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Styring og ledelse – ulike tilnærminger?

4. Informantenes oppfatning av lederrollen

4.1 Styring og ledelse – ulike tilnærminger?

Os homens em geral julgam mais com os olhos que com as mãos; porque todos são capazes de ver, mas poucos, de sentir; todos vêem aquilo que você parece, poucos tocam aquilo que você é. Nicolau Maquiavel78

1.1 – A geração do corpo político

O corpo dicionarizado é a “estrutura física dos animais e do ser humano” e “no

ser humano, o conjunto da cabeça, tronco e membros”, e é também “cadáver”. Em outra acepção o corpo é a “parte essencial ou principal de algo”. No sentido figurado, ele é a “materialidade do ser”, remissivo à alma, que no sentido religioso é “a parte imortal do

homem; espírito” e numa outra perspectiva é a “natureza moral e emocional de uma

pessoa79. A materialidade mortal do corpo em relação de oposição à metafísica imortal, a ética e a estética da alma são categorias circunscritas no discurso platônico e dada a ver, por exemplo, na elocução de Sócrates, em Fédon, que diz que:

(...) ao divino, imortal, inteligível, uniforme, indissolúvel e que sempre mantém identidade consigo mesmo, o que há de mais semelhante é a alma, enquanto, ao humano, mortal, não inteligível, multiforme, dissolúvel e que nunca se mantém idêntico a si mesmo, o que é mais semelhante é por sua vez, o corpo.80

À luz do cristianismo “a alma do corpo”, na perspectiva platônica, assume os valores do ascetismo medieval e sobre isso Aranha explica que:

Partindo do princípio de que o corpo é sinal de pecado e degradação, a sua purificação é feita por práticas de ascetismo. A palavra ascese em grego significa “exercício” e inicialmente, na Grécia antiga, apenas se referia ao treinamento de atletas; aos poucos, adquire o sentido de disciplina espiritual de autocontrole. Com o cristianismo o termo passa a significar o controle dos desejos pela renúncia aos prazeres do corpo, o que podia ser feito pela

78. Nicolau MAQUIAVEL. O príncipe, p. 106.

79. Antonio HOUAISS e Mauro de Salles VILLAR. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, elaborado no instituto Antonio Houaiss de Lexicografia e Banco de Dados da Portuguesa S/C Ltda. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 388.

80. PLATÃO. Diálogos. Seleção, introdução e tradução direta do grego: Jaime Bruna. 9ª. Edição. São Paulo: Cultrix, 2006., p. 166.

mortificação por meio do jejum, abstinência e flagelações, por exemplo, chicoteando o próprio corpo.81

Na perspectiva agostiniana, alma e corpo constituem uma unidade, sendo o corpo mortal, terreno, efêmero e guiado pela alma, que é imortal. Para Santo Agostinho, o corpo é a possibilidade de concretização do pecado, uma vez que ele é o lugar do “desejo intenso de

bens ou gozos materiais, inclusive o apetite sexual”. No entanto, Agostinho explica que o ser humano é dotado de livre–arbítrio e é auxiliado pela graça divina, de modo que, a alma pode evitar o mal porque pode governar o corpo. Isso significa dizer que a liberdade em Agostinho é o estado de um sujeito de volição, competente e subordinado ao discurso prescritivo de um destinador maior. De forma que a alma, a serviço da lei divina, nega o gozo e engendra o corpo na programação do sagrado, de forma que a isenta de quaisquer riscos. Talvez esse seja um exemplo de “aniquilação como forma suprema de conjunção com o divino” no postulado de Greimas e, ao mesmo tempo, o que justifica a crença de Nietzsche num Deus que soubesse dançar; prismas distintos que tem um mesmo ancilar: a “busca da significação” e do sentido.

