3. INTEGRASJON
3.3 T ILLIT
Traçar uma história do BA, ainda que no âmbito restrito do território nacional, é tarefa que escapa ao
espectro deste trabalho. 54 No entanto, não nos seria possível progredir na nossa argumentação sem o estabelecimento de algumas bases do tema a que nos propusemos: os impactos mútuos entre a tecnologia do BA e os aspectos culturais e ideológicos dos anos 30.
Necessitaremos, para tal, de empreender uma muito breve digressão pela natureza do cálculo de
estruturas em BA, tal como era entendido nas primeiras décadas do séc. XX.
Comecemos por afirmar, secundando vários autores (Viseu, 1993, p. 40), que os primeiros anos do BA
foram marcados por uma coincidência histórica: o facto de este sistema ter surgido praticamente ao
mesmo tempo que, ao longo do séc. XIX, se ia aprofundando o estudo um ramo específico da física,
designada mecânica de sólidos ou resistência de materiais. 55
Desde os seus primórdios, a resistência de materiais foi reconhecida por ser adequada ao cálculo das
estruturas de edificações, uma vez que permite o cálculo da deformação e da estabilidade dos corpos, através da análise da relação estabelecida entre as cargas externas aplicadas a esses corpos e a
intensidade das forças que dentro deles actuam.
Para que esse cálculo seja possível, é necessário que se verifiquem determinadas condições. A resis-
tência de materiais apoia-se num conjunto de hipóteses, relativas tanto às características dos corpos
em causa como à natureza dos problemas a resolver. Por facilidade de exposição, fixemo-nos apenas
nas hipóteses relativas aos corpos e aos materiais que os constituem. Em suma, eles devem ser:
• Elásticos, regressando à forma original depois de submetidos a uma tensão; • Lineares, apresentando deformações proporcionais às tensões;
• Homogéneos, com as mesmas características ao longo de toda a massa;
• Isotrópicos, com propriedades idênticas em todas as direcções.
54 Tanto quanto é do nosso conhecimento, a publicação de uma visão panorâmica e monográfica da
história do BA em Portugal foi tentada apenas por Joaquim C.S. Viseu (1993), em cujo trabalho nos apoiámos para a redacção destas páginas. Viseu cita alguns, poucos, artigos parcelares que outros
autores portugueses dedicaram ao assunto. Curiosamente, não figura nenhum dos técnicos responsáveis
pela redacção do REB nas secções que Viseu dedica aos engenheiros civis mais notáveis do nosso país.
55 Encontrámos a história da evolução paralela da resistência de materiais e do cálculo das estruturas,
narrada de um modo preciso e acessível, na já clássica obra de 1979 intitulada Structures : or why things
don’t fall down, de J. E. Gordon (1991 pp. 33-69). Se uma falha há a apontar a esse trabalho será talvez
a perspectiva excessivamente anglo-saxónica do assunto. Assim, por exemplo, Gordon dedica muitas
páginas à rivalidade entre Hooke e Newton, mas apenas umas breves linhas ao contributo de Navier,
Elasticidade e continuidade, homogeneidade e isotropia: são então condições que, quando se veri-
ficam nos materiais, permitem a aplicação de um conjunto finito de leis. Enumeremo-las, sem nos
demorarmos na sua explicação, uma vez que ela decorre da leitura dos parágrafos anteriores e,
também, dos que a seguir se apresentarão:
• Lei de Hooke, ou da elasticidade linear;
• Lei de Bernouilli-Navier, ou da conservação das secções planas;
• Lei de Saint-Venant, ou da proporcionalidade das tensões, nos pontos duma secção, à sua distância ao eixo neutro. 56
Bastaria o simples enunciado das condições da resistência dos materiais para se perceber a sua desadequação ao cálculo de estruturas construídas em determinados materiais. Assim, para usar um exemplo facilmente apreensível, a madeira não possui características mecânicas e resistentes idên-
ticas na direcção das fibras e na direcção da sua perpendicular. A madeira não é portanto considerada isotrópica – pelo contrário, é anisótropa – não se lhe aplicando as leis da resistência dos materiais.
Ora, o mesmo acontece com o BA, por maioria de razão: sistema compósito resultante da combinação
de dois materiais distintos, betão e aço, o BA é por natureza heterogéneo e anisótropo.
No entanto, por falta de melhor sustentação científica, foram justamente as hipóteses e as leis da resistência dos materiais que se aplicaram ao cálculo do BA, desde o início do séc. XX e durante
largas décadas ainda. Este cálculo era feito em condições que foram sendo determinadas pela obser-
vação directa, as experiências laboratoriais e os modelos teóricos, tanto gráficos como analíticos
(Viseu, p. 40).
