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K ONTAKT OG TILGANG

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2. METODE

2.2 K ONTAKT OG TILGANG

No entanto, noutras frentes os desequilíbrios aumentaram. Sob o ponto de vista do comércio externo, foi-se tornando cada vez mais difícil prosseguir a acção desenvolvida durante quase uma década – isto é, a estabilização e a blindagem da economia perante a pressão exterior. As assimetrias daqui

decorrentes foram determinantes para uma mudança de ciclo económico, social e cultural.

Tanto do lado da oferta como da procura, com efeitos benéficos ou negativos, a chamada “economia de guerra” expôs a situação portuguesa de um modo totalmente novo. António Louçã (2008, pp.

70-71) sintetiza assim as mudanças substanciais sofridas pela prática dos mecanismos comerciais bilaterais:

Em primeiro lugar, a preocupação de escoar a produção exportável foi substituída por essa outra, diametralmente oposta, de assegurar os stocks […]. A viragem repercutiu-se também

sobre os meios de pagamento: aumentou a avidez pelas matérias-primas importadas e o inte-

resse do importador em pagá-las com dinheiro ou com ouro. Para o exportador, pelo contrário,

havia todo o interesse em ser compensado em espécie.

38 José Ângelo Cottinelli Telmo: 1897, Lisboa – 1948, Cascais. Leopoldo Neves de Almeida: 1898 – 1975,

Na economia europeia isto traduziu-se na necessidade de operar uma compensação multilateral em mercadorias, uma vez que se tornou impossível prever o valor futuro das divisas. O que Portugal podia comprar a um outro país, por exemplo a Alemanha, dependia daquilo que lhe podia vender, e

vice-versa, num complexo jogo negocial. Trocava-se estanho por folha-de-flandres, folha-flandres por

conservas, conservas por estanho (Loução, p. 72). Ou, ainda, volfrâmio por aço.

Neste jogo, Portugal, como outros países neutros, viu-se na contingência de privar a sua própria popu- lação de bens e de produtos locais, habitualmente abundantes, para dar resposta à desmesurada procura por parte dos países beligerantes, que por eles se predispunham a realizar trocas desmesu- radamente vantajosas (Loução, p. 73). Em consequência, o preço interno desses bens aumentou e as

pressões inflacionistas foram, a partir daí, inevitáveis e constantes.

Toda esta situação económica criou ineludíveis efeitos subversivos, numa primeira fase de carácter

social mas, imediatamente a seguir, também políticos. Para Fernando Rosas (1992, p. 17), o início da guerra, após uma década de relativa estabilidade, veio confrontar o Estado Novo com a sua primeira crise séria. Obrigado a conter o crescimento dos salários como modo de aliviar a procura de bens

essenciais, o regime viu-se a braços, a partir de 1940, com um aumento de reivindicações populares,

as quais, por sua vez, foram conferir novo fôlego à possibilidade de uma oposição efectiva (Oliveira,

1992, p. 44).

Ora, por essa altura, a oposição que se encontrava organizada era a do PCP. Dissemos atrás que este partido tinha sido capaz de se reerguer para marcar a actividade política portuguesa. Na realidade, o que aconteceu foi um pouco mais complexo do que isso, uma vez que o PCP foi totalmente refundado, justamente em 1940 (Madeira J., 2008a, pp. 78-87). 39

Foi este novo PCP que pôde tirar vantagem da nova situação. Com a oposição de extrema-direita

exilada ou assimilada pela situação, sem a concorrência de anarco-sindicalistas ou de socialistas, na ausência de uma oposição democrática estruturada, os comunistas conseguiram alargar a sua base

de implantação, tanto em termos geográficos como sociais, logrando fomentar, a partir de 1941, um

surto de greves de relativa importância (Oliveira, 1992, p. 44).

Para este alargamento de bases muito contribuiu a equiparação da situação internacional àquela

vivida em Portugal. Nos países invadidos ou anexados pela Alemanha, resistir ao ocupante significava

ser-se antifascista, ou seja, ser-se contrário a um regime que, com razão ou sem ela, com relativa facilidade se conseguia fazer equiparar ao salazarismo.

