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Hydrogen in a more distributed and flexible power system

5 Opportunities and barriers

5.3 Hydrogen in a more distributed and flexible power system

O MENINO pedala desesperado, toma um atalho difícil para os perseguidores na moto. Eles seguem atrás do garoto, mas não conseguem passar por onde ele escapou e sofrem um acidente.

Barulho do acidente, de lata batendo e uma roda de moto passa rodando em frente à câmera.

O menino na bicicleta olha para trás e quando volta o rosto para frente vemos um enorme sorriso.

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A edição ficou a cargo de um dos jovens da AJI, sob a minha orientação para a utilização do software de edição de vídeo73. A seleção das

imagens e a montagem seguiram o roteiro acima apresentado. A trilha sonora também foi escolhida pelos alunos e contou com uma música do grupo de rap indígena Bro´s MC (canção que encerra o vídeo), que mescla guarani e português em suas canções74.

Baseado em um episódio vivenciado por muitos do grupo, o vídeo levanta algumas questões. Assim como no roteiro não realizado (Vídeo de

violência), a ideia de que “se não tenho, me aproprio à força” mais uma vez é trazida à tona. No entanto, assim que os assaltantes saem de cena, a bicicleta fica “solta” e as crianças utilizam a política antiga da aldeia: “o que é meu é seu”. O sentimento de posse é relativizado e a bicicleta passa de mão em mão, percorrendo a nova geografia da comunidade indígena, revelando alguns dos lugares por onde circulam os jovens, onde constroem seu sentimento de pertencimento. O espaço antigo da tribo, global e homogêneo, é fragmentado. É o uso que dinamiza o espaço e o concretiza como modo de ser ou de viver.

Somos apresentados a alguns desses espaços apropriados pelo uso dos jovens indígenas: o campo de futebol, os quintais às sombras das mangueiras onde se reúnem para tomar tereré, a escola, o açude.

Já no trecho gravado na cidade, a sensação de invisibilidade que muitos jovens acusam sentir naquele espaço pode ser notada aos 54 segundos

73 Utilizamos o Adobe Premiere CS3. 74

Clipe de Eju Orendive, uma das músicas do grupo:

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do curta, na sequência em que uma mulher impede a passagem dos atores que precisam contorná-la para passar. Quando assistimos ao vídeo juntos, alguns alunos destacaram essa cena. Questionados se isso não era algo que pode acontecer a qualquer pessoa, a negativa foi unânime e enfatizaram também que os dois indígenas em cena não pediram passagem por não se sentirem à vontade naquele ambiente; o que confirma nossa hipótese de que a cidade, para os jovens, ainda é um espaço que está em permanente construção, sendo informado e apreendido pelos usos e hábitos que fazem dele, alguns com mais desenvoltura que outros na tradução dos signos do espaço urbano.

Os empréstimos da linguagem televisiva também estão presentes na narrativa. Talvez o exemplo mais nítido seja a utilização do tema do filme

Psicose75, que marca a ameaça na cena em que a bicicleta é roubada. Perguntados sobre suas referências cinematográficas na escolha da música, o editor do vídeo, Emerson Cabrera, revelou não conhecer o filme e que conhecia a música do programa televisivo Pânico na TV76, que

corriqueiramente a utilizava para causar esse mesmo efeito de suspense e apreensão.

A definição da sequência final foi a mais trabalhosa durante a criação do roteiro. Muitas sugestões esbarravam na dificuldade de execução. Uma proposta era de que a moto dos perseguidores se incendiasse. Porém,

75 Psycho (Psicose) é um filme de 1960, dirigido por Alfred Hitchcock, com roteiro de Joseph Stefano. A

música composta por Bernard Herrman da famosa “cena do chuveiro” é caracterizada por acordes de violino bem cardíacos e frenéticos. Música disponível em: <www.youtube.com/watch?v=KF_6gI0xHzw>. Acessado em 12 abr. 2012.

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Programa de televisão humorístico originalmente apresentado na REDE TV de 2003 a 2012. Atualmente na Rede Bandeirantes.

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como gravar isso? Que moto incendiar? A de algum participante? Essa última possibilidade foi recebida com risos pelo grupo. A impossibilidade de gravar uma moto chocando-se contra a árvore quase inviabilizou toda a produção. O suporte vídeo gera uma expectativa que acaba não sendo correspondida: obter a mesma qualidade das imagens, fotografia e efeitos especiais de um filme do “cinema ou da TV”.

