5. STYRING
5.4 R ASJONALITET
Observamos o que poderíamos considerar como uma biografia passiva elaborada por pintores e gravadores, através das imagens com as quais representam a então Princesa do Brasil, futura Rainha de Portugal, todas remetendo para o facto de ela própria ser praticante da arte da pintura.
A prova material encontra-se nas colecções do Palácio Nacional da Ajuda. Isto é, uma pintura a óleo sobre tela, Figura Popular, pintada por D. Carlota Joaquina, em 1795, figura singular, retrato não idealizado, desenhado com um traço expressivo e seguro, a justificar as palavras que lhe dedicou Cyrillo Wolkmar Machado (1748-1823), quando afirmou “He bem sabido de todos o raríssimo talento que tem a Rainha a Senhora D. Carlota Joaquina, para as sciencias, e bellas Artes. Com poucas lições fez grandes progressos no desenho, e pintura de óleo, e de
70 pastel, e senão executou muitas obras desta natureza, foi porque empregava o tempo ainda melhor na excelente educação que soube dar às suas Augustas Filhas, que também aprenderão a desenhar […]”225.
Figura Popular, 1795, Palácio Nacional da Ajuda, inv. N.º 2930, óleo sobre tela. Autor — D. Carlota Joaquina de Bourbon. Esta é uma das várias pinturas que existiam no Palácio da Ajuda, da autoria de D. Carlota Joaquina. A atenção ao quotidiano que a rodeia revela-o a Princesa, enquanto artista, na pintura naturalista, de costumes, de um personagem popular226.
De acordo com Ayres de Carvalho227, encontravam-se ainda no Palácio da Ajuda outras pinturas da autoria de D. Carlota Joaquina, tendo ardido no incêndio da Galeria do Rei D. Luís, em 23 de Setembro de 1974, duas telas, “uma representando uma mulher do norte de Espanha, com “montera em forma de capacete pontiagudo” 228, “e outra pintada sobre chapa
225 WOLKMAR Machado, Cyrillo, Colecção de memorias relativas as vidas dos pintores, e escultores,
architectos, e gravadores portuguezes, e dos estrangeiros que estiverão em Portugal, recolhidas e ordenadas por Cyrillo Volkmar Machado […] Lisboa. Na Imp. de Victorino Rodrigues da Silva, 1823, p. 30. D. Carlota Joaquina tivera nove filhos sendo a primogénita a infanta D. Maria Teresa, nascida em 1793. Em 1795, nasceria o infante D. António, herdeiro do trono, que morreria menino, aos sete anos de idade. Seguir-se-iam D. Maria Isabel, em 1797, que seria rainha de Espanha, antes de uma morte prematura, ficando ainda assim ligada à criação de um Museu de Belas Artes de Madrid, D. Pedro, futuro Imperador do Brasil, a Infanta D. Maria Francisca, D. Isabel Maria, em 1801, que viria a ser regente por indicação de seu pai, D. Miguel, em 1802, aliado de sua mãe nas fileiras absolutistas, D. Maria da Assunção, em 1805 e D. Ana de Jesus Maria, em 1806.
226http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosConsultar.aspx?IdReg=991070. Consulta
online Janeiro de 2019.
227 CARVALHO, A. Ayres de, “A Galeria de Pintura da Ajuda e as Galerias do século XIX”, in Revista e
Boletim da Academia Nacional de Belas-Artes, Lisboa 1981, 3.ª Série n.º 3, p. 24.
71 de cobre com a figura de S. Francisco, as mãos cruzadas sobre o peito e assinado: D. Carlota Princeza do Brasil Pintou em 1796, Med.A. 0,41- L.0,34”229.
A abertura de espírito e curiosidade intectual que faziam D. Carlota Joaquina desdobrar-se em inúmeros interesses, da prática artística à leitura, ficou testemunhada na diversidade de livros que reuniu na sua Livraria, do coleccionismo científico, ao artístico que se traduziu na presença no seu “Gabinete” de pintura de uma pluralidade de géneros e temáticas, de épocas e estilos distintos, das Naturezas Mortas tão ao gosto da cultura espanhola de seiscentos, à pintura religiosa, reflexo da centralidade das práticas devocionais da Europa Católica de Antigo Regime, dos temas da mitologia clássica, caros à cultura iluminista, às paisagens a reflectirem um gosto pela natureza, tão de acordo com a cultura pré-romântica e romântica que se anunciava; dos pintores de épocas passadas, aos seus contemporâneos que apoiou enquanto monarca ilustrada.