Como facilmente se infere, os preceitos regulamentares concentravam-se na fixação dessas condi-
ções. Pioneiro nessa diligência foi o regulamento francês, de 1906, publicado pela chamada Circular Ministerial de 20 de Outubro. 57 Necessariamente, também o REB se dedicava a essa tarefa, expli- cando (p. 1496):
O betão armado é um corpo heterogéneo; para tornar possível a aplicação das normas de
cálculo da resistência de materiais às construções com ele executadas recorre-se ao artifício
de o transformar em um material homogéneo, equivalente sob o ponto de vista mecânico: e isto
faz-se amplificando as secções do metal pela multiplicação por um coeficiente m, que deve ser
a relação entre os coeficientes de elasticidade dos dois elementos constituintes, desde que não se atenda à modificação produzida na deformação pelo betão tenso.
Consentido este artifício, ficava garantida a possibilidade de se usarem as leis da resistência de mate- riais (p. cit.):
Admite-se então, quando o limite de elasticidade não é excedido, a proporcionalidade entre deformações e tensões (lei Hooke), e ainda a hipótese de Bernouilli acerca da conservação das
secções planas e a consequente lei de Navier sobre a proporcionalidade entre deformações e as distâncias ao eixo neutro.
56 Robert Hooke: 1635, Ilha de Wight – 1703, Londres, RU. Jacques ou Jakob Bernoulli: 1654 – 1705,
Basileia, Suiça. Claude Louis Marie Henri Navier: 1785, Dijon – 1836, Paris, França. Adhémar-Jean-Claude Barré de Saint-Venant: 1797, Villiers-en-Bière – 1886, Saint-Ouen, França.
Este tipo de cálculo designou-se cálculo elástico. Mais recentemente passou também a designar-se
cálculo clássico, por oposição às novas abordagens entretanto surgidas. Joaquim C.S. Viseu (1993, p. 42) descreveu e sumarizou assim o cálculo baseado no REB:
O cálculo clássico do betão armado, baseado na Resistência dos Materiais, é pois, baseado na
noção de tensão de segurança: do aço e do betão. Fixados os valores destas duas tensões de
segurança, o que se verifica, no cálculo, é se as tensões máximas de serviço nos dois materiais
são inferiores aos referidos valores.
Como dissemos atrás, o RBA foi substituído pelo REBA em 1967, não porque estivesse deficiente-
mente redigido, mas porque se alterou a filosofia de cálculo, sendo que a verificação de segurança
se passou a efectuar em relação a três estados de ruína: a rotura, a fendilhação excessiva e a defor- mação excessiva.
Concluímos aqui a nossa curta digressão acerca do tipo de cálculo proposto pelo RBA. Empreendemo-la
com um único fito, que foi o de estabelecer e sublinhar este dado importante: no início dos anos 30
– e tendo em conta o elevado grau de indeterminação que estava implícito na aplicação do cálculo elástico – nenhuma normativa para o BA poderia ser imposta de modo responsável sem que se funda- mentasse nos testes laboratoriais mais precisos e nos modelos teóricos mais avançados.
Como nos parece hoje evidente, e sê-lo-ia então também, essa tarefa competia exclusivamente a organismos especializados. O relatório (p. 1494) considerava que “tal labor, longo e dispendioso […]
só pode ser executado por comissões permanentes de estudo, que existem aliás noutros países.”
Perante a inexistência desses organismos em Portugal, 58 e tendo em conta que a comissão de redacção tinha optado claramente por um tipo de regulamento que, não se limitando a fornecer indi-
cações gerais, fornecesse também “pormenores desenvolvidos sobre normas de cálculo, sobre os
materiais e sobre o seu emprego” (p. 1493), a solução foi procurar noutros regulamentos as noções, os conceitos e os valores que mais se adequassem ao caso português (p. 1495):
Qualquer modificação tem que ser firmada em ensaios, experiências e observações, que demandam, além de muito tempo, laboratórios especiais e numerosas obras executadas e em
execução; de outro modo só há um caminho judicioso e seguro a seguir, que consiste em apro- veitar a experiência alheia.
