2. BRITAIN AND NORWAY FROM THE EVE TO THE OUTBREAK OF THE SECOND WORLD WAR
2.2 G ERMANY , IRON ORE AND NEUTRAL N ORWAY
O relatório da Comissão encarregada de avaliar o projecto elaborado por Isidoro Emílio Baptista iria constituir a estrutura basilar da Comissão Geológica criada em 1857, que romperia totalmente com o modelo de organização adoptado para a Comissão Geológica e Mineralógica.
A Commissão Geologica do Reino (CGR)114 foi criada a 8 de Agosto de 1857 no
quadro do MOPCI.115 Conforme referiu o Ministro das Obras Públicas, Carlos Bento da
Silva116 (1812-1891), a ratificação do decreto da sua criação deveu-se ao parecer da
Comissão incumbida da avaliação do projecto de Isidoro Emílio Baptista entregue a 29 de
Setembro de 1856.117 Era deste modo oficialmente lançada uma estrutura inteiramente
montada sob a alçada do Estado, sendo um dos seus principais objectivos a elaboração do mapa geológico de Portugal continental.
Segundo o diploma criador, a Comissão Geológica seria composta por uma Direcção Central constituída por dois membros, estando ainda prevista a contratação de quatro ou mais adjuntos consoante o desenvolvimento e andamento dos trabalhos de levantamento. À Direcção Central competiria estabelecer a planificação geral de operações e a coordenação de trabalhos parciais para a elaboração da carta geológica, podendo para tal realizar-se as viagens necessárias ao território a explorar.118 Durante as digressões, seriam fornecidas aos
que nelas participassem indicações e instruções, para se poderem articular num mesmo sistema todos os estudos parciais que fossem sendo sucessivamente realizados dentro do
plano geral estabelecido.119 O mesmo decreto fundador da Comissão Geológica previu
ainda que esta instituição fosse inserida na Direcção Geral dos Trabalhos Geodesicos
113 Ibid.
114 No texto irá designar-se também, por vezes, por Comissão Geológica ou apenas Comissão. 115
Decreto de 8de Agosto de 1857, Diario do Governo, 207, 3 de Setembro de 1857, pp. 1168-1169. Ver também o Boletim do Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, 9 (1857), 305-307, e AHMOP, “Livro de Decretos (1855-1858)”, pp. 276-277.
116 Carlos Bento da Silva foi Ministro das Obras Públicas no período de 14 de Março de 1857 a 16 de Março de 1859. Ministério das Obras Públicas 1852/1877, Lisboa, 1877, p. 77.
117 Recorde-se que a criação desta Comissão tinha já sido prevista no diploma de 30 de Dezembro de 1852, devendo ter a seu cargo a rectificação de dados existentes e das cartas monográficas dos distritos, e elaborar uma carta geológica do país. Parágrafo 3º, do artigo 2º, capítulo II, do decreto de 30 de Dezembro de 1852,
Boletim do Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, 1 (1854), 7-48 (12); preâmbulo do decreto de 8
de Agosto de 1857, Diario do Governo, 207, 3 de Setembro de 1857, p. 1168.
118 Artigos 1º e 2º do decreto de 8de Agosto de 1857, Boletim do Ministério das Obras Públicas, Comércio e
Indústria, 9 (1857), 305-307 (305).