Esses jovens, cada vez mais conectados á rede de computadores, consumidores de programas de televisão, inseridos no comércio e circulação de DVDs de filmes pirateados, de coletâneas de músicas comerciais, manifestam desejos e aderem a formas estéticas diferentes das tradicionais. Essas novas possibilidades de reproduzir o cotidiano os coloca diante de uma questão de difícil resolução: que realidade desejam retratar? Uma que supostamente existe ou aquela que se torna esteticamente mais agradável no suporte? Na análise de suas produções, nos parece que um hibrido entre esses dois polos está sendo produzido. Os meios tecnológicos auxiliam numa espécie de síntese entre os distintos códigos que circulam nessa fronteira.

De mão em mão foi exibido na segunda edição Vídeo Índio Brasil

realizado em 2009 na cidade de Campo Grande (MS) e circulou por outros festivais, mostras de vídeo e eventos acadêmicos. Numa dessas ocasiões, no Encontro de Comunicação e Cultura da Universidade de Cuiabá, em 16 de abril de 2010, um dos ouvintes/espectadores questionou por que a produção do curta havia selecionado um figurino tão estereotipado para o jovem que roubou a bicicleta: “parece um mano”. Mano é a forma como muitos jovens, adeptos

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da cultura hip hop, são designados e identificados por seu vestuário (calças e camisetas largas, com alusão a times de basquete ou a rappers estadunidenses, bonés, toucas, entre outros) e por outras manifestações musicais e verbais. A cultura do hip hop se refere mais amplamente ao aspecto visual, vestuário e discursos que têm no gênero musical rap um de seus veículos de expressão.

Durante a gravação do vídeo eu incorri no mesmo julgamento equivocado, baseado em estereótipos. Quando Kelvin, o jovem que interpretaria o ladrão chegou à locação, fiz um comentário sobre seu figurino associando-o ao personagem que faria. Ele me respondeu ofendido que essa era a roupa que usava no dia a dia. A estética do rap comercial (sobretudo estadunidense) das periferias dos centros urbanos brasileiros é a estética de muitos jovens da aldeia. A chamada linguagem das ruas, que originou o movimento do hip hop, ao dar voz e visibilidade a jovens marginalizados, faz eco não só em outros centros urbanos, mas também entre os indígenas de Dourados. Para Antonio Bernardo Araújo Junior, do Portal Raízes77:

O hip hop vai além de rimas coordenadas e entretenimento. Em anos de amadurecimento, hoje podemos dizer que é uma cultura infundida na criação de opinião com base em experiências práticas, repassadas de igual pra igual.

Propagam também uma função social. Desconstroem e rompem com a ideologia e naturalização do sofrimento vivido por pessoas pobres. Diz não à aceitação de miséria e má qualidade de vida como uma única possibilidade de sobrevivência. O rap diz ao pai e à mãe de família: vocês podem e têm direito a dar aos seus filhos muito mais do que essa barganha oferecida. Diz ao jovem: A criminalidade não é

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Disponível em <http://portalraizes.org/index.php?option=com_content&view=article&id=14:hip-hop-o- movimento-das-periferias&catid=8:nossa-ginga&Itemid=9>. Acessado em 1 mar. 2012.

152 fonte de renda. Roubar está próximo de seu dia-a-dia, mas favorece muito mais a ricos charlatães invisíveis. É a forma de dizer não à falta de dignidade nos hospitais, contar a todos que a periferia é repleta de boas influências, arte, música e diz ao mundo: existimos.

Em toda a América Latina, pode-se perceber a influência do movimento hip hop, inclusive nas comunidades indígenas. Exemplos são grupos como o boliviano Wayna Rap que canta em quéchua e aymara, os mexicanos Nop da etnia Ikoots do estado de Oaxaca, o grupo El Vuh formado por descendentes de indígenas que migraram para os Estados Unidos, cujas canções mesclam inglês, espanhol e a língua náhuatl. Também, no Chile, o coletivo Wechekeche ñi Trawün (reunião de gente jovem) busca com o auxílio do hip hop a valorização da cultura Mapuche.

A associação dos jovens de Dourados à cultura hip hop é um fenômeno, como já citado nesse trabalho, cada vez mais frequente na aldeia. O grupo de rap Bro´s Mc78 é considerado o primeiro grupo indígena do gênero em

todo o Brasil, pelo menos o primeiro a lançar um disco. Em 2009, o grupo formado por