• No results found

in the school of arts

4.3 Discourses of ‘the House’ and decentralisation

99

Segundo Mourão (2003), que fez seus trabalhos de campo no litoral paulista entre

1963 e 1970, o que faz com que os pescadores utilizem um novo tipo de material nas redes é a

economia de tempo e de dinheiro, elementos valorizados pelas condições do mercado

capitalista:

A divulgação da rede de náilon, já comprada pronta, deve-se, principalmente, à emergência de uma certa racionalidade de mercado pelos pescadores que operam com embarcações motorizadas. Estes, quando inquiridos sobre a preferência pelas redes prontas, respondem que compensa mais comprar a rede pronta do que mandar fazer a algum velho pescador, o que ficaria mais caro e que não fazem, pois

demanda muito tempo, tempo esse que aproveitam melhor na pesca.196

Um caiçara da Ilha Comprida que se auto-define como pescador artesanal, ao mesmo

tempo relatou, em 2012, que usava rede industrializada:

“É rede industrial, a gente compra pronta da fábrica, o pano, e a gente só entralha ela. Mas ela vem com a panagem pronta”197.

Mourão comenta que, no tempo de sua pesquisa, ainda se utilizavam redes de espera

feitas com algodão e perlon, uma fibra sintética. Porém, a rede de algodão precisa ser

constantemente lavada em água doce e tingida “quinzenalmente, quando em uso, com tinta de

jacatitão, raiz-de-mangue, aroeira e outras que se obtém nas matas”

198

. Além disso, segundo

ele, os pescadores dizem que a rede de náilon é mais resistente e “engana melhor o peixe”.

O autor verificou, ainda, a existência de alguns poucos donos de redes de arrasto feitas

de algodão, que, segundo seus proprietários, eram mantidas devido à grande quantidade de

redes já adquiridas, o que tornaria economicamente inviável uma nova aquisição de grande

quantidade de redes feitas de náilon.

Vai mantendo a rede antiga, de algodão, que trata com cuidado, com a ajuda dos camaradas da terra, aplicando os remendos necessários. Em outros pontos da costa, quando a rede do velho arrastão de terra não oferece mais condições de reparos, essa técnica de pesca é simplesmente abandonada. O arrastão de terra não tem mais condições de subsistir, ou porque falta o peixe na costa, em decorrência do arrasto dos barcos pesqueiros, ou porque o resultado não compensa e o dono do arrastão de

terra não tem condições de atrair braços para a parada.199

Dessa forma, Mourão já delimita algumas das causas econômicas da diminuição do

uso da técnica de arrasto de praia no litoral paulista, que, aliadas à criação de unidades de

196 MOURÃO, Fernando A. Os pescadores do litoral sul de São Paulo. Op. cit. P. 71.

197 Relato de Cláudio Luís Rodovansky, Ilha Comprida, SP, 25/01/2012.

198 Ibid. P. 71-72.

100

conservação e da legislação restritiva, está, aos poucos, desaparecendo. Segundo um pescador

da praia de Picinguaba,

“Por essas praias aí matavam tainha adoidado. Traziam um monte e você não via o outro lado assim. E hoje em dia isso não é permitido. (...) a gente trabalha com esse tipo de rede [apontando para as redes de emalhe]. Essas redes de puxar pra praia assim, que era antiga, esse tipo de rede acabou, os caras não permitem a gente entrar no mar (...) não é mais permitido, proíbem tudo”.200

A substituição de materiais orgânicos pelos materiais sintéticos é também comentada

pelos moradores do Quilombo da Fazenda Picinguaba. Inclusive, o morador mais antigo, com

74 anos, associa o uso dos novos materiais com o aumento da poluição:

“Antigamente, o Seu Zé mesmo diz, que eles usavam os cabos de fios de Embé pra arrastarem rede na praia. O fio de embé, um cipó, que tem aí na mata, a gente usa pra artesanato mas eles usavam pra fazer cabos de rede mesmo pra arrastar e matar peixe. Hoje em dia já não tem mais essa necessidade”201. (...)