Saído da escuridão da caverna e das trevas do cristianismo, o corpo é reinaugurado pelo pensamento filosófico e, no exemplário do discurso da mudança, o que renasce é:

(...) Um corpo inquieto que, arrancando-se do grande corpo coletivo, paga muito caro esta sua emancipação. Porque esse corpo que o ser humano faz agora passar para o primeiro plano de suas preocupações, para protegê-lo, cuidar dele, prolongá-lo encontra-se só no momento da morte, sem a assistência moral do corpo da linhagem, desse grande corpo coletivo que, este sim, não morre jamais.82

Nesse simulacro o corpo não é mais da esfera do ideal e tampouco o parecer da perfeição, embora ainda pertença de alguma forma à lógica das coisas ordenadas de modo divino. À guisa do dualismo platônico, ao postular o corpo moderno o método cartesiano marca outra ruptura. Trata-se agora de um ser humano constituído de um corpo imaterial de natureza espiritual e de um corpo material. Sobre isso quem explica é Descartes:

(...) mostrei como deve ser a fabricação dos nervos e músculos do corpo humano, para fazer com que os espíritos animais, estando dentro, tenham a força de mover seus membros: assim se observa que as cabeças, um pouco depois de serem cortadas, ainda se mexem e mordem a terra, embora não sejam mais animadas; também mostrei que mudanças devem ocorrer no

81. Maria Lúcia de Arruda ARANHA e Maria Helena Pires MARTINS. Idem, p. 327.

cérebro para causar a vigília, e o sono, e os sonhos; de que maneira a luz, os sons, os cheiros, os sabores, o calor e todas as outras qualidades dos objetos exteriores nele podem imprimir diversas idéias por meio dos sentidos; de que maneira a fome, a sede e as outras paixões inferiores também podem lhe enviar as suas; (...) O que não parecerá de modo algum estranho aos que, sabendo quantos autômatos, ou máquinas moventes, a indústria dos homens pode criar, utilizando poucas peças em comparação com a grande quantidade de ossos, músculos, nervos, artérias, veias e todas as outras partes existentes no corpo de cada animal, hão de considerar esse corpo como uma máquina, a qual, tendo sido feita pelas mãos de Deus, é incomparavelmente melhor ordenada e possui em si movimentos mais admiráveis do que nenhuma das que podem ser inventadas pelos homens.83

Somado ao pensamento de Descartes o de David Hume, observa-se que se está diante da transformação do corpo. Um corpo objeto, à imagem e semelhança da lógica produtiva foi dado a ver no discurso cartesiano e vai ser reiterado na descontinuidade dos modos de vida da era industrial. E é Hume quem explica que:

A pele, os poros, os músculos e os nervos de um operário diferem dos de um homem de qualidade, assim como os seus sentimentos, suas ações e suas maneiras. As diferentes condições de vida influenciam toda a estrutura, externa e interna, e essas diferentes condições provêm necessariamente, porque uniformemente, dos princípios, também eles necessários e uniformes, da natureza humana.84

Antes, um percurso narrativo potencializado, no qual o não crer que o corpo é imagem e semelhança do criador corrobora para a profanação; depois, um percurso atualizado, em que o poder e o saber admitem o corpo que se assemelha a uma máquina. E, na esteira do pensamento filosófico, este percurso culmina na afirmação nitzscheneana de que

“Tudo é corpo, e nada mais; a alma é apenas nome de alguma coisa do corpo.”85

A despeito da concepção do corpo idealizado, sagrado ou máquina e da sua figurativização, é importante ter em conta a experiência do encontro com esse corpo. Para Vigarello, em O corpo do Rei, “a superioridade impõe tradicionalmente uma vertente física.” e, na sequência, esse autor complementa que são:

(...) indícios corporais que ajudam a perceber melhor, ou até a pensar melhor, a força obscura do poder, esta emanação essencialmente particular cujo exemplo é o tocar as escrófulas, após a sagração: “Deus te cura, o rei te

toca”. Ato físico, ele manifesta quase visualmente o poder do monarca,

83. René DESCARTES, Discurso do método, p. 70 – 95.

84. Citação de Nicole PELLEGRIN. Corpo do comum, usos comuns do corpo. In: História do Corpo: Da Renascença às Luzes, p. 131.

concretizando um a instância quase divina: aquela que transforma o curso das coisas pelo simples contato do corpo.86

Ora, mas são só signos que marcam o encontro com a corporeidade do poder? De que forma a semiótica examina o corpo? É no estudo de Landowski, “Fronteiras do corpo.

