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5. PRESENTATION OF CASE STUDIES

6.6 R EPUTATION

Tivemos que inventar uma África mítica para resistir durante 400 anos. Não foi fácil atravessar 400 anos sem nenhuma referência positiva sobre você, sobre a raça negra. Tivemos que inventar uma África para servir de apoio moral e espiritual. Uma África que nos dissesse, que nos informasse constantemente que éramos seres humanos, vivendo 400 anos num sistema que diz que você não é humano. Em que o branco é o único que é referência do que é humano, do que é belo, do que é bom, do que é justo, do que é limpo, e você... é somente sujeira. Quem resiste a isso? Então tivemos que inventar uma África que mantivemos em segredo, como as religiões. As religiões também tiveram esse papel de nos dar essas referências, de que não éramos sujeira... lixo.

Carlos Moore. (MOORE, 2015)

O que a África significou para a humanidade? O que esse continente legou ao Novo Mundo? Como e de que maneira os milhões de escravizados contribuíram para a construção das sociedades onde lhes coube integrar-se? Qual foi o valor dessas contribuições e das culturas dos africanos escravizados, tão úteis ao sistema colonial que construiu o sistema-mundo capitalista, mas tão vilipendiados e excluídos? Como atuou sua resistência a luta ao longo de vários séculos?

Por estes questionamentos gravitou o processo criativo de Changó. Romancear a

história da diáspora dos escravizados chegados às Américas – entre os séculos XVI e XIX

–, uma aposta inédita na literatura latino-americana, foi o propósito de Zapata para urdir

sua interpretação mito-poética. Durante as duas décadas dedicadas a recolher materiais sempre foi movido por um tema de fundo como romancista: de onde narrar essas histórias? Zapata sabia que para alcançar isso era inevitável a recuperação da história do continente das grandes civilizações, tal como havia sido empreendida pelo movimento intelectual das

negritudes119 no século XX, um verdadeiro Renascimento africano, com pioneiros como o

senegalês Cheikh Anta Diop,120 na contramão dos preconceitos herdados do colonialismo

119 Usamos aqui o termo no sentido geral de valorização de todas as manifestações culturais de matriz africana,

de ruptura com a visão eurocêntrica e de afirmação do orgulho racial. Este termo encerra muitos usos e sentidos e tem uma evolução ao longo do século XX. Ver (MUNANGA, 2012) e (DOMINGUES, 2005).

120 Cheikh Anta Diop nasceu em Caytou, no distrito Diourbel, Senegal, em 1923, e faleceu em Dacar, capital

do mesmo país, em 1986. À época de sua norte, era amplamente considerado o maior intelectual produzido pela África no século XX.

dos saberes, das exclusões do eurocentrismo. Colocar em seu devido lugar as civilizações africanas foi tarefa árdua e muitas vezes encarniçada nos cenários da academia europeia, como sucedeu com a confirmação de Egito como o berço de uma grande civilização negro- africana, batalha intelectual ganha por Diop quando defendeu sua tese de doutoramento na

França em 1954, Nations négres et cultures. Essa pesquisa monumental do sábio senegalês

teve impacto transcendental para a recuperação da história da África, para revelar verdades deixadas de lado e resgatar as histórias ocultas dessas culturas que tanto contribuíram para a humanidade. O assunto não era apenas pesquisar o período do Tráfico Negreiro, justificado com infinitas distorções, mas contemplar o conjunto de sociedades e culturas de onde os escravizados foram arrancados. Reflexões profundas animaram Zapata enquanto empreendia seu objetivo de resgatar e recriar essa tragédia humana e sua dimensão épica, partindo de inevitáveis questionamentos:

Por que essa história, a maior e mais persistente e múltipla fusão de homens de todas as raças permaneceu oculta ao olhar dos poetas e dos romancistas?

Não era talvez muito mais humana e dramática que essa epopeia dos gregos contada por Homero disseminando sua semente pelo mar Egeu?

Sem menosprezar a façanha dos lusitanos, não é mais heroica que a história de Os Lusíadas que o grande Camões imortalizou?

A vida privada dos italianos não teve seu Dante, embora o poeta nos desse sua visão do além-túmulo do Inferno, o Purgatório e o Paraíso?

