Este capítulo introduziu a discussão sobre cooperação internacional, de forma a contextualizar os fundamentos teóricos e conceituais que circundam o Programa CBERS dentro da classificação da cooperação Sul-Sul. Para isso, iniciou-se a discussão partindo do debate sobre o tema dentro das Relações Internacionais, que traz interpretações sobre a cooperação internacional de maneiras distintas, através das lentes do Liberalismo, Construtivismo, Marxismo e Realismo. Entende-se que o Realismo faz uma leitura
apropriada das relações de poder, que serve de suporte teórico para a observação do fenômeno das relações de cooperação da China com o Brasil em matéria espacial.
Quando se analisa os antecedentes do desenvolvimento do setor espacial no mundo, percebe-se que há na atuação chinesa um forte componente hegemônico. As duas principais nações desenvolvidas nessa seara – EUA e Rússia – compartilharam, durante quase todo o século XX, a hegemonia mundial. Ciente do poderio exercido pela tecnologia espacial, faz parte do projeto de poder chinês mostrar sua competência nesse setor de forma a conquistar seu lugar no teatro das superpotências.
Apesar de a cooperação seguir parâmetros que se encaixam nas definições da cooperação Sul-Sul em C&T, como a elaboração conjunta de atividades e parceria mais equitativa, baseada na propagação horizontal dos conhecimentos, entende-se que há elementos na parceria que também se aproximam das definições da cooperação Norte-Sul, em que os países resistem mais em transferir seu know how e know why de forma a manter o seu monopólio tecnológico de artefatos sensíveis. O Brasil, por exemplo, não tem acesso às tecnologias desenvolvidas pela China, que, por sua vez, não compartilha sua tecnologia de ponta, como é o caso da tecnologia de radar.
Os próximos capítulos dedicar-se-ão a examinar com mais profundidade o Programa CBERS em seus 30 anos de existência, de forma a identificar quais foram os principais ganhos do Brasil com esse acordo cooperativo. Para isso, será necessário analisar, no capítulo dois, a trajetória do país no setor espacial para conhecer o lugar conquistado pelo CBERS dentro do Programa Espacial Brasileiro.
Para compreender de forma mais abrangente o curso percorrido nos 30 anos do programa, o terceiro capítulo construirá um detalhado histórico da cooperação, com vistas a demonstrar a sua evolução e estágio atual em que se encontra o projeto. Por fim, o quarto e último capítulo objetiva revelar quais foram os principais ganhos do Brasil com o projeto cooperativo e as críticas inerentes ao programa. Os resultados obtidos ao final conectar-se-ão, diretamente, com a discussão iniciada neste primeiro capítulo inicial.
CAPÍTULO 2
PROGRAMA ESPACIAL BRASILEIRO EM PERSPECTIVA HISTÓRICA (1930-2019)
“Você abriu para a humanidade a ilimitada esfera do conhecimento, o que vai permitir uma melhor compreensão mútua entre as pessoas e o fortalecimento da paz”13
O entusiasmo pela conquista do espaço manifestou-se como forma de demonstração de poder dos Estados Nacionais na época da Guerra Fria, principalmente entre as duas superpotências rivais da época, os EUA e a URSS.
O primeiro país a se lançar ao cosmos foi a URSS, ao lançar o satélite Sputnik I14, em outubro de 1957. Esse foi o primeiro satélite artificial da Terra e considerado o marco inicial da corrida espacial. O lançamento do Sputnik I exigiu uma resposta rápida à altura por parte dos estadunidenses, que receberam apoio de Wernher von Braun e outros engenheiros alemães que haviam participado do projeto de desenvolvimento do foguete V-215. Embora os americanos tentassem alcançar os desenvolvimentos soviéticos na área espacial, essa era uma tarefa difícil. Em 1959, a URSS lançou o Sputnik II, maior e mais sofisticado que o primeiro, levando em seu interior a cadela Laika (ROLLEMBERG, 2009, p. 19; BRITO, 2011, p. 14; HARDING, 2012, p. 32-33).
Foi somente em 1969 que os EUA enviaram o primeiro homem à Lua na missão Apollo 11 (VASCONCELLOS; AMATO NETO, p. 851, 2012). A partir de então, o espaço tornou- se a nova fronteira para a projeção de prestígio nacional e poderio dos Estados. EUA e URSS comprovavam sua liderança nessa área às outras nações fazendo uso intensivo da guerra da propaganda, ostentando sua proeminência tecnológica e militar e expondo a grandeza e a
excelência de seus regimes (MONTSERRAT FILHO, SALIN, 2003, p. 262). Posteriormente, diversas nações desenvolveram a tecnologia e passaram a disputar com
as duas superpotências o domínio da ciência e do acesso ao espaço. O Brasil foi um dos primeiros países em desenvolvimento a inclinar-se para as ciências espaciais. Em 1961, durante o governo de Jânio Quadros, o programa espacial brasileiro começou a tomar uma
13 Discurso feito por Jânio Quadros, Presidente do Brasil entre 31/01/1961 e 25/08/1961, ao cosmonauta
soviético Yuri Gagarin, na ocasião de sua visita à Brasília, em 2/08/1961.
14 Sputnik, ou Спутник, significa “satélite” na língua russa.
15 Em 1932, von Braun desenvolveu um programa de foguetes para o exército nazista utilizado na Segunda
Guerra Mundial chamado de V-2. Mais de 6.000 V-2 foram construídos e mais de 3.200 foram lançados contra o sul da Inglaterra, Bélgica e França, de setembro de 1944 a março de 1945. Não havia defesa contra o V-2, uma das mais sofisticadas armas utilizadas na Guerra (HARDING, 2012, p. 33-34).
forma institucionalizada, com a preocupação com a formação de cientistas e a implantação de uma infraestrutura física com institutos de pesquisa e centros de lançamento (JOBIM, 2009, p. 92; CARVALHO, 2011, p. 18). Na época em que o Brasil começou a desenvolver seu programa espacial, China e Índia estavam no mesmo estágio no desenvolvimento de pesquisas. Com a transferência de tecnologia da URSS, indianos e chineses souberam desenvolver seus programas espaciais em um curto período.
Este capítulo visa apresentar como se desenvolveram as atividades espaciais no Brasil, desde seus primórdios até o momento atual. Examinar-se-ão, aqui, as instituições que compõem o Programa Espacial Brasileiro (PEB), analisando o contexto em que surgiram, como se estruturam e as funções que desempenham para promover o PEB. Entender seu histórico e funcionamento é pré-condição para a melhor compreensão dos assuntos tratados nesta Tese. Além disso, o final do capítulo analisará o contexto atual em que se inserem as atividades espaciais no Brasil, identificando seus problemas, perspectivas futuras e a posição do programa CBERS no arcabouço geral do PEB.
O texto organiza-se em cinco seções, que tratam, respectivamente, dos primórdios das ciências espaciais no Brasil; a influência de Jânio Quadros e de sua Política Externa Independente para a institucionalização das atividades espaciais no país; a consolidação do Programa Espacial Brasileiro, o simbolismo da Missão Espacial Completa Brasileira; e, por fim, a saída civil para o PEB e suas perspectivas futuras.