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As investigações realizadas por meio de entrevistas tiveram como foco duas unidades de análise principais: o consórcio BMS-11 (no Brasil) e o conjunto de consórcios Camarão, Almeijoa, Mexilhão e Ostra (em Portugal).

Justifica-se a escolha do BMS-11 por ser o bloco exploratório onde estão contidos os reservatórios Tupi e Iara, que detêm relevantes volumes estimados de hidrocarbonetos. Especificamente em relação às operações em Portugal, optou-se por escolher um conjunto de consórcios, tendo em vista tratarem-se de empreendimentos conjuntos que fazem parte de um mesmo projeto integrado e formado num mesmo momento naquele país.

O consórcio BMS-11 é formado pela Petrobras (65% - Operadora), BG Group (25%) e Galp Energia (10%), e destina-se à exploração petrolífera em águas ultraprofundas da Bacia de Santos. Esse bloco exploratório é composto por duas áreas exploratórias. Na maior delas foi perfurado um primeiro poço, informalmente chamado de Tupi.

Em novembro de 2007 a Petrobras anunciou que estima a existência nessa área de volume recuperável de óleo leve de 28º API, entre 5 e 8 bilhões de barris de petróleo e gás natural, o que elevará significativamente a quantidade de óleo existente em bacias brasileiras, colocando o Brasil entre os países com grandes reservas de petróleo e gás do mundo.

Posteriormente, em agosto de 2007, a Petrobras anunciou a comprovação da ocorrência de mais uma jazida de óleo leve, com densidade em torno de 30º API, nos

reservatórios do pré-sal, com estimativa de volume recuperável de 3 a 4 bilhões de barris de petróleo leve e gás natural. O novo poço descobridor, informalmente conhecido como Iara, localiza-se na área menor do bloco original, a cerca de 230 km do litoral da cidade do Rio de Janeiro, em lâmina d’água de 2.230 metros. O poço ainda encontra-se em perfuração, na busca de objetivos mais profundos.

Figura 14: Áreas do BMS-11 (pré-sal) Fonte: Website da Petrobras

A segunda unidade de análise é representada pelos consórcios Camarão, Almeijoa, Mexilhão e Ostra. Conforme anteriormente informado na subseção 5.2.2, em 2007 Petrobras e Galp assinaram, em Portugal, acordo para a exploração e produção de petróleo em quatro blocos de exploração de petróleo localizados na Bacia Lusitaniana, região exploratória situada na costa portuguesa, ao norte de Lisboa.

A escolha dessas unidades de análise é justificada por mais alguns motivos. Em relação ao consórcio BMS-11, devido ao fato de ter revelado as áreas de Tupi e Iara,

potenciais reservas relevantes no cenário brasileiro. Adicionalmente, a escolha desse consórcio, que conta também com a participação da British Gas (BG), permite uma maior análise comparativa entre o relacionamento existente entre Petrobras e Galp e entre essas duas empresas e a BG.

Em relação aos consórcios formados em território português, ressalta-se a participação da empresa privada Partex. Também nesse caso, a escolha desses consórcios permitirá uma análise comparativa das interrelações existentes entre as empresas que dele participam.

Durante as entrevistas realizadas com profissionais das áreas de Exploração & Produção e Internacional, foi possível identificar a importância da participação e influência de aspectos ligados a variáveis de mercado e de não-mercado na rede formada por Petrobras e Galp.

Os componentes que integram o ambiente de “não-mercado” dos negócios revelam-se como forças sociais, políticas e legais que moldam as interações entre as firmas e seus

stakeholders fora do mercado e acordos privados, mas também em conjunção com eles

(MAHON et al, 2004 e BARON, 1995a).

Especificamente nas relações entre essas empresas híbridas, verificou-se de fundamental importância na rede por elas formada a influência das forças de poder e políticas, além de outros aspectos, em especial no processo de formação dos negócios. Nesse aspecto, destaca-se que algumas dessas forças residem nas próprias empresas, no nível da supra-rede, à medida em que sob determinados ângulos parte das próprias organizações estão presentes e são parte da supra-rede.

“As parcerias formadas foram concebidas por causa do empenho governamental.”

“Os laços culturais e históricos facilitam a formação dessas parcerias.” Consultor de Negócios – Área Internacional da empresa

brasileira.

De acordo com as informações obtidas nas entrevistas realizadas, esse processo de formação da rede entre essas empresas híbridas foi iniciado por meio da negociação da

construção das parcerias no Brasil. Conforme os relatos, esse incidente crítico apresentou como característica marcante a predominância de fatores de não-mercado.

“A formação das parcerias representa um momento nas relações entre as duas empresas caracterizado pela existência de aspectos políticos.” Consultor de Negócios A – Gerência de E&P da empresa

brasileira.