“Os caras compram um bolo de porcaria de pescaria por metro. Antes era artesanal, os caras não tinham onde buscar polietileno, rede de náilon, essas coisas. Os caras se defendiam como podiam. Tinha uma planta que a gente tem aí chamada “tepita” que a gente fazia corda daquilo, corda de pita. (...) Embé, tirava a casca do Embé pra fazer cabo de rede, a rede era de algodão, não era rede de náilon, tirava tinta de madeira pra poder botar tinta na rede quando ela tava desbotando. O cara se defendia por aqui mesmo. (...) Tudo era dividido por aqui mesmo, era tudo artesanal. O povo diz que pescador e caçador é tudo mentiroso mas não é! Dá pra acreditar que é mentira né, a gente pensa que é mentira mas não é! (...) O polietileno, a rede de náilon, pra não acabar mais, de cor diferente, é tudo de plástico... Porque, veja bem, um pedaço de rede que ele tem agora, se ele cair numa praia qualquer, tem que pegar ele, guardar, por que não acaba nunca, é náilon. Primeiro não, por isso que não existia poluição, porque se tinha uma caixa de banana, apodrecia, o bagaço da cana apodrecia, casca de laranja apodrecia, papel jogava dentro de um saquinho e derretia, não tinha água encanada, não tinha um cano de plástico, não tinha nada. Não existia poluição. Não tinha como. Agora todas as coisa poluem. Por que as coisas não se acabam mais”.202

Ferreira Alves (2007), pesquisador do Instituto de Pesca de São Paulo, comenta que as

redes sintéticas utilizadas na pesca são constituídas de sete diferentes polímeros químicos.

Segundo ele, as redes de arrasto de poliamida

200 Relato de Benetido Carlos, 44 anos, Ubatuba, SP, 26/03/2013.

201 Relato de Ginacil dos Santos, Ubatuba, SP, 26/03/2013.

101 (...) foram testadas pela primeira vez no final da década de 40, seu uso mais difundido, porém, só veio no começo da década de 50 com a introdução dos fios de polietileno (mais baratos). A maior parte das redes de emalhe modernas é feita de fibras de poliamida, comumente chamadas de náilon ou conhecidas por outros nomes comerciais. Fibras sintéticas são produzidas em diferentes formas, duas destas são conhecidas como multifilamento e monofilamento, sendo utilizadas em diversos tipos de redes de emalhe.

Fios multifilamento são filamentos contínuos de fibras muito finas, normalmente menores do que 0,07 mm de diâmetro. Os fios multifilamento utilizados em redes de emalhe são feitos com um grande número destes filamentos agrupados, torcidos ou trançados. Comumente filamentos contínuos são torcidos para formar fios compostos relativamente finos, e muitos destes fios compostos são por sua vez torcidos para fazer o fio que é então entralhado nas redes de pesca. As redes multifilamento foram as primeiras a ser introduzidas e ainda hoje são referidas pelos pescadores como redes de náilon.

Uma imensa variedade de fios multifilamento pode ser produzida alterando-se algumas características, tais como:

- Material do filamento (poliamida, polipropileno, etc.); - Espessura do filamento;

- Número de filamentos em cada fio composto; - Grau de torção do fio composto;

- Número de fios compostos que compões o fio de rede; - Grau de torção do fio de rede;

- Direção da torção do fio de rede em relação à dos fios compostos.

Fios monofilamento são fios de filamento simples que são normalmente mais grossos que 0,1 mm de diâmetro. Aqueles com espessura maior que 0,4 mm são fortes o suficiente para funcionarem sozinhos como fios de rede; redes com malhas de tamanho igual ou inferior a 50 mm (entre nós opostos) são normalmente feitas com fios de 0,4 mm, enquanto os fios de 0,6 e 0,8 mm são normalmente utilizados

em redes de malhas maiores.203

Num relatório produzido pelo Instituto de Pesca de São Paulo, após solicitação de

pesquisa pelo Ibama (Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), com

a finalidade de se avaliar o impacto da pesca de arrasto de praia sobre a população de peixes

na Ilha de São Vicente, em São Paulo, visando dar início a um futuro ordenamento dessa

203 ALVES, Pedro Mestre Ferreira. Dinâmica da pesca de emalhe do Estado de São Paulo e alguns aspectos

biológico-pesqueiros das principais espécies desembarcadas em Santos. Dissertação (mestrado em

