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 Um ponto de vista da Psicologia.

Não se pode negar a relação íntima entre Psicologia e vínculo Humano, isto é, não se pode falar de um sem, necessariamente, remeter ao outro. Considero então esse como um bom começo. Antes, porém, de iniciar o assunto creio ser relevante um comentário geral sobre a Psicologia.

O rótulo de psicologia pode ser atrelado a uma diversidade de linhas teóricas. Podemos perguntar: o que poderia haver de comum entre a Psicanálise e o Behaviorismo? Que fio pode ligar estes, à epistemologia genética de Piaget ou às teorias Humanistas de Carl Rogers? O que dizer da psicologia sócio-histórica e a Psicologia da Libertação de Martin Baró? O que elas teriam a dizer sobre o vínculo, o humano vínculo? Reconheço que é com essa tal diversidade que tenho que me ater e me situar para abordar esse assunto, considerando a raiz epistemológica que funda esse estudo.

Tal diversidade se deve certamente a fatores históricos, sociais e epistemológicos que produzem modelos explicativos distintos sobre o comportamento e/ou humana e sua natureza psíquica, a partir de concepções idealistas ou materialistas, racionalistas ou empíricas, que ora privilegiam aspectos orgânicos, mentais, estruturais e/ou funcionais.

Um ponto de partida em psicologia que considero promissor neste assunto são os estudos sobre o vínculo de John Bowlby, autor referência no assunto neste campo de saber. Segundo analisa Bowlby (1990), até a metade da década de 50 predominava uma concepção sobre a natureza e origem dos vínculos. Tanto Freud e seus discípulos quanto os teóricos da psicologia da aprendizagem compartilhavam explicações que remetiam ao alimento e ao sexo como explicações para o

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comportamento de vínculo. Essa concepção teórica propunha duas espécies de impulsos: os primários, ligados ao alimento e ao sexo; e os secundários, ligados à dependência e outras formas de relações pessoais. As explicações sobre o porquê uma criança se liga a sua mãe ou uma figura substituta giravam em torno do fato da sua dependência em termos de satisfação de necessidades fisiológicas. Em relação à ligação dos adultos, o sexo era considerado uma explicação óbvia e suficiente.

Entretanto, segundo informa Bowlby, esse modelo tradicional de explicação foi colocado em questão por estudos sobre a privação dos cuidados maternos e seus graves efeitos no desenvolvimento da personalidade. Dois estudos clássicos citados por Bowlby contribuíram para pensar a inadequação desse modelo explicativo. No início dos anos 50 os trabalhos do etologista Konrad Lorenz sobre o Imprinting tornam-se mais conhecidos e suas pesquisas colocaram em cheque a importância da alimentação na formação de vínculos entre mãe e bebê. Lorenz (1935) demonstrou em suas pesquisas que durante os primeiros dias de vida, algumas espécies de aves desenvolvem fortes vínculos com a mãe, somente com a exposição do filhote à figura materna ou a figura com a qual se familiarizou, sem nenhuma referência ao alimento.

Outro estudo importante no campo da etologia, também mencionado por Bowlby, são os estudos de Harlow (1958). O resultado de suas pesquisas com filhotes de macacos Rhesus criados com mãe-boneco substituta demonstram que o bebê se agarra de forma preferida à mãe substituta que não o alimenta, desde que seja um boneco macio e confortável.

A partir destas pesquisas e de numerosos outros estudos empíricos com crianças, bem como de suas próprias pesquisas, Bowlby amplia sua teoria e se afasta dos conceitos que propunham as chamadas Teorias da Dependência. Assim, fenômenos que, antes compreendidos em termos de necessidade de dependência, ou

relações objetais ou simbioses e individuação, adquirem uma nova compreensão à luz dos

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da neurofisiologia e da biologia do desenvolvimento. Bowlby apresenta sua teoria da ligação definindo-a como:

Um modo de conceituar a propensão dos seres humanos a estabelecerem fortes vínculos afetivos com alguns outros, e de explicar as múltiplas formas de consternação emocional e perturbação da personalidade, incluindo ansiedade, raiva, depressão e desligamento emocional, a que a separação e perda involuntárias são origem. (...). O comportamento de ligação é concebido como qualquer forma de comportamento que resulta em que uma pessoa alcance ou mantenha a proximidade com algum outro indivíduo diferenciado e preferido, o qual é usualmente considerado mais forte e (ou) mais sábio. Embora seja especialmente evidente durante os primeiros anos da infância, sustenta-se que o comportamento de ligação caracteriza os seres humanos do berço à sepultura.