Recordemos que o antifascismo, enquanto ideologia autónoma e terminologia política, surgiu no VII Congresso do Komintern, ou Internacional Socialista, em Julho de 1935, no qual se proclamou a necessidade de favorecer as alianças de “frente popular” para lutar contra o avanço da direita na Europa. Em Portugal, na ausência ou na relutância de outros grupos para formar qualquer frente, o PCP viu-se protagonista solitário dessa missão.

39 Não cabe aqui esboçar a história atribulada desta refundação, operada em conflito violento com o ante-

rior PCP, mas interessa assinalar que, após a sua saída da prisão em Novembro desse ano, Álvaro Cunhal (1913, Coimbra – 2005, Lisboa) abandonou o antigo partido para aderir ao novo. É deste partido refundado que Cunhal virá a ser dirigente – seguramente o mais importante de sempre – a partir do Congresso de Novembro de 1943 (Madeira p. 87).

A tarefa de resistência ao regime por parte dos comunistas tornou-se ainda mais prestigiada quando,

em Junho de 1941, ao arrepio do pacto Molotov-Ribbentrop, a Alemanha invadiu a União Soviética.

Com esta estratégia, a Alemanha não só abriu uma nova frente de combate para leste, como, indirec-

tamente, encaminhou a União Soviética para uma coligação contranatura com as potências aliadas.

Este novo vínculo de Estaline 40 com países que lhe seriam adversos, porque representantes de visões políticas democráticas e parlamentares, conseguiu granjear para o PCP uma simpatia que de outro

modo podia não ter conseguido (Oliveira, p. cit.). A guerra, no espírito de muitos, passou a figurar-se como um conflito entre ditadura cobarde e agressora, de um lado, e democracia heróica e resistente, do outro. Nesta dicotomia, e por muito tempo ainda, a União Soviética e o PCP ficaram representados

do lado da democracia.

Reforcemos que, de resto, a população portuguesa não precisava de muitos argumentos para tomar partido, uma vez que tinha perante os seus olhos a evidência dos resultados da política de agressão

nacionalista de Hitler. Nas cidades e vilas fronteiriças, no Porto e em especial em Lisboa, os portu-

gueses confrontavam-se com a presença de milhares de refugiados europeus, muitos deles portadores

dos vistos que vários diplomatas portugueses, incluindo o cônsul Aristides de Sousa Mendes, 41 lhes

haviam passado, ao arrepio das indicações oficiais do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Para além das consequências económicas e sociais da guerra, uma outra circunstância totalmente fortuita contribuiu para a luta subversiva, pelos reflexos que teve na deterioração do quotidiano das

populações portuguesas e, consequentemente, na generalização do sentimento de insatisfação: em 1940, as condições meteorológicas determinaram que os resultados agrícolas tivessem sido os piores dos anteriores cinco anos, pelo menos. Depois de um Verão de más colheitas, seguiu-se um Inverno particularmente intenso e extremo, o que agravou as precárias condições dos assalariados agrícolas (Madeira J. , 2008b, p. 110).

Um violento temporal desse mesmo Inverno extremo foi o responsável pelo afundamento da nau

Portugal, elemento integrante da Exposição do Mundo Português. Assim se encerrou, em Dezembro

de 1940, um certame cujo significado de baliza cultural queremos agora sublinhar, em traços genéricos.

Para isso, optámos por ouvir as palavras do discurso do comissário geral da Exposição, Augusto de Castro, 42 tal como transcritas por Ramos do Ó (1992, p. 435):

O certame é o resultado de um facto moral que se pode resumir neste milagre: a ressurreição da fé colectiva, num país que já a tinha perdido. Como tal, esta Exposição, mais do que uma criação simbólica de amadores, de artistas, de obreiros, é um facto político.