Fazer signo, fazer sentido” que parece repousar a resposta e a explicação para estas questões. O pesquisador inicia esse trabalho dizendo que o interesse da semiótica por investigar o corpo consiste numa abordagem senão recente pouco sistematizada e prossegue discorrendo sobre a ambigüidade que o estudo da significação do corpo constitui. O semioticista explica que o corpo está próximo demais e a familiaridade dada por essa perspectiva subjetiva é um óbice para se distinguir a identidade e, a despeito da proximidade, tem-se uma estranheza pelo fato de não se compreender objetivamente o seu funcionamento. Ao que Landowski explica:

(...) Porque aquilo que nós conhecemos de mais perto, e num certo sentido, que melhor conhecemos, é ao mesmo tempo aquilo que nos parece menos redutível ao estatuto de um obcjeto de conhecimento comum: como se este corpo que somos nós próprios tivesse por natureza, ou por um qualquer inexplicado privilégio (ou talvez, precisamente, pelo simples facto que ele é nós próprios), vocação para escapar aos poderes de investigação da ciência.87

Então, empenhado numa investigação que dê conta do corpo, do sentido e da relação entre ambos, pressupondo um olhar externo e objetivante em oposição a uma apreensão interior, “fundada num ‘vivido’ que pode em si mesmo, de imediato, subjetivamente

e talvez mesmo intersubjectivamente significar, ou melhor (se tal expressão for permitida)

fazer sentido.”88, Landowski estuda a problemática do sentido na dimensão do corpo. Primeiro o pesquisador descreve o “corpo dessemantizado” e o exemplifica como o corpo retalhado e paciente da medicina, cuja redução do sentido à função permite reconhecê-lo como o parâmetro de corpo das ciências naturais. Em contraposição, ele examina o “sentido desincarnado”, ou seja, o sentido desligado do corpo, apreensível de fora e peculiar às ciências humanas, que pode ser observado da semiologia à teoria do comportamento psicológico. Então, sem dissociar o inteligível e o sensível, ao contrário, articulando-os, esse semioticista postula um “corpo a corpo, fazer sentido”, de forma que em lugar de uma relação “exclusivamente unilateral” tem-se a “partilha do sentido” na interação de pelo menos dois corpos.

86. George VIGARELLO. O corpo do rei. In: História do Corpo: Da Renascença às Luzes, p. 503-504. 87. Eric LANDOWSKI, Fronteiras do corpo. Fazer signo, fazer sentido, p. 271.

Em “Fronteiras do Corpo” Landowski reconhece o fato de o corpo “emitir

intencionalmente determinadas ‘mensagens’ por combinação de ‘signos’ corporais codificados.”89 e admite, não sem ressalva, que essa seja uma perspectiva adotada pelas ciências, porém, dado que “o nosso corpo está permanentemente, em si próprio e por si

próprio, a fazer sentido”90, o estudioso postula o exame de um “fazer sentido” diferente ou além do “fazer signo”. A proposição do pesquisador sobrepõe a perspectiva reducionista do corpo como espaço de codificação, para dar lugar a presenças sensíveis e à noção de que o sentido é apreendido de forma inteligível e sensível ao mesmo tempo. Sobre isso Landowski também ensina que:

(...) o estatuto semiótico do corpo não é o de uma substância de expressão disponível para ser articulada com vista a traduzir conteúdos que lhe são exteriores. Importa encará-lo antes como uma forma indefinidamente em construção, cujo sentido e valor não podem ser apreendidos senão relacional e dinamicamente, numa relação permanentemente movente do sujeito a si próprio ao mesmo tempo que ao outro.91

Eis, portanto, nesta investigação, o frontispício rumo ao corpo do poder. Corpos de muita ou pouca alma, corpos que são “a prisão da alma”, corpos de “movimentos admiráveis”, corpos de “diferentes condições de vida”; corpos inteligíveis e sensíveis, com os quais se acredita que é possível dançar92, o que constitui um legítimo ato semiótico. E, sobre os atos semióticos, Landowski ensina que são:

(...) operações enunciativas realizadas mediante a articulação de uma matéria de expressão de qualquer outra ordem (por exemplo, gestual ou proxêmica). Mas em todos os casos, aquele sentido do qual dizem que ele “advém”, ou que emerge do processo em curso, não pode ser visto como um objeto dotado de uma existência em si, nem como uma realidade ligada a tais ou tais marcas textuais particulares que teriam adiantadamente e de um modo geral por função ou, ao menos, por efeito de o objetivar.93