Corographicos, Hydrographicos e Geologicos do Reino120 (DGTGCHGR), constituindo a
quarta secção daquele organismo. O director dos Serviços Geodésicos seria o único responsável pela administração da CGR e pelo estabelecimento de relações com o governo, cabendo-lhe ainda a obrigação de informar regularmente o executivo sobre o andamento dos trabalhos geológicos. Contudo, a nível científico, a CGR gozaria de total independência perante a instituição tutelar, podendo corresponder-se livremente com instituições científicas nacionais e estrangeiras, bem como com os inspectores e engenheiros de minas ao serviço
do Estado.121 Para membros directores foram nomeados Carlos Ribeiro, que cursara na
Academia Real de Marinha, na da Fortificação, Artilharia e Desenho, mais tarde na Escola do Exército sua sucedânea pela reforma de 1837, e na Academia Politécnica do Porto, na altura capitão de artilharia e chefe da secção de Minas no Ministério das Obras Publicas;122
e Francisco António Pereira da Costa, formado nas Faculdades de Medicina e Filosofia da Universidade de Coimbra, professor da 7ª cadeira — Mineralogia, geologia, e principios de metalurgia — da Escola Politécnica de Lisboa, desde Abril de 1840.123 Segundo Delgado,
Carlos Bento da Silva pretendia apenas nomear um director da Comissão, Ribeiro, mas como este geólogo não quis prescindir do auxílio de Costa nem ser colocado numa categoria superior à do professor da Escola Politécnica, sugeriu ao Ministro das Obras Públicas que tivessem ambos cargos idênticos.124 Para adjunto, foi proposto pela direcção o
alferes de infantaria Joaquim Filipe Nery da Encarnação Delgado (1835-1908), então empregado nos trabalhos hidrográficos do Mondego.125
Quanto aos vencimentos dos funcionários da CGR foi estipulado que deveriam auferir quantia idêntica à que lhes era abonada aquando da sua nomeação. Para os directores do referido organismo seria ainda acrescida uma gratificação anual, a qual não poderia exceder
o valor de 560$000 réis líquidos depois das respectivas deduções.126 Para verba da
120 A antiga Commissão dos Trabalhos Geodésicos, Cadastraes e Topographicos do Reino, passaria a denominar-se Direcção Geral dos Trabalhos Geodesicos Chorographicos, Hydrographicos do Reino, desde que Folque reconhecera a necessidade de ser criada uma secção para os trabalhos hidrográficos (relatório de 2 de Agosto de 1853 enviado ao Conselho de Obras Públicas e Minas, a par dos relatórios de Junho e Julho enviados por Sir John Rennie). Aquela instituição seria então dividida em três secções, sendo a primeira a secção geodésica, a segunda a secção corográfica e a terceira a secção hidrográfica. Ofício de Filipe Folque dirigido ao Ministro das Obras Públicas (Marquês de Loulé), 10 de Novembro de 1856, AHIGP, Livro 4 “Registro dos officios remettidos ao Ministerio das Obras Publicas desde Novembro de 1852 a Março de 1865”. Mais tarde, com a criação da Comissão dos trabalhos geológicos seria ainda criada uma quarta secção, sendo aquele organismo rebaptizado como Direcção Geral dos Trabalhos Geodesicos Chorographicos, Hydrographicos e Geologicos do
Reino.
121
Artigo 5º do decreto de 8de Agosto de 1857, op. cit. (118), p. 306.
122 Decreto de 8 de Agosto de 1857, op. cit. (118), p. 306. Ver também AHMOP, “Livro de Decretos (1855-1858)”, folha 279; o ofício do MOPCI, 2 de Setembro de 1857, AHIGM, Armário 3, Prateleira 1, Maço 28, Pasta 15. 123 Ibid. Ver também o ofício do MOPCI, 2 de Setembro de 1857, AHIGM, loc. cit. (122).
