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3. THE DECLINE OF NEUTRALITY

3.3 T HE AFTERMATH

Alguns autores alegam a inexistência de qualquer justificação para que, durante anos,

se tivesse mantido no esquecimento a primeira Comissão Geológica de Portugal,13

reprovando-se inclusivamente a realização da comemoração do primeiro centenário dos Serviços Geológicos em 1957, data que celebrou a criação da Comissão que sucedera à

criada em 1848.14 Todavia, a Comissão presidida por Bonnet não constituiu um “ciclo de

acumulação” no que respeita à investigação geológica efectuada no país, tendo os seus sucessores de iniciar um novo “ciclo” por não terem conseguido beneficiar do trabalho anteriormente executado. A sua referência fica-se simplesmente pela importância de ter sido

uma das mais antigas Comissões Geológicas criadas na Europa15 e por a falência do seu

modelo ter constituído o factor determinante para a reforma de toda a estrutura organizativa, factor que conduz à alteração da metodologia empregue no processo de reconhecimento do território.

A Comissão a que Bonnet presidiu não contribuiu para a construção de um legado científico capaz de servir de base a futuros investigadores. Depois de Bonnet ter apresentado o estudo sobre a região do Algarve, trabalho que efectuou num período anterior

11 J. Carríngton da Costa, “Aspectos da evolução dos serviços encarregados do estudo geológico de Portugal”,

Memórias da Academia das Ciências de Lisboa — Classe de Ciências, 5 (1950), 291-302 (302).

12 Em 1859, quando uma portaria do governo autorizou o início dos trabalhos da carta geográfica na escala de 1:500 000, com um levantamento geodésico mais avançado que em 1849, a elaboração deste mapa demoraria cerca de 6 anos até à sua publicação. Portaria de 5 de Maio de 1859, Diario do Governo, 107, 9de Maio de 1859.

13

Carríngton da Costa, op. cit. (11), p. 301; Telles Antunes, “Sobre a história do ensino da geologia em Portugal”,

Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal, 75 (1989), pp. 127-169 (144).

14

Ver por exemplo, Telles Antunes, op. cit. (13), p. 144.

à criação da Comissão Geológica e Mineralógica, nada mais foi publicado. Desde a sua nomeação em 1848 até 1855, Bonnet não fez mais do que completar algum do trabalho que tinha iniciado ainda antes de ser eleito presidente da Comissão. Pode assim dizer-se que o levantamento geológico foi praticamente abandonado depois do primeiro ano de actividade da Comissão, dando simplesmente lugar a alguns trabalhos estatísticos e topográficos.

Por outro lado, tal como foi anteriormente referido, Bonnet impediu também que a Academia das Ciências se constituísse no “centro de cálculo” dos trabalhos geológicos por não permitir que fosse o local de referência onde deveriam ser classificados os exemplares coligidos, ou aí depositado outro material resultante do trabalho que ia sendo desenvolvido. Manteve sempre em seu poder os espécimes coligidos durante as suas digressões, que eram, diga-se em abono da verdade, pertença do Estado por terem sido recolhidos durante

o serviço da Comissão,16 assim como mapas, limitando-se simplesmente a enviar,

esporadicamente, relatórios muito sumários sobre a sua actividade. Todo o material só seria entregue depois de uma ordem expressa do governo quando foi criada a nova Comissão responsável pelo levantamento geológico do país, em 1857.17

