• No results found

the school of arts

6.1 Subject positions

Quanto ao motor de popa (que em meados do século XX foi introduzido, mas logo

depois deixado de lado, devido aos gastos de manutenção e combustível e pelas vantagens

percebidas do uso do motor de centro), no final do século XX ele voltou a fazer parte do

cotidiano caiçara em boa parte do litoral graças aos avanços tecnológicos que melhoram o seu

desempenho (a fabricação de motores de quatro tempos, por exemplo) e diminuíram seu

preço, além da maior aceitação do uso de barcos de fibra e, principalmente, de alumínio. Isso

ocorreu devido à versatilidade das embarcações de alumínio, que, além de poderem ser usadas

em alguns tipos de pesca de emalhe, também podem gerar uma renda extra com os passeios

turísticos, atividade citada pela maioria dos pescadores com quem conversamos. A

possibilidade de se ganhar mais dinheiro com a lancha de alumínio e o motor de popa em

passeios com turistas é ressaltada por um dos pescadores de Picinguaba:

“O cara vai trabalhar 3, 4 meses aí pra ganhar mil reais? Sendo que se investir no turismo, se tiver turista no dia aqui, você faz isso em um passeio! Igual no natal,

186

ano novo, carnaval; aqui os caras com um barco de alumínio faz mil reais no dia!”282

Outro pescador do local também revela que usa o barco de alumínio para a pesca na

baixa temporada e os serviços de passeios turísticos na alta:

A gente leva o pessoal pra ilha, né! (...) Novembro, Dezembro já começa. (...) Na baixa temporada já começa a dar a safra dos peixes, né. Agora pra maio já vai entrar a cavala, a sororoca, anchova, tainha em junho, julho e agosto. Safra da tainha.... com barco de alumínio com 6 paninhos de rede...”283

Mariana Clauzet (2009), ao estudar as comunidades pesqueiras da Enseada do Mar

Virado, em Ubatuba, verificou que:

As lanchas com motor de popa da Enseada do Mar Virado são de alumínio e fibra com motores que variam de 8 a 40 HPs. Este tipo de embarcação surgiu na região a partir da década de 80, através da renda excedente de atividades econômicas relacionadas ao turismo, que são reinvestidas na aquisição de embarcações e

materiais de pesca.284

Outro motivo que tem gerado a ampliação do acesso aos motores de popa e aos barcos

de alumínio pelos pescadores artesanais são as facilidades em se adquirir, hoje, esses

equipamentos em financiamentos a longo prazo, com pagamento em várias prestações. Além

disso, as vantagens do uso do motor de popa de quatro tempos também foram ressaltadas por

um dos pescadores que trabalha com pesca e com passeios turísticos, além de levar turistas

para praticarem mergulho livre e pesca de arpão:

“O motor é quatro tempos, então o gasto é pouco, por isso que consigo cobrar mais em conta que eles, e ganho mais que eles [que os outros pescadores que fazem

passeios com motores de dois tempos]. (...) Por outro lado eu paguei bem mais

caro, mas em longo prazo compensa. (...) Tem lancha aí que vai à ilha, só de ir e voltar ele gasta 6 litros de gasolina e eu não gasto nem um litro se eu for lá sozinho”.285

A introdução do motor nas embarcações foi um marco divisor na pesca caiçara,

aumentando o distanciamento com o sertão e a roça, criando novas categorias de pescadores,

inserindo a pesca no modo capitalista de produção, transformando as relações sociais internas

e externas entre os pescadores e alternado as dinâmicas de trabalho na costa paulista.

282 Relato de Flávio Castro de Paula, 61 anos, Ubatuba, SP, 26/03/2013.

283 Relato de Osvaldo Amâncio de Paula Neto, Ubatuba, SP, 26/03/2013.

284 CLAUZET, M., 2009, op. cit., p. 37.

187

De todas as embarcações motorizadas, porém, foram as traineiras que passaram a dar

um caráter totalmente industrial à pesca, atraindo quase todos os tipos de pescadores

provenientes das mais variadas comunidades do litoral paulista. As traineiras são barcos

motorizados que puxam uma grande rede de cerco denominada

“traina” (daí o nome

traineira), utilizada na captura de peixes de superfície, principalmente a sardinha.

