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5.2 Discourses of collaboration and autonomy

Há vários tipos de canoa utilizados no litoral paulista e algumas diferenças entre elas,

conforme a região onde são confeccionadas. Antônio Paulino de Almeida classificou, em

1945, as canoas da costa paulista em dois tipos básicos, as canoas de partilhas, ou feitio de

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mar, usadas principalmente no litoral norte, e as canoas ribeiranas, ou feitio da ribeira, usadas

mais comumente no litoral sul. Dentro desses tipos básicos, segundo ele, há diversas

categorias de canoas

262

. O “batelão”, por exemplo, era uma canoa de menores proporções e

foi amplamente utilizado na pesca, que adquiria cada vez mais importância para o caiçara a

partir do início do século XX. Os nomes “canoa de voga” e “batelão”, segundo Almeida, eram

utilizados somente no litoral norte para diferenciar a canoa de transporte e a canoa menor, de

pesca. No litoral sul todas as canoas, sejam elas de transporte ou pesca, eram chamadas

apenas de “canoas”. O termo “batelão” no litoral sul era utilizado para designar pequenas

canoas utilizadas por crianças feitas com os restos da madeira usados para a confecção das

outras canoas. Além dos tipos de árvores utilizados, outras diferenças, segundo o autor, são

verificadas nos tipos de velas, localização e posição dos mastros.

Ao norte, somente se usam as velas chamadas redondas, ao passo que para o sul apenas aparecem as latinas, de talhes caprichosos, como o bujarrona, o traquete e a mezena. As vogas do litoral norte são providas de um grande mastro quase perpendicular e colocado à meia nau; as canoas do litoral sul apresentam dois, com inclinação para a ré. Justificam-se tais diferenças, de acordo com o meio. É que para o norte toda a atividade tem por campo de ação o oceano sempre agitado, enquanto que para o sul ela se processa nos grandes e calmos mares, baías e canais interiores.263

Hoje ainda podemos encontrar três tipos básicos de canoa no litoral paulista, as

pequenas canoas de 3 a 4 metros de comprimento, a remo, utilizadas para a pequena pesca

costeira, os batelões de 4 a 7 metros, utilizados para a pesca de rede e as visitas e coletas nos

cercos fixos e flutuantes, também a remo ou, raramente, a motor, e as canoas bordadas, com

mais de 7 metros, uma variação menor da canoa de voga, utilizadas na pesca marítima e

transporte, movidas a motor de centro.

264

Podemos resumir o processo tradicional de confeccção de canoas a partir do trabalho

de Wanda Maldonado, que detalha todos os processos da construção de canoas em Ilhabela.

265

Tudo tem início com a escolha do mestre-canoeiro e o tipo de canoa desejada. Normalmente,

que vai procurar a árvore na mata é o mestre-canoeiro, conforme a especificação do tipo e

262 ALMEIDA, Antônio Paulino. Usos e costumes praianos. In: DIEGUES, A.C. Enciclopédia Caiçara - Vol

IV, op. cit., p. 59, publicado inicialmente Na Revista do Arquivo Municipal, ano XII, vol. CLV, ago-set 1945, p. 67-80.

263 Ibid, p. 59-60.

264 MALDONADO, Wanda. A construção material e simbólica da canoa caiçara em Ilhabela. In: DIEGUES, A.

C. Enciclopédia Caiçara, Vol. I, 2004, op. cit., p. 299.

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tamanho de canoa solicitado pelo pescador que o contratou, mas pode ocorrer de o próprio

pescador encontrar a árvore ideal. Há várias espécies utilizadas para a fabricação de canoas

(Tabela 5), só em Ilhabela os canoeiros citaram 25 espécies, segundo Maldonado.

Tabela 5 - Espécies de árvores utilizadas para fabricação de canoas em Ilhabela266

NOME POPULAR NOME CIENTÍFICO, FAMÍLIA AVALIAÇÃO

Bicuíba Tapira guaianensis, Anacardiaceae É boa para fazer remos.

Canela Nectandra mollis, Lauraceae É boa para fazer a bordadura.

Cedro Cedrella fissilis, Meliaceae A mais durável, a melhor que há para

trabalhar.

Coabi Machaerum nyctitans, Fabaceae É pesada para canoa.

Figueira Ficus insipida, Moraceae Há de vários tipos, mas todas são fracas e

duram pouco.

Guapuruvu Shizolobiu parahyba, Caesalpinaceae É macia para trabalhar, é leve, mas a canoa

não é durável. É a que mais existe.

Ingá Inga sessilis, Mimosaceae Depois do cedro e do jequitibá é a melhor

que há

Jacataúba É boa para fazer a bordadura

Jequitibá Cariniana legalis, Lecythydaceae Depois do cedro é a melhor para fazer canoa.

Além de Maldonado, outros autores citam as diferentes árvores utilizadas na

fabricação das canoas no litoral paulista e litoral sul do Rio de Janeiro. Segundo Ary França

(1951), em Ilhabela, “o ingá, o araticum, o bocupiba-uçu, o cabi, o guapuruvu, o jequitibá, a

canela moscada, a canela-batalha, o pau-d‟alho, a figueira, aparecem no vocabulário local

como as mais utilizadas para aquele fim”

267

. Diegues e Nogara (2005) comentam que no Saco

do Mamanguá, em Parati, as canoas são feitas de “guapuruvu, cedro, canafístula, ingá,

jequitibá, canela, figueira, cobi, caixeta e timbaúba”

268

.

A escolha do local de derrubada também precisa ser pensado, já que o relevo ou a

dificuldade em se transportar a canoa da mata podem inviabilizar o trabalho. O mestre-

canoeiro, após definir a árvore, chama mais dois ou três homens para ajudá-lo e, conforme a

266 Extraído de MALDONADO, Wanda, 2003, Enciclopédia Caiçara Vol. 1, op. cit., p. 301.

267 FRANÇA, Ary, 1951. Op. cit., p. 81.

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fase da lua, a árvore é derrubada com o uso do machado, evitando a derrubada de árvores

próximas.

O início da escultura da canoa se dá na própria mata, para que fique mais leve de ser

transportada depois para a praia (Foto 34). Utilizando-se uma linha mestra, normalmente feita

de barbante de algodão embebido um uma solução líquida, marca-se a linha de fundo e as

outras linhas onde a madeira deverá ser esculpida. O tronco é cavado e com o enxó-goiva,

ferramenta específica para a confecção de canoas, o trabalho mais detalhado de escultura

continua. Durante todo o trabalho na mata, normalmente não se protege a canoa do tempo,

mas ao primeiro sinal de cupim, é necessário o tratamento com veneno, que hoje substitui o

alcatrão utilizado antigamente.

Foto 34 - Início da modelagem da canoa ainda na floresta, após a derrubada da árvore (Fonte: DENADAI,