Como terceiro eixo de problematização gostaria de tecer algumas reflexões em relação a semântica que aglutina o amálgama em que se insere o vínculo no discurso da saúde coletiva. Esta semântica converge seu sentido para o que se convencionou chamar de Tecnologias Leves, fazendo referência a classificação de Merhy. Tudo que refere ao campo das relações humanas no âmbito da saúde, seja em termos da clínica ou dos processos de trabalho, é aludido recorrendo a palavras como tecnologia, ferramenta, instrumento ou dispositivo relacional, sendo este bojo, o lugar da palavra vínculo.
A primeira estranheza que me assalta é o uso da palavra tecnologia para falar sobre as relações humanas em que o vínculo passaria a ser considerado como uma ferramenta, dispositivo, ou instrumento para manuseio No cotidiano, estas são palavras que se referem a objetos usados normalmente no trabalho, algo que
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precisamos como meio para um determinado fim. No vocabulário de uso da saúde uma ferramenta pode ser um estetoscópio; um dispositivo pode ser aquele intrauterino, que se usa para determinada finalidade; um instrumento pode ser uma caneta, maca, etc. Penso que talvez haja aqui uma necessidade de objetivar algo próprio da subjetividade humana na tentativa de evidenciar sua importância, ao equiparar tais palavras no mesmo campo ontológico.
O uso de tal vocabulário remete a uma postura utilitarista e pragmática, própria do campo da saúde, que adquire um sentido quando falamos de relações humanas. No que diz respeito ao vínculo, ou a qualquer outro aspecto relacional entre os humanos, até que ponto é válido apresenta-lo ou abordá-lo como algo para se chegar a um fim? Uma ferramenta ou instrumento uma vez que serviu para alcançar a finalidade que se propôs, perde sua utilidade. Essa característica se aplica(ria) ao vínculo entre os humanos? De que forma podemos colocar algum mediador na relação entre os humanos se estamos falando mesmo é da própria relação? A perspectiva pragmática e utilitarista se aplica(ria) às relações entre as pessoas? Se somos humanos inscritos na Linguagem, que repercussão tem o uso de tais significados no cotidiano de trabalho e de relações entre as pessoas que atuam na saúde e as que usam seus serviços?
Morin (1999) no terceiro volume da série O Método 3. O conhecimento do
conhecimento nos fala que o espírito humano produz um duplo pensar: um
simbólico/mitológico/mágico, e outro racional/lógico/empírico. A tradição científica sofre da tendência de só perceber antagonismos e antinomias entre essas formas de conhecimento. O conhecimento humano do mundo, porém, vai além da explicação, e inclui a compreensão.
Para Morin (1999) a relação explicação/compreensão comporta tanto complementaridades quando oposições. A compreensão diz respeito a capacidade humana de apreender sentimentos, valores, intencionalidades do outro por meio da empatia/simpatia. É um modo de conhecer que comporta projeção e identificação num duplo movimento circular, que vai de si para o outro, e retorna. Por meio
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deste ciclo de projeção-identificação compreendemos de forma espontânea sentimentos, desejos, temores uns dos outros.
Compreendemos o que sente o outro por projeção, isto é, sabendo o que nós mesmos sentiríamos em seu lugar, estando nesta ou naquela situação. Com efeito, a compreensão não é uma confusão de mim com o outro, mas comporta uma distinção entre o Eu e Tu em conjunção. Morin exemplifica isso nos romances e filmes quando projetamos e nos identificamos com a vida dos heróis e compreendemos até as lágrimas a vida do vagabundo, do bandido, da prostituta, do herói. É quando essa capacidade de compreensão está mais aflorada do que na vida real.
Morin explica que na esfera psíquica humana a compreensão tem na projeção/identificação sua força voltada para as relações e situações humanas. Em nosso cotidiano nossa atividade psíquica funciona na dialógica compreensão/explicação. Contudo, esclarece ele, é aí que reside uma importante questão. A compreensão não tem sua validade apenas no modo privado das relações intersubjetivas, que a coloca fora da esfera do conhecimento sério, adjetivando-a de pré-racional ou não-científica enquanto forma de conhecer. A compressão vale como conhecimento psicológico, sociológico e antropológico, defende Morin.
