A estratégia apresenta como características centrais a criação, uso e difusão de modelos e conceitos que ajudam a construir ou manter a autoridade do estrategista da grande empresa, alicerçada no paradigma da entidade autônoma, o forte embasamento nas teorias econômicas, o desprezo às questões de poder e política, a predominância dos referenciais teóricos produzidos no ambiente norte-americano sobre a produção local e a prescrição de modelos estratégicos universais, além da falta profundidade teórica e conceitual que ajude a melhor compreender o fenômeno das redes.
A proliferação de escolas de pensamento e de muitas dessas teorias sem os devidos testes, fez com que a área de estratégia se caracterizasse por possuir grandes introspecções, pontos de vista sem conectividade (relações e implicações) e ideias fragmentadas, apresentando-se como um tema muito grande, no qual estão inseridas inúmeras variáveis e processos, o que tem levado essa área a um quadro de confusão e descrédito.
As pesquisas apresentam-se como etnocêntricas, ao considerarem como foco o ambiente anglo-saxônico, com grande direcionamento para os EUA, em detrimento do resto do mundo, não considerando, portanto, aspectos relevantes de outras culturas, negócios, interesses e estruturas.
Nesse aspecto, em especial em países emergentes, não só em relação à estratégia, vê- se a importação, tradução e repetição de conhecimento produzido no mundo anglo-saxão, assim como uma certa imposição da definição do que são os problemas relevantes das organizações e sob que estruturas de análise devem ser tratados e resolvidos. Como consequência, organizações situadas em diferentes países, contextos e culturas são tratadas com as mesmas prescrições e modelos adotados para a grande e autônoma empresa norte- americana.
Em relação ao paradigma de redes, apesar do crescente interesse de acadêmicos da área de estratégia e estudos organizacionais, a literatura dominante, que ainda alicerça-se e guarda suas raízes no paradigma da empresa como entidade autônoma, dificultou o desenvolvimento de pesquisas relacionadas a esse fenômeno. Adicionalmente, apesar de importante, ainda falta profundidade teórica e conceitual que ajude a melhor compreendê-lo,
como funciona, para quê serve e que também consiga revelar suas implicações e interações com as questões de poder e política.
Adicionalmente, nesse cenário teórico, apesar do meio-ambiente empresarial ser composto de fatores de mercado e de não-mercado, a teoria predominante (difundida principalmente pelos EUA) designa maior relevância e foco à tese da mercadização, que reproduz os princípios do neoliberalismo e marginaliza as demais teorias de mercado que são de fundamental importância para a compreensão do desempenho das empresas.
Especialmente em relação ao ambiente luso-brasileiro, verifica-se que muitas das características culturais e institucionais presentes no Brasil e em Portugal são mais semelhantes entre si do que as observadas e privilegiadas nas economias mais desenvolvidas, que incorporam plenamente o liberalismo. No eixo Brasil-Portugal, os papéis, responsabilidades e as práticas do Estado, do mercado e de outras instituições relevantes não são necessariamente coincidentes com o que a literatura dominante (anglo-americana) descreve e prescreve para o mundo.
Em relação a esse aspecto, existem evidências de que as dimensões política e social dos mercados continuam guardando relevância na era da globalização, em especial nas economias emergentes e em desenvolvimento, como é o caso de Brasil e Portugal, contrariamente ao que preconiza a literatura dominante, a qual é explicada por interesses políticos e econômicos específicos, apesar da área de estratégia estar imbricada em questões políticas.
Dentro desse contexto, considerando o poder dos pressupostos da literatura dominante, são verificadas relevantes dificuldades no que tange à investigação de redes, supra-redes, assim como a interação de ações de mercado e não-mercado, principalmente quando dentre os atores estão envolvidas organizações híbridas.
Ademais, o estudo de redes inseridas no contexto estratégico de interações no ambiente de não-mercado e que envolvam características subjetivas ainda é discutido marginalmente. Toma-se como exemplo o próprio ambiente de relações bilaterais entre Brasil e Portugal, onde basicamente inexiste literatura sobre redes luso-brasileiras.
Visando modestamente colaborar para o preenchimento dessa lacuna teórica, esse trabalho teve como objetivo principal investigar como e por que são formuladas e implementadas estratégias com a utilização de redes de organizações híbridas e como estratégias de mercado e de não-mercado interagem, utilizando como foco de análise o
contexto das relações Brasil-Portugal, especificamente as relações empresariais luso- brasileiras na indústria do petróleo, entre Petrobras e Galp Energia.
O que se depreende do estudo da rede formada entre Petrobras e Galp é que o clássico enfoque dicotômico de análise da economia capitalista, neoliberal, que isola a organização empresarial num extremo e o mercado no outro não condiz com a realidade praticada pelas organizações no contexto em que atuam. Trata-se, portanto, de um resultado observado que demanda o complemento de alguns conceitos e pressupostos presentes na literatura dominante da disciplina.
A literatura dominante descreve teoricamente as empresas como unidades autônomas, com limites bem definidos e contornos pouco permeáveis mas, na prática, como visto na pesquisa realizada, elas inserem-se em meio a uma densa rede de interrelacionamentos, arranjos, alianças e interesses mútuos, que revelam-se, ao mesmo tempo, competitivos e cooperativos.