1.2 – Simulacros de príncipes e sapos

89. Eric LANDOWSKI, Fronteiras do corpo. Fazer signo, fazer sentido, p. 280. 90. Ibid., p. 280.

91. Ibid., p. 285.

92. Friedrich NIETZSCHE. Assim falava Zaratustra, p. 59.

Sabe-se, ainda que intuitivamente, que alguém, ou alguma coisa, é capaz de exercer uma ação sobre outrem, ou sobre algo, de maneira a fazê-lo fazer. O que permite comparar a ação destruidora de uma onda gigante ou a precipitação de gotas d’água sobre a superfície da terra, com uma pessoa ou uma mídia capaz de influenciar a opinião e a conduta de um indivíduo, de um grupo ou de uma coletividade. Em quaisquer dos casos é indiscutível que se está sob uma mesma dimensão, a do poder, no entanto, o que parece diferenciá-los é de outra ordem.

O poder substantivado significa “direito ou capacidade de decidir, agir e ter voz

de mando; autoridade”94 e sobre o verbo de transitividade que permite que o primeiro se estabeleça e se mantenha, é Greimas quem explica que:

“1. Poder pode ser considerado, no quadro de uma teoria das modalidades, como a denominação de um dos predicados possíveis do enunciado modal*, que rege um enunciado descritivo* (de fazer* ou de estado*). Conceito indefinível, é ele, contudo, suscetível de ser interdefinido em um sistema de valores modais escolhido e postulado axiomaticamente. 2. Estando os enunciados modais por definição destinados a reger outros enunciados, duas estruturas* modais do poder devem ser consideradas: a que comporta um enunciado de estado e que é denominada, por comodidade, poder-ser, a que tem por objeto um enunciado do fazer: o poder-fazer. Por sua vez, estas duas estruturas podem ser projetadas sobre o quadrado* semiótico e produzir categorias modais correspondentes: (...)”95

Tendo em conta que o poder em questão é de caráter político, o enveredar com Landowski nas estruturas modais do poder, do poder político, permite dizer que o poder-fazer é a ação do sujeito que detém a voz de mando e, como explica este semioticista, de dimensão pragmática. Mas qual é ou quais são as competências que garantem o estado de autoridade do sujeito? Greimas ensina que também existe a dimensão cognitiva, “(...) definível como a

assunção das ações pragmáticas pelo saber (...)”, o que permite falar que um sujeito dotado de saber pode-ser a voz de mando. Mas como depreender a edificação do poder político na sua dimensão pragmática e cognitiva?

No território das ciências políticas o filósofo Leo Wolfgang Maar ensina que: “Falar em Grécia é falar em democracia. Atenas, a “Constituição” de Sólon, os grandes debates na ágora – praça em grego -, a época de

94. Antonio HOUAISS e Mauro de Salles VILLAR. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, elaborado no instituto Antonio Houaiss de Lexicografia e Banco de Dados da Portuguesa S/C Ltda. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 547.

Péricles, etc. De vez em quando, lembra-se Esparta, o seu espírito bélico e o ascetismo da sua vida cotidiana, “espartana”. (...) O termo “política” foi cunhado a partir da atividade social desenvolvida pelos homens da pólis, a “cidade-estado” grega. (...) a atividade política desenvolver-se-ia como cimento da própria vida social. O que a política grega acrescenta aos outros Estados é a referência à cidade, ao coletivo pólis – e o prefixo póli possui este sentido, que corresponde ao multi latino.”96

E complementa explicando que enquanto a atividade política grega se estabelece no espaço público e com a participação de Estado, governante e cidadãos, a romana “concentra-se na

disputa pelo poder de tutela do Estado, como Instituição a serviço de interesses privados.”, ao passo que a política medieval prima pela dicotomia “poder político” e “poder civil”, ou seja, o fazer dominador coercitivo dos nobres e o fazer dominador persuasivo do clero. E, ainda segundo Maar, (...) Para atender a estes papéis, a atividade política exigiria uma nova

forma: uma nova concepção de Estado, a um tempo dominador e dirigente. Para corresponder a esta nova forma seria necessário um novo agente, que Maquiavel denominaria de “Príncipe”, o governo do Estado.”97