Com esta frase, Augusto de Castro sublinhou tanto a dimensão moral e social do evento, como

também a sua profunda implicação ideológica. Imediatamente a seguir, deu a sua explicação para a

razão de ser destas implicações:

40 Josef Vissarionovitch Stalin, nascido Iossif Vissarionovitch Djugashvil: 1879, Gori, Geórgia – 1953,

Moscovo, Rússia, então URSS.

41 Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches: 1885, Cabanas de Viriato – 1954, Lisboa. 42 Augusto de Castro Sampaio Corte-Real: 1883, Porto – 1971, Estoril.

Há aqui dentro um Portugal Novo, que se encontra reconciliado e aproximado, numa aspiração

ideal, como o Portugal Velho.

O facto moral e o político era então esse acordo social, cultural e estético, essa “reconciliação de alma” entre os dois países – o velho e o novo – que, desde os inícios do séc. XX, vinham coabitando

em Portugal:

Dessa reconciliação de alma deriva, pode dizer-se, o próprio estilo plástico da Exposição: fusão de motivos modernos e de hierática presença da tradição histórica e arquitectónica do Passado. Portugal não procura apenas reviver: procura viver.

Ora, as ressonâncias políticas dessa reconciliação tinham, para Augusto de Castro, um único respon- sável e um único protagonista:

V. Exª [Salazar] ensinou o caminho. Os realizadores da Exposição procuraram a fórmula arqui-

tectónica e estética.

Esse responsável era alguém que ensinava. Neste caso, ensinava um caminho. Era, por isso, um

professor de quem “os realizadores da Exposição” aprendiam lições e, de seguida, lhes davam tradução tangível, pela aplicação de uma fórmula.

Optámos pela transcrição directa das palavras de Augusto de Castro, porque consideramos que elas podem ser tomadas, com apenas algumas reservas, pelo seu valor facial. Ressalvando eventuais “milagres” ou “ressurreições”, parece-nos que o certame marca o justo momento em que não só

parecia que Salazar tinha o “país a seus pés”, mas também que várias das facções estéticas portu-

guesas – as quais, recordemo-lo, vinham litigando desde o início do século – pisavam, finalmente, um

terreno comum de entendimento.

Acreditamos também que, se não fosse a guerra, o estilo encontrado na Exposição viria a desenvolver-

se e a cristalizar-se em algo muito parecido com aquilo que Keil do Amaral 43 tanto admirara na

Holanda: um acordo entre artistas modernos e tradicionais, e, mais do que isso entre artistas, popu-

lação e poder.

Para confirmarmos esta nossa convicção, intercalamos aqui um breve parágrafo, para nos apoiarmos

por instantes na observação das obras que o próprio Keil realizou durante a década de 40: a aero-

gare do aeroporto de Lisboa, de 1942; o restaurante e a piscina infantil do Campo Grande, de 1945;

o clube de ténis e o restaurante de Montes Claros, de 1950. Em todos estes projectos, Keil procurou, com elegância e maturidade mas sem compromissos tíbios, uma arquitectura que se nos afigura tão

devedora de uma modernidade como de um enraizamento.

No entanto, em 1940, quando Augusto de Castro contemplava a Exposição, olhava para uma solução

de um problema colocado na década de 30: os desafios ideológicos, culturais e tecnológicos inerentes

ao acordo entre “Portugal Novo” e “Portugal Velho”. Este era um problema de antes da guerra, o qual, como já percebemos e adiante reforçaremos, podia ser resolvido, ou pelo menos apaziguado, com obras públicas.

O cavar da guerra fez emergir um novo conflito social. Já não se tratava do desacerto existente entre o Portugal novo e o Portugal velho, ou, como enunciara Almada Negreiros em 1926, “o conflito entre

a nossa terra e a época em que viemos a este mundo” 44. O problema, mais grave ainda, estava no

enunciado dialéctico da luta entre um Portugal rico – ou meramente remediado – e um Portugal pobre – ou antes, profundamente indigente. Para este conflito, resolver a expressão dos edifícios não era já solução suficiente.

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