in the school of arts
4.2 Discourses of local autonomy and centralised governance
Coleção: Heloísa de Freitas Valle).
Podemos inferir também a continuidade do uso de termos relativos à técnica, como
“mangas” e “lanço” (termo usado em outras passagens pelas duas autoras). Segundo Mourão,
“da herança lusitana, além de técnicas, registramos o próprio nome que dão à faina pesqueira,
„matar peixe‟, expressão portuguesa antiga, que oferece bem a conotação da pesca à época,
isto é, uma atividade coletora, tal como a caça, com significação, portanto, diferente da que
atribuímos hoje à pesca”
184.
Quanto à embarcação utilizada no arrasto de praia em São Paulo, a canoa construída
em um só tronco de árvore, feita com técnica de construção tradicional das comunidades
caiçaras, é também utilizada em outros tipos de pesca e tem origem indígena. Mais a frente
falaremos especificamente das canoas caiçaras.
A pesca da tainha, para Carlos Borges Schmidt, que descreveu o processo de captura
da espécie na década de 1940
92 (...) é a principal e a mais importante de quantas se praticam na região de Ubatuba. (...) Entre todas as demais, a pesca da tainha exerce uma grande fascinação sobre a população litorânea. A ela não somente se entregam os que possuem as redes de costa como os demais pescadores, aqueles que em outras ocasiões pescam, providos ou não de diferentes redes ou de linha; os moradores da praia em geral, moços,
velhos e crianças, inclusive não raro, os habitantes do “sertão”, na planície e nas
vizinhanças do sopé da serra.185
A captura da tainha pela técnica do arrasto de praia no litoral de São Paulo (assim
como em outras partes do litoral brasileiro, como no litoral norte do Paraná) é extremamente
engenhosa e envolve diversas etapas para que se chegue a um bom resultado. Utilizando as
descrições detalhadas de diversos autores
186, podemos aqui fazer um resumo do processo.
A tainha é pescada, pela técnica do arrasto de praia (Fig. 11), entre maio e agosto. Há
um acordo temporário, entre aqueles que se envolvem na pesca, que estabelece uma certa
divisão do trabalho. “Entre os caiçaras, as equipes de pesca tinham denominação local
variada: era a „companha‟ no litoral fluminense, a „sociedade‟ na Ilhabela, a „campanha‟, em
Ubatuba, a „combinação‟ em Iguape”
187. Além dos donos das redes e das canoas, quase todos
os pescadores locais se envolvem, de alguma maneira, na temporada da tainha. Usa-se o
sistema de camaradagem, no qual os redeiros “contratam” os camaradas para puxarem e
trabalharem com a rede, fazendo a sua lavagem e o recolhimento após a pesca.
Dentre os camaradas, o vigia (ou espia em Ubatuba, ou olheiro na Ilha do Mel, no
Paraná), tem uma das funções mais importantes, que é localizar o cardume e dar o aviso. Ele
passa dias e noites num local mais alto, uma pedra ou morro, para identificar e calcular o
número de peixes dos cardumes. Assim que observa um cardume interessante para o trabalho,
ele dá o alarme. Na década de 1940, segundo Gioconda Mussolini, o vigia tocava um búzio, a
buzina da rede
188. “O toque do búzio tem que se dar quando o peixe está a uma distância
suficiente para que haja tempo para tudo: puxada da canoa para o mar, embarque, emenda das
redes (quando se usam os tresmalhos). E tudo isso com o mínimo de barulho e o máximo de
rapidez”
189. Nos dias de hoje, segundo Leonardo Régnier (2010), esse é o “momento que entra
em cena a única inovação tecnológica introduzida no ritual da pesca de tainha desde o seu
185 SCHMIDT, Carlos Borges. Alguns aspectos da pesca no litoral paulista. In: DIEGUES, Antonio Carlos
(Org.). Enciclopédia Caiçara: Vol. IV, op. cit., p. 159-160.
186 Carlos Borges Schmidt (1948), Antonio Carlos Diegues (2004), Gioconda Mussolini (1953), Luiz Geraldo
Silva (1988), Leonardo Régnier (2010) entre outros.
187 DIEGUES, A.C. A pesca construindo sociedades. São Paulo: NUPAUB/USP, 2004. P. 282.
188 Mussolini, Gioconda. Aspectos da cultura e da vida social no litoral brasileiro. 1953. Op. cit., p. 91.
93
princípio: os rádios comunicadores. Até há poucos anos os olheiros sinalizavam os pescadores
na praia através de bandeiras ou com aceno de camisas, hoje isso é feito com os pequenos
radinhos”
190.
Após o aviso, todos vão para a praia, os pescadores tiram as canoas do rancho com os
roletes, entram na água e começa a estratégia para fechar o cerco ao cardume, com a ajuda do
espia que, da praia, orienta os pescadores com os braços (ou, hoje, com o rádio de
comunicação). Na canoa em que está a rede que faz o cerco vão, normalmente quatro
pescadores.
As canoas, ao largo, em dois grupos repartidos igualmente ao meio, começam a se afastar. E vão remando todas juntas, um grupo para cada lado, até que atinjam a distância das duas redes recolhidas em cada uma das canoas que estavam colocadas internamente. Nelas, enquanto dois ou três homens remam, aceleradamente, outros dois jogam ao mar a rede que, com maestria, fora ali arrumada. As canoas, agrupadas, vão se separando cada vez mais, ao passo que as que acabaram de deitar ao mar a sua carga dirigem-se rapidamente para terra, onde vão chegar quase que
conjuntamente com as últimas embarcações, portadoras das extremidades da rede.191
Inicia-se, então, a puxada da rede, feita pelos camaradas, os ajudantes e todas as
pessoas que estiverem no local. (Fotos 8-12). Após a puxada, o peixe é distribuído pelo
redeiro conforme a participação de cada um. A rede é então estendida para secar sobre a
vegetação rasteira ou varais feitos de estacas de bambu e, em seguida, são feitos os reparos
das malhas, das tralhas, e a guarda no rancho para uso posterior.
Fig. 11 - Representação de uma rede de arrasto de praia (Fonte: Rebimar, Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha do Paraná, ilustração de José Claro da Fonseca Neto -
http://marbrasil.org/home/detalhes/3156/Modalidades-de-Pesca).
190 RÉGNIER, Leonardo Medeiros. Pescadores de tainha. Curitiba: Edição do Autor, 2010. P. 17.
191 SCHMIDT, Carlos Borges. Alguns aspectos da pesca no litoral paulista. Enciclopédia Caiçara, Vol. IV, op.
94
Foto 8 - Pesca de arrasto, litoral do Paraná, 1947 (Foto de Carlos Borges Schmidt – Fonte: DIEGES, A.C.,