(BOWLBY, 1990, p. 122).

Para o autor o comportamento de ligação pertence a uma classe distinta do

comportamento de alimentação e do comportamento sexual, colocando-os com igual

significado na vida humana. O contraste com o conceito da dependência é esclarecido pelo autor em função do fato de que nenhuma função biológica lhe é atribuída, não se relaciona com nenhum indivíduo específico ou com a manutenção de proximidade, tampouco se associa a emoções fortes. Além disso, há implicações de valor que opõem a teoria da dependência ao conceito de ligação, esclarece o psicólogo, ao afirmar que enquanto que qualificar uma pessoa como dependente tende a ser

depreciativo, descrevê-la como ligada a alguém pode muito bem ser uma expressão de aprovação. Inversamente, ser uma pessoa desligada em suas relações pessoais é considerado, usualmente, como um comportamento que nada tem de admirável. (BOWLBY, 1990, p. 124). Para o autor

esse elemento depreciativo não favorece o uso clínico do conceito. Dependência e independência para ele são mutuamente excludentes, ao passo que terminologias, tais como, confiar em, ligado a, contar com, autoconfiança guardam entre si uma relação de complementaridade. E mais, o conceito de ligação subentende uma ou mais ligações a pessoas amadas, e o de dependência tende a ser anônimo, e não implica um tal relacionamento.

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Bowlby apresenta as seguintes características para o comportamento de ligação:

1. Especificidade: refere-se a um ou mais indivíduos específicos em ordem de

preferência;

2. Duração: ligação que se estende pelo ciclo vital humano, embora sejam

mais vívidos na infância e adolescência;

3. Envolvimento Emocional: relaciona-se com as intensas emoções que surgem

durante a formação, renovação e/ou rompimento de vínculos;

4. Ontogenia: refere-se aos vínculos formados nos primeiros meses de vida

do bebê;

5. Aprendizagem: relacionada ao aprender distinguir o familiar do estranho,

aprendizado que persiste em situações de repetidas punições ocasionadas pela figura de ligação;

6. Organização: criação de vínculo por meio do refinamento de sistemas

comportamentais que adquirem maior complexidade pela incorporação da capacidade de representação;

7. Função Biológica: refere o valor de sobrevivência do comportamento para

espécie, cuja função é a proteção, especialmente contra predadores. Com base em seus estudos Bowlby formula o conceito de Base Segura. Amparado em evidências que o ser humano em todas as idades serão mais felizes, e se sentirão mais capazes quando sabem e acreditam que podem contar com a ajuda de outro ser humano, caso precise. Tal pessoa definida como figura de ligação, é aquela

que fornece ao companheiro ou companheira uma base segura a partir da qual poderá atuar.

(BOWLBY, 1990, p. 97).

Tal figura de ligação não se limita, contudo, a fase infantil da vida humana, esse é o ciclo da vida em que isso se torna mais evidente, entretanto, tal necessidade existe até

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Bowlby defende a hipótese de que a autoconfiança é alicerçada em paralelo com a confiança em um dos pais ou figura de ligação que proporciona a criança uma base segura a partir da qual ela pode realizar explorações. O alimento desempenha apenas um papel secundário no comportamento de ligação que se manifesta com seu máximo vigor nos primeiros anos de vida, e persiste, menos intensamente, por toda a vida, a partir de sua função originária de proteção.