Ao que parece, a primeira traineira foi introduzida no Brasil por volta de 1910 na

Quinta do Caju, pequeno povoado que se instalou na Ponta do Caju, que fica na Baía da

Guanabara, no Rio de Janeiro. Segundo Raquel Soeiro de Brito (1960),

As primeiras famílias que se fixaram na Quinta construíram as suas casas na Rua Circular (o Morro estava então coberto de mato) e já se dedicavam à pesca. Haveria umas três ou quatro canoas de onde se lançavam as tarrafas para a apanha do camarão, e uma traineira que ocupava seis homens e estava apetrechada com uma

rede de cinquenta braças.286

Segundo Mussolini, o primeiro a usar a traineira no Brasil foi um espanhol que trouxe

a rede pronta da Espanha,

(...) e com a difusão desta, continuou-se a importar os panos para a sua confecção daquele país. Bastante generalizadas na costa norte da Espanha e também na França, no litoral da Gasconha, as traineiras foram no Brasil, durante muitos anos, o monopólio de dois ou três espanhóis. E como não houvesse inicialmente fábricas dessas redes em Portugal, os próprios portugueses da Guanabara passaram a importá-las da Espanha; só mais tarde Portugal e Japão entrariam no rol dos países

fabricantes.287

A autora cita o uso generalizado da traineira na França. Encontramos na língua

francesa, o uso do verbo traîner e na Espanha o verbo trajinar (ambos com significados de

puxar, arrastar, transportar), termos que derivam de traginare ou tragere, do latim vulgar, que

também deram origem, provavelmente, às palavras traina e traineira em português

288

.

Como ocorreu com outras técnicas e métodos de pesca trazidos por estrangeiros,

houve uma aceitação lenta e gradual do uso da traina e das traineiras pelos pescadores

brasileiros. Em 1956, segundo Raquel Soeiro de Brito, já havia na Quinta do Caju cerca de

cinquenta traineiras, mas somente seis pertenciam a brasileiros

289

.

286 BRITO, Raquel Soeiro de., 1960, op. cit., p. 49-50.

287 MUSSOLINI, Gioconda. Os Japoneses e a pesca comercial no litoral norte de São Paulo In: Ensaios de

antropologia indígena e caiçara, op. cit., p. 252-253.

288 http://en.wiktionary.org/wiki/traîner (Acesso em 15/05/2013).

188

No litoral paulista, as primeiras traineiras chegaram provenientes da Ilha Grande (RJ),

cerca de trinta anos após sua introdução na Quinta do Caju. Na década de 1940, as traineiras

de São Paulo se localizavam ao redor das salgas da Ilha de São Sebastião, além de serem

exploradas por comerciantes e investidores de outras regiões, que não eram pescadores, o que

já dava indícios da vocação empresarial desse tipo de pesca.

Logo que surgiu, a traineira começou a ser explorada também por pessoas não ligadas a pesca. Seis sócios de Ilhabela, todos proprietários mas não pescadores, adquiriram uma rede em 1945, pagando parte à vista e parte a prazo, com o produto da própria pescaria. O mesmo se deu com um comerciante da praia da Armação. Em 1950, havia em Ubatuba 2 traineiras na praia de Picinguaba e 5 na da Enseada, onde

residiam os mestres, parte-proprietários.290

A pesca com traineira representou uma ruptura com a pequena pesca até então

praticada no litoral paulista. Além disso, possibilitou transformações nas relações internas de

trabalho, inserindo parte do contingente dos pescadores caiçaras, recrutados em suas

comunidades, e os novos pescadores profissionais num sistema industrial, com a

especialização de funções:

O aparecimento das traineiras na Região Sudeste coincidiu com o início da pesca embarcada no Brasil e significou um rompimento gradual com a pequena pesca. Este rompimento se tornou mais marcante na década de 30, quando os barcos sardineiros - as traineiras - passaram a abastecer as indústrias de conserva de sardinha, entrando numa escala de captura até então desconhecida da pequena pesca. Essa escala de captura significou não somente a utilização de equipamentos de pesca mais possantes, como também a exploração dos mares mais distantes com uma unidade de produção onde a divisão do trabalho era mais diversificada que na pesca das canoas e jangadas até então dominante no litoral brasileiro.

(...) [A] diversificação das tarefas coincide também com um crescente e diversificado saber-fazer dos tripulantes que contrasta com aquela unidade do conhecer e saber do pescador artesanal, que é ao mesmo tempo o mestre, o

motorista, o proeiro de sua própria embarcação291.

Mussolini comenta que em meados do século XX a Ilha Grande, no Rio de Janeiro,

(hoje transformada em Parque Estadual) era um dos locais mais utilizados para a pesca com a

traineira. A autora descreve os componentes técnicos que fazem parte desse tipo de pesca e

quais as espécies mais capturadas:

290 MUSSOLINI, Gioconda. Os Japoneses e a pesca comercial no litoral norte de São Paulo In: Ensaios de

antropologia indígena e caiçara, op. cit., nota 17, p. 253.