O que obnubilava os escritores das Américas para não narrar sua grande epopeia? (ZAPATA, 1990, 343)

A procura de respostas para estas perguntas marcou o rumo intelectual e artístico

de Zapata; elucidá-las fundamentou a escrita de Changó, el gran putas. Visibilizar a

história marginalizada da escravidão por dentro e no contexto de grandes culturas e civilizações implicou um esforço titânico, tanto no ambiente internacional com o qual se relacionou, e muito mais no ambiente nacional, onde o tema era muito mais desconhecido e marginal, pois as barreiras das visões hegemônicas não eram de modo algum alentadoras. Contra as visões dominantes, com muita dedicação e coragem, Zapata elaborou sua obra em luminosa contramão:

O pressentimento de que havia muitos motivos de ocultamento dessa tragédia do homem negro na máquina de tormento chamada escravidão, obrigou-me a olhar a história disparatada que aparecia nas anotações dos traficantes de seres humanos; nos diários de bordo dos capitães e médicos dos navios negreiros; nas memórias de

religiosos e cronistas; nos relatos de todos aqueles que de uma ou outra forma fizeram parte do séquito dos conquistadores, escravistas e colonizadores. A visão destes Píndaros era sob todas as luzes mentirosa, ocultadora e deformadora da verdade. O negro africano sempre aparecia como bárbaro, feroz, amoral e canibal. Portanto, carente de alma, inteligência e criatividade; eram denominados peças de índias, boçais, moleque, mulecas, etc. Os testemunhos mais consequentes com a razão do cristianismo os denominaram escravos, quando eram simples prisioneiros de uma guerra não declarada pelos bárbaros. (ZAPATA, 1990, 344).

O estudo dos problemas da escravidão na cultura ocidental proporcionou a Zapata o conhecimento necessário para a elaboração literária de um mundo merecedor de seu devido lugar como espelho da condição humana; reinventá-lo a partir do grande drama da escravidão, a partir de sua própria intimidade, cativou seu interesse desde seus primeiros relatos:

Comecei então a intuir que essa história não podia ser escrita por alguém que não levasse em sua pele a marca de quem havia padecido tal indignidade. Mas negros talentosos escreveram poemas e romances que bem poderiam ter contado a odisseia de seu povo. Concluí que não se tratava de possuir o dom narrativo, mas de abranger numa olhada as múltiplas culturas africanas refundidas na escravidão. A tarefa provocava desfalecimentos antes de ser tentada. (ZAPATA, 1990, 344).

Como representar essa grande amálgama de culturas africanas refundidas na escravidão? Assunto bastante complexo para sua época, quando mal começavam os estudos especializados, marginais ainda, se quiser, em sociedades onde a norma era a exclusão, o desprezo pelas culturas de origem africana e o racismo em todas as suas formas. Zapata elaborou uma visão transnacional do assunto, e, antecipando-se a muitos estudiosos posteriores, entregou-se à tarefa de escrever um romance da diáspora, quer dizer, que tratasse de abranger a história dos africanos chegados aos lugares mais significativos das Américas, por seu peso demográfico: o Brasil, o Caribe e os Estados Unidos. Focalização compreensível pela dimensão histórica e social da presença africana em cada um desses territórios. Essa dimensão histórica define o universo narrativo do romance, desde a partida do porto de embarque dos escravizados em Nembe, até concluir nas lutas dos negros dos Estados Unidos pelos direitos civis. Por trás do universo narrado está a África, cuja invenção mítica cumpre um papel essencial para a resistência e a liberdade dos escravizados. Dessa África histórica e suas religiões provém a força espiritual dos

provérbios das Tábuas de Ifá, onde aparece prefigurado o destino dessa peregrinação, os sofrimentos e espantos de tantos milhões de escravizados. Na África, o culto aos orixás e à Ifá estão inter-relacionados. Zapata penetrou neles para expressar a intimidade espiritual da cultura dos escravizados. Uma maneira de desvirtuar as concepções abismalmente equivocadas sobre a espiritualidade africana que existem no Ocidente. Ifá é o fundamento de um sistema muito elaborado, baseado numa vasta variedade de iniciações em Mistérios muito específicos que têm a ver com os funcionamentos internos da Natureza.