Para Morin a compreensão é o conhecimento que torna inteligível para um sujeito não
somente outro sujeito, mas também tudo o que é marcado pela subjetividade e pela afetividade.
(MORIN, 1999, p. 162-163). No entanto, se entregue as forças de projeção- identificação é também passível de erros. Quando concentrada nos fenômenos humanos a compreensão comporta limites uma vez que a compreensão só pode compreender aquilo que compreende, e aí, corre o risco da incompreensão. O estranho, o diferente e o estrangeiro dificilmente estarão inclusos no circuito de projeção/identificação. Daí, em um mesmo grupo ou sociedade pode haver barreiras de incompreensão em função das diferenças de sexo, raça, classe, etnia,
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cultura, etc. Morin segue em frente e acrescenta que a compreensão da compreensão necessita, então, da explicação da compreensão.
Morin chama atenção para a dialógica presente no circuito compreensão/explicação. Enquanto a compreensão se faz por projeção e identificações, a explicação se dá em razão de demonstrações lógico-empíricas pertinentes. Diz ele, enquanto compreender significa captar os significados existenciais de uma
situação ou um acontecimento em relação à sua origem ou modo de produção, partes ou elementos constitutivos (...) a explicação refere-se por princípio à objetivação, à determinação à racionalidade.
(MORIN, 1999, p. 162-164). O quadro abaixo, apresentado por Morin, situa bem esta questão: COMPREENSÃO EXPLICAÇÃO Concreto Analógico Apropriações globais Predominância de conjunção Projeções/identificações Implicação do sujeito Pleno de emprego da subjetividade Abstrato Lógico Apropriações analíticas Predominância da disjunção Demonstrações Objetividade Dessubjetivação Fonte: (Morin, 1999, p. 164)
Entre a compreensão sem explicação não há apenas antagonismos, mas uma dialógica, ou seja, uma relação complexa que contem complementaridade, concorrência e antagonismos. A própria Linguagem humana é metafórica e proposicional, e como tal, é potencialmente compreensiva e explicativa. A compreensão contém a explicação e vice-versa. Em nosso pensamento, que se opera por meio da linguagem, há uma necessidade dessa dialógica explicação- compreensão. Se nos referimos a fenômenos humanos, e os humanos não são objetos, tais fenômenos podem e devem ser referidos como tais. Sabiamente, Morin fala que,
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(...) considerando a condição humana, deveríamos menos temer as insuficiências da compreensão do que os excessos da incompreensão. Reservamos a nossa compreensão apenas para alguns confrades, correligionários, compatriotas, congêneres, e a estendemos somente a alguns animais e familiares. Ora, a compreensão deveria e poderia abrir-se a todos os nossos congêneres, nossos „irmãos humanos‟; deveria poder superar não apenas a face negra da subjetividade, feita de desprezo e de ódio, mas também a face cinza da objetividade, a indiferença, ambas nos impedem de compreender; ora recusar a compreensão a outro significa recusar-lhe a subjetividade e assim recusar-lhe o direito à autonomia, ou mesmo à existência. (MORIN, 1999, p. 166).
A compreensão não saberia compreender-se a si mesma do mesmo modo que a explicação não explica a si mesma, ambas ajudam-se mutuamente a conhecer- se. Para além de algum metanível que as supere, o circuito compreensão-explicação pode funcionar como um estratégia de correção mútua, esclarece Morin.
Todas as palavras que compõem o amálgama semântico pertencem ao campo relacional humano e diz respeito a um modo compreensivo de conhecer. Reportar-se ao vínculo, ao acolhimento, à autonomia das pessoas como um instrumento, uma tecnologia (leve) encerra as relações numa pragmática que faz do outro objeto do conhecimento e não alvo da compreensão. E talvez a leveza do ser se torne insustentável, pela pragmática utilitarista.
Compreender é um modo de conhecer em que há uma implicação daquele que conhece. E tal modo de conhecer não é menos científico. Concordo com Morin que erraremos menos se o objetivismo não obscurecer nossa capacidade de compreender o outro. Se nos reportamos a relações humanas não há mediadores que a objetivem, e sim, outro modo de conhecimento implicado e implicante.
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