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Em uma definição empírica o processo de informar pode ser “a transmissão de um saber, com a ajuda de uma determinada linguagem, por alguém que o possui a alguém que se presume não possuí-lo” (CHARAUDEAU, 2006, p33). Considerando que a informação implica um processo de produção de discurso em situação de comunicação (CHARAUDEAU 2006, p34), a mídia pode estabelecer formas de construir tais informações. Nessa modalidade de comunicação, essa construção é definida a partir de uma ‘fonte de informação’ – o fato capturado através da observação direta dos produtores da notícia ou através de relatos de terceiros –, mediada por uma instância de transmissão que busca atingir receptores. A escolha das fontes de informação por parte dos veículos é ideológica, seguindo critérios conforme relatam Herman & Chomsky (2003) ou mesmo buscando seguir diretrizes utilitaristas ou deontológicas (BUCCI, 2000) conforme exposto anteriormente. Pela perspectiva do receptor, aspectos pertinentes a serem considerados em relação à fonte e sua ‘validade’ – ter consistência a partir de uma dada ideologia, relativa ao receptor – que são levantados por Charaudeau (2006, p37) são: a autenticidade (se é existencialmente verdadeiro), verossimilhança (se é possivelmente verdadeiro) e pertinência (a hierarquização dos temas). Tal análise dá consistência à idéia de que a coesão do texto da notícia é analisada sob o prisma das possibilidades ideológicas do receptor.
Nesse contexto a instância de produção das notícias lança mão de estratégias de discurso que buscam representar os fatos de forma ‘verdadeira’, ‘verossímil’ e ‘pertinente’. Dessa prerrogativa é que se produzem textos que aqui chamamos de notícias. Tais textos se caracterizam por apresentar o discurso
‘informativo’. Assim há a prerrogativa de que o emissor, o veículo de comunicação, possui uma informação que o receptor ignora. Essa situação dá ao veículo uma condição que Charaudeau chama de ‘organismo especializado’ que “tem a vocação de responder a uma demanda social por dever de democracia” (CHARAUDEAU 2006, p.58). Contrariando essa prerrogativa, a lógica comercial à qual essas organizações se gestam, esvanece a possibilidade de idealizar tal condição democrática às informações propagadas nos veículos. A busca pela notoriedade, audiência, vendagem, ou a forma pela qual o veículo atrai o público, assim como outros interesses dos veículos, prejudica a isenção ideológica da informação, conforme já justificado anteriormente através da teoria dos filtros (HERMAN; CHOMSKY, 2003). Contudo, o processo de produção e transmissão da informação realizado pelos veículos de comunicação deveria elaborar as notícias com a máxima objetividade, descrevendo o fato de forma isenta. Tal forma é o que Charaudeau chama de discurso ‘informativo’. No entanto, há outros discursos presentes nos veículos. Outras formas textuais que podem transmitir informação e passiveis de serem confundidas com o texto informativo são: o discurso ‘propagandista’, o ‘científico’ e o ‘didático’ (CHARAUDEAU, 2006). Tais discursos são comumente encontrados em textos dos veículos de comunicação. Informativos quando o texto se limita a transmitir um fato com grande objetividade. É a característica central nos discursos dos veículos de comunicação. O discurso propagandistico ocorre quando se agrega idéias que estimulam ações. A publicidade e aqueles que abordam a política têm essa característica. Discursos científicos quando relatam conhecimentos científicos ou trazem a análise científica de um fato do mundo natural ou social. Ocorre ainda a apropriação da linguagem científica nesses textos. Didático quando estabelecem relações com o aprendizado de conceitos expostos.
A ocorrência de múltiplos discursos, o uso isolado ou híbrido desses discursos são facilmente constatados como veremos nos resultados do presente trabalho. A motivação de múltiplos discursos nos jornais pode estar vinculado com a força do discurso – como explicado anteriormente, sintetizado aqui como a parte do sentido do texto que define o ato, promessas, ordens, apelos, etc. A partir da intenção do autor do texto ou do jornal, o uso de um ou mais tipos de discursos pode ser motivado pela busca deste pela consistência à intenção do texto. Por exemplo, na escolha do uso do discurso científico, as argumentações com fatos científicos e
mesmo através do emprego de termos científicos sugerem evidências qualificadas supostamente qualificadas pelos conhecimentos científicos sobre o ponto de vista exposto em um determinado texto.
É coerente afirmar que, atualmente, o discurso científico tem um grande apelo de verdade quando se trata de estabelecer argumentos relevantes para o convencimento do leitor em questões relativas ao aquecimento global e outras questões ambientais.
Quando os discursos se misturam, pode-se encontrar o fenômeno da interdiscursividade. Ou seja, a constituição de um texto a partir de discurso e gêneros diversos. Também chamada de ‘Intertextualidade constitutiva’ pelo uso de ‘convenções discursivas’ na produção de textos (FAIRCLOUGH 2001, p.136). Essa possibilidade dá um sentido ideológico para os textos dos veículos de mídia. Fairclough sustenta que a interdiscursividade entre o discurso informativo (ou ‘jornalístico’) e o publicitário, cria um novo discurso ‘híbrido’ de informação e publicidade (de falar e vender) (FAIRCLOUGH 1992, p. 149).
Outro aspecto ligado a escolha do tipo de discurso nos veículos de comunicação é o contexto. Van Dijk (2012) estabelece uma noção de contexto na qual
...algum fenômeno, evento, ação ou discurso tem que ser estudado em relação com seu ambiente, isto é, com as condições e consequências que constituem seu entorno. Portanto, não só descrevem, mas também, e especialmente, explicam a ocorrência de propriedades de algum fenômeno focal em termos de alguns aspectos de seu contexto (VAN DIJK 2112, pg. 19).
Para esse autor, contexto pode ser definido como...
...um tipo específico de modelo mental, isto é, como representações das próprias situações comunicativas feitas subjetivamente pelos participantes, e não como situações comunicativas enquanto tais (VAN DIJK 2012, p. 43).
Assim, a seleção do discurso se vincula a um determinado meio onde se estabelece o sentido na perspectiva do autor e da ideologia que ele partilha.
Estabelecendo o contexto, conforme visto por Van Dijk (2012), pode-se pensar o JP como gênero informativo, inserido na esfera pública, apresentando o
modo escrito no domínio social de mídia, como instituição de caráter privado, com um papel de diálogo de sentido veículo-público e com o objetivo de transferir informações. Utilizando essas categorias de contexto, conforme descrição de Djik (2012), se estabelece os aspectos formais determinantes dos discursos no JP.
Também se pode considerar que o domínio do veículo é apresentado no campo simbólico referente à circulação de conhecimentos e crenças, apresentando aspectos discursivos de mídia e hibridações com discursos de educação, ciência, religião e publicidade. Também, em um nível mais específico de gênero discursivo, no que se refere ao que Van Dijk chama de “eventos comunicativos ou situações sociais” podemos considerar genericamente os jornais por suas ações propostas. Dentre essas ações, estão as entrevistas com pessoas, publicações de conhecimentos científicos ou de senso comum, além de controle das ações de pessoas através de publicações de leis, mandatos, instruções normativas, etc. Cada tipo apresenta suas características próprias como a presença de argumentação ou linguagem própria do discurso científico por exemplo.
De tal forma, pode-se afirmar que a elaboração do discurso em sua condição típica é consequência de sua força (ato da fala como por exemplo; pedidos, ameaças, promessas, etc), do contexto discursivo e a consequente coerência que é estabelecida para o leitor, definindo um determinado sentido e aspecto e características linguísticas.