A trama da saga está organizada sobre a circularidade mítica de sua cosmovisão. A compreensão dessa história preocupou Zapata desde muito jovem, começando por seu

Caribe natal – de Lorica a Cartagena –; depois suas viagens pelo Pacífico colombiano e

outras regiões do país; para continuar na América Central, nos Estados Unidos, Cuba e nas ilhas do Caribe, e, é claro, no Brasil e em vários países africanos: Senegal, Benin, Nigéria e Angola. Esses territórios aparecem nos milhares de nomes referidos na viagem pela história abarcada pelos cinco romances que compõem a saga, relacionados pelas costuras dos fios míticos. Zapata explicita essa chave de composição na breve introdução do

romance, como boas-vindas ao leitor, “Ao companheiro de viagem”:

Está nadando em uma saga, isto é, em mares diversos, em cinco romances diferentes –“As origens”, “O muntu americano”, “a rebelião dos voduns”, “Os sangres oponentes” e “Os ancestrais combatentes” —.Todos eles com unidade, protagonistas, estilo e linguagem próprios. Sua única conexão são os orixás africanos e os defuntos pais nascidos ou mortos nas Américas que não reconhecem os limites dos séculos, nem os das geografias ou os da morte.

Agora, embarque na leitura e deixe que Exu, o abridor de caminhos, lhe revele seus futuros passos já escritos nas Tábuas de Ifá, desde antes de nascer. Cedo ou tarde tinha de confrontar esta verdade: a história do homem negro nas Américas é tão sua como a do índio ou a do branco que o acompanharão na conquista da liberdade de todos. (ZAPATA, 2010: 35).

Aqui Zapata oferece a coordenadas de Changó, o que denomino “código Xangô”

de representação, cuja análise mostra sua dimensão central: a concretização poética na história relatada dos ritualismos e da cosmovisão dos povos iorubá e banto. É claro, tratando-se de uma representação literária, os rituais predominantes como o candomblé

brasileiro, a santería cubana e o vodu haitiano aparecem reelaborados e, às vezes,

entremeados. A estas religiões, para a presente análise, me aproximei com muito respeito, mais por intermédio da bibliografia especializada, e menos, confesso isso como limitação,

pela observação e pela aproximação profunda destas ritualidades. Não por acaso, Zapata enfatizou a metafísica e os deuses africanos para montar a visão e interpretação de vários séculos de resistência e luta pela liberdade dos negros nas Américas. Caminho árduo para um escritor colombiano nos anos 1950 e 1960, quando ainda prevaleciam os preconceitos, as exclusões e fortes formas de racismo, em meio aos movimentos pan-africanos em ascensão, e quando a Colômbia, por fim, em meio a marchas e contramarchas, iniciava sua incerta e violenta entrada no mundo contemporâneo com os avanços da industrialização e a configuração de importantes centros urbanos.

Como sustenta o historiador africano Joseph Ki-Zerbo: “A África é como Osíris.

Foi despedaçada e nossa responsabilidade é recompô-la” (KI-ZERBO, 2001, entrevista).

Osíris era um rei benévolo do antigo Egito. Seu rival, Seth, que queria o trono para si, armou-lhe uma armadilha. Matou o rei Osíris e despedaçou seu corpo, dispersando os pedaços por toda a extensão da terra. A rainha Ísis, consorte do rei morto, utilizou seus poderes divinos para descobrir cada pedaço. Osíris tornou-se o rei da ressurreição: uma excelente metáfora para romancear a diáspora africana. Tarefa que implicou limpar o caminho de todas as visões negativas acerca da África, trama complexa de representações orquestradas a partir das metrópoles europeias, incentivadas por pensadores da estatura de G.W.F. Hegel, tão profusamente citado quando se trata de mostrar as negações e omissões do pensamento eurocêntrico. Ki-Zerbo e Zapata criticam as ideias do filósofo alemão para fundamentar, um como historiador e o outro como romancista, seu ponto de vista descolonizador. O africano e o colombiano compartilharam ideais pan-africanistas nos anos 1960, quando estavam em ascensão os movimentos de libertação nacional na África e no resto do Terceiro Mundo e o desenvolvimento de movimentos artísticos e intelectuais que vinham se configurando desde inícios do século XX. Em 1961, apareceu o livro de

