A invocação de um poder arrefecedor de agitações sociais à movimentação militar de 1964 tinha dois objetivos: 1- resguardar a contribuição castelista para com a suposta revolução e 2- intensificar a ideia de que apenas o poder das armas e seu embrutecimento seria capaz de controlar o meio social para eliminar o espectro comunista que rondava a sociedade brasileira. Entretanto, para ele, o aparelho repressivo no período anterior ao AI-5 não foi capaz de manter um ritmo de trabalho adequado para que a infiltração comunista fosse aniquilada.
Essa é a base da argumentação de Perdigão: a insuficiência da comunidade de informações (concentrada sobretudo no SNI) permitiu uma reorganização das esquerdas. Não podemos aceitar que essa alegação seja suficiente para explicar o nascimento dos DOI-CODI, afinal ano após ano integrantes de diversos sindicatos, movimentos estudantis e representantes democraticamente eleitos tombavam frente às investidas da ditadura26. O Estado brasileiro foi capaz de – em pouco tempo de ascensão dos militares – impor rígida perseguição ao conjunto de movimentos sociais considerados subversivo-comunistas. A ideia difundida entre os militares era de que ainda que separadamente, com todas as suas dissidências, a esquerda brasileira se encaminhava para a luta armada, um dos estágios esperados da Guerra Revolucionária.
Apesar da repressão que exercia o governo de Castelo Branco, para Gorender, os grupos que orbitaram e instigaram o golpe de 1964 não estavam em acordo sobre o tempo de duração da ditadura, Maud Chirio nos indica algo semelhante e se da totalidade do pensamento militar não podemos ter certeza de suas dissidências, essa é clara: em quanto tempo o poder deveria ser devolvido aos civis?
O grupo castelista acreditava que tão logo reprimido o avanço comunista a democracia seria estabelecida, do outro lado, naquilo que convencionou-se chamar Linha dura, difundia-se a ideia de que as atividades subversivas ganharam novos contornos e o conjunto de ações herdadas por Costa e Silva não poderiam se perpetuar por serem consideradas muito moderadas
26 “os vencedores não perderam tempo no desmantelamento da rede de organizações em que se apoiava a FMP -
Frente de Mobilização Popular. Centenas de sindicatos caíram sob intervenção, as Ligas Camponesas foram dispersadas e as chamas de um incêndio televisado queimaram a sede da UNE (União Nacional dos Estudantes) (...) Cassações de direitos políticos iniciadas com o primeiro Ato Institucional, inquéritos policial militares e processos administrativos expurgaram das Forças Armadas e do Serviço público civil mais de dez mil pessoas”
pelos radicais. Aarão Reis enxerga ainda que o enrijecimento do regime não atendia às demandas de repressão aos movimentos de rua, mas sim para sufocar a presença de personagens insatisfeitas com o desenrolar dos acontecimentos, em alguns casos que inclusive deram apoio ao golpe em 1964, a exemplo de Carlos Lacerda (REIS, 2005).
Fica claro que a mudança da estrutura repressiva teve como passo fundamental a instauração do AI-05, mas o ano de 1968 se torna preponderante (para Perdigão) não apenas pela defendida resposta governista, mas também pelo quadro de agitações sociais supostamente afiliado ao comunismo internacional. Se como acreditava Perdigão em um momento inicial a repressão conseguiu promover um “profundo marasmo” na esquerda, posteriormente, pelas dificuldades em sincronizar e organizar as informações, no ano de 1968 ela se fortaleceu e demonstrou capacidade suficiente de causar abalos sérios ao governo e prejudicar o andamento dos ideais da “revolução de 64”.
Perdigão considerou aquele ano marcante, sobretudo, em função da aproximação das esquerdas brasileiras ao comunismo internacional. Atribuiu a Cuba papel central nesse processo e elencou o evento no segundo semestre de 1967 como responsável por esse “novo quadro de agitação” (PERDIGÃO, 1978: 1). A participação brasileira na Organização Latino Americana de Solidariedade delimitou para ele um ponto de mudança nas atividades revolucionárias brasileiras, saindo das atividades convencionais “padronizadas, utilizando as escolas e sindicatos na subversão da ordem” (PERDIGÃO, 1978: 1) que a esquerda até então se propunha e passaram a ingressar na luta armada.
Ignora o fato de que a revisão dos métodos de ação não eram consenso em toda a esquerda, sequer a opção pela luta armada poderia ser considerada como prioridade de todas as tendências, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) era, veementemente, contra, enquanto outros grupos dialogavam sobre a viabilidade do modelo trotskista, maoísta ou foquista (GORENDER, 1987), não podemos, disso, inferir que o desconhecimento sobre as organizações de esquerda (suas ideologias e dissidências) era responsável por essa análise de Perdigão, um profundo conhecedor do que considerava propaganda subversiva e seus métodos de atuação, o que está em jogo é uma argumentação centrada na necessidade de um inimigo constante, que dá sustentação a sua tese de que a vigilância permanente era necessária para combater o aspecto central que amalgamava a esquerda: o intento revolucionário visando a implementação do comunismo como sistema de governo no Brasil.
O pacifismo do PCB, na estrutura interna de sua monografia, não configura divergência ideológica entre as esquerdas e sim etapa da Guerra Revolucionária, para isso, Perdigão ignorou o recrudescimento das atividades contestatórias dando uma dimensão jamais existente no
interior da luta armada, sua grande manobra é considerar todo o movimento antiditadura como entidade subversiva afiliada ao comunismo internacional, preparando o terreno para a entrada da luta armada propriamente dita27. O governo brasileiro não poderia permanecer inapto (não aptidão específica para o combate subversivo), inepto (não dispor de uma inteligência especificamente contrarrevolucionária) e nem paralisado (imobilidade favorável à iniciativa revolucionária). A insuficiência do modelo castelista de repressão foi superada e somente por essa via foi possível combater o “avanço comunista”.
O AI-5 foi o golpe dentro do golpe (REIS, 2005). A partir dele os mecanismos de combate visando o abrandamento da ditadura foram impensáveis. Além das restrições às liberdades e toda a discricionariedade do Estado, Costa e Silva foi o responsável por criar as condições que deram suporte à operacionalização da cruel e impiedosa Operação Bandeirante (OBAN), o laboratório que redefiniu as concepções de informação, inteligência e repressão. A partir da experiência da OBAN reproduziram em vários estados um modelo parecido, os famosos e temidos DOI-CODI.