RUTE F. mENESES
FACULDADE DE CIêNCIAS HUmANAS E SOCIAIS
DA UNIVERSIDADE FERNANDO PESSOA, PORTO · PORTUGAL
CRISTINA MIYAZAKI
FACULDADE DE mEDICINA DE SÃO JOSÉ DO RIO PRETO, SP · BRASIL;
JOSÉ PAIS-RIBEIRO
FACULDADE DE PSICOLOGIA E DE CIêNCIAS DA EDUCAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO PORTO · PORTUGAL
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RESUmO
O objectivo do presente estudo é identificar o perfil sócio-demográfi- co e clínico associado a maior paz interior (PI). Avaliaram-se 177 es- tudantes do ensino superior Português, através de um Questionário Sócio-demográfico e Clínico e do WHOQOL-SRPB. A PI não se cor- relacionou com a idade. Não se verificaram diferenças entre os sexos, nem entre religiosos e não religiosos ao nível da PI. Identificou-se um perfil associado a maior PI, que tem implicações clínicas: indivíduos praticantes, sem problemas de saúde ou com problemas de saúde há mais tempo.
ABSTRACT
The aim of the present study is to identify the socio-demographic and clinical profile associated with higher inner peace (IP). A total of 177 Portuguese university students were assessed with a Socio-demo- graphic and Clinical Questionnaire and the WHOQOL-SRPB. IP did not correlate with age. There were no differences in IP between sexes or between religious and non-religious participants. A profile associ- ated with higher IP, with clinical implications, was identified: those practicing their religion, with no health problems or facing health problems longer.
INTRODUÇÃO
A paz interior é um conceito científico de tal forma importante que a Organização mundial de Saúde desenvolveu um instru- mento que a avalia (Fleck, Borges, Bolognesi & Rocha, 2003; World Health Organization, 2002a). De facto, um dos scores do WHOQOL-SRPB denomina-se Paz interior/serenidade/ harmonia (Fleck & Skevington, 2007; World Health Organi- zation, 2002b).
O WHOQOL-SRPB foi desenvolvido, numa perspectiva transcultural, para complementar o domínio religiosidade, espiritualidade e crenças pessoais do WHOQOL-100, instru- mento genérico de qualidade de vida (Fleck et al., 2003). No WHOQOL-SRPB (Fleck, et al., 2007, s/p.)., a
“faceta sobre paz interior/serenidade/harmonia é definida como: “O quanto as pessoas estão em paz consigo mesmas. A fonte dessa paz vem de dentro da pessoa e pode estar li- gada a uma relação que ela tem com Deus ou pode se origi- nar de sua crença em um código moral ou um conjunto de crenças. O sentimento é de serenidade e calma. Sempre que alguma coisa dá errado, essa paz interior ajuda a lidar com o problema. É considerada uma condição muito desejada”
Dos 15 grupos focais realizados no Brasil (dois com profis- sionais da saúde, dois com católicos, um com evangélicos afro-brasileiros, dois com espíritas, dois com ateus, dois com doentes recuperados, um com doente agudos, um com doentes crónicos e um com doentes terminais), no âmbito do desen- volvimento do WHOQOL-SRPB, verificou-se que a faceta paz
interior foi “caracterizada como uma faceta importante pelos grupos “Espíritas 1”, “Terminais”, “Agudos”, “Afro-brasilei- ros”, “Recuperados 2”, “Profissionais da saúde 1”, “Católicos 2” e “Crônicos””, sendo que “ambos os grupos de “Ateus” con- sideraram que o ato de lidar com situações difíceis está mais relacionado ao estado psicológico do que com a paz interior” (Fleck et al., 2003, p. 453).
Na validação brasileira do WHOQOL-SRPB, para estimar a validade discriminativa do instrumento, foram realizadas comparações entre grupos de acordo com o sexo, a idade, o estado de saúde, a crença religiosa/espiritual, a escolaridade e a classe sócio-económica, verificando-se diferenças entre os mais novos (18-44 anos) e os mais velhos (≥ 45 anos), não se verificando diferenças entre os doentes e os saudáveis, nem entre homens e mulheres, nem entre os indivíduos com e sem crenças, nem entre os indivíduos com maior vs. menor escola- ridade (3 categorias) (Panzini, et al., 2011). No que toca a va- lidade de critério concorrente, constataram que os indivíduos “deprimidos” (i.e., com sintomas de depressão) apresentaram médias significativamente mais baixas do que os “não depri- midos” ao nível da paz interior (Panzini et al., 2011).
Não foi, todavia, identificado mais nenhum estudo em que ti- vessem sido exploradas as relações entre a paz interior e variá- veis sócio-demográficas e clínicas. Na base de dados Pubmed, p.e., a palavra-chave “inner peace” permite aceder a apenas 5 documentos e a palavra-chave “WHOQOL-SRPB” a 4 artigos (neste caso, sem acesso a texto integral gratuito).
Assim, tendo em consideração a relevância do conceito (Cf. a definição do mesmo), urge conhecer as condições mais pro- pícias para a presença da paz interior. Consequentemente, o objectivo do presente estudo é identificar o perfil sócio-demo-
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CONSTRUIR A PAZ: VISõES INTERDISCIPLINARES EINTERNACIONAIS SOBRE CONHECImENTOS E PRáTICAS
gráfico e clínico associado a maior paz interior em universitá- rios Portugueses.
1. MéTODO
Foram avaliados 177 estudantes do ensino superior Português, entre os 18 e os 47 anos (M=22,18, DP=3,70): 26% do sexo masculino, 96,6% solteiros, 35,6% do curso de Psicologia, 17,5% estudantes-trabalhadores, 17,5% sem religião, 44,6% não praticantes e 19,8% com problemas de saúde, cuja dura- ção oscilava entre os 0,06 e os 22,0 anos (M=9,24, DP=7,12) (Cf. Quadro 1).
QUADRO 1. CARACTERIzAÇÃO SÓCIO-DEmOGRáFICA DOS PARTICIPANTES (N=177) N % Sexo Feminino 128 72,3 masculino 46 26,0 Dados omissos 3 1,7 Estado civil Solteiro(a) 171 96,6 Casado(a)/União de facto 3 1,7 Dados omissos 3 1,7 Curso Ciências da comunicação 35 19,8 Fisioterapia 8 4,5 Medicina dentária 62 35,0 Psicologia 63 35,6 Serviço social 9 5,1 Estatuto profissional Estudante 146 82,5 Estudante-trabalhador 31 17,5 Religião Não 31 17,5 Sim 144 81,4 Dados omissos 2 1,1 Prática religiosa Praticante 58 32,8 Não praticante 79 44,6 Dados omissos 40 22,6
Problemas de saúde actuais
Não 142 80,2
Sim 35 19,8
O protocolo de avaliação utilizado (incluído num protocolo mais amplo relativo a um projecto de investigação também ele mais amplo) incluía um Questionário Sócio-demográfico e Clí- nico, desenvolvido para o efeito e constituído por 13 itens, e o WHOQOL-SRPB.
O WHOQOL-SRPB é constituído por 32 itens, organizados em facetas, sendo que, associado ao WHOQOL-100, “produz um perfil de qualidade de vida com informação detalhada so- bre aspectos SRPB da qualidade de vida” (World Health Or- ganization, 2002b, p. 6). A faceta paz interior/serenidade/ harmonia inclui, tal como as restantes 7, 4 itens, cuja respos-
ta, dada numa escala de Likert, pode variar entre 1 e 5, sendo que valores mais elevados indicam melhor qualidade de vida (World Health Organization, 2002b). É ainda de referir que foram desenvolvidas facetas adicionais, que os investigadores podem optar por utilizar ou não, e itens (adicionais) de impor- tância, que indicam a importância para a qualidade de vida global das facetas de qualidade de vida, e que os investigado- res podem também optar por utilizar ou não (World Health Organization, 2002b).
Após a obtenção das devidas autorizações (autores do ins- trumento, instituição de ensino superior, comissão de ética, professores e potenciais participantes – consentimento infor- mado), teve lugar a auto-administração colectiva, em sala de aula, na presença do investigador.
2. RESULTADOS
A paz interior da amostra oscilou entre 1 e 5 (M=3,35,
DP=0,80).
No que toca a relação entre a paz interior da amostra e as variáveis sócio-demográficas e clínicas seleccionadas, verifi- cou-se que:
a) a paz interior não se correlacionou com a idade dos
participantes;
b) não houve diferenças estatisticamente significativas en- tre os sexos ao nível da paz interior;
c) não houve diferenças estatisticamente significativas entre religiosos e não religiosos ao nível da paz interior;
d) os praticantes (M=3,60) manifestaram maior paz inte- rior do que os não praticantes (M=3,17; t(124,244)=3,190,
p<0,002);
e) os indivíduos sem problemas de saúde (M=3,41) relata- ram maior paz interior do que os que tinham problemas de saúde (M=3,10; t(175)=2,104, p<0,04); e
f) a paz interior correlacionou-se com a duração dos pro-
blemas de saúde dos participantes (na altura, em anos:
r(33)=0,37, p<0,04).
3. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
No que diz respeito à relação entre paz interior e idade, os re- sultados do presente estudo, com estudantes do ensino supe- rior Português, não estão de acordo com os de Panzini et al. (2011). Contudo, é de sublinhar que, entre outras (p.e., país de origem, efectivo), as análises estatísticas realizadas e a am- plitude etária das duas amostras divergem: enquanto os uni- versitários tinham idades compreendidas entre os 18 e os 47 anos, os doentes (hospitalizados ou seguidos em ambulatório) e “saudáveis” (funcionários do hospital ou da universidade) do estudo de Panzini et al. (2011) foram divididos em dois grupos - entre os 18 e os 44 anos e com 45 ou mais anos. Assim, estas diferenças podem ser, pelo menos em parte, a causa das dife- renças entre os resultados dos dois estudos.
Em ambos os estudos verificou-se uma ausência de diferen- ças estatisticamente significativas entre os sexos ao nível da paz interior.
Não se identificaram diferenças estatisticamente significati- vas entre os estudantes Portugueses religiosos e os não religio- sos, nem entre os participantes Brasileiros com e sem crenças, ao nível da paz interior.
Porém, os praticantes do presente estudo relataram maior paz interior do que os não praticantes. Ora, esta variável não foi contemplada no estudo de Panzini et al. (2011).
VOL 2. TRABALHO, SAÚDE
E MEDIAÇÃO AMBIENTAL
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Os estudantes sem problemas de saúde referiram maior paz interior do que os que tinham problemas de saúde. Inversa- mente, a amostra brasileira de doentes em tratamento não mencionou paz interior significativamente diferente da amos- tra de brasileiros saudáveis. É possível que o tipo de doença/ tratamento em causa possa explicar (ainda que parcialmente) estes resultados. De facto, (Panzini et al., 2011) constataram que os indivíduos com sintomatologia depressiva relataram paz interior significativamente menor do que os que não refe- riram sintomatologia depressiva.
Não é possível comparar os presentes resultados com os de Panzini et al. (2011) no que toca a duração dos problemas de saúde dos participantes, pois o estudo brasileiro não faz men- ção a este dado.
Por seu turno, no presente estudo não foi considerada a es- colaridade da amostra, pelo que não é possível confirmar se se verifica o mesmo padrão identificado na amostra brasileira.
CONCLUSÃO
Os presentes resultados mostram um perfil sócio-demográfico e clínico associado a maior paz interior: indivíduos pratican- tes, sem problemas de saúde ou com problemas de saúde há mais tempo.
Este perfil tem implicações clínicas. Na realidade, ele sugere a necessidade de desenvolver esforços no sentido de promover a paz interior dos indivíduos não praticantes, com problemas de saúde, principalmente se recentes. Dito de outro modo, os resultados apoiam a integração do cuidado espiritual nos cui- dados de saúde, logo nas primeiras fases e mesmo com indiví- duos “funcionais”, como os estudantes universitários.
Todavia, é de sublinhar que os grupos considerados tinham efectivos bastante heterogéneos, o que deve ser controlado em futuros estudos.
AGRADECIMENTOS
O presente estudo foi desenvolvido com apoio da bolsa FCT SFRH/BPD/39186/2007.
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