Frantz Fanon, Os condenados da terra, com o prólogo de Jean Paul Sartre, de grande

impacto no pensamento descolonizador que abria passagem. Ali foram subvertidas a fundo

as ideias de Hegel declaradas no seu célebre Curso de Filosofia da História, em 1830:

A África não é uma parte histórica do mundo. Não tem movimentos, nem desenvolvimentos que possa mostrar-nos, nem movimentos históricos nela. Quer dizer, sua parte setentrional pertence ao mundo europeu ou asiático; o que nós entendemos precisamente por África é o espírito a-histórico, o espírito não desenvolvido, ainda envolto nas condições do natural e que deve ser apresentado aqui apenas como algo situado no limiar da história do mundo. (HEGEL, 2001: 47).

A batalha política e intelectual travada pelo médico martiniquense, seu compromisso com a causa da independência de Argélia, país onde trabalhou num hospital psiquiátrico, desmontava a visão eurocêntrica do outro não europeu, abrindo caminhos para a descolonização, afinado com as mudanças radicais de sua época. Sartre constatou isso em seu célebre prólogo ao referir-se às consequências do desmonte do sistema colonial francês, a propósito da independência da Argélia:

O que é pior: visto que os outros se tornam homens contra nós, se demonstra que somos os inimigos do gênero humano; a elite descobre sua verdadeira natureza: a de uma quadrilha. Nossos caros valores perdem suas asas; se os contemplamos de perto, não encontraremos um só que não esteja manchado de sangue. [...]Enfim, como vocês verão: A Europa faz água por todos os lados. O que aconteceu? Simplesmente, que éramos os sujeitos da história e agora somos seus objetos. A relação de forças foi invertida, a descolonização está a caminho; só o que podem tentar nossos mercenários é atrasar sua realização. (FANON, 2001: 25)

Como observa Fanon, a descolonização é sempre um fenômeno violento. (FANON, 2001: 30). No centro destas mudanças, reais e de paradigmas, foram construídas as obras de homens como Cheikh, Ki-Zerbo e Zapata, animados pela causa comum da descolonização. Causa dentro da qual a África era parte fundamental da tríade Europa/América/África, apesar de toda a brutalidade, saque e dilaceramento aos quais havia sido submetida. Era preciso recompô-la e dar-lhe seu merecido estatuto na história do mundo.

Recompor esse descomunal quebra-cabeças foi tarefa dos africanos, da comunidade diaspórica, de suas gentes e artistas, de mil formas, para assim recolocar os pedaços para representar uma África recomposta no ultramar, com elementos fundidos a elementos culturais escolhidos e impostos no Novo Mundo. Como observa o poeta de Trinidad

Tobago Derek Walcott, em seu brilhante ensaio, “Las Antillas: Fragmentos de la memoria

épica”:

É a recuperação de nossas histórias rompidas, nossos fragmentos de vocabulário, e nosso arquipélago se converte em sinônimo de fragmentos desgarrados de seu continente original.

Eis aqui o processo exato da criação poética, ou do que talvez deveria chamar-se não sua “criação”, mas sua recriação: a memória fragmentada, a estrutura que emoldura o deus, até mesmo o rito que os entrega à pira final; o deus tecido cana por cana, junco por junco, linha por linha, como os artesãos de Felicity erigiam seu

eco sagrado. (WALCOTT, 2000: 92).

Os fragmentos dessa memória épica se recompõem em Changó, el gran putas, vasto

quebra-cabeças montado por intermédio de um código de representação que permite falar

“de dentro” da humanidade dos africanos e afrodescendentes.

De mil maneiras, a África aparece do princípio ao fim em Changó, el gran putas,

como um tributo a esse continente. Infinitas palavras trazem consigo esse mundo que irrigou a outro bordejado pelo mesmo oceano. Basta ver os mapas dos séculos do comércio de escravos para visualizar as milhares de rotas e destinos da maior travessia forçada da história humana. As mil e cem tribos da África se despendem de Nagô, metáfora esplêndida do Muntu africano que dará origem ao Muntu americano. Este conceito de Muntu, como Zapata enfatizou em diversas oportunidades, constitui o fundamento metafísico do romance, lhe concede sua filiação profunda com a cosmovisão da filosofia banto. A família dos homens vivos e seus mortos, irmanados com os animais e os vegetais e os minerais, contemplada no conceito Muntu, reconhece através da fraternidade a contribuição dos escravizados e da cultura que trouxeram consigo para a humanidade. Daí surge a épica das negritudes das Américas recriadas. Apreciamos um belo exemplo no romance com a despedida, revestida em seu significado profundo da grandiosidade histórica da diáspora, da dimensão épica do acontecimento que está por trás da partida de Nagô. Vale nos determos com detalhe nesse canto.

