Para uma visão mecanicista do mundo baseada no atomismo e na separação sujeito/objeto o vínculo é invisível, obscuro, incognoscível. Afortunadamente, a visão complexa de mundo, de um mundo em holomovimento, nos permite perceber os fenômenos em (inter)relação, compreender nossa percepção em co- criação com uma realidade que não contém fragmentos, e sim fluxos.
A ciência clássica fincou suas bases na objetividade, na crença de um universo constituído de objetos isolados submetidos a leis universais. Nesta perspectiva, o objeto existe de maneira positiva e, como esclarece Morin, não há
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aqui participação do observador/conceituador com as estruturas de seu entendimento e as categorias de sua cultura. Ele [o objeto] é substancial; constituído de
matéria, tendo plenitude ontológica, ele é auto-suficiente no seu ser. O objeto é então uma entidade fechada e distinta que se define isolando em sua existência, suas características e suas propriedades, independentemente de seu ambiente. Quando mais o isolamos experimentalmente, melhor determinamos a sua realidade „objetiva‟. (MORIN, 2003, p. 124). A partir desta visão se
impõe uma explicação, para alguns, científica, para outros, reducionista, esclarece Morin.
Como sabemos, esse modo de fazer ciência que impulsionou a física foi inspiração para outras ciências que seguiram o mesmo caminho, de igualmente isolar seu objeto do ambiente e do observador, e tentar explica-lo a partir dos elementos mais simples que o constituem, e das leis gerais às quais se submete. Assim fez a biologia fazendo da célula sua unidade elementar. A Genética elegeu o genoma. A Sociologia, a família como célula da sociedade... Contudo, Morin nos fala que a “partícula” não sofre apenas uma crise de ordem ou de unidade, mas de identidade, uma vez que não mais se pode isolá-la retirando-a de suas interações, ela pulsa hesitante, ora como onda, ora como partícula. Ela perdeu toda substância, clareza e distinção, e até mesmo, toda a realidade. Não se pode defini-la sem aludir para as interações das quais ela participa, e nenhum caractere ou qualidade sua pode ser induzido em função de características próprias. Com efeito, tais caracteres, que configura traços próprios, só podem, no átomo, por exemplo, ser compreendidos quando, e se, referimos à organização do sistema. Por conseguinte, argumenta Morin, a ideia de sistema vivo herda simultaneamente parte da animação do ex-princípio vital e
parte da substancialidade da ex-matéria viva. Enfim, a sociologia tinha, desde a sua fundação, considerado a sociedade como um sistema, no sentido forte de um todo irredutível a seus constituintes, os indivíduos. Sendo assim, em todos os horizontes, físicos, biológicos, antropossociológicos, se impõe o fenômeno-sistema. (MORIN, 2003, p. 128).
O vínculo é um fenômeno complexo, relacional, multidimensional, sistêmico e, irredutível à substancialidade. Só pode ser compreendido na e pela
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relação a partir de uma visão sistêmica. Como humanos, se abrangemos toda a comunidade em termos planetários, estamos todos interligados, e há aqui, uma relação dialógica de oposição/complementaridade. Em face dessa elasticidade extrema, de que maneira, ou mesmo seria válido, compreender o vínculo entre os profissionais de saúde e as pessoas que usam os serviços na atenção básica do SUS?
Recorro à ideia de sistema de Morin. Bem, o fenômeno que investigo se torna questão em um contexto específico: a atenção básica do SUS. Contexto em que devo (re)inserir o fenômeno em termos de ecossistema. Isso é diferente de retirá-lo do contexto em termos de objeto. E mais diferente ainda de perceber um conceito/fenômeno presente ou não na realidade empírica. Não se trata da impossível tarefa de fazê-lo objeto nos moldes da ciência clássica, e sim, compreendê-lo em seu movimento fluido interrelacionado com o contexto que o gera. Trata-se aqui de buscar compreendê-lo a partir de uma visão sistêmica e não fragmentada da realidade no sentido de separação sujeito/objeto.
O conceito clássico de objeto nos abre apenas dois caminhos: ou somente ao real, ou somente ao ideal. O conceito de sistema marca uma diferença em relação a essa conceituação. A noção de sistema nos remete tanto ao real, como ao sujeito, porque o coloca, ele próprio, imerso no sistema. É um conceito construído na e pela transação sujeito/objeto, e que não resulta na eliminação de um pelo outro. Para isso, é preciso alguns cuidados, como adverte Morin. Tomar o sistema por objeto real elimina o sujeito, e acaba por desembocar em um realismo ingênuo. Por outro lado, tomar o sistema por um esquema ideal acaba por eliminar o objeto, e também o próprio sujeito, uma vez que, no modelo ideal se considera, não a estrutura subjetiva do sujeito, e sim, seu valor de eficiência na manipulação e na previsão. Morin quando afirma que,
O sistema remete profundamente ao real, ele é mais real porque muito mais enraizado e ligado à physis que o antigo objeto, quase artificial no seu pseudo-realismo; ao mesmo tempo, ele remete muito profundamente ao espírito humano, ou seja, ao sujeito, ele próprio imerso, culturalmente, social e
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historicamente. Ele requer uma ciência física e também uma ciência humana. (...) Por esta via sistêmica, o observador, excluído da ciência clássica, e o sujeito, enucleado e jogado no lixo da metafísica, voltam ao próprio coração da physis. Daí tal ideia cujos rastros seguiremos: não há mais physis isolada do homem, ou melhor, isolável de seu entendimento, de sua lógica, de sua cultura, de sua sociedade. Não há mais objeto totalmente independente do sujeito. A noção de sistema assim entendida conduz o sujeito não apenas a verificar a observação, mas a integrar a auto-observação ao sistema.