102

pesca, temos a descrição técnica de uma rede de arrasto de praia encontrada hoje no litoral de

São Paulo:

Características do petrecho: Rede de arrasto de praia sem ensacador com as seguintes dimensões: tralha superior de 496m confeccionada com cabo sintético de 10 mm de diâmetro, PA (poliamida) torcido, 3 X 16, com boias de 0,250 kgf espaçadas a cada 900 mm; o espaçamento de fixação na rede na tralha a cada 100 mm. [Figs 12 e 13]

As mangas são formadas por um primeiro pano com nós, fio sintético monofilamento, classificação química PA 0,6 mm, malha de 50 mm, 50 X 600 malhas (nº de malhas em altura X nº. de malhas em comprimento); o segundo pano difere apenas nas dimensões, 75 X 1880 malhas e o terceiro pano com nós. fio sintético monofilamento, classificação química PA 0,7 mm, malha de 50 mm, 75 X 1000 malhas.

Na sequência um pano mais resistente com nós e fio sintético torcido, classificação química PE (polietileno) 30/24, malha de 45 mm, 100 X 884 malhas. O pano

central, confeccionado artesanalmente para ser mais reforçado, a partir de fio sintético PP (polipropileno) 2,0 mm de diâmetro, malha 45 mm, 100 X 884 malhas

(aproximadamente 9,0 m de altura). [Fig. 13]

A tralha inferior de 500 m confeccionada com cabo sintético de 10 mm de diâmetro, PA (poliamida) torcido, 3 X 16, com chumbadas de 200 g espaçadas a cada 450 mm; o espaçamento de fixação da rede na tralha a cada 100 mm.

Na extremidade de cada manga, a partir das tralhas, se encontram cabos de PA de 10 mm de diâmetro que compõem a tesoura, responsável pelos pontos de tração nas mangas. No cabo superior são dispostas 9 boias de 0,125 kgf cada e no cabo inferior 9 chumbadas de aproximadamente 200 g cada. Na sequência o cabo dobrado de PA 10 mm de diâmetro precede a espia de PA torcido de 12 mm de diâmetro e 680 m de

comprimento [Fig. 14].204

Pelo que pudemos perceber, os caiçaras adaptaram suas técnicas de pesca ao uso dos

novos materiais, mantendo o uso concomitante de redes compradas e pré-fabricadas com

redes confeccionadas por eles mesmos, artesanalmente, ainda que com fios sintéticos

adquiridos nas cidades.

204 FAGUNDES, Lúcio et al. A pesca de arrasto-de-praia na Ilha de São Vicente, São Paulo, Brasil. Instituto

103

Fig. 12 – Esquema do petrecho de arrasto de praia (Fonte: FAGUNDES, Lúcio et al. A pesca de arrasto-de-praia na Ilha de São Vicente, São Paulo, Brasil. Instituto de Pesca, São Paulo, 2007, op. cit., p. 10).

Fig. 13 – Detalhe de construção das tralhas da rede de arrasto (Fonte: FAGUNDES, Lúcio et al. A pesca de arrasto-de-praia na Ilha de São Vicente, São Paulo, Brasil. Instituto de Pesca, São Paulo, 2007, op. cit., p. 11).

104

Fig. 14 – Detalhe de construção dos cabos de tração e início da manga (Fonte: FAGUNDES, Lúcio et al. A pesca de arrasto-de-praia na Ilha de São Vicente, São Paulo, Brasil. Instituto de Pesca, São Paulo, 2007, op. cit., p. 12).

105

Apesar de, tecnicamente, os pesquisadores do Instituto de Pesca terem feito suas

medidas da rede no sistema métrico decimal, os pescadores tradicionais utilizam até hoje a

braça

205

como unidade de medida principal para construção de redes:

Como exemplo, podemos citar os tamanhos das redes utilizadas na pesca de arrasto (...). O tamanho da rede para a pesca de arrasto mais utilizado é a de 40 braças de comprimento por 5 braças de altura, construída com malha de 7cm e que serve para pescar corvina, bagre e parati. E a maior de 200 braças de comprimento por 9 braças de altura, construída com malha 8cm ideal para pescar tainha, parati, pescada e carapau.

