual abre seu livro, e os de milhares e milhares como ela, caracteriza muito bem o drama do tráfico negreiro:
Esse drama épico se desenvolveu em incontáveis cenários durante um longo período de tempo, e não teve um indivíduo como protagonista, mas que contou com um elenco de milhões de atores. Ao longo de quase quatrocentos anos de tráfico negreiro, do final do século XV até o final do século XIX, 12,4 milhões de indivíduos foram transportados em navios negreiros e desembarcados em centenas de pontos distribuídos ao longo de milhares de milhas do outro lado do Atlântico. Nessa terrível travessia, morreram 1,8 milhões deles e seus corpos foram lançados ao mar, aos tubarões que seguiam os navios. A maioria dos 10,6 milhões que sobreviveram foi lançada nas goelas ensanguentadas de um sistema mortífero de plantação, ao qual, por sua vez, os cativos opuseram resistência de todas as formas imagináveis. (REDIKER, 2014, 4).
A “resistência de todas as formas imagináveis” constitui o traço essencial da viagem
dos africanos; as mortes, a prova irrefutável da rebeldia e das doenças padecidas. A questão
quantitativa sempre foi motivo de discussão,104 embora na atualidade, após os estudos de
David Ellis, se estimem 35 mil viagens de navios negreiros “legítimos” (os de contrabando
não deixaram vestígios documentados) que levaram de 12 a 15 milhões de africanos a todos os países das Américas (ELTIS, 2000).
As contribuições de Rediker são inestimáveis, sobretudo quanto às características daqueles que iam nos barcos do tráfico negreiro:
Nas conveses bamboleantes do navio negreiro se representaram uma e outra vez, no curso do longo século XVIII, quatro dramas humanos diversos, embora relacionados. Cada um deles foi significativo em sua época, e segue sendo na nossa. Os atores desses dramas eram o capitão do navio, a tripulação heterogênea, o grupo multiétnico dos escravizados e, por volta do final do período, os abolicionistas provenientes da classe média e o público leitor urbano ao qual apelaram tanto na Grã-Bretanha quanto na América do Norte. (REDIKER, 2014, 6).
O relato de Zapata enfoca três dos quatro dramas assinalados por Rediker,
104 Zapata, por exemplo, chegou a falar de 100 milhões de africanos arrancados da África (ZAPATA, 1990,
excetuando o dos abolicionistas que é muito posterior aos tempos do Nueva India, um fenômeno, por certo, com algumas particularidades na América Hispânica e no Brasil; o segundo ocupa um lugar central, o das relações entre os marinheiros e os escravos. Vale citar em extenso a caracterização desse drama, tão profunda e poeticamente recriado por Zapata.
A relação entre os marinheiros e os escravos – baseada sobre a alimentação forçada de forma desumana, açoites, violências ocasionais de todo tipo e o estupro de cativas – constituía o segundo drama. O capitão presidia sobre essa interação, mas os marinheiros cumpriam suas ordens de levar os cativos a bordo, apertá-los sob o convés, alimentá-los, obrigá-los a fazer exercícios (dançar), preservar sua saúde, discipliná-los e castiga-los; em resumo, transformá-los aos poucos em mercadorias para o mercado internacional de trabalho. Este drama também incluía uma resistência infinitamente criativa dos trasladados, que ia das greves de fome ao suicídio e a insurreição, mas continha também apropriações seletivas da cultura dos captores, sobretudo o idioma e os conhecimentos técnicos, como, por exemplo, os relativos ao funcionamento do navio. (REDIKER, 2014, 7).
Outro drama assinalado por Rediker tinha a ver com o conflito e a cooperação entre os escravizados, visto que eram pessoas de classes, etnias e gêneros amontoados nos pestilentos porões dos navios.
Como essa “multidão de negros de todo tipo acorrentados juntos” conseguia comunicar-se? Encontraram maneiras de trocar informação valiosa sobre todos os aspectos de sua situação, o lugar ao qual se dirigiam e seu destino futuro. Na prisão brutal, o terror e a morte prematura, tramaram para dar uma resposta criativa e afirmativa da vida: conceberam novas línguas, novas práticas culturais, novos vínculos e uma comunidade nascente daqueles que viajavam juntos. Chamavam-se uns aos outros “caravela”,* o que equivalia a irmão e irmã, e com isto deram origem a uma relação de parentesco “fictícia”, mas muito real, para substituir a que foi destruída por seu rapto e escravização na África. Sua criatividade e resistência os tornou coletivamente indestrutíveis, e nisso residiu a enormidade do drama. (REDIKER, 2014, 7).
Os vínculos de solidariedade gerados nos barcos desempenharam um papel fundamental nos processos de adaptação e nas lutas travadas pelos escravizados nos
diferentes lugares para onde foram levados nas Américas. A odisseia da Middlepassage
fundamentou uma atitude de reconhecimento mútuo e solidariedade em consequência dessa experiência que os havia levado, física e psicologicamente, aos limites mais extremos
da degradação humana. Daí surgiram as palavras: “malungo” no Brasil, “carabela” em Cuba, “malongue” em Trindad Tobago, “batiment” no Haiti, “shipmake” na Jamaica, “sippi” ou “sibi” no Suriname; significação estudada por Jerome Branche ao adotar o termo “malungagem” em seu propósito de explicar o forte laço de convivência – real e espiritual – originado na diáspora durante as milhares e milhares de viagens dos africanos nos navios
de carga.
Entre os povos bantos da África central e oriental, particularmente entre os falantes de kikongo, umbundu e kimbundu existe uma palavra/conceito no qual ou na qual pelo menos três ideias se cruzam e combinam, dependendo das coordenadas de tempo e lugar. Estas ideias são i) de parentesco ou de irmandade em seu sentido