(MORIN, 2003, p. 177-179).
Segundo Morin (2002) tudo que era objeto tornou-se sistema. Tudo que era, até mesmo, uma unidade elementar, inclusive e, sobretudo, o átomo, virou sistema. Na verdade, todos os objetos-chaves das ciências, seja a física, a biologia, a astronomia, a sociologia constitui um sistema. Fora dos sistemas, há apenas a dispersão particular, constata Morin quando afirma que o nosso mundo organizado é um
arquipélago de sistemas no oceano da desordem. (MORIN, 2003, p. 128). O autor, porém,
ao ressaltar que tudo o que é matéria (o átomo, a molécula) virou sistema, e tudo o que é social também foi concebido como sistema, chama atenção para a noção de que essa generalidade não é o bastante para se compreender o lugar epistemológico da ideia de sistema, e alerta para o cuidado de não se cair numa visão reducionista e simplificadora. Para Morin, o universo organizado tem um caráter polissistêmico e se define como:
(...) uma impressionante arquitetura de sistemas se edificando uns sobre os outros, uns entre os outros, uns contra os outros, implicando-se e imbricando-se uns nos outros, com um grande jogo de concentrações, plasmas, fluidos de microsistemas circulando, flutuando, envolvendo as arquiteturas de sistemas. Assim, o ser humano faz parte de um sistema social, no seio de um ecossistema natural, que está no seio de sistema solar, que está no seio de um sistema galáctico: ele é constituído de sistemas celulares, que são constituídos de sistemas moleculares, que são constituídos de sistemas atômicos.
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O autor esclarece que não é o caso de se conceber uma teoria geral abrangendo átomo, a molécula, a estrela, a célula, o organismo, o artefato, a sociedade, mas, à luz de uma complexidade sistêmico-organizacional, considerar o átomo, a estrela, a célula, o organismo, a sociedade..., enfim, todas as realidades, sobretudo, a nossa. A partir disso, conclui Morin, o sistema não é uma palavra-chave
para totalidade, mas uma palavra-raíz para a complexidade. (MORIN, 2001, p. 274). Em
um sistema, ao invés de objetos, essências ou substâncias, temos a organização; ao invés de unidades simples ou elementar, temos unidades complexas; ao invés de agregados formando corpos, temos sistemas de sistemas de sistemas...
Morin apresenta também algumas distinções que permitem categorizar os sistemas, para em seguida fazer alguns esclarecimentos importantes. Assim, podemos usar a palavra sistema dos seguintes modos:
- sistema, para todo sistema que manifeste autonomia e
emergência com relação ao que lhe é exterior;
- subsistema, para todo sistema que manifeste subordinação em relação a um sistema no qual ele é integrado como parte; - suprasistema, para todo sistema controlando outros sistemas, mas sem integrá-los em si;
- ecossistema, para o conjunto sistêmico cujas inter-relações e interações constituem o ambiente do sistema que aí está englobado;
- metassistema, para o sistema resultante das inter-relações mutuamente transformadoras de dois sistemas anteriormente independentes.
O autor esclarece que as fronteiras entre tais termos não são nítidas e podem ser substituíveis entre si de acordo com a focalização ou o recorte que o observador quer fazer na realidade sistêmica em consideração. Assim o caráter sistêmico ou subsistêmico ou metasistêmico vai depender da escolha do observador. Dessa forma introduz-se aqui a incerteza que pode dominar a caracterização. Sempre vai haver na extração de um sistema algo de incerto e arbitrário, isto é, sempre há uma decisão, uma escolha que é do sujeito que observa.
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Morin lembra que o sujeito intervém na definição de sistema através e por seus interesses, suas
seleções e finalidades, ou seja, ele traz ao conceito de sistema, pela sua determinação subjetiva, a superdeterminação cultural, social e antropológica. (MORIN, 2003, p. 176).
As ideias de Maturana e Bohn nos retiraram da ilusão de poder nos posicionar como sujeitos frente ao real, ou perante algum objeto a ser apreendido em um mundo existente fora e independente da nossa existência. E Morin nos apresenta um método para lidar com a realidade complexa que co-criamos, e na qual estamos imersos como parte do(s) sistema(s).
Esta ideia de sistema nos auxilia pensar que no ecossistema em que o vínculo é questão, ele não possui um ponto de partida ou início, mas pertence a uma realidade em holomovimento, cujo desdobramento surge em função de nossa interrelação com ela, como parte do sistema que somos.