No cenário global em que estão inseridas Petrobras e Galp, a formação de redes estratégicas internacionais funciona como uma resposta ao desafio imposto pela necessidade de se adotar estratégias globais e parceiros locais, além da aquisição de competências fundamentais necessárias à sua sobrevivência.
Por meio das observações realizadas, foi possível concluir que a rede formada por essas organizações híbridas é relevantemente composta de relacionamentos densos, de características cooperativas e envolve interesses plurais, quando o ângulo de observação permite a visualização da supra-rede existente entre os governos de Brasil e Portugal. Apresenta-se também com características competitivas, sob o ponto de vista do processo de gestão e condução dos negócios formados entre as empresas.
Desse modo, com a realização desse estudo foi possível verificar nas relações entre as organizações híbridas a existência de fatores de não-mercado e de mercado, que alinham-se, respectivamente, à supra-rede identificada e ao processo de gestão dos negócios, ou seja, a própria rede focal. Essas observações confirmam, portanto, que o ambiente de negócios é composto de componentes de mercado e de não-mercado.
Respondendo à primeira parte da pergunta de pesquisa (como e porque são formadas as redes), conclui-se que estratégias com a utilização de redes entre organizações híbridas são formuladas e implementadas no cenário luso-brasileiro da indústria petrolífera, entre Petrobras e Galp, por meio de associações contratuais, as quais preservam a autonomia
empresarial das organizações, visando a formação de joint ventures estratégicas, interessantes para ambas empresas.
A descrição da literatura dominante sobre o contexto onde diversas organizações competem por lucros precisa ser suplementada e, às vezes corrigida. Como pôde ser visto em relação ao cenário luso-brasileiro da indústria petrolífera, de fato, sob várias formas as empresas estão envolvidas em redes nas quais fatores econômicos, mas também aspectos mais plurais são importantes para sua sobrevivência.
Nesse aspecto, explica-se em grande parte o porquê da formação desses relacionamentos focais pela influência dos atores que atuam na supra-rede existente entre Brasil e Portugal. Supra-rede que revela-se densa e diversa quanto aos interesses nela presentes e que conta com a própria participação das organizações híbridas, à medida em que parte delas está presente na supra-rede.
Por meio da investigação em profundidade realizada, evidenciou-se que estratégias de mercado e de não-mercado interagem dentro dessas redes, o que ajuda a responder a segunda parte da pergunta de pesquisa (interação entre as estratégias de mercado e de não-mercado).
Apesar de muitos estudos tratarem a organização em redes como um simples tipo de arranjo organizacional, concebido como uma estrutura genérica intermediária entre mercados e hierarquias ou caracterizado como um “terceiro” modo organizacional, a pesquisa realizada ajuda a concluir que é importante analisar o paradigma de redes numa visão interpretativista.
Esse modo de análise permite ao pesquisador apurar que esse paradigma acaba por revelar novos limites da teoria de organizações empresariais controladas pelo mercado, etnocentricamente enraizada na experiência anglo-saxônica, à medida que empresas atuando em rede vêm prosperando em outros contextos institucionais/culturais, contradizendo a visão clássica de Chandler e de Williamson, por exemplo.
Com isso, conclui-se, também, que os conceitos e frameworks da literatura dominante não são totalmente suficientes para ajudar a compreender e a explicar os processos de estruturação da estratégia de empresas brasileiras e portuguesas na indústria petrolífera, havendo diversos aspectos, menos visíveis quando utilizados apenas os pressupostos e preceitos dessa literatura, que desafiam os pressupostos dominantes da lógica de mercado estabelecidos pelo mundo anglo-americano.
Dentre esses aspectos menos visíveis, mas relevantes que são desprezados pelas teorias impostas pelos positivistas e pelos pesquisadores, há as questões que envolvem o
poder político e econômico de empresas transnacionais perante outros governos e mercados e as respectivas interfaces entre governo e empresa.
Por meio dessa pesquisa, viu-se que não podem ser tratadas como invisíveis a dimensão plural das estratégias de grandes corporações e das redes, assim como a existência de “supra-redes”, compostas por fatores dos âmbitos público e privado, os quais transcendem fronteiras nacionais e desafiam as distinções que a disciplina atribui aos domínios econômico e político, transcendendo também o domínio mais superficial e visível da realidade.
Adicionalmente, relevante também é reconhecer que nesse contexto a visão clássica de que estratégias de mercado têm supremacia em relação às estratégias de não-mercado, a chamada “primazia do mercado”, precisa ser complementada, haja vista a interação existente e até mesmo a inversão identificada, com estratégias de mercado subordinadas às de não- mercado.
Em especial no atual cenário de globalização econômica e de mercados, relacionamentos inter-firmas e redes que se estendem além das fronteiras das empresas são fatores-chave para a internacionalização e exploração de mercados estrangeiros. Em especial em relação a Brasil e Portugal, a formação de uma parceria luso-brasileira mais consistente, vasta e empenhada, em termos estratégicos, coloca uma série de desafios aos dois países.