2. Implicit representations of geometry
2.2 Examples
2.2.2 Strawberry
A primeira questão de pesquisa tratou da influência das políticas públicas de desenvolvimento sobre a dinâmica socioeconômica do extrativismo do babaçu e na configuração territorial das principais regiões produtoras do Brasil. Os estudos, observando a evolução das características da economia do babaçu de acordo com as três gerações de políticas de desenvolvimento, indicaram que do ponto de vista econômico e de organização do território a tendência foi a de perda de importância e a intensificação das pressões sobre a atividade, registrando-se portanto regressão nestes dois aspectos. Já sobre o aspecto da organização sócio-produtiva, percebe-se nitidamente uma evolução positiva entre os modelos de políticas públicas e as características da organização: no período desenvolvimentista as ameaças e restrições favoreceram a germinação de movimentos de resistência e a organização das mulheres, sendo o extrativismo do babaçu identificado como causa comum de luta; na
fase seguinte, os anseios de liberdade e de protagonismo encontram eco na ideologia neoliberal, que incentivava a organização e a capacitação local para a auto-gestão, culminando no fortalecimento e na inserção das organizações de extrativistas em esferas de maior visibilidade e principalmente na assunção pelas mulheres da identidade de quebradeira de coco babaçu; na fase recente as organizações de extrativistas, agora mais fortalecidas, têm ampliadas as oportunidades de participação e enfrentam o desafio de ocupar tais espaços, fazendo deles arenas de negociação e de conquistas para a mudança da realidade econômica da atividade.
Extrai-se neste ponto, um aspecto que nos chamou a atenção e que merece ser apontado com um conhecimento novo sobre o objeto de estudo. A retração do Estado Neoliberal, omitindo-se da atuação sobre a economia e permitindo a desestruturação de políticas de desenvolvimento, pode ter relação com o fortalecimento da sociedade civil. Nossa pesquisa indica que, na fase neoliberal estimulou-se o fortalecimento das organizações civis, que apresentaram expressivo crescimento quantitativo e qualitativo, como demonstrado com os dados apresentados. Os níveis de organização e capacidade de atuação alcançados pela sociedade civil no Brasil configuram-se como conquistas duradouras e têm permitido que esta seja capaz de prosseguir na ocupação de espaços, sendo também protagonista da construção de novos modelos de governança.
Na segunda questão de pesquisa voltou-se no tempo e no espaço para o foco de estudo, observando a influência das políticas públicas de desenvolvimento recentes sobre a organização socioprodutiva do babaçu na microrregião do Bico do Papagaio – Tocantins. Verificou-se que a organização socioprodutiva existente, estimulada e fortalecida pelas dinâmicas já citadas, articula-se e insere-se nas instâncias constituídas pelas políticas públicas recentes, na constante luta por maior qualidade de vida e melhorias para a atividade. Ao mesmo tempo em que o sistema de governança territorial presente oferece oportunidades para atuação, os dados sobre quantidade de associações e cooperativas indicam, por parte dos extrativistas do babaçu, uma predisposição para a participação, observando-se uma convergência entre os dois movimentos.
A terceira questão de pesquisa buscou verificar em que medida a organização social, política e produtiva das quebradeiras de coco babaçu tem concorrido para a sustentabilidade do extrativismo do babaçu na microrregião do Bico do Papagaio – Tocantins. Como hipótese de trabalho sustentava-se que as organizações de quebradeiras de coco babaçu têm tido uma intensa inserção nas diversas instâncias de gestão, porém ainda não suficiente para promover a mudança de patamar econômico da atividade. A deficiência estaria relacionada com a maior
dificuldade para inserção e negociação em esferas mais plurais e diversas, onde as decisões tomadas tenham maior poder de influenciar políticas, mercados e circuitos de produção.
Pode-se dizer que, em linhas gerais, a hipótese foi confirmada pelos resultados colhidos e analisados. A prática da participação é bastante arraigada e disseminada entre as lideranças de extrativistas de babaçu na região, além de suas organizações serem plenamente reconhecidas por parte de outras instituições. Mesmo nos municípios onde a atividade do babaçu não é considerada expressiva, foi espontânea a referência dos entrevistados à importância da economia do babaçu para a região, às suas organizações e às principais lideranças. Ocorre que parece haver um descompasso entre as esferas onde é mais intensa a participação e as esferas onde seriam tomadas decisões capazes de influenciar a sustentabilidade econômica da atividade, pois a participação é mais intensa em colegiados horizontais, municipais, cujas decisões trazem benefícios apenas no escopo local, sem impactos para a cadeia de produção.
Surge, no entanto um aspecto particular, não previsto inicialmente, que pode também ser apontado como um novo conhecimento observado sobre o objeto de estudo: ocorre por parte dos extrativistas uma priorização nas participações, onde as organizações civis são privilegiadas em detrimento das organizações governamentais. A distinção feita pelos extrativistas entre a participação em organizações civis e em instâncias de co-gestão governamentais, às vezes é expressa como um critério de escolha de compromissos, outra vezes resulta praticamente em abandono de uma arena de participação. Conclui-se que os extrativistas, ao priorizarem uma instância em detrimento de outra, justificando por exemplo, com a dificuldade em obter maioria nas votações, estão indicando que há importantes diferenças entre estas instâncias e que não se consideram suficientemente fortalecidos e articulados para lograrem êxito em todas as arenas. Tal fato é relevante para os gestores de políticas públicas que tenham como base a atuação de colegiados, que, para intensificarem a participação plural e diversa nos mesmos devem levar em conta a existência destes critérios, de modo a minimizar seus efeitos negativos, que culminam com a não participação. Ainda, a distinção entre os colegiados indicada pelos extrativistas, aponta para novos horizontes de investigação, de modo a aprofundar a compreensão sobre o fenômeno. Estabelecidas as conclusões, no próximo item relacionaremos alguns pontos, a título de contribuições para que, mais fortalecida, a participação política das quebradeiras de coco babaçu possa se reverter em maiores conquistas para a atividade.