EStUDANtES UNIVERSItáRIOS
ANA mATOS
FINALISTA DE mESTRADO Em PSICOLOGIA CLÍNICA E DA SAúDE DA UNIVERSIDADE FERNANDO PESSOA, PORTO · PORTUGAL
DANIELA TAVARES
FINALISTA DE mESTRADO Em PSICOLOGIA CLÍNICA E DA SAúDE DA UNIVERSIDADE FERNANDO PESSOA, PORTO · PORTUGAL
mARINA BERNARDO
FINALISTA DE mESTRADO Em PSICOLOGIA CLÍNICA E DA SAúDE DA UNIVERSIDADE FERNANDO PESSOA, PORTO · PORTUGAL
RUTE F. mENESES
PROFESSORA ASSOCIADA CENTRO DE ESTUDOS CULTURAIS,
DA LINGUAGEm E DO COmPORTAmENTO - CECLICO FACULDADE DE CIêNCIAS HUmANAS E SOCIAIS
DA UNIVERSIDADE FERNANDO PESSOA, PORTO · PORTUGAL
ISABEL SILVA
PROFESSORA ASSOCIADA CENTRO DE ESTUDOS CULTURAIS,
DA LINGUAGEm E DO COmPORTAmENTO - CECLICO FACULDADE DE CIêNCIAS HUmANAS E SOCIAIS
DA UNIVERSIDADE FERNANDO PESSOA, PORTO · PORTUGAL
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RESUmO
A transição dos jovens para o ensino superior implica mudanças signi- ficativas nas suas rotinas diárias. O optimismo nos estudantes do ensi- no superior está associado à qualidade da adaptação perante situações desafiantes e/ou ameaçadoras destes jovens, estando relacionado com a sua saúde física e mental. Assim, os objectivos do presente estudo são: caracterizar o optimismo em estudantes do ensino superior; ca- racterizar a sua percepção de saúde; e explorar a relação entre saúde e optimismo.
ABSTRACT
The transition of young people for higher education entails significant changes in their daily routines. Optimism among higher education students is associated with the quality of the adaptation of these young people to challenging and/or threatening situations, being related to their physical and mental health. Therefore, the objectives of this study are: to characterize the optimism of higher education students, to characterize their health perception, and to explore the relationship between health and optimism.
INTRODUÇÃO
Quando ingressam no ensino superior, os estudantes têm que enfrentar grandes mudanças e adaptarem-se a novos papéis, responsabilidades e rotinas, sendo que as mudanças se refe- rem às competências de estudo, mas também à autonomia do próprio aluno e sua organização (Monteiro et al., 2008).
O ensino superior tem a responsabilidade de tentar propor- cionar uma educação que permita aos seus alunos concretizar projectos para que mais tarde possam servir a sociedade da melhor forma possível, podendo promover competências aca- démicas, pessoais e cognitivas, tendo em vista a preparação dos alunos para a vida activa (Ferreira et al., 2001).
O ensino superior é visto como um contexto facilitador do de- senvolvimento pessoal dos jovens, promovendo o ajustamento e a integração académica, pessoal, social, e afectiva, facilitan- do a passagem para o ensino superior e deste para o merca- do de trabalho (Santos et al., 1999, citado por Ferreira et al., 2001). Acrescentando a tudo isto, vários autores sugerem que
este período de transição reforça o desenvolvimento da auto- nomia, a construção de uma base sólida da identidade, desen- volvimento das relações sociais, tal como o desenvolvimento da integridade (Ferreira et al., 2001).
Ou seja, existem várias mudanças que estes jovens que ter- minam o ensino secundário têm que enfrentar, logo terão também que se projectar no futuro. Como um processo de transição está associado ao conceito de tempo, crucial para a adaptação ao ensino superior, é fundamental a forma como essa transição é perspectivada pelo próprio (Seco et al., 2005). Consequentemente, esta transição pode levar a que alguns jo- vens tenham necessidade de (re)formular objectivos pessoais, aumentar o seu sentido crítico em relação às suas capacida- des, competências e recursos, adquirindo consciência também das suas capacidades sociais, o que pode funcionar como um incentivo para o desenvolvimento pessoal, ajudando a desen- volver estratégias de coping e de resolução de problemas (Seco
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CONSTRUIR A PAZ: VISõES INTERDISCIPLINARES EINTERNACIONAIS SOBRE CONHECImENTOS E PRáTICAS
Todavia, a mudança que decorre da transição do ensino se- cundário para o ensino superior pode associar-se a experiên- cias perturbadoras, visto que se trata de uma mudança que pode resultar em efeitos adversos sobre a saúde física e psico- lógica (Costa et al., 2008).