Reitero a ideia de que não se trata aqui de torna-lo objeto a partir do conceito clássico de ciência; verificando a pertinência do conceito à realidade, ou buscando apreendê-lo na realidade empírica. Trata-se de colocar uma espécie de contorno no sistema. Quando Morin nos fala de sistema, subsistema, supra- sistema, ecossistema e metassistema esclarece que não há fronteiras nítidas entre estes termos, que são intercambiáveis entre si de acordo com o ângulo de visão, a
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focalização e o recorte que se quer imprimir. O caráter do que é sistêmico ou subsistêmico resulta de seleções, escolhas e autonomia de decisões, bem como, de condições culturais e sociais no qual se insere o observador/conceituador. Para Morin, o mesmo „holon‟ pode ser considerado ecossistema, sistema, subsistema, de acordo com a
focalização do olhar do observador. (MORIN, 203, p. 176).
Há sempre algo de arbitrário no recorte do sistema, sendo justo aí que se insere o sujeito com suas escolhas, interesses e decisões. O sistema requer, portanto, a presença de um sujeito que o isole do burburinho polissistêmico, como denomina Morin. Desta forma, o sistema não remete apenas à realidade empírica no que ela pode ser irredutível para o sujeito, mas também, alude às estruturas do próprio sujeito e ao contexto cultural e social em que se insere e, também, aos interesses do conhecimento científico.
Assim, para caminhar nesta senda duas consequências decorrem deste caráter subjetivo de recorte do sistema, segundo adverte Morin. A primeira é o princípio da incerteza em relação à determinação do sistema ao seu contexto, e a segunda, é o princípio da arte. Sobre isso diz o autor,
O recorte do sistema pode ser um talhamento no universo fenomenal, que será dividido em sistemas arbitrários, ou, ao contrário, a arte do açougueiro que corta seu boi seguindo o traçado das articulações. A sensibilidade do sistemista será como a do ouvido absoluto que percebe as competições, simbioses, interferências, sobreposições dos temas na mesma corrente sinfônica em que um espírito brutal conhecerá apenas um tema rodeado de barulho. O ideal sistemista não poderia ser o isolamento do sistema, a hierarquização do sistema. Ele está na arte aleatória, incerta, mas rica e complexa como toda arte, de conceber as interações, interferências e encadeamentos polissistêmicos. As noções de arte e ciência, que se opõem na ideologia tecnoburocrática dominante, devem aqui, como por todo lugar onde há realmente ciência, se associar. (MORIN 2003, p. 177).
Para mim, esse talhamento no universo fenomenal implica pensar o vínculo buscando compreendê-lo em termos de recursão, retroação e co-produção com
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outros elementos que compõem o (eco)sistema de que é parte. Isso evidencia outro modo de pensar e perceber o entrelaçamento da rede em que o profissional da saúde e as pessoas que demandam, ou não, os serviços, se inserem, exigindo que ambos se coloquem como tecelões dos nós que compõem as inter-relações e consubstanciam o vínculo se desdobrando em função do ecossistema em que se insere. Enfim, talhar o vínculo como um circuito deste ecossistema não significa isola-lo, ao contrário, significa compreendê-lo em suas inter-retro-relações com os demais subsistemas, cuja organização faz do (eco)sistema o que ele é, em um dado contexto em que se apresenta.
Morin nos ensina que para operarmos o pensar complexo não basta associar noções antagônicas percebendo o que elas têm de concorrente e complementar, é necessário ainda considerar o próprio caráter da associação, porque não se trata somente de relativizar estes termos entre si. O que é crucial, segundo as palavras do autor, é a sua integração no seio de um metassistema que transforma
cada um desses termos no processo de um circuito retrativo e recursivo. (MORIN, 2003, p. 460).
O vínculo aqui em foco se torna questão em função de um contexto, ou melhor, do (eco)sistema de que é parte. Fora deste sistema, provavelmente, adquiriria outras características que o reconfiguram em função de suas inter-retro- relações, e se reorganizam configurando outros (eco)sistemas com características próprias.
E, ainda, em função dessa visão sistêmica, uma vez operado um recorte no (eco)sistema, para que faça sentido, necessariamente, implica a inclusão do sujeito observador/conceituador no sistema, uma vez que o sistema remete não só a realidade empírica, mas alude, concomitantemente, à empiria em sua co-produção com o sujeito e a realidade de que é parte. Concordo com Morin (2003) quando diz que o método se torna crucial apenas quando reconhecemos a presença de um sujeito pensante, quando se considera que o conhecimento não resulta de acumulação de dados ou informações, mas de sua organização viva; quando a
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lógica se destitui de seu valor absoluto; quando a sociedade e a cultura, em vez do tabu da crença, permitem a dúvida da ciência; quando se entende que a teoria estará sempre aberta e inacabada, e que no conhecimento haverá sempre incertezas, ignorâncias e interrogações. A teoria é possibilidade de tratar o problema, e só ganha vida com a plena atividade mental do sujeito. E é justamente essa intervenção/inserção do sujeito que dá ao termo método, o seu papel indispensável.