No entanto, para construir um verdadeiro “ciclo de acumulação” não basta acumular dados num determinado local, sendo essencial a execução de um trabalho adicional no “centro de cálculo”. Depois de efectuado o levantamento geológico e a recolha de exemplares, deveria proceder-se ao tratamento da informação coligida e à classificação dos espécimes, de forma optimizar um plano para futuras investigações que deveria culminar com a elaboração de mapas geológicos. Porém, as colecções que se encontravam em poder de Bonnet, mais tarde remetidas à secção de minas do MOPCI, não se encontravam

bem classificadas conforme atestaram Carlos Ribeiro e Isidoro Emílio Baptista.18 Na

verdade, para que Bonnet pudesse ter classificado convenientemente as colecções recolhidas no território nacional teria sido fundamental a existência de colecções de referência. Não fora, contudo, prevista a compra de colecções de referência estrangeiras facto que, na prática, impedia a determinação da idade relativa das formações existentes no território de Portugal continental, bem como qualquer comparação entre a fauna fóssil dos terrenos bem caracterizados dos outros países com as dos terrenos do território português. Esta situação é algo incompreensível, já que era prática corrente dos geólogos, desde a

16 Com os exemplares recolhidos nas suas digressões Bonnet realizou uma exposição em Lisboa no ano de 1850. De acordo com o que está referido, as colecções continham apenas exemplares mineralógicos. Ofício de Rodrigo da Fonseca de Magalhães, dirigido ao Ministro das Obras Públicas, 4 de Junho de 1853, ANTT, Ministério do Reino, loc. cit. (4).

17

Ofício de Filipe Folque dirigido a Charles Bonnet, 9 de Agosto de 1858, AHIGP, Livro 3 “Registro dos officios remettidos aos ministerios e auctoridades desde Outubro de 1852 a Junho de 1865”.

18

Carlos Ribeiro, na sessão da classe de Ciências de 19 de Março de 1855, informava que depois de um exame conjunto com Isidoro Emílio Baptista não considerara bem classificadas as colecções entregues por Bonnet. Como tal, desaconselhou o governo a participar com tais exemplares na Exposição Universal de Paris, que iria ser realizada naquele ano. Luiz Acciaiuoli, “A Academia Real das Sciencias e a Comissão dos Trabalhos

segunda década do século XIX, complementar, sempre que possível, o estudo sequencial das camadas com o conteúdo paleontológico das mesmas. Poder-se-á simplesmente conjecturar que Bonnet tencionava classificar as formações unicamente com base nas características litológicas das rochas, tal como já o fizera aquando da sua primeira viagem pelo Algarve conforme vem expresso na memória que redigiu.19

Também não foi promovido o contacto com outros cientistas estrangeiros e organizações científicas com objectivos semelhantes aos da Comissão Geológica e Mineralógica, fosse no decreto que concebeu a Comissão, fosse nas instruções fornecidas pelos membros da Academia das Ciências, ou mesmo da parte do director da instituição responsável pelo levantamento geológico de Portugal continental. O estabelecimento de relações a este nível seria fundamental, tanto para acreditar o trabalho que fosse sendo realizado, quanto para permitir a consulta de peritos nas diversas especialidades científicas envolvidas. Neste campo, quer a posição de Bonnet, quer a da própria Academia das Ciências, demonstram a intenção de realizar um levantamento apenas para “consumo interno” o qual, a ser concretizado, representaria um trabalho isolado com pouca projecção científica a nível internacional e uma contribuição limitada para o conhecimento geológico.

Com a sua prestação, a Comissão de Bonnet não contribuiu assim para acumular dados num dado “centro” e gerar um “ciclo de acumulação” porque, além dos restantes factores já apontados, esta não chegou a funcionar como fora inicialmente estipulado. Entre o trabalho apresentado apenas se pode enunciar a recolha de alguns dados estatísticos, a elaboração de alguns mapas incompletos que foram entregues aos Serviços Geodésicos e do mapa anteriormente publicado na escala de 1:833 333, não tendo sido praticamente nada realizado a nível do levantamento geológico enquanto Bonnet foi director da Comissão. A completa ausência de um processamento de dados capaz de desencadear “ciclos de acumulação” e acelerar o conhecimento geológico sobre o país, obrigaria assim a organização que viria a substituir a presidida por Bonnet a iniciar um novo “ciclo”, uma vez que os trabalhos da precedente não resultaram em conhecimento acumulativo reutilizável.

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