Despedida das mil e cem tribos

Aqui estão Nagó, / filho de Kalunga, / as vozes despertas dos desaparecidos Ancestrais / os vivos / os mortos / os sagrados mensageiros / do remoto Kush / os de Gana / Mali / e o Songhai / os que chegam de Kanem e o Bornu / dos empoeirados reinos / às margens do Chade.

Trazem a palavra viva dos catorze Orixás / alimento das tribos / descidas pelo Nilo / os ribeirinhos do Lualaba / e do Zambeze / pelo Níger e o Gâmbia / difundidos. Os Homens Manati / pescadores do ritmo na oculta selva, / saltaram dos rios e dos mangues / das aletas em braços convertidas /da cauda em plantas caminhantes / com a ferida aberta de seu riso / da canora pomba de sua língua / Ki-Kongo! Ba-Lunda! U-Mbunda! / pela larga cintura da África
 / onda negra dos mares / de uma costa a outra errantes. / Aqui estão seus imperadores Ngola / que semearam a semente com

arados de ferro.

Escutam-se os percussionistas lingas de Oeste a Leste, / os ceramistas Nok / os forjadores do bronze da esplendorosa Benin. / Escutam-se as lentas pisadas dos elefantes / sobre seus lombos

Os imperadores Monomatapas / da Grande Zimbábue. / Os cheiros quentes / os aromas do Índico. Moçambique / Zanzibar / Mombasa e Sofala. / Os lamitas etíopes / sangue catarata do Nilo / suas planícies úmidas / suas pétreas pirâmides. / A primeira semente / os Bosquímanos / Hotentotes e Papuas / nutridos de raízes / nuvens e pássaros / seu coração preserva a inocência dos primeiros Orixás / na terra. / Aqui repousam as setas e os arcos dos invencíveis / Zulus / caçadores de borrasca / nas costas do sul. / Senegal / Sudão / limo apaziguado do Islã / muralhas de Cristãos / trazem a palavra viva do deserto / a selva e os oceanos. /

Estamos aqui convocados / para dar-te adeus na partida /unidos pela palavra / pelos fios de Elegbá / abridor das tumbas / chave dos pactos e das portas / só ele sabe o ponto / onde se cruzam a hora e o caminho / o magara e o buzima / dos vivos e dos mortos. / Escuta a despedida, / as oferendas, os hinos / das mil e cem tribos / para despedir de ti unidas! (ZAPATA, 2010, 80).

Tantos anos dedicados por Zapata ao conhecimento da África se condensam nesse poema cheio de referências às coisas, artes, línguas, geografia, povos, reinos e deuses desse continente, metaforizado como uma unidade diversa nas mil e cem tribos que saem para

despedir-se de Nagô e de seus companheiros prisioneiros no Nueva India. Em nada se trata

da África miserável representada pelos saberes coloniais, mas de um continente rico e complexo, diverso, agrilhoado pelos poderes coloniais do capitalismo europeu nascente. Esse olhar não apenas desmonta todos os preconceitos sobre a África, como constitui a

condição sine qua non para valorizar os séculos da ignóbil escravidão, não por isto fecunda,

com extraordinárias contribuições para a humanidade. Esses seres legaram muita coisa ao mundo. O poema recupera com altivez a história dos grandes reinos e civilizações do continente onde o ser humano surgiu pela primeira vez. Essa óptica altera profundamente

o olhar sobre a África. Nagô, Ngafúa, Sosa Illamba, Kanury “Mai” e Olugbala não apenas

vêm desse rico universo de culturas e civilizações como mantêm suas conexões indestrutíveis com elas por intermédio dos deuses e dos ancestrais. Daí provém a

magnificência poética de Changó, el gran putas, pois seu narrador, alter ego do romancista