Em relação a esse primeiro momento, ligado à formação da rede focal, foi possível verificar de forma clara e evidente a existência de uma supra-rede, que ultrapassou os limites das companhias e é composta por fatores mais voltados para interesses plurais. Identificou-se, também, que essa supra-rede localizava-se numa dimensão menos superficial e visível da realidade, ou seja, não era totalmente visível levando-se em consideração apenas os pressupostos e prescrições da literatura dominante em estratégia.

“Realmente houve um interesse governamental no início da formação dos negócios.” Consultor de Negócios B – Gerência de E&P da

empresa brasileira.

Ainda em relação a esse primeiro incidente crítico, dada a forte influência dos fatores identificados, e em função do ângulo e do momento em que o fenômeno foi observado, percebe-se que as empresas estavam mais alinhadas a aspectos de não-mercado do que de mercado.

‘Os relacionamentos entre as duas empresas foram fomentados pelo interesse governamental.” Gerente – Gerência de E&P da empresa

brasileira.

Apesar da relevância dessas variáveis presentes no ambiente de não-mercado, em outros momentos e sob outros ângulos de observação as organizações revelam-se em

diferentes cenários e outras características das relações presentes na rede formada entre as empresas são notadas. Dentro desse aspecto, no que se refere às atividades corriqueiras do dia-a-dia dos consórcios, ou seja, nas relações empresariais relativas à condução das operações consorciais tanto no Brasil quanto em Portugal, o cenário revelado é, a princípio, um pouco diferente do apresentado anteriormente.

Por meio das entrevistas realizadas, foi possível verificar que ao longo do processo de gestão dos empreendimentos, o que prevalece são os fundamentos de mercado, isto é, no âmbito de condução da rede focal são prioritariamente considerados aspectos ligados aos interesses econômicos dos consórcios e seus efeitos sobre cada organização, como o seu desempenho, lucratividade e possibilidade de ganhos financeiros.

“No dia-a-dia, não há dúvidas, cada um segue e defende seus interesses corporativos.” Consultor de Negócios B – Gerência de

E&P da empresa brasileira.

Nesse cenário, o desempenho dos empreendimentos conjuntos é o foco das atenções. Ações ligadas ao controle do plano orçamentário, sua execução financeira, estrutura de financiamento e aporte de recursos financeiros, controle dos fatores críticos de sucesso, verificação do cumprimento das regras contratuais, dentre outras, são as que prevalecem, com grande visibilidade dentro das organizações.

Na execução de cada tarefa envolvida com a gestão do empreendimento, cada empresa busca o melhor posicionamento econômico, de mercado, para si. Utilizam a rede em que participam visando atingir a posição ótima sob o ponto de vista econômico, num regime de cooperação, mas de atenção mútua em relação à conduta do outro integrante da rede.

“Nas questões relacionadas à condução e controle dos empreendimentos, cada organização luta por seus posicionamentos.”

Gerente – Gerência de E&P da empresa brasileira.

Aparentemente teríamos, então, dois incidentes críticos relevantes (um atrelado à formação dos empreendimentos e outro ligado à sua gestão), mas isolados temporalmente,

que ainda não evidenciam a existência de uma interação entre estratégias de mercado e de não-mercado numa mesma dimensão temporal. Entretanto, por meio do aprofundamento da investigação realizada através das entrevistas, foi possível identificar alguns incidentes críticos em que essa interação ocorre.

No entanto, durante as entrevistas, num nível maior de profundidade, verificou-se que fatores de mercado e de não-mercado conviveram e interagiram, em determinadas situações relacionadas a impasses na busca pelo consenso durante a condução dos empreendimentos e em fatos ligados à interrelação entre os negócios desenvolvidos no Brasil e aqueles desenvolvidos em Portugal.

“De modo geral, os aspectos não-mercado/corporativos foram bem visíveis no momento da formação das parcerias. No entanto, esses aspectos ainda convivem no dia-a-dia, existindo discussões em que esses aspectos convivem com interesses puramente competitivos.”

Consultor de Negócios A – Gerência de E&P da empresa brasileira.

Esses incidentes críticos ocorreram já na vigência de novos acordos bilaterais entre as nações que, dentre outras funções, estabeleceram novos papéis e atividades aos respectivos segmentos industriais, acadêmicos e políticos de ambos os países. Como consequência, a rede formada pelas duas empresas passou a ser mais atuante, ganhando maior relevância e escopo, em especial para a Galp no que se refere às suas participações no Brasil.

Nesse aspecto, ressalta-se que tais incidentes ocorrem tanto ao nível da rede focal quanto ao nível da supra-rede, estando as organizações híbridas parcialmente presentes em ambos os níveis, ao mesmo tempo, sujeitas a ações de mercado e de não-mercado simultaneamente, o que desafia os pressupostos da literatura dominante de estratégia. Esse especial contexto pode ser visualizado na representação gráfica a seguir.