A Organização Mundial de Saúde, define saúde como um es- tado de completo bem-estar multidimensional (físico, mental e social) e não referenciando, apenas, a ausência de doenças ou enfermidades (Straub, 2002; Trindade et al., 2000).
Quanto à saúde física, pode-se dizer que ela se refere, entre outras coisas, ao facto de ter um corpo vigoroso e sem doen- ças, com um bom desempenho ao nível cardiovascular, senti- dos aguçados, capacidade de resistir a ferimentos, englobando também hábitos relacionados com o estilo de vida que aumen- tam a saúde física (Straub, 2002).
A saúde psicológica remete para o conceito de ser capaz de pensar claramente, ter uma boa auto-estima e um senso geral de bem-estar, incluindo, também, a resolução de problemas e a estabilidade emocional (Straub, 2002).
Por último, a saúde social, implica ter boas habilidades inter- pessoais, relacionamentos significativos com família e amigos e apoio social em alturas de crise (Straub, 2002).
Cada um destes domínios, referidos anteriormente, sofre influência dos outros dois (Straub, 2002) e de muitas outras variáveis, como o optimismo.
Ainda que conceitos como pensamento positivo ou optimis- mo tenham passado a ser do conhecimento comum há muitos anos, só recentemente se começou a fazer investigação nes- ta área (Ferrando et al., 2002). O interesse neste constructo prende-se com o facto de ele permitir predizer variáveis im- portantes na Psicologia Clínica, tendo um papel importante no bem-estar psicológico e físico (Ferrando et al., 2002).
O optimismo é um conceito bem compreendido tendo vindo a ser alvo de vários estudos empíricos, provocando uma maior resistência à depressão quando o indivíduo é atingido por acontecimentos negativos, “oferecendo” um melhor desempe- nho no trabalho e melhor saúde física (Seligman, 2008).
Sabe-se que o optimismo é um recurso associado a um me- lhor ajustamento e adaptação efectiva que se torna importante quando uma pessoa tem que enfrentar situações desafiantes ou ameaçadoras (Gaspar et al., 2009). Como está relacionado com comportamentos de saúde, o optimismo surge associado à saúde física e mental, sendo que pessoas com baixa auto-es- tima normalmente não são optimistas (Gaspar et al., 2009).
O optimismo é definido como a tendência que uma pessoa tem para acreditar que lhe podem acontecer coisas boas e veri- ficar o lado positivo das situações (Snyder et al., 2009). Sabe- se que existe uma base genética para o optimismo (Snyder et
al., 2009). Este advém de experiências precoces que se passa- ram durante a infância, que estimularam a confiança e os vín- culos seguros face às figuras parentais (Snyder et al., 2009).
As pessoas que têm boas expectativas perante o futuro, isto é, que apresentam características optimistas, têm uma maior facilidade em estabelecer metas para serem alcançadas, assim, elas identificam e adoptam medidas mais adequadas, depen- dendo da situação em causa, para que assim regulem as suas acções para alcançar os objectivos a que se propõem com su- cesso (Pedro, 2010).
Optimismo e saúde são dois constructos intimamente rela- cionados. Sabe-se que as pessoas optimistas têm mais facili- dade em se adaptar a situações de transição da vida e dessa forma desenvolvem e direccionam estratégias de coping que visam a resolução de problemas, para melhor se adaptarem à nova realidade (Pedro, 2010). Quando estão perante um pro- blema que possa fragilizar a sua saúde, os sujeitos optimistas
tendem a utilizar estratégias de coping adequadas para resol- ver a situação (Pedro, 2010). Dessa forma, eles adoptam me- canismos emocionais, tais como o humor ou atitudes positivas diante de determinada situação, o que lhes permite resolver facilmente os problemas (Pedro, 2010). Estas pessoas tam- bém são conhecidas por serem mais persistentes em relação às metas que querem atingir, especialmente numa situação de dificuldade (Pedro, 2010).
