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4.6 Summary of institutional discourses

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Um “fazedor” de redes de Cananéia nos explicou, na ocasião dos trabalhos de campo,

como ele trabalhava com o cerco fixo. Para dar uma noção melhor do contexto, segue abaixo

a transcrição, na íntegra, da conversa, sendo “M” o entrevistador e “P” o pescador:

M. E a pesca?

P. A pesca eu, no cerco, mais no inverno, no tempo da tainha.

M. Cerco ou arrasto?

P. É cerco fixo.

M. O sr. tem barco?

P. Não, eu trabalho com meu sócio. O meu sócio é que tem um.

M. E quando o sr. sai pra pescar com cerco, pesca em que região, que área?

P. Meu cerco é na Ilha Comprida aqui. Perto da balsa.

M. E fica já montado?

P. Isso. Fica lá montado.

M. O pescado que o sr. captura lá é pra vender?

P. Pra vender.

M. E vende onde? Onde desembarca ele?

P. Na peixaria Evipesca.

M. E quantas vezes por semana o sr. vai lá?

P. A gente descarrega todo sábado.

M. E que barco usa pra ir pra lá?

P. Motor de centro.

M. Qual o comprimento dele?

P. 7 metros. De madeira.

M. O ano inteiro que o sr. deixa o cerco?

P. É só pro inverno. Só pra tainha. No verão não tá compensando muito fazer. Acabou mais o parati, não tá compensando muito fazer cerco. Agora tô trabalhando mais no inverno. No verão trabalho com rede.

M. Com essa rede aqui?

P.Essa aqui, malha 12 também.

M. O cerco então é pra tainha e parati. E essa rede pega todo tipo de peixe... E a malha 12?

P. A malha 12 é pra corvina, cação, bagre.

M. Qual a porcentagem da renda do sr. que vem da pesca? A maior parte vem da rede?

P. É. No inverno dá bem. No inverno, no cerco, uma base de, na temporada, de 6 mil a 7 mil reais, no cerco, no tempo da tainha.

M. Como é a técnica do cerco fixo?

P. Na hora de assentar o cerco... tem que assentar pra na corrida d’água ele ficar certinho, os moirão.

M. São quantos mourões que tem?

P. No cerco inteiro?

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P. 14 braças. No cerco inteiro vai uma base de 120 moirões de madeira.

M. Mas é mourão largo, ou uma taquara?

P. Essa espessura... E tem a taquara também [pra fechar]. Taquara com tecido, com arame.

M. E tem rede em volta do cerco?

P. Rede não. Só taquara de arame.

M. A região é perto de mangue?

P. Do lado, pra cima da balsa é mangue, pra cá é onde fica aqueles quiosques, sabe?

M. Mas onde o sr. bota o cerco é mangue?

P. Isso. É perto da balsa. É areia.

M. O pescado fica uma parte pro sr., ou vende tudo?

P. Eu só trago pra comer, né? A maioria...

M. Mas o peixe que o sr. falou que vende lá na peixaria?

P. É tainha. É por quilo que a gente vende.

M. Mas também vem do cerco?

P. É do cerco. A tainha é só de cerco. Cai tartaruga também, cai outros peixes.

M. A tartaruga, quando cai, o sr. faz o quê?

P. A tartaruga eu deixo no instituto ali [IPeC]. Na base ali.

M. Elas saem vivas ou mortas?

P. Vêm vivas. A gente deixa ali, às vezes tira 3, 4...

M. No cerco não tem uma técnica de a tartaruga entrar e sair?

P. Não. Ela entra, não sai mais.

M. Quem inventou essa técnica de cerco?

P. Esse cerco aí veio lá de Santos.

M. Quem trouxe?

P. O cara não conheci, mas foi um sr. lá de Santos que trouxe a técnica pra cá, aí o meu pai, os mais velhos, pegaram o jeito...

M. Em que ano foi isso mais ou menos?

P. Isso acho que uns 50, 60 anos atrás, mais ou menos.

M. Antes disso o pessoal não usava...?

P. Aqui não.

M. E cerco flutuante, o sr. conhece?

P. Não, eu nunca vi.

M. Por aqui o pessoal não usa?

P. Aqui o meu pai falou que uma vez fizeram um no Bom Abrigo ali. Usaram uma vez só, no tempo do meu pai.

M. E por que não gostaram?

P. Acho que era proibido também.

M. Hoje é proibido ainda?

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(...)