58 Com esta afirmação, não excluímos a existência de laboratórios em Portugal, mas apenas a sua capa-
cidade para realizar todos os ensaios necessários para a redacção do REB. Em relação aos laboratórios
existentes em Portugal até aos anos 30, colhemos da obra de Joaquim C. S. Viseu as informações que se seguem, e que serviram para fundamentar a nossa posição. Depois de, no último quartel do séc. XIX, se
terem realizado experiências laboratoriais nas argamassas e nos betões usados nas obras dos portos da
Figueira da Foz, de Lisboa e de Leixões, foi oficialmente criada em 1898 a Direcção de Estudos e Ensaios de Materiais de Construção, cujas instalações se conservaram no Terreiro do Trigo, em Lisboa, até 1942
(p. 43). Aquando da fundação da Universidade do Porto, em 1911, foi criado o Laboratório de Resistência de Materiais, o qual, em 1930, se passou a designar Laboratório de Ensaio de Materiais (pp. 53-54). O LNEC só será inaugurado em 1952 (p. 82).
O texto do relatório indicou dois países de referência para esta recolha, que foram os Estados Unidos
da América e a Alemanha, enumerando também as razões dessa escolha. 59 Citemo-las (p. 1493):
• População e cultura;
• “Prodigioso desenvolvimento” nas obras de BA;
• Quantidade de estudos teóricos, investigações experimentais e de publicações sobre o BA.
Para além dos casos dos Estados Unidos e da Alemanha, o relatório dá conta, de modo detalhado,
dos regulamentos que foram cotejados para a elaboração do RBA. Enumeremo-los, respeitando quer
uma ordem alfabética, quer a onomástica atribuída pelos autores: Áustria, Bélgica, Checo-Eslováquia, Dinamarca, França, Holanda, Hungria, Inglaterra, Itália, Rússia, Suécia, Suíça.
Como vemos, foram comparadas, no total, catorze normativas distintas. Os valores que foram confron- tados, com maior ou menor extensão ou profundidade, foram em especial os seguintes:
• Coeficiente de equivalência m – “é de primordial importância no cálculo do betão armado; a
sua determinação é um tema que está e estará por muito tempo em estudo nos laboratórios e
em discussão nos congressos” (p. 1497);
• Limites de fadiga à compressão e à flexão – “a fixação dos limites de fadiga é certamente o
ponto mais importante e de maior responsabilidade de um regulamento de betão armado” (p. cit.).
• Tensões tangenciais – “o cálculo das tensões tangenciais constitui um problema primacial nas
construções de betão armado; a maior parte dos desastres ocorridos provém da insuficiência
de esforço transverso” (p. 1500);
Para além destas referências de cálculo, a comissão utilizou a mesma metodologia comparativa e exaustiva para propor regras e valores para o projecto de soluções construtivas que, pela dificuldade de concepção, eram até então pouco usadas em Portugal, e até mesmo na Europa.
Foi esse o caso das lajes armadas em cruz, isto é, com dupla armadura ortogonal (p. 1502), e também,
em especial, das lajes sem nervuras ou fungiformes, assim caracterizadas pela comissão (p. 1503):
[…] de origem americana, país em que são muito frequentemente empregadas, o que, apesar
das suas vantagens, não sucede na Europa, com excepção feita da Alemanha, que largamente as tem utilizado nos últimos tempos.
Perante esta exposição, podemos apresentar as seguintes conclusões relativamente à elaboração do RBA de 1935, na sua correspondência com alguns dos aspectos culturais e ideológicos que atrás isolámos:
• O articulado incorporou toda a evolução verificada em matéria regulamentar dos países mais
avançados, baseada tanto em ensaios laboratoriais alheios como nas melhores práticas da
época.
• Esse esforço de comparação com experiências internacionais não só foi expressamente
declarado em documentos oficiais, como foi considerado idóneo, adequado e aconselhável.
59 Hoje classificaríamos esta atitude com o anglicismo benchmarking, retirado do jargão das ciências
económicas. Apesar de não ter sido aplicado à gestão ou à administração de empresas, consideramos que o REB pode ser entendido como um caso de estudo do pioneirismo dessa prática em Portugal.
• Nada ficou deixado escrito que indicasse uma vontade ou uma necessidade de impor um modo nacional de resolver os problemas inerentes à tecnologia em causa.
• Os dois regulamentos apresentados como principal referência eram provenientes de países com regimes ideológicos distintos do português, e contraditórios entre si.
• O conjunto formado pelos restantes países correspondia a um leque ainda mais amplo de regimes representados.
Todas estas conclusões devem ser lidas à luz de outras anteriormente retiradas, relativas à grande
proximidade que os elementos da comissão tinham com o poder vigente. Por outro, devem também
ser tidas em conta sempre que se avalia o programa de obras públicas empreendidas pelo Estado
Novo, em especial as referentes ao período que estudamos, isto é, até à conclusão da Exposição do