Relacionado ao padrão do comportamento de ligação, o psicólogo faz alusão a outros padrões, tais como, o comportamento de exploração e o de cuidar. A atividade exploratória é algo imprescindível na vida animal, inclusive a humana, porque ajuda ao animal e/ou ao humano a formar um quadro das características ambientais que podem significar sua sobrevivência. Com efeito, esses padrões de comportamentos são antitéticos um do outro, e se alternam em indivíduos saudáveis, acrescenta o autor. Por outro lado, o comportamento de cuidar, que assume a figura de ligação, é complementar ao comportamento de ligação e atende a duas funções: estar disponível quando solicitado e pronto para intervir caso a criança ou pessoa a quem se dispensa cuidados, que pode ser um idoso, esteja em apuros. Tais funções, a depender de como sejam desempenhadas pela pessoa que cuida, podem determinar, em grau considerável, se a criança será mentalmente saudável em seu desenvolvimento.

A partir de tais pressupostos Bowlby ainda esclarece o equívoco comum das teorias psiquiátricas e da psicopatologia em relação ao medo. Tradicionalmente, tais teorias defendem que o medo só pode manifestar-se em situações que realmente representem perigo. Fora disso, tal expressão de comportamento é considerada neurótica. Isso leva a uma conclusão erronia baseada no fato de que a separação da figura de ligação não ser considerada realmente perigosa, e que a ansiedade gerada por tal separação, ser compreendida como neurótica. O exame de tais questões, segundo o autor, evidencia que tanto o pressuposto, como a conclusão, é falsa.

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Embora a situação de separação não represente um perigo real, a reação de temor por parte dos indivíduos frente a tais situações podem ser explicadas, segundo as teorias de Bowlby, porque situações como essa envolvem potencialmente um risco que ameaça a sobrevivência. Assim, por exemplo, ruídos, estranhamentos, isolamento, e para muitas espécies, a escuridão, são situações que potencialmente significam o prenúncio de um risco real. Como o comportamento de temor e alarde frente a tais situações tem valor de sobrevivência para muitas espécies, o comportamento é tal como se o risco de fato estivesse presente. Assim, esclarece o psicólogo “respostas de medo suscitadas pela ocorrência natural de tais indivíduos

de perigo fazem parte do equipamento comportamental básico do homem.” (BOWLBY, 1990,

p. 127). Tal explicação deixa claro que a ansiedade, produto de separação involuntária da figura de ligação, pode ser indício de uma reação normal e perfeitamente saudável. O que ainda causa indagações são as diferenças individuais em termos de grau de intensidade que tal ansiedade causa em diferentes indivíduos. Em síntese, Bowlby com seus estudos, defende a tese de que a capacidade humana para estabelecer vínculos saudáveis possui estreita relação com as experiências vividas com os pais ou a figura de ligação, e o modo de desempenho desse papel de cuidador. Em termos ontogenéticos a capacidade humana para vincular-se surge desde a infância a partir de seu comportamento de ligação com a mãe ou figura de ligação responsável pelo cuidado. Uma pessoa adulta autoconfiante resulta da confiança da criança depositada em um dos pais ou na figura de ligação capaz de proporcionar uma base segura a partir da qual a criança possa realizar explorações. O vínculo humano e a autoconfiança e autonomia que dele derivam, é uma capacidade humana que inicia com o nascimento e perdura por toda a vida humana.

A compreensão de Bowlby sobre o vínculo se ampliou a partir dos estudos e pesquisas oriundas da etologia. A partir daí, o psicólogo direcionou seus estudos para o campo da psiquiatria, embora sua teoria sobre o vínculo humano não se restrinja a idade infantil ou a patologias. Creio, contudo, que seguindo seu percurso,

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e ampliando nossa visão do vínculo no campo da etologia e da biologia, é possível elucidar ainda mais a compreensão sobre o vínculo humano.

Assim, seguindo na esteira de pensar de Bowlby buscarei um diálogo com a etologia para pensar o vínculo como capacidade humana para relacionar-se com os demais seres humanos e outras espécies animais.

 Um ponto de vista da Etologia

Antes de iniciar o assunto propriamente a partir deste ponto de vista, tecerei alguns comentários importantes para situar os estudos etológicos.

A Teoria da Evolução de Charles Darwin datada do século XIX nos arrebatou, como humanos, de um lugar privilegiado na criação e nos colocou como mais uma, dentre outras espécies animais. Tal fato, ainda hoje é um tema polêmico para humanidade. Desde a publicação da primeira edição da Origem das Espécies, em 1859, a divulgação das ideias darwinistas, como em qualquer campo de saber, possui tendências ideológicas, que ora fundamentam crenças que somos produtos do meio, ora seres programados geneticamente, cuja evolução é regida pela lei do mais forte.