Com Maquiavel, um dos primeiros pensadores a assumir uma atitude dita científica ao estudar as artes da política e do governo na prática, a política começou a ser analisada como a matemática, a física ou a astronomia, ou seja, mediante deduções lógicas; isenta do amparo da ética e da jurisprudência. Trata-se da política na perspectiva das relações entre os homens e, principalmente, com vistas à conquista e à conservação do poder. A essência da política na obra do filósofo italiano é o poder, e o exercício do poder é a dominação. No legado maquiavélico consta que:

“(...) Ao Príncipe torna-se necessário, porém, saber empregar convenientemente o animal e o homem. Isso foi ensinado veladamente aos Príncipes, pelos antigos escritores, que relatam o que aconteceu com Aquiles e outros Príncipes antigos, entregues aos cuidados do centauro Quíron, que os educou. É que isso (ter um preceptor metade animal e metade homem) significa que o Príncipe sabe empregar uma e outra natureza. (...) Precisa, pois, ser raposa para conhecer os laços e leão para aterrorizar os lobos. Os que se fazem unicamente de leões não entendem de Estado. Por isso, um Príncipe prudente não pode nem deve guardar a palavra dada quando isso se lhe torne prejudicial e quando as causas que o determinaram cessem de existir. Se os homens todos fossem bons, esse preceito seria mau. Mas, dado que são maus e que não a observariam a teu respeito, também não és obrigado a cumpri-la para com eles. Jamais faltaram aos Príncipes razões

96. Leo Wolfgang MAAR. O que é política, p. 31 – 33. 97. Ibid., p. 31 – 33.

legítimas para dissimular o descumprimento da palavra empenhada. Disso poder-se-iam dar inúmeros exemplos modernos, mostrando quantas convenções e quantas promessas se tornaram írritas e vãs pela deslealdade dos Príncipes. E, dentre estes, o que melhor soube valer-se das qualidades da raposa saiu-se melhor. Mas é necessário disfarçar muito bem essa qualidade e ser bom dissimulador. (...) Contudo, o Príncipe não precisa possuir todas as qualidades acima citadas, bastando que aparente possuí-las. (...) Príncipe deve, no entanto, ter muito cuidado em não deixar escapar da boca expressões que não revelem as cinco qualidades acima mencionadas, devendo aparentar, à vista e ao ouvido, ser todo piedade, lealdade, integridade, humanidade, religião. Não há qualidade de que mais se careça do que esta última. É que os homens, em geral, julgam mais pelos olhos do que pelas mãos, pois todos podem ver, mas poucos são os que sabem sentir.”

98

Neste fragmento de “O Príncipe”, destacam-se expressões pertinentes à estrutura modal prescritiva que é própria do discurso doutrinário e não surpreende que tenha sido o pensamento fundante do termo “maquiavélico”. Nele enuncia-se o simulacro dos Príncipes antigos, a tipologia do leão e da raposa como modelo a ser simulado, a pedagogia para realizar a performance do “jogo da verdade”99 e, portanto, a dissimulação. O argumento ético preconiza a ação política e não a moral cristã, o que é próprio do seu contexto espaço temporal. Prova disso é que, ao passo que o pensamento de Maquiavel postula o fazer político sem sujeição à moral religiosa, nos croquis de Leonardo Da Vinci os corpos dissecados dão visibilidade da profanação do corpo humano. Enquanto o primeiro se ocupa das expressões da matéria, o outro se debruça sobre a constituição dela, trata-se de um corpo violado do ponto de vista religioso e um organismo sem alma na perspectiva da ciência, mas sensível e inteligível em todos os casos. No entanto, com vistas a não perder o foco do que se pretende examinar, parece que o extraordinário seria depreender o gesto desse humano categorizado raposa ou leão; ou então, a proxêmica desse corpo mesmo que dito sem alma.

Ao longo das gerações100 edificaram-se vários modelos de dominação e submissão políticas. O “principado”, por exemplo, constitui um simulacro de governo. Assim como um dia se falou no poder exercido pela nobreza e pelo clero medievais, numa sociedade dita moderna fala-se em classes dominantes e dominadas. No entanto, como se estabelece essa

98. Niccolo MACHIAVELLI. O príncipe; e, Escritos Políticos, p. 40.

99. A expressão “jogo da verdade” é utilizada neste parágrafo a partir de Greimas, quando ele explica que “(...)