5 Om opbygningen af stærke forskningsmiljøer
5.4 Styrket national arbejdsdeling og samspil – dog inden for etablerede fagmiljøer
Apesar de, como apontado no início desta seção, na 3ª sessão reflexiva, professora e pesquisadora ainda não terem se apropriado da colaboração crítica tal como discutida por Magalhães (2010), existe um momento em que se percebe um avanço na criação de um ambiente colaborativo-crítico, que vai se constituindo num contexto de transformação, de apresentação de ideias que se contrapõem. A colaboração nesse momento permite à pesquisadora trazer algumas contradições percebidas entre teoria e prática.
9 Excerto 10 ( 11 de novembro de 2009)
questão do petróleo, que foi um tema lá da primeira aula, quando você trabalhou rochas, você trouxe a questão econômica, da exploração do petróleo na Arábia, no Oriente ... então, se é um texto polêmico, eles podem se aprofundar e pensar “que argumentos tem aqui, que falam que nosso solo é fértil, mas a gente não tem as guerras, e por que lá existem as guerras, e por que existem as disputas ...” (pesquisadora quis retomar o
assunto da aula observada, pois nessa aula sobre petróleo, a professora disse que queria proporcionar aos alunos uma visão crítica em relação ao tema, no entanto, não pergunta a opinião dos alunos, não procura saber o que eles já sabem, e é ela quem traz o tema)
Prof.: ah , tá (responde concordando e lembrando da aula)
Pesq.: sabe, pra fazer com que eles percebam se o texto traz alguma polêmica, alguma discussão
...( pesquisadora retoma a sua fala e frisa o papel do aluno na discussão de um tema, propondo uma ideia que se contrapõe à prática da professora: alunos percebam a polêmica)
Prof.: Eu lembrei, que eu falei dos prós e dos contras ...da disputa da solo (professora relembra
para a pesquisadora um momento da aula observada, mas não percebe que é ela quem fala e não os alunos)
Pesq.: é você falou “gente, felizmente ou infelizmente ...” enfim, você traz essa discussão pra eles,
mas eu percebo Marislei que isso fica no seu discurso, você quer passar isso pra eles, mas sinto falta de um retorno deles ...(pesquisadora, nesse momento da pesquisa, começa a trazer em sua fala, marcas de ideias adversas e apontar alguma contradição entre discurso e prática de sala de aula: mas... isso fica no seu discurso. Ainda se percebe na fala da pesquisadora uma modalização para manter o respeito e a empatia, quando chama para si o desconforto da contradição: sinto falta de um retorno deles)
Prof.: eles precisam de outros pareceres (a professora responde, discordando da pesquisadora, revelando os seus sentidos sobre ensino-aprendizagem – o conhecimento é externo ao aluno, vem do outro, ela não pensa que os alunos têm um papel de protagonistas nessa discussão, e podem construir as suas opiniões sobre as disputas no Oriente Médio. Aparecem com mais clareza aqui as contradições entre pesquisadora e professora)
Pesq.: é, mas do que que ficou pra eles, o que que é produção deles. Você entende? Eu acho que
... sei lá, a gente podia tentar isso hoje, e ver o que que sai com o tema atmosfera ...(pesquisadora responde concordando em princípio, mas logo em seguida, fazendo uso de um conectivo adversativo, apresenta a contradição entre as diferentes visões de ensino- aprendizagem. Ainda se percebe na fala da pesquisadora uma modalização para manter o respeito e empatia: eu acho ... sei lá)
pesquisadora, que é a criação do bom vínculo, respeito, empatia e sinceridade, que segundo as discussões de Edge (1992) garantem a cooperação sem julgamento de valores. O verbo escolhido pela professora quando ela lembra da aula (eu falei), sinalizando sua ação na relação ensino-aprendizagem, demonstra a sua visão do protagonismo do professor na sala de aula. Por outro lado, o substantivo discurso utilizado pela pesquisadora como o lócus da transformação, enfatiza a visão da pesquisadora sobre a contradição entre a prática e a fala da professora na hora de apresentar o desejo de desenvolvimento da criticidade no aluno. Aparece, pela primeira vez com a intenção de trazer uma perspectiva diferente, o conectivo mas, revelando a contradição percebida pela pesquisadora entre a teoria defendida pela professora e sua prática em sala de aula.
Segundo o aporte teórico que embasa esta pesquisa, a contradição é condição sine qua non para a criação de um contexto de colaboração crítica. Magalhães (2010) e Oliveira e Magalhães (2011) apontam que as contradições geram os conflitos entre os diferentes pontos de vista, o que possibilita a transformação das participantes. Segundo Magalhães (1994/2006: 57), para tornar- se sujeito é preciso que haja reflexão, compreensão das contradições e transformação “como resultado de um processo de conscientização sobre o relacionamento, propósitos e ações”.