A Teoria Evolucionista de Darwin fora o marco para outras formas de compreender os humanos para além das ideias criacionistas de que somos a imagem e semelhança de Deus. As ideias de Darwin, tanto quanto as de Freud, reposicionaram nossa compreensão sobre o humano descentrando-nos do centro superior da hierarquia animal no que diz respeito a nossa biologia e a nossa racionalidade. Na modernidade, onde a máquina é a metáfora que explica o universo, nos sentimos mais confortáveis sendo comparados a máquinas que aos animais, sobretudo, em função da herança teológica que coloca o humano no topo da hierarquia nos seres vivos.

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Entretanto, seja qual for nossa origem - divina ou animal - é anterior, e permanece a polêmica em torno de nossa natureza humana que longe está da máquina em termos de similitudes, embora, na modernidade, fiquemos mais a vontade e agimos com mais naturalidade sendo comparados à máquinas do que aos animais. Há correntes de pensamentos que fazem uma leitura das ideias darwinistas e sustentam a crença de que somos seres antissociais, competitivos e que sobrevivemos em função da lei do mais forte e do mais apto, tão amplamente divulgada na sociedade contemporânea, e já tão apropriada no senso comum, quanto a ideia criacionista. segundo a qual, somos imagem e semelhança de um Deus. A polêmica sobre nossa verdadeira natureza prossegue em ambas as convicções com defesas implacáveis, matizadas por diversas correntes ideológicas.

A questão chave permanece polêmica e pontos de vistas extremos ainda prosseguem em suas defesas. O ser humano é bom por natureza e a sociedade é que o corrompe, assim como o apresentava Rousseau (1712-1778), um dos principais filósofos Iluministas. Ou, ao contrário, o ser humano é possuidor apenas de instintos de conservação e avidez de poder, como assim acreditava Hobbes (1588-1689). Entre tais posições extremas, é preciso um pensar sereno que se interrogue para onde nos levam tais convicções.

Feito essas considerações, passo agora para a contribuição da Etologia cuja produção de saber é generosa em apresentar estudos e fundamentos que apresentam nossa natureza humana como possuidora tanto de instintos de agressividade como instintos gregários e altruístas. É nessa senda que se situa uma produção de conhecimento significativa que ultrapassa as matizes ideológicas e maniqueístas sobre a natureza humana e nos oferece uma valiosa contribuição para compreensão do vínculo humano em sua filogênese.

Eibl-Eibesfeldt, discípulo de Konrad Lorenz, em seu livro Amor e Ódio, de 1970, defende a tese que, tanto o comportamento agressivo como o altruísta, são pré-programados através de adaptações genéticas processadas ao longo da história das espécies. Para o etólogo nossos impulsos agressivos são equilibrados por uma

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tendência, também inata, de sociabilidade e de cooperação. Segundo compreende o autor nós humanos somos capazes de viver em grupos, mesmo em face à agressividade que nos é inerente. A partir dessa premissa o autor se propõe em seu estudo responder a várias questões. As perguntas chaves que trata seu livro são: Com que meios constituímos e mantemos vínculos com os nossos semelhantes, ultrapassando a

barreira da agressividade? Haverá instintos vinculadores inatos que se oponham ao instinto agressivo? Que papel desempenha neste caso o instinto sexual? Como se desenvolveram a sociabilidade e o amor no processo histórico de evolução das espécies e durante o período evolutivo da juventude (ontogenético)? Como se desenvolveu o ódio? (EIBL-EIBESFELDT, 1970, p.

27). A leitura é bem instigante, entretanto, para fins deste capítulo, vou reter apenas algumas ideias chaves do autor, focando aquelas relacionadas à origem dos vínculos humanos.

Para Eibl-Eibesfeldt o vínculo pessoal nasce concomitante aos cuidados dispensados à prole. O autor refere o conceito de amor em seu livro esclarecendo que não o utiliza em referência ao amor sexual, mas o aborda, de um modo geral, como um vínculo emocional e pessoal que une um ser humano a outro ou ao vínculo resultante

da identificação com um grupo determinado. O contrário do amor é o ódio, enquanto rejeição emocional individualizada, e o ódio de grupo daí resultante. (EIBL-EIBESFELDT, 1970, p.