124
Nery Delgado, op. cit. (19), p. 16. 125
Ofício de Filipe Folque ao Ministro das Obras Públicas, Carlos Bento da Silva, 9 de Agosto de 1858, e o ofício da DGTGCHGR, dirigido ao Ministro das Obras Públicas, 22 de Setembro de 1857, AHIGP, loc. cit. (120).Ver também ofício da DGTGCHGR dirigido ao Ministro das Obras Públicas, 5 de Setembro de 1857, AHIGP, Livro de “Registro de correspondencia referida á Secção Geologica desde Setembro de 1857 a Novembro de 1865”. 126
Artigos 6º e 7º do decreto de 8de Agosto de 1857, op. cit. (118), p. 306. Nos livros de contas da Comissão Geológica foi apurado que Ribeiro e Costa auferiam um vencimento de 46$666 réis mensais, uma ajuda de custo
Comissão o governo concederia, de acordo com o orçamento votado para aquele ano, 10 contos de réis para as despesas com pessoal e material.127
Com a instalação legal da Comissão Geológica a 5 de Setembro de 1857 o governo passava a dispor de dois organismos responsáveis pelo levantamento geológico do país, pois a Comissão presidida por Charles Bonnet só viria a ser exonerada a 4 de Maio de 1858.128 Esta situação, algo incompreensível, talvez se possa explicar pela necessidade de
aguardar que o prazo concedido a Bonnet para a conclusão dos seus trabalhos expirasse, e assim evitar ao máximo a perda do investimento do Estado português na Comissão Geológica e Mineralógica. Após a demissão de Bonnet, o governo exige a entrega à DGTGCHGR de todos os trabalhos executados ao serviço da Comissão para que fora nomeado. Todavia, três meses volvidos, Bonnet comunicava a Filipe Folque que parte do seu trabalho tinha já sido remetido, anos antes, a diversas organizações estatais, referindo em particular os trabalhos estatísticos executados à margem do estipulado pelo decreto de 2
de Maio de 1849.129 Quanto ao trabalho geológico, Bonnet alegava que este já se
encontrava em poder da secção de Minas do MOPCI, o qual se resumia a uma colecção composta de diversos exemplares recolhidos durante as suas digressões ao sul do país. Desta colecção tinha já sido elaborado um catálogo, intitulado Relação dos exemplares de geologia, que entregou o Engenheiro Carlos Bonnet em virtude da portaria de 4 de Maio de 1858.130 No ofício dirigido a Folque em Agosto de 1858, Bonnet acrescentava ainda que
durante o exercício da sua actividade na Comissão Geológica e Mineralógica entregara aos Ministérios do Reino e das Obras Públicas vários trabalhos corográficos da região sul de
Portugal continental, encontrando-se entre eles o mapa na escala de 1:833 333,131 já
publicado, e diversos relatórios acompanhados dos respectivos gráficos. No final da sua exposição Bonnet concluía, simplesmente, que apenas lhe competia enviar ao governo os trabalhos que estava a finalizar quando recebeu o decreto da sua exoneração. Citava como
de 4$500 réis diários, sendo o vencimento de Nery Delgado de 45$833 réis mensais, e a sua ajuda de custo era metade da dos membros directores (2$250 réis). Ver AHIGP, Livro “Contas”. Era atribuído a Delgado, para despesas de forragem, 260 réis mensais. Contudo deveria entregar os respectivos recibos de despesa à DGTGCHGR. Ofício da DGTGCHGR, 26 de Outubro de 1857, AHIGP, Livro “Registro da correspondencia referida á Secção Geologica desde Setembro de 1857 a Novembro de 1865”. Refira-se que os elementos da Comissão recebiam o ordenado pelo ministério a que pertenciam como até então, mas era-lhes atribuída ainda a gratificação indicada por passarem a estar ao serviço da Comissão Geológica.
127
Artigo 8º do decreto de 8de Agosto de 1857, op. cit. (118), p. 306; ofício da DGTGCHGR dirigido ao Ministro das Obras Públicas, Carlos Bento da Silva, 27 de Setembro de 1857, AHIGP, Livro de “Registro de correspondencia referida á Secção Geologica desde Setembro de 1857 a Novembro de 1865”.
128 Decreto de 4 de Maio de 1858, AHMOP, “Livro de Decretos (1855-1858)”, folha 322. Ver também a Portaria de 7 de Maio de 1858, AHMOP, folha 25 do “Livro 3º de Portarias (2 de Janeiro de 1858 a 24 de Agosto de 1860)”.