Adicionalmente, as pessoas que são optimistas têm menor probabilidade de desenvolver sintomas de depressão e altera- ções do foro psíquico e têm, também, taxas baixas de proble- mas de adição (Pedro, 2010). Uma vez que manifestam uma atitude mais positiva face à vida, possuem uma percepção mais elevada de bem-estar físico e psíquico (Pedro, 2010). Além disso, têm tendência a considerar as experiências posi- tivas relacionadas com aspectos positivos (Pedro, 2010). Um estilo de processamento de informação mais racional, asso- ciado à satisfação com a vida, também é característico destas pessoas (Pedro, 2010).
No que diz respeito à saúde propriamente dita, os optimistas enfrentam com muito mais facilidade as dificuldades que pos- sam surgir neste campo e têm maior tolerância no controlo de alguns sintomas (Pedro, 2010).
A maioria dos jovens que ingressam no ensino superior tem expectativas positivas relativamente à experiência futura da vida académica (Cunha et al., 2005). Contudo, alguns auto- res referem que, por vezes, os hábitos e estilos de vida dos estudantes do ensino superior podem originar problemas de saúde, visto que têm comportamentos que podem ser nocivos para a saúde, tais como consumo de substâncias, principal- mente álcool, comportamentos alimentares incorrectos e re- duzida prática de exercício físico (Pereira et al., 2006).
Neste contexto, os objectivos do presente estudo são: carac- terizar o optimismo em estudantes do ensino superior; carac- terizar a sua percepção de saúde; e explorar a relação entre percepção de saúde e optimismo nestes indivíduos.
1. MéTODO
1.1. PARTICIPANTES
A amostra é constituída por 124 participantes, sendo 71,9% do sexo feminino e 28,1% do sexo masculino. As idades dos participantes estão compreendidas entre os 17 e os 46 anos (M=21,1; DP=6,1). A maioria dos alunos frequenta o primei- ro ano do curso de Psicologia (24,2%), seguindo-se o curso de Enfermagem (23,3%), depois os de Medicina Dentária e Ciências da Comunicação (16,7%), o curso de Serviço Social (10,0%) e, por último, o de Ciências Farmacêuticas (9,2%). 1.2. mATERIAL
Neste estudo utilizaram-se: um questionário sócio-demográfi- co, os itens 1 e 2 do SF-36 e o Life Orientation Test – Revised (LOT-R). (Uma vez que o presente estudo está integrado num projecto mais amplo, o protocolo de avaliação administrado era mais extenso do que o apresentado no presente estudo.)
O questionário sócio-demográfico, parte do Questionário de Vivências Académicas – versão Reduzida (Almeida et al., 2002), inclui três questões, a idade, o sexo e o curso.
Com o objectivo de avaliar, de forma global, a percepção de saúde dos estudantes do primeiro ano do ensino superior (percepção de saúde geral e percepção de transição de saúde geral), utilizaram-se os itens 1 e 2 do SF-36, traduzido e adap-
VOL 2. TRABALHO, SAÚDE
E MEDIAÇÃO AMBIENTAL
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tado para a população Portuguesa, havendo dados normativos para adolescentes e adultos (Ribeiro, 2005b). As opções de resposta, apresentadas numa escala tipo Likert, oscilam entre 1 e 5, sendo que um valor mais elevado corresponde a pior per- cepção de saúde geral/maior deterioração geral em relação ao ano anterior (Ribeiro, 2005b).
O LOT-R é uma escala de fácil aplicação, em populações de adolescentes e adultos, estando traduzida e adaptada para a população portuguesa (Amorim et al., 2009; Laranjeira, 2008). É constituído por 10 itens, em que 4 são distractores (os itens 2, 5, 6 e 8) e os outros 6 avaliam o optimismo dispo- sicional (os itens 1, 3, 4, 7, 9 e 10) (Amorim et al., 2009; Gas- par et al., 2009). Relativamente ao seu preenchimento, este é realizado segundo uma escala tipo Likert, em que as opções de resposta são: “concordo bastante”, “concordo”, “neutro”, “dis- cordo” e “discordo totalmente” (Laranjeira, 2008). A cotação dos itens varia entre 0 e 4; seguidamente, para obter uma nota final, tendo em conta a inversão de alguns dos itens, que pode variar entre um mínimo de 0 e um máximo de 24 (Amorim
et al., 2009; Gaspar et al., 2009). Quanto mais elevados são os resultados obtidos melhores são os valores de optimismo (Amorim et al., 2009).