A formação e educação que a Rainha de Portugal soube dar às suas filhas, a “excelente educação que soube dar às suas Augustas Filhas, que também aprenderão a desenhar […]”, enaltecida por Cyrillo e pelo embaixador de Espanha, reconhecem-na actualmente o meio académico e museológico espanhol, ao atribuir a sua filha D. Maria Isabel (1797-1818), Rainha consorte de Espanha, a iniciativa de reunir obras de arte das colecções régias de Espanha, para a formação de um Museu, que está na origem do Museu do Prado, em Madrid, de que actualmente se celebra o duplo centenário.
A imagem traçada por Cyrillo é, aliás, corroborada pelo Embaixador de Espanha, na corte do Rio de Janeiro, o 1.º Marquês de Casa Irujo, que vários autores citam230, o qual refere, em carta dirigida ao Governo de Espanha, datada de 1810, que D. Carlota “se impone com facilidade en los Negócios, los conoce, y gusta ocuparse de ellos, dedica diariamente varias horas al Gavinete, sin descuidar la educación de su numerosa família de que puede lhamarse la primera aya: tiene ideas corretas sobre assumptos cuyo conocimiento es poco común en su sexo y es religiosa sin superstición”.
229 PNA, inv.º 41456. Conforme Arrolamento do Palácio, esta pintura teria, em cima, à esquerda, uma
etiqueta com o n.º 391 e, à direita, uma outra com a inscrição: "1 lote de seis quadros". http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/objetos. Consulta online Março de 2019.
230 SARDINHA, António, Ao Princípio era o Verbo, Ensaios e Estudos, Livraria Portugália, Lisboa, 1924, p.
344; PEREIRA, Sara Marques, D. Carlota Joaquina Rainha de Portugal, Livros Horizonte, 2.ª edição, Lisboa, 2008, p. 31.
72 D. Maria Isabel de Bragança, Rainha de Espanha, como fundadora do Museu do Prado, Bernardo López Piquer, Madrid, 1829. Obra póstuma. Coleção Real, Museu do Prado, Madrid.Na ficha de catalogação do Museu pode ler- se: “Isabel de Braganza era aficionada a las bellas artes, practicaba la pintura, era académica de honor y consiliaria de la Real Academia de Bellas Artes de San Fernando, y mantuvo un gran interés en el proyecto de convertir el edificio de Juan de Villanueva, destinado en origen a albergar un Gabinete de Ciencias Naturales, en museo de arte. Pedro de Madrazo, en el catálogo de los cuadros del Real Museo de 1854, llega a decir que fue la reina quien sugirió la idea [al rey], por escitacion [sic] de algunos personajes aficionado a las nobles artes, y el Rey la acogió con verdadero entusiasmo. Con su mano izquierda señala unos planos extendidos sobre el velador de leones alados. […] aquí lo que está representado son alzados de las salas con la colocación de los cuadros. Seguramente hay que interpretar este detalle como testimonio de un interés bastante más que superficial de la reina por la museología del Prado. Desafortunadamente, no llegó a presenciar la inauguración del Museo, que tuvo lugar casi un año después de su prematuro fallecimiento” 231.
Assim, tanto as imagens literárias como as pictóricas, deixadas por contemporâneos, abrem o caminho para o questionamento do discurso historiográfico que os séculos XIX e XX elaboram sobre as personagens régias de D. Carlota Joaquina e D. João VI, derradeiras figuras reinantes do regime absolutista. O confronto entre aquelas imagens e o papel desempenhado por ambos, no campo da cultura, na sociedade portuguesa e brasileira, atestado nos seus actos, fazem de grande actualidade as palavras de Paulo Varela Gomes “Cremos que chegou a altura
231 Colecção Real, Museu do Prado, Madrid, nº cat. Pooo863.
https://www.museodelprado.es/coleccion/obra-de-arte/maria-isabel-de-braganza-como-fundadora- del-museo/a7a1a933-6dc5-4636-b963-224d42e77110?searchid=c5ebfa89-4913-c501-d6f4-
73 de reavaliar o papel de patrono desempenhado pelo Rei D. João VI (o mais retratado dos monarcas portugueses e não por acaso) e de indivíduos como Pina Manique, Alexandre e Sousa e Holstein e seu filho Pedro, 1º Duque de Palmela, o bispo do Algarve Gomes de Avelar [...], D. Rodrigo de Sousa Coutinho, D. João de Almeida Melo e Castro”232, entre outros que nomeia, curiosamente todos masculinos, confirmando a dupla dificuldade da abordagem ao universo feminino, ou ao papel das mulheres nestes domínios, que se desenvolviam, essencialmente, no domínio privado.
232 GOMES, Paulo Varela, “Correntes do Neoclacissismo Europeu na Pintura Portuguesa do século XVIII”,
Sep. do IV Simpósio Luso-Espanhol de História da Arte. Portugal e Espanha entre a Europa e Além-Mar, Instituto de História da Arte, Fac. Letras, Universidade Coimbra, 1988, p. 481.
74 VI — Do Brasil a Lisboa. Chegadas. O regresso a Casa