Na discussão teórica deste trabalho discuto que a criação de um contexto de colaboração crítica prevê a presença da contradição, das tensões de interesse, o que faz com que o objeto não tenha um curso pré-determinado (Schettini, 2008; Engeström, 2009) e possa mover-se como um “runaway object”; essa situação de compartilhamento de sentidos e significados gera conflitos inerentes ao processo de construção desse novo objeto desconhecido, que é, no caso deste estudo, a produção do resumo como instrumento de ensino-aprendizagem em Ciências, o que é fundamental para o contexto dessa pesquisa.
O trecho da transcrição que apresento na sequência, revela que, na 4ª sessão reflexiva, pesquisadora e professora estavam em processo de avaliação dos resultados da pesquisa. A data posta, 25 de novembro, aponta para um momento do ano em que as escolas precisam atribuir nota a seus alunos. Nesse contexto, a professora diz que a sua ideia é dar continuidade a esse trabalho no ano seguinte. Após a produção do resumo realizada pelos alunos para apresentação do seminário,
relação ensino-aprendizagem, pois avaliava que os alunos são capazes de produzir dependendo da forma como o professor“passa o início, como.... introduz (enfática) aquele assunto”. A interação colaborativa entre as participantes aparece nas retomadas em forma de eco entre os turnos de fala e nos pronomes escolhidos para designar os sujeitos dessa relação. Pesquisadora e professora utilizam nós/nosso para falar das ações conjuntas realizadas.
9 Excerto 11 (25 de novembro de 2009)
Pesq.: nós vamos ver o que apareceu de interesse deles, né? E a sua ideia é dar
continuidade a esse trabalho, Marislei? (pesquisadora retoma o objetivo colocado pela professora)
Prof.: A minha ideia é continuar sim, com certeza (confirmação pela professora)
Pesq.: a sua ideia é fazer uma leitura, por exemplo ... (pesquisadora retoma o objetivo do planejamento e avança sugerindo leitura)
Prof.: é isso que eu quero te dizer, Leticia, pelo fato de estar no dia 25 de novembro, a ideia
é continuar não só agora, até que eu realmente acabe com todo o conteúdo, falta pouca coisa, mas iniciando um 2010 já com essa ideia, pra essa troca com o aluno, independente de série, então é um trabalho agora que eu tenho que trabalhar, replanejar a minha postura e mudar, com certeza em 2010. Porque agora eu consigo ver com teu trabalho, com tua pesquisa, com nosso entrosamento, eu consegui perceber que eles são capazes, só depende da forma como você passa o início, como você introduz (enfática) aquele assunto. E eles demonstraram 100% (cem por cento) competentes. (professora faz uma autorreflexão crítica sobre a forma de
ensinar e diz que quer replanejar e rever a sua postura)
Neste trecho da nossa 4ª sessão reflexiva, ainda se destacam as escolhas dos pronomes “Teu trabalho, com tua pesquisa”. Os pronomes sublinhados apontam para os sentidos da professora em relação ao processo da produção dos dados da pesquisa, como se eles pertencessem à pesquisadora. No entanto, a professora avalia que os resultados são frutos, também, do nosso entrosamento. O substantivo entrosamento aparece na fala da professora como responsável pela transformação da postura pretendida pela professora. E para a criação do ambiente de
colaboração, que predomina durante a produção dos dados, as retomadas em forma de eco apontam para a criação de um contexto de interação.
As escolhas lexicais das participantes da pesquisa apontam, assim, para a criação de um contexto de colaboração crítica, em que o entrosamento percebido torna-se responsável pelo desejo de transformação da professora, no que se refere às relações de ensino-aprendizagem. As retomadas em forma de eco, com repetições das palavras do turno anterior, direcionam para uma análise de troca, de regulador da interação, permanecendo ainda até o final da produção dos dados o sentido de escuta para a criação do contexto colaborativo. A contradição chega a aparecer durante as discussões sendo, no entanto, pouco aprofundada. A pesquisa crítica de colaboração tem como pressuposto o questionamento das práticas rotinizadas (Magalhães, 2009) observadas durante a pesquisa, mas apontadas com muito cuidado, por parte da pesquisadora, de forma indireta. A pesquisadora escolheu explicar, por meio de textos extensos, seus pontos de vista, e só após longos turnos de fala, a contradição surge, o que enfraquece a diferença entre as concepções. O que se percebe ainda, além de um receio da pesquisadora em romper o bom vínculo, é um desconhecimento da professora sobre como transformar a prática, sobre como repassar esse protagonismo para os alunos. O que, segundo a discussão teórica desta investigação, é reconhecido como um processo de alienação. Segundo Magalhães (2009: 54), a formação do professor crítico reflexivo prevê o questionamento de “práticas não cidadãs, individuais, alienadas e a-históricas e que geram violência, não responsabilização pelas ações próprias e dos outros, desânimo e sensação de incompetência, tanto por parte dos alunos quanto dos professores”. A alienação entendida como “oposição ao agir consciente e reflexivo” (Leontiev, 1978) reflete uma prática docente percebida atualmente em salas de aula e que mostra um professor isolado e individualizado, cujas ações são orientadas por interesses particulares, perdendo o sentido coletivo e societário. Essa dificuldade de desalienar-se foi percebida durante esta pesquisa, quando a professora confessa para a pesquisadora que nunca teve uma parceira para observar as suas aulas e pensar criticamente entre a teoria e a prática da sala de aula. As Sessões Reflexivas finais apontam para um caminho de desalienação. Nos dois próximos excertos são apresentados dois diálogos entre as participantes da pesquisa, que ocorreram ainda no dia 25 de novembro, data em que
pesquisadora e professora estavam finalizando e avaliando o processo os resultados da pesquisa.
