• No results found

5 Opportunities and barriers

5.2 Storage and distribution

As relações sociais se produzem pelas mediações e, sem elas, não existe possibilidade de comunicação e, principalmente, de alteridade.

61 Tradução livre: “Mateo: Conte como encontrou os Ayoreo da floresta?

Purua: Nessa área eu encontrava gasodutos. Fomos nessa área uma vez caçar papagaios, porque o

papagaio agora tem bom preço, por isso fomos caçar. Me levantei muito cedo. Tenho uma filha que se chama Asia, essa filha me dizia: ‘mamãe tem que esperar os papagaios muito cedo pela manhã’.

Eu disse: ’vou fazer isso que me diz’, mas não sabia que me encontraria lá com uma situação tão perigosa. Não sei por que não levei nenhuma arma, escopeta ou outra coisa que sei usar. Se eu estivesse armado não teria corrido, teria seguido em frente. Meu plano era ir diretamente ao ninho dos papagaios, mas no caminho decidi caminhar protegendo-me um pouco do sol para ver melhor o ninho. Ia em direção a ele e como a 50 metros olhei em frente e ali vi um Ayoreo nu, com uma pintura branca no peito. Era um verdadeiro Ayoreo.

Nos encarávamos. Ele me olhou da cabeça aos pés. Como no caminho havia ramas, eu me agachava para ver melhor e ele também se agachava a observar-me. Pensei em mudar de lugar, ir para outro lado do caminho para ver o que ele estava fazendo. Se ele também se move, vou correr, pensei.

Era um caminho velho. Quando me movi, ele também se moveu. Moveu-se da mesma forma que eu. Ele tinha algo na mão, mas não pude ver o que era. Pela distância não podia distinguir bem. Voltei a olhar ele também. Com certeza era um Ayoreo. Era um Ayoreo verdadeiro e eu ia correr. Tinha minhas botas e enquanto corria percebi que elas faziam muito ruído, então as tirei e pude escutar se ele me seguia. Corri descalça seguindo o caminho velho. Corri porque era um verdadeiro Ayoreo e eu tinha muito medo. Olhei para ver se me seguia, se não vinha atrás de mim e segui correndo”.

122

Porém, esse não é um processo livre de conflitos, como já dissemos anteriormente. As informações recebidas no processo comunicativo são transformadas de acordo com variações repertoriais de uma cultura, de um cotidiano ou de uma existência.

No caso estudado, as tecnologias são ferramentas para o diálogo e geração de espacialidades na relação com a diversidade não indígena, para o enfrentamento de novas situações de convívio com o mundo exterior e no interior de seus sistemas culturais, abalados com interações de códigos, linguagens, cosmovisões das mais variadas procedências. Estamos diante de uma grande capacidade de resiliência, que só é possível porque esses grupos demonstram possuir um alto grau de diversidade, uma alta mobilidade que lhes permite driblar a dominação, abrir caminhos de protesto (ainda que disfarçados de acomodação), fazer leituras alternativas de uma mesma situação e imprimir, aos símbolos dos brancos, novos significados.

Esses procedimentos rompem com o pensamento dicotômico ocidental no que tange aos determinismos culturais e aos essencialismos identitários, gerando interculturalidade por meio de dinâmicas hibridas movidas pela contínua mobilidade.

A utilização de aparatos técnicos na comunicação dessas comunidades indígenas, seja como receptores (no caso dos aparelhos de TV e nos aparelhos reprodutores de música) ou como produtores de conteúdo (vídeo, radiofonia, fotografia e internet), gera novos espaços e visibilidades. Nesses processos nada permanece igual, imutável. As coisas se modificam.

123

“Parece o mesmo, mas já não é nem pode ser o que era, salvo como memória, fantasia ou nostalgia.” (IANNI, 2000, p. 107).

Falamos aqui de espaço como o fenômeno que se situa entre a comunicação e a cultura. Um espaço que se mostra e se deixa apreender no modo como se constrói (FERRARA, 2008). O espaço é uma estrutura de linguagem que se manifesta através de sua representação sensorial. Mas são as pessoas que, através dos usos e hábitos, transformam os espaços. A cidade, para os indígenas, não é um espaço alheio, e sim um espaço a mais onde circulam e, nesse movimento, se apropriam da cidade, a reconfiguram e a concretizam. São os usos e hábitos que concretizam o lugar, qualificam o espaço. “Usos e hábitos reunidos, constroem a imagem do lugar.” (FERRARA, 1993, p. 153).

Esse espaço é fundamental para que os indígenas, caracterizados pelo trânsito entre suas formas tradicionais e as novas necessidades advindas do contato com a sociedade envolvente, possam gerar novos pertencimentos e formas de ser e reproduzir-se socialmente e culturalmente.

Martín-Barbero e German Rey (2004) apontam a tecnicidade e a visualidade como novos lugares metodológicos, pois na técnica há novos modelos de perceber, ouvir, ler, aprender novas linguagens, novas formas de expressão de textualidade e escritura. Não mais como instrumento, mas incrustada na estrutura do conhecimento e da vida cotidiana, geradores de meios comunicativos, que Ferrara (2009) define não como os objetos, e sim

124

como as ações que se desenvolvem pelas tecnologias dos suportes:

Aquelas ações se ampliam e se expandem pelo processo interativo que faz implodir repertórios, valores culturais, tensões sociais e políticas que, sediadas nos contextos exclusivos de realidades particulares de recepção, assumem características distintas, mas sempre desconcertantes e imprevisíveis. (FERRARA, 2009, p. 8)

Ferrara afirma ainda que é necessário dimensionar as características tecnológicas dos dispositivos e também como esses suportes “interferem e são interferidos” pelos processos culturais dos grupos sociais, de acordo com as variações repertoriais de uma cultura, de um cotidiano ou de uma existência (FERRARA, 2003, p. 61).

Ao longo do trabalho de campo, pudemos concluir que ao voltar as câmeras para si mesmos, para suas práticas e seus interesses, é como se sujeitos e objetos se tornassem um só. Ao mesmo tempo em que o realizador é o enunciador, também faz parte do discurso de uma coletividade a que pertence. O levantamento etnográfico e a descrição dos materiais produzidos tema de nosso próximo capítulo, servem para ampliar nosso repertório e nos auxiliar na tarefa de compreender os novos arranjos culturais que se dão a partir da utilização dos novos suportes comunicacionais.

125