129
Ofício de 2 de Agosto de 1858. Ofício Filipe Folque dirigido a Charles Bonnet, 9 de Agosto de 1858, AHIGP, Livro 3 “Registro dos officios remettidos aos ministerios e auctoridades desde Outubro de 1852 a Junho de 1865”.
130
Ofício de Filipe Folque dirigido ao Ministro das Obras Públicas (Carlos Bento da Silva), 9 de Agosto de 1858, AHIGP, loc. cit. (120). Não se conseguiu identificar o paradeiro deste catálogo, não sendo portanto possível especificar quais os exemplares que faziam parte desta relação.
exemplo, um mapa na escala de 1:200 000 baseado nas triangulações de Ciera também respeitante à zona sul do país, que não tinha sido ultimado mais cedo por tais dados não lhe merecerem confiança. Este mapa tinha sido totalmente reformulado por si, agora com base nas triangulações da Comissão Geodésica bem como noutras triangulações que ele próprio teria efectuado entre Beja e o Cabo de Santa Maria.132 Assim, de acordo com Filipe Folque,
o material entregue por Bonnet à DGTGCHGR resumia-se à relação abaixo indicada:133
• relação dos exemplares de geologia;
• mapa A do Alentejo e Algarve (sobre pano oleado), não ultimado, organizado sobre a triangulação de Ciera, contendo um grande número de vertentes e algumas estradas do Algarve mas sem a menor configuração;
• mapa B de triangulações, a que Bonnet chamava de 1ª e 2ª ordens, executada entre
os paralelos de Beja e o Cabo de Santa Maria, entre os meridianos da Ermida de S. Domingos e da Igreja de Pereiro, baseada sobre o triângulo Aljustrel, Beja e Alcaria, o qual fora fornecido, por aproximação, pela Comissão Geodésica;
• mapa C de triangulações de 3ª ordem e ordens inferiores executadas desde Beja ao
Cabo de Santa Maria, baseado na triangulação do mapa B;
• mapa D de todos os pontos determinados nos mapas B e C e de outros pontos
colocados nas suas verdadeiras posições com o traçado da projecção de Flamesteed134;
• mapa E dos pontos determinados pela triangulação em grande parte da região do
Algarve contendo um elevado número de pontos de detalhe.
Depois de receber o material Folque refere que continuava a aguardar pelo envio do último mapa constante da relação, do qual tinha apenas recebido algumas das triangulações
que lhe serviram de base.135 Se este mapa alguma vez chegou a ser entregue não se
conseguiu apurar136 mas é certo que Bonnet acabou por protelar, uma vez mais, o prazo
estabelecido para a entrega dos trabalhos realizados ao serviço da Comissão Geológica e Mineralógica.
132 Ofício de Filipe Folque dirigido a Charles Bonnet, 9 de Agosto de 1858, op. cit. (129). 133
Segundo Folque, foi Carlos Ribeiro quem serviu de intermediário entre Bonnet e a DGTGCHGR, para a entrega dos trabalhos do engenheiro francês. Ofício de Filipe Folque dirigido a Charles Bonnet, op. cit. (129). 134
John Flamsteed (1646-1719), inventou a projecção cónica, a projecção de uma esfera num plano muito usada em cartografia. http://www-history.mcs.st-andrews.ac.uk/Mathematicians/Flamsteed.html.
Um exemplo da dedução da projecção de Sanson-Flameesteed pode ser consultada no endereço
http://www.progonos.com/furuti/MapProj/Normal/CartHow/HowSanson/howSanson.html
135
Folque refere ainda que as folhas do mapa entregue por Bonnet exibiam unicamente um elevado número de pontos de detalhe para a parte ocidental do Algarve. Ofício de Filipe Folque dirigido a Charles Bonnet, op. cit. (129).
136
De todos os arquivos pesquisados, não foi até à data encontrado qualquer documento oficial que comprovasse a entrega deste mapa, pelo que nada pode ser certificado neste sentido.