28).

Em capítulo mais a frente quando aborda a agressividade e os rituais vinculadores o etólogo afirma, conforme apontam suas pesquisas, que filogeneticamente não poderia haver a amizade sem os cuidados maternais. O amor entre os humanos resulta, em termos da filogênese, dos cuidados e defesa das crias, e como o grupo pode ser considerado uma ampliação da família, a defesa do grupo, com suas emoções correspondentes, também tem derivação da defesa da prole e da família.

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O cuidado da prole condiciona precocemente associações individuais em função dos cuidados individualizados em relação às crias, esclarece o autor. É isso que vai oferecer condições para uma vida social diferenciada. A defesa da prole e do grupo é a força de coesão. Os répteis e anfíbios, esclarece ele, são espécies cuja agressividade se distingue comparada às espécies que cuidam de seus filhos. Em espécies que não dispensam cuidados as suas crias não se observa quaisquer indícios de camaradagem de luta ou defesa de grupo. Eibl-Eibesfeldt afirma que:

não conheço nenhum vertebrado terrestre que se una para atividade comum, como a caça ou a luta, desenvolvendo aí um vínculo pessoal com membros da mesma espécie, e que entre seus antepassados não tenha comprovada alguma forma de cuidados para com a prole. (EIBL-EIBESFELDT,

1970, p. 152).

Em relação ao instinto sexual, o etólogo afirma dele resultar forte motivação para estabelecer contato. Por ser um instinto tão ou mais ancestral que a agressividade, uma vez que até os organismos monocelulares a ele se submetem, é pertinente pensar se através dele, poderá se estabelecer uma vinculação duradoura entre congêneres. O etólogo adianta que este é um caso mais raro do que se poderia supor. Apenas os humanos e alguns símios estabelecem vinculação duradoura através dele. O instinto sexual é raramente utilizado na criação de vínculos, embora, entre os seres humanos, desempenhe um papel importante. De

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acordo com o etólogo o amor não radica na sexualidade para o fortalecimento secundário do

vínculo. (EIBL-EIBESFELDT, 1970, p. 153).

Segundo Eibl-Eibesfeldt há duas raízes principais de sociabilidade entre os vertebrados. A primeira resulta da procura pelo contato motivada pelo instinto de fuga. O congênere adquire um valor de lar, pois em grupo, há segurança. Isso vale dos peixes, que vivem em cardumes, até os primatas superiores. A segunda raiz de motivação para sociabilidade é o instinto de cuidados paternos que une os pais à prole, e que se presta para uma consolidação da vinculação entre adultos. Segundo o etólogo apenas os animais que cuidam de suas crias são propensos à criação de vínculos ultrapassando a barreira da agressividade.

Para o etólogo as observações e pesquisas de Korand Lorenz, de quem foi discípulo, não há dúvidas de que o amor é um filho da agressividade. Explica ele, que esse pensar de Lorenz a partir de suas meticulosas observações justifica-se porque a agressividade intra-específica é muito anterior, em termos evolutivos, do que a amizade e o amor. O vínculo pessoal só aparece nos teleóstos, uma subclasse de peixes; nas aves e mamíferos, que são grupos animais que só aparecem depois do período mesozoico tardio. O autor acrescenta que há uma agressividade intra-

específica sem o seu contrário, o amor, mas por sua vez não há amor sem agressividade.

Contudo, Eibl-Eibesfeldt acrescenta suas ideias às de Lorenz afirmando que a função da agressividade reorientada é, justamente, fortalecer o vínculo por meio das cerimônias de apaziguamento e que, certamente, podemos verificar que não pode haver amizade sem agressividade. Não obstante, salvo raras exceções, o autor acrescenta que não haveria amizade sem os cuidados maternais. De acordo com suas pesquisas e observações nenhum caso foi registrado de união entre animais exclusivamente por meio da agressividade. Em suas palavras de um modo geral o amor

não é primordialmente um „filho‟ da agressividade, mas que nasceu com o desenvolvimento dos