A pesquisa qualitativa envolve o estudo do uso e a coleta de uma variedade de materiais empíricos: estudo de caso, experiência pessoal, introspecção, história de vida, entrevista, artefatos, textos e produções culturais, textos observacionais, históricos, interativos e visuais, dentre outros (DENZIN & LINCOLN, 2006).
Para o processo de escolha da maneira de obter os dados, é fundamental traçar o delineamento da pesquisa, que refere-se ao planejamento da pesquisa em sua dimensão mais ampla. Um dos delineamentos mais adotados na pesquisa qualitativa em ciências sociais é o estudo de caso, que é constituído pelo estudo amplo e exaustivo de um ou de poucos objetos, de maneira a permitir seu amplo e detalhado conhecimento (GIL, 1998 e 2006).
O estudo de caso é uma estratégia de pesquisa que destina foco ao entendimento das dinâmicas presentes em colocações simples. Além disso, estudos de caso tipicamente combinam coleta de dados como arquivos, entrevistas, questionários e observações. As evidências coletadas por meio dos dados podem ser qualitativas, quantitativas, ou das duas formas simultaneamente. No entanto, em sua essência, os estudos de caso são caracteristicamente qualitativos, podendo comportar dados quantitativos para aclarar aspectos específicos da questão investigada (EISENHARDT, 1989 e GODOY, 1995b).
Na taxonomia apresentada por Vergara (2006, p. 49), a estratégia do estudo de caso é classificada como um meio de investigação circunscrita a uma ou poucas unidades, entendidas essas como pessoa, família, produto, empresa, órgão público, comunidade ou mesmo país, por exemplo. Adicionalmente, expõe que o estudo de caso tem caráter de profundidade e detalhamento, podendo ou não ser realizado no campo.
O estudo de caso também pode ser caracterizado como um tipo de pesquisa cujo objeto é uma unidade que se analisa intensa e profundamente. Visa ao exame detalhado de uma unidade social, que pode ser um ambiente, um simples sujeito, uma empresa, uma comunidade ou uma situação em particular, com o objetivo de compreendê-los em seus próprios termos. É uma investigação empírica que pesquisa fenômenos dentro de seu contexto real (pesquisa naturalística) (GODOY, 1995b e MARTINS & LINTZ, 2000).
Nas ciências, durante muito tempo, o estudo de caso foi encarado como procedimento pouco rigoroso, que serviria apenas para estudos de natureza exploratória. Hoje, porém, é encarado como o delineamento mais adequado para a investigação empírica de fenômenos
contemporâneos dentro de seu contexto da vida real, especialmente quando os limites entre o fenômeno e o contexto não estão claramente definidos (GIL, 1998 e YIN, 2005).
Segundo Stablein (2001, p. 80), os estudos de casos podem ser classificados em três naturezas. O primeiro tipo é o etnocaso ou etnografia, estudo que é orientado para a representação da realidade dos participantes nativos, pelos habitantes de uma determinada realidade.
O segundo tipo de estudos de caso é voltado para proposições teóricas generalizáveis, sendo a realidade organizacional do escritor desse tipo de caso representada pelo mundo de construtos31
O estudo de caso tem se tornado a estratégia preferida quando os pesquisadores procuram responder às questões “como” e por que” certos fenômenos ocorrem, quando há pouca possibilidade de controle sobre os eventos estudados e quando o foco de interesse revela-se sobre fenômenos contemporâneos, os quais só podem ser submetidos a uma análise aprofundada considerando algum contexto da vida real (GODOY, 1995b).
definidos pelo pesquisador. Já o terceiro tipo é o caso exemplar, considerado o mais influente nos estudos organizacionais, pois são normalmente apresentados a participantes das organizações, que podem seguir o molde do caso exemplar para interferir em suas próprias firmas, e estudantes em salas de aula, que utilizam essas experiências simuladas para testar novos dados e ideias (STABLEIN, 2001).
“A investigação de estudo de caso enfrenta uma situação tecnicamente única em que haverá muito mais variáveis de interesse do que pontos de dados, e, como resultado, baseia-se em várias fontes de evidências, com os dados precisando convergir em um formato de triângulo, e, como outro resultado, beneficia-se do desenvolvimento prévio de proposições teóricas para conduzir a coleta e a análise de dados.” (YIN, 2005, p. 33)
Na concepção de Yin (2005, p. 19-26), o estudo de caso é apenas uma das muitas maneiras de fazer pesquisa em ciências sociais, sendo a estratégia escolhida quando são examinados acontecimentos contemporâneos, mas, adicionalmente, quando comportamentos
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O construto é uma ideia do pesquisador relacionada a outras ideias em uma teoria de comportamento organizacional.
relevantes não podem ser manipulados. Visando identificar a melhor estratégia para o desenvolvimento das pesquisas, esse autor indica uma proposta de enquadramento das perguntas de pesquisa a cada estratégia de pesquisa, nas condições expostas no quadro abaixo.
Estratégia Forma de questão de pesquisa Exige controle sobre eventos comportamentais? Focaliza acontecimentos contemporâneos?
Experimento Como, por que Sim Sim
Levantamento Quem, o que, onde, quantos, quanto
Não Sim
Análise de arquivos
Quem, o que, onde, quantos, quanto
Não Sim/Não
Pesquisa histórica Como, por que Não Não
Estudo de caso Como, por que Não Sim
Quadro 3: Situações relevantes para diferentes estratégias de pesquisa Fonte: Yin, 2005, p. 24
Conforme indica Yin (2005, p. 24) nesse enquadramento, reforçando Godoy (1995b), o estudo de caso representa uma estratégia adequada quando se colocam questões do tipo “como” e “por que”, quando não é exigido controle sobre eventos comportamentais e quando o foco é sobre eventos contemporâneos.
O desenvolvimento da pesquisa adotou a metodologia de estudo de caso descrita por Yin (2005, p. 24), tendo em vista que tem como foco determinar “como” e “por que” são formuladas e implementadas estratégias com a utilização de redes de organizações híbridas e como estratégias de mercado e de não-mercado interagem nessas redes, utilizando-se como foco de análise o contexto das relações Brasil-Portugal, especificamente as relações empresariais luso-brasileiras na indústria do petróleo, considerando como foco de análise as empresas Petrobras e Galp Energia.
Adicionalmente, justifica-se a escolha da metodologia do estudo de caso considerando que trata-se de um fenômeno recente, ou seja, contemporâneo, e também por não haver controle sobre os processos de desenvolvimento e manutenção dessas redes e parcerias em estudo.
Em relação ao desenvolvimento do estudo de caso, será seguida a estrutura de fases proposta por Martins & Lintz (2000, p. 37-38) que, apesar de considerarem que essa estratégia de pesquisa não é orientada por um esquema rígido de etapas e ações, propõem três etapas
básicas: (i) exploração do caso, visando apreender e compreender os múltiplos aspectos da situação; (ii) delimitação do estudo, com o objetivo de selecionar os aspectos mais relevantes e a determinação do recorte a ser investigado e (iii) confecção do relatório, no qual serão apresentadas as descrições e análises do caso.