Figura 15: Presença das organizações na rede e supra-rede

Por exemplo, tem-se a introdução de ações conjuntas, de cooperação, no segmento de biocombustíveis, guardando, explicitamente, interesses típicos de mercado para as empresas, mas também fatores de poder e geopolíticos para ambas as nações. Adicionalmente, também revela-se o aumento da participação da Galp no Brasil, com sua entrada nos cobiçados projetos do pré-sal.

“Há outras racionalidades que não só a econômica nessas relações entre Petrobras e Galp, ou melhor, a racionalidade econômica dessa relação não pode ser entendida somente considerando o ponto de vista financeiro, mas sim outras abordagens e interesses.” Consultor

de Negócios A – Gerência de E&P da empresa brasileira.

O que se depreende dessas observações é que, de fato, a rede formada por Petrobras e Galp é relevantemente composta de relacionamentos densos, de características cooperativas, sob o ângulo de observação da supra-rede existente, que liga os governos de Brasil e Portugal, na qual é possível verificar, claramente, aspectos caracteristicamente de não-mercado.

Nesse aspecto, as organizações híbridas analisadas em parte estão presentes na supra- rede, ao mesmo tempo em que participam de uma rede focal que guarda interesses diversos, que não só o lucro.

MERCADO NÃO MERCADO SUPRA REDE REDE FOCAL PETROBRAS GALP

“Evidentemente, há uma diversidade de interesses nesse relacionamento entre as empresas luso-brasileiras, que não podem ficar restritos somente às operações realizadas.” Gerente – Gerência

de E&P da empresa brasileira.

Essas características revelam-se de forma mais clara e com maior influência no processo de formação de novos negócios entre as empresas. No entanto, numa investigação mais profunda, percebe-se que essas características se interrelacionam e interagem com fatores típicos de mercado. Em alguns momentos, nesse contexto, fatores de mercado ficam subordinados aos de não-mercado, dada a existência de interesses plurais na rede.

No que tange às ações estratégicas de não-mercado, a literatura dominante em estratégia estabelece uma subordinação em relação às de mercado, dada a visão de que o seu objetivo maior é sempre pautado por questões econômicas. Nos relacionamentos focais entre Petrobras e Galp, não foi percebida essa subordinação, uma vez que foi verificada uma interação entre esses dois tipos de ação estratégica.

Trata-se nesse caso da influência da chamada “supra-rede”, composta por características presentes nos âmbitos público e privado, a qual transcende as fronteiras nacionais de Brasil e Portugal e desafia a concepção dominante de organizações de mercado presente na literatura de estratégia que reconhece a dimensão não-mercado. Esse cenário supera o domínio mais superficial e visível da realidade normalmente apresentada pela literatura dominante da disciplina.

A comprovação da existência dessa “supra-rede”, assim como a sua análise foi possível por meio da conjugação e triangulação dos dados obtidos nas entrevistas em profundidade realizadas e pela utilização de dados secundários (estatutos, tratados, declarações de representantes governamentais, etc.), considerados relevantes, no âmbito das relações existentes entre Petrobras/Brasil e Galp/Portugal.

No entanto, de forma paralela, permanente e, digamos, num contexto que permeia as relações de não-mercado, essa mesma densa rede de interrelacionamentos, revela-se, ao mesmo tempo, com características competitivas, onde são observados majoritariamente aspectos de mercado, ligados aos resultados econômicos de cada organização, seus interesses e objetivos monetários (lucro), interesses dos acionistas, seu posicionamento no mercado e controle dos fatores que encontram-se fora da organização.

Nesse caso, essas características tornaram-se mais evidentes no processo de condução dos negócios já formados entre as empresas híbridas, cujas características são relevantemente distintas das organizações autônomas de mercado que são referência na literatura dominante da estratégia, embora, mesmo no âmbito desse processo existam incidentes críticos reveladores da interação entre os fatores de mercado e de não-mercado.

Por fim, como resultado dos dados analisados na pesquisa realizada, propõe-se um novo framework, mais completo que aquele apresentado na seção 3.5, dadas as características do contexto revelado pela investigação feita.

Figura 16: Representação do framework final da pesquisa

DISCIPLINA ESTRATÉGIA – CONCEPÇÕES DOMINANTES

ETNOCENTRISMO ANGLO-AMERICANO PARADIGMA DA GRANDE EMPRESA AMERICANA OBJETIVOS E RESULTADOS ECONÔMICOS ESTRATÉGIAS GENÉRICAS / UNIVERSAIS FORÇAS E ESTRATÉGIAS DE MERCADO EMPRESAS AUTÔNOMAS DESPREZO A PODER E POLÍTICA MERCADO NÃO MERCADO SUPRA REDE REDE FOCAL PETROBRAS GALP CONTEXTO DA INDÚSTRIA PETROLÍFERA LUSO-BRASILEIRO