M. O cerco é no inverno...

P. É no inverno e no verão também, mas eu, ultimamente, agora no verão não tão muito bom. Antes dava muito peixe no verão, parati, né? Mas agora, de uns anos pra cá, deu uma fracassada.

(...)

M. O cerco tá lá?

P. Agora não. Ele apodreceu. Depois que apodrece ele vira comida de robalinho, pescada. Ali se cria tudo quanto é tipo de peixe.

M. Aí o sr. não vai fazer outro?

P. Vou, agora no inverno, no mês de maio, eu já começo a tecer o cerco.

M. O sr. faz ele lá no local?

P. Não, eu faço aqui em casa. Teço e depois levo lá. Aí vou cortar o moirão no mato...

M. E quanto tempo dura o cerco?

P. No inverno ele dura de 5 a 6 meses. O pessoal também faz de tela, né? Essa tela plastificada, verde.

M. O sr. não faz desse jeito?

P. Por enquanto não.

M. Fazer com tela dura mais?

P. Ah, dura.

M. Tão eficiente quanto com...[taquaras]?

P. Mesma coisa. O negócio do cerco é na hora da pessoa assentar ele, tem que tá na corrida da água certa. Ele tando na corrida da água certa, ele vai pescar. Quando ele não tá, o peixe entra e sai.

M. E o cerco pega quantos quilos de peixe?

P. Aí depende do ponto. O ponto da ilha do Cardoso, do meu tio, ali, ali tem safra que ele tira duas toneladas, três por despesca.241

A partir dessa entrevista, podemos inferir algumas ideias sobre o uso da técnica do

cerco fixo (Fotos 26-29). Inicialmente, percebemos o conhecimento do pescador sobre as

temporadas das diferentes espécies de peixes. Assim, ele usa o cerco somente no inverno, para

captura, principalmente de tainha e parati. Para isso, ele começa a confeccionar o cerco em

maio, sendo que algumas das partes ele fabrica na própria residência. Posteriormente ocorre a

retirada das taquaras na mata e a construção, propriamente, do aparelho. A despesca é feita

com barco de motor de centro, pertencente a um “sócio” e o pescado é utilizado para consumo

próprio e vendido em peixarias de Cananéia. Após os meses de inverno, o cerco é

abandonado, servindo, segundo ele, de abrigo para diversas espécies de peixes. No restante do

ano, o pescador utiliza outras técnicas de pesca, com o uso de redes. A confecção do cerco é

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detalhada e sugere um amplo conhecimento técnico do pescador, que, nesse caso, utiliza

somente materiais naturais e arame. Segundo Araújo (2005):

Antes de dar início à construção de um curral, os pescadores realizam uma série de observações essenciais, dentre as quais: tamanho e declividade da margem, tipo de substrato, flutuação da maré, influência da correnteza e do vento. Sendo esses fatores, aliado a disponibilidade de capital, os principais responsáveis pelas

características peculiares do curral.242

Ao ser indagado sobre as origens do uso do cerco fixo no local, o pescador comenta

que foi um senhor de Santos que trouxe, há aproximadamente, 50 anos. Até então, segundo

ele, ninguém pescava com esse tipo de aparelho na região. Isso revela que a pesca de cerco

fixo é, de certa forma, recente na região de Cananéia, ao contrário do Nordeste, que pelo que

foi exposto anteriormente, conhecia o uso do cerco, pelo menos, desde o século XIX. Quanto

ao cerco flutuante, percebemos que historicamente foi consolidado mais no litoral norte de

São Paulo, já que sua introdução se deu na região de São Sebastião, como veremos mais

adiante.

Há, na fala do pescador, uma certa preocupação ambiental, quando comenta que leva

as tartarugas encontradas presas no cerco para o Instituto de Pesquisas Cananéia (IpeC). Além

disso, ressaltou que ainda não está utilizando as telas plásticas na confecção do cerco, apesar

de constatar sua maior durabilidade e mesma eficiência. Isso seria, provavelmente, a

demonstração do processo de resistência ao uso de novos materiais nas técnicas antigas e

tradicionais, como foi o caso da introdução do náilon nas redes de pesca em meados do século

XX. As ações de sensibilização ambiental promovidas pelo IPeC, relacionadas às mudanças

de hábitos dos pescadores, serão abordadas no próximo capítulo dessa dissertação.

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Foto 26 - Pescadores fazendo a manutenção do cerco fixo, com uso de lancha de alumínio motorizada,