189 Embora se destine sobretudo à sardinha - e 90% desse peixe entrado em Santos provém do litoral norte e da Ilha Grande, a área por excelência da atuação das traineiras - aplica-se também a outros peixes, como a savelha, o xarelete, a corvina, o xaréu, a pescada cumbuçu etc. Como característica distintiva, esta rede é fechada por baixo através de um cabo (a carregadeira), que corre dentro de argolas de metal (as anilhas), dispostas na tralhado chumbo, depois que o barco, que deixou uma das extremidades da rede numa bateria (caíque ou caíco), realiza o cerco ao redor do cardume e volta ao ponto de partida, onde as duas extremidades da rede são reunidas. O peixe é então recolhido com o auxílio de um grande coador de malhas apertadas e de fio grosso, o sarico. Os barcos maiores dispõem de um guincho movido a motor para o lançamento mecânico da rede. O tamanho da traineira [aqui

a autora usa o termo traineira para designar a rede] varia, desde as pequenas de

Cabo Frio, com apenas 75 braças, até as maiores da Ilha Grande, onde se registrou a presença de uma de 300 braças de comprimento por 30 de altura. Na Guanabara, elas são de 200 a 220 braças, e na costa paulista, as maiores, de 200 braças por 20,

as mais comuns sendo de 180 braças por 19.292

No “Anuário de Pesca Marítima no Estado de São Paulo”, publicado em 1945 pelo

Departamento de Produção Animal da Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio,

encontramos a descrição das redes utilizadas pelas traineiras desse período:

Recebe o nome de traineira uma rede própria para cercar cardumes em alto mar. Possui a forma retangular e é guarnecida por duas tralhas, a de chumbo e a de cortiça. A traineira para a pesca da sardinha é de malhas pequenas (10 mms.) e confeccionada com linha muito fina. Em uma das extremidades, costura-se um pano quadrado de linha mais resistente, que recebe o nome de ensacador, porque é aí que são concentradas as sardinhas antes de serem recolhidas para bordo da embarcação. A estrutura mais típica da traineira consiste no dispositivo para fechar a rede por baixo, depois de completado o cerco do cardume. As anilhas, formadas por pequenas cordas guarnecidas na ponta com uma espécie de anel de metal, prendem- se em intervalos regulares, à tralha de chumbo. Recebe o nome de carregadeira o

cabo que passa pelo interior dos anéis de todas as anilhas293 (Fig. 25).

292 Ibid., p. 252.

293 SECRETARIA DA AGRICULTURA, INDÚSTRIA E COMÉRCIO. Anuário da Pesca Marítima no

Estado de São Paulo. São Paulo: Departamento da Produção Animal, Divisão da Produção e Proteção de Peixes

190

Fig. 25 - Ilustração da pesca com traineira, produzida para o “Anuário de Pesca Marítima do Estado de São Paulo”, de 1945, da Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio, op. cit., p. 69.

Segundo um catálogo oficial de redes utilizadas na pesca industrial, realizado pelo

governo federal em 1980, “até 1962 o material empregado na confecção destas redes era o

algodão, porém gradativamente foi sendo substituído por fibras de náilon que atualmente é o

único material utilizado nas panagens destas redes”

294

.

Em trabalhos mais recentes do Instituto de Pesca de São Paulo há informações de que

as redes utilizadas pelas traineiras de hoje são retangulares, medindo de 700 a 900 m de

comprimento (470 a 600 braças) e 50 a 60 m de altura:

A principal espécie visada por esta frota é a sardinha-verdadeira, entretanto outras espécies são também capturadas com certa freqüência. Dentre estas, destacam-se: cavalinha, palombeta, tainha, bonito, carapau, corvina, galo e xaréu. Nos últimos anos, em razão da queda observada na produtividade da sardinha-verdadeira, algumas espécies acessórias têm sido desembarcadas em maiores quantidades pela frota de traineiras, sugerindo que esta esteja dirigindo parte do seu esforço de pesca

à captura das mesmas.295

Devido a problemas como a dificuldade de fiscalização e a exploração intensa, a pesca

de corvina e algumas outras espécies por traineiras foi proibida em 2007 pela Portaria n° 43

294 UENO, Fumiyoshi et. al. Catálogo das redes de arrasto e cerco utilizadas pela frota industrial nas

regiões Norte, Sudeste e Sul do Brasil. Brasília: Ministério da Agricultura/SUDEPE, 1980. P. 3.

295 CASTRO, Luiz Arnaud Britto de. Situação atual da cadeia produtiva do pescado no litoral do estado de

191

do Ibama. Em 2012 uma operação da Polícia Federal com o Instituto Chico Mendes de

Conservação da Biodiversidade (ICMBio) apreendeu uma traineira no litoral catarinense

transportando uma tonelada de peixes capturados irregularmente, sendo 800 kg de corvinas

(Foto 64)

296

.

Foto 64 - Lancha da Polícia Federal e traineira apreendida no litoral catarinense em julho de 2012 (Fonte: