Obrigatoriamente, deve admitir-se a existência de graves la- cunas ao nível do tratamento dos comportamentos adictivos en- tre os mais envelhecidos (Horton & Fogelman, 1991), para além de que as investigações sobre a abordagem terapêutica desse tipo de consumidores também se revelam escassas. Porém, para se identificar um modelo de tratamento há necessidade de se proceder a um diagnóstico criterioso e, sobretudo, com parâme- tros adequados à população mais idosa (Patterson et al., 1999). Uma abordagem voltada para o consumo de álcool que cons- titui um bom instrumento para idosos na medida em que não apresenta uma idade limite para recolha de dados, consiste na Comprehensive Drinker Profile (CDP), de Miller e Marlatt, e consiste numa entrevista estruturada (Horton et al., 1991) que requer uma abordagem empática, devendo ser conduzida como se se tratasse de uma conversa ao longo da qual se vão recolhendo os dados sóciodemográficos, a situação familiar, a situação laboral e económica, a história desenvolvimental, o início e desenvolvimento dos consumos problemáticos, os actuais padrões de consumo e a evolução desses padrões, os problemas associados ao comportamento adictivo, os espaços e circunstâncias associados aos consumos, bem como os com- portamentos que também se encontram associados ao acto de consumir, não sendo de esquecer a história médica geral. A todas estas informações há necessidade de juntar os dados que permitem aceder à componente motivacional. Assim, também se questiona a respeito das razões subjacentes aos consumos e dos efeitos sentidos, bem como sobre problemas eventual- mente associados, não esquecendo as questões relativas à mo- tivação para a mudança (Miller et al., 1984).
Esta entrevista pode ser adaptada e conjugada com outros instrumentos. Nomeadamente, pode recorrer-se à entrevista motivacional de miller e Rollnick que se revela particularmen- te interessante como técnica de aconselhamento, sobretudo quando se verifica que os usuários de substâncias psicoactivas se encontram num estado de ambivalência quanto à mudança da sua conduta problemática (Jarvis, et al., 1996). Para se tirar o melhor partido da entrevista motivacional enquanto técnica de intervenção, impõe-se a observância de aspectos, ainda que adaptados à faixa etária a que se destina. Entre os pontos sa- lientados pelos seus autores, podem destacar-se os seguintes (Miller & Rolnick, 2001): a não atribuição de qualquer rótulo ou de alguma forma de etiquetagem do indivíduo; o acentuar da capacidade de escolha e da responsabilidade do sujeito, re- lativamente a comportamentos futuros; a focalização de ava- liações objectivas, sem se perderem de vista as preocupações subjectivas do indivíduo; a interpretação de resistências como algo a tratar de forma reflexiva; a definição de estratégias de tratamento através da negociação e do debate com o próprio;
a exploração e a reflexão a respeito das percepções do indiví- duo, sem emitir rótulos ou correcções; o recurso a estratégias e a princípios específicos, bem como à modelagem e ao treino, no sentido de que se verifique uma responsabilização do su- jeito pelo seu próprio processo de mudança; a estimulação e o desenvolvimento de competências de resolução de proble- mas; a devolução ao sujeito, através de feedback por parte do terapeuta, bem como o uso de reflexão empática selectiva de forma a reforçar determinados processos e a exploração das discrepâncias apresentadas pelo sujeito.
Tudo isto deve processar-se atendendo aos princípios básicos que se traduzem na expressão de empatia, no desenvolvimen- to da discrepância, no acto de evitar a argumentação, acompa- nhando as resistências e promovendo a auto-eficácia (Miller et
al., 2001). No contexto do consumo de substâncias por parte de adultos com idade avançada, pode ainda recorrer-se a abor- dagens terapêuticas de grupo, que se revelam particularmente úteis, na medida em que propiciam terreno fértil para a troca de ideias e de competências, para além de proporcionarem novas oportunidades de interacção. Saliente-se que as expe- riências em grupo permitem ainda o desenvolvimento de com- petências sociais e, consequentemente, constituem uma forma de combater o isolamento social dos sujeitos. Ainda dentro da perspectiva do trabalho através da criação de grupo, podem mencionar-se os grupos terapêuticos, assim como os grupos educacionais como uma importante componente do tratamen- to de comportamentos adictivos (Blow, 1998), desde de que adequadamente orientados e ajustados à situação específica dos indivíduos, tendo sempre em conta as particularidades do toxicodependente idoso.
CONCLUSÃO
As propostas de tratamento que vão surgindo a propósito do toxicodependente envelhecido são adaptações do muito que foi sendo explorado e criado para o acompanhamento do depen- dente de drogas mais jovem. Se por um lado essa adaptação vai fornecendo algum suporte para o progressivo envelheci- mento das pessoas que padecem de dependências químicas, por outro lado, começa a tornar-se urgente que se desenhem planos de intervenção que atendam às especiais necessidades dessa população.
Assim, aos já velhos problemas associados ao abuso de subs- tâncias, vêm agora juntar-se novos aspectos que, decorrendo da idade mais avançada dos usuários de drogas, tendem a tor- nar o fenómeno ainda mais complexo. Com efeito, os toxicode- pendentes mais envelhecidos tendem a apresentar problemas derivados do longo tempo de exposição aos efeitos das drogas, muitos desenvolveram um conjunto de condições crónicas em termos de saúde e de exposição a excessivos riscos, num estilo de vida que também se tornou crónico e potenciador de uma série de graves situações que gravitam em torno da situação de dependência. Acrescentem-se as dificuldades inerentes a um envelhecimento prematuro, numa população que tende a ne- gligenciar a sua saúde, para além dos problemas do foro social, como a pobreza, o desemprego e até a situação de sem-abrigo. Por tudo quanto foi até aqui referido, impõe-se a necessidade, tão urgente quanto imperativa, de aprofundar conhecimentos a respeito desta faixa etária de dependentes de drogas, com vista ao desenvolvimento de medidas adequadas, em termos de saúde e de novas e adaptadas políticas sociais.
VOL 2. TRABALHO, SAÚDE
E MEDIAÇÃO AMBIENTAL
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