9 Excerto 12 (25 de novembro)
Pesq.: de repente com uma leitura silenciosa, cada um ali na sua carteira, eles conseguem
se concentrar mais no conteúdo do que na forma, e aí quando você resgatar: “então agora me fala o que você entendeu desse primeiro trechinho do texto, do que que tá falando” ... eu acho que você vai se surpreender ...(pesquisadora tenta resgatar o processo de leitura de textos, que diferente da produção do resumo, não foi uma prática transformada)
Prof.: eu entendi ... e acho que vou fechar com uma observação maravilhosa. Eu acredito
que essa nossa troca tenha tornado, com certeza, o meu trabalho muito mais tranquilo... (professora responde que entendeu a colocação e analisa a interação como responsável por tornar o trabalho dela mais tranquilo)
Pesq.: é eu acho, Marislei, que assim ...(pesquisadora ia falar das suas impressões , mas foi interrompida)
Prof.: (interrompendo): eu me desgasto muito da forma como era, entendeu? E eu acho
que agora eu tou dando um pouquinho dessa responsabilidade, que é pertinente a eles mesmos, que eles têm que ter isso, pois estão estudando ... eu já estudei, eu tento passar o melhor, eles têm que saber que isso é parte deles ... eu sempre ajudei muito, eu sempre fui muito mãezona em relação a eles. Então agora eu notei com tudo isso, Leticia, sinceridade, que a coisa fica mais tranquila pra mim ... (professora interrompe a pesquisadora e expõe uma auto reflexão sobre a sua transformação em relação à visão da responsabilidade dos alunos na construção do conhecimento: é parte deles)
9 Excerto 13 ( 25 de novembro)
Prof.: é, eles tentam te passar “olha professora, pega leve ... não tinha isso na escola de
onde nós viemos” (a escola onde ocorreu a pesquisa só tem o EF2) ... e eu vou com calma, fico ponderando, não deixar de dar ... e a minha forma de dar aula sempre foi daquela maneira, eu colocando assim, mesmo deixando eles fazerem uso do livro didático, mas eu vou sintetizando ... e não, eu vi que eles são capazes (professora
faz essa reflexão sobre a sua prática e revela que percebeu a capacidade dos alunos produzirem autonomamente)
Este momento da pesquisa é analisado com um processo de autorreflexão da professora sobre o nível de ajuda e intervenção que ela deve fazer com os alunos. Existe uma resposta reflexiva, fruto de um espaço colaborativo-crítico criado, e, como resultado, há uma resposta para a alienação: um movimento na direção de repensar e “desalienar”! A professora consegue pensar uma alternativa para os alunos e refletir sobre os motivos que a levavam a agir sempre da mesma maneira. Em seguida nega essa prática e reconhece que eles são capazes.
A ideia de formar alunos críticos prevê, assim, a formação de professores críticos, que atuam no sentido de uma mudança intelectual plena. Essa criticidade, segundo Freire (1996), é uma exigência para prática do professor. Como já apontado neste trabalho, a curiosidade ingênua torna-se uma curiosidade epistemológica e, portanto, se criticiza.
Esses excertos revelam uma reflexão crítica sobre as questões discutidas ao longo do processo de produção de dados, referindo-se às relações de ensino- aprendizagem em Ciências e às possibilidades de protagonismo do aluno na construção do seu conhecimento. Nesses excertos fica claro, pelo discurso da professora, que houve um compartilhamento de significados quanto ao papel do aluno em sala de aula. Não é possível afirmar, no que se refere às propostas de leitura, que houve essa transformação na prática, uma vez que esse diálogo aconteceu na finalização das nossas sessões reflexivas. No entanto, é possível dizer que houve transformação e compartilhamento de significados sobre o papel do aluno no que concerne à produção de resumos de textos expositivos, como instrumento de ensino-aprendizagem em Ciências.