A altura da rede é definida pela parte central. Ao ser construída, sua altura vai aumentando até chegar ao centro. Por exemplo, numa rede de 200 braças, a altura começa com 5 e, quando chega no centro, está com 9 braças. Nesse caso, a cada 20 braças de comprimento, aumenta-se uma braça e depois se diminui. Se perguntarmos ao construtor qual é o tamanho desta rede ele responderá que mede 200 braças de comprimento por 9 braças de altura. [Fig. 15]

Observe-se que a altura vai aumentando. Os pescadores alegam que o aumento dificulta a fuga do peixe. Esta medida é feita com os braços abertos indo de uma

mão a outra e que segundo os caiçaras, mede aproximadamente 1,50 m.206

Fig. 15 – Medidas em braça na rede de arrasto (Fonte: CHIEUS JR., 2009, op. cit.., p. 11).

A tralha, segundo o glossário caiçara produzido por Paulo Fortes Filho, é o “conjunto

de redes onde estão acondicionadas a cortiça e os chumbeiros. São as amarras que prendem,

por cima, a tralha da cortiça e, por baixo, a tralha do chumbeiro”.

207

Em muitos tipos de redes

205Oficialmente, segundo a “Tabela de Medidas Agrárias Não Decimais”, do Ministério do Desenvolvimento

Agrário, uma braça equivale a 2,20 m. Para os caiçaras, segundo CHIEUS JR. (2009) uma braça equivale a 1,50 m, medida de uma mão a outra, com os braços abertos.

206 CHIEUS JR., Gilberto. A Braça da Rede, uma Técnica Caiçara de Medir. In: Revista Latinoamericana de

Etnomatemática, Vol. 2, Nº 2, agostos de 2009, p. 10-11.

207 FORTES FILHO, Paulo. Glossário caiçara do Litoral Sul Paulista. In DIEGUES, A.C. (Org.) Enciclopédia

106

o chumbeiro fica dentro da corda da tralha e as boias, feitas de vários formatos, tem um

buraco por dentro do qual passam as cordas. Por causa da influência portuguesa, até o início

do século XX, os flutuadores eram feitos de cortiça e os lastros (conhecidos também como

chumbeiros, por serem, hoje, comumente fabricados com chumbo), de barro cozido. Contudo,

assim como ocorreu com as redes, as boias passaram a ser confeccionadas de outros materiais.

O primeiro material sintético utilizado como boia foi o isopor (poliestireno), principalmente

após a década de 1950, que não se adaptou totalmente a todos os tipos de pesca ou redes,

devido à sua baixa resistência à pressão da água, pois quanto maior a profundidade, maior o

encolhimento da boia. Em seguida vieram flutuadores de diversos materiais, usados conforme

a técnica de pesca (Figs. 16 a 18 e Foto 14).

Diversos tipos de flutuadores são utilizados para dar flutuabilidade positiva à tralha superior. Quando da pesca em águas rasas, normalmente utilizam-se flutuadores de cortiça ou de poliestireno fixados à corda superior, os deste último tipo, porém, podem ser utilizados também embutidos na corda. Para a pesca em águas mais profundas, os flutuadores utilizados são peças ocas de metal (de forma circular a oval, com abertura na parte inferior) ou anéis de plástico de alta densidade. No Brasil são utilizados flutuadores de poliestireno, PVC e polietileno. O peso é mais facilmente aplicado na tralha inferior embutindo-se chumbo dentro das cordas (lastros), ou através do uso de vários tipos de dispositivos, como anéis de metal. (...) a depender da flutuabilidade final aplicada à rede, a mesma pode ser utilizada na superfície (para captura de espécies pelágicas) ou no fundo (para captura de espécies

demersais).208

107

Fig. 16 - Flutuadores de EPS (poliestireno expandido), à venda no comércio de produtos para pesca no Brasil (Fonte: Loja Argóvia – http://www.argovia.com.br).

108

Fig. 18 - Flutuadores de poliuretano injetado, muito usados na pesca em São Paulo (Fonte: Loja Argóvia – http://www.argovia.com.br).

Foto 14 – Boia usada em rede artesanal que estava sendo confeccionada por pescador em Cananéia, São