1.3. PROCEDImENTO
Após obtenção das devidas autorizações (autores da versões portuguesas dos instrumentos, responsável pela instituição do Ensino Superior, Comissão de Ética, docentes e participantes – consentimento informado), teve lugar a auto-administração colectiva, em sala de aula, na presença do investigador.
2. RESULTADOS
No que se refere ao optimismo da amostra, verificou-se que a média era de 14,4 (DP=4,4), sendo o valor mínimo regista- do 5,0 e o máximo 24,0. Aliás, 75,4% obtiveram um valor de optimismo acima do ponto médio do LOT-R, indicando bons índices de optimismo.
Relativamente à percepção de saúde geral, 44,4% dos es- tudantes universitários avaliados consideraram a sua saúde “muito boa”, 29,0% consideraram-na “boa”, 15,3% “óptima”, 8,1% “razoável” e 0,8% consideraram-na “fraca”, existindo 0,8% de dados omissos (M=2,33, DP=0,87).
No que toca à percepção de transição de saúde geral, 44,4% dos inquiridos referiram que o seu estado geral estava “aproxi- madamente igual” ao que se verificava há um ano, 33,1% “com algumas melhoras”, 12,1% “muito melhor”, 7,3% “um pouco pior” e 0,8% “muito pior”, constatando-se 0,8% de dados omissos (M=2,5, DP=0,84).
No que concerne a relação entre saúde e optimismo, cons- tatou-se uma correlação negativa e fraca entre percepção de saúde geral e optimismo (r(121) = -0,21, p=0,022.
CONCLUSÃO
O facto da maioria dos estudantes inquiridos ter apresenta- do bons indicadores de optimismo pode ser favorável à sua adaptação à fase de transição para o ensino superior. Na rea- lidade, de acordo com a literatura revista, pessoas optimistas têm uma maior facilidade de adaptação. No entanto, é de su- blinhar que houve uma certa discrepância nos resultados, já alguns estudantes obtiveram elevados valores de optimismo e outros valores muito baixos, o que pode ter impacto na sua adaptação.
Também de acordo com a literatura, pessoas optimistas en- caram a vida de forma mais positiva e, dessa forma, benefi- ciam de bem-estar físico e psicológico, o que potencia uma boa saúde.
De facto, ainda que a observação quotidiana e a literatura in- diquem a existência de (bastantes) estudantes com comporta- mentos nocivos para a sua saúde, a maioria dos estudantes do primeiro ano do ensino superior avaliados consideravam a sua saúde “muito boa” ou “boa”. Estes dados podem, todavia, indi- car que (alguns) jovens podem não ter a noção de que alguns dos seus comportamentos são prejudiciais para a sua saúde e/ ou ainda não sentiram os efeitos dos seus comportamentos so- bre a sua saúde. Podem também espelhar os hábitos saudáveis da amostra estudada.
É ainda de sublinhar que, nesta fase de transição, apenas uma minoria referia mudanças negativas ao nível da saúde. Tal pode, de novo, reflectir os efeitos benéficos do optimismo.
Assim, em geral, os presentes resultados revelam bons indi- cadores de saúde e optimismo e que este último pode desem- penhar um papel não desprezável na primeira, fazendo supor uma transição pacífica para o ensino superior.
Como limitações do presente estudo, destacam-se o número reduzido de sujeitos, que formam subgrupos bastante hetero- géneos ao nível das variáveis sócio-demográficas (Cf. amostra de conveniência), e os indicadores seleccionados, já que se privilegiou a brevidade do protocolo, com as clássicas desvan- tagens psicométricas, de modo a diminuir a probabilidade de recusas/desistências/respostas “à sorte”.
Em estudos futuros, seria interessante avaliar o impacto de políticas educativas que promovam o optimismo em relação à transição para o ensino superior sobre a saúde dos estudantes. Uma vez que esta é uma das fases mais importantes da vida de um jovem/adulto, afigura-se importante o desenvolvimen- to do optimismo e de comportamentos saudáveis, para que a transição para o ensino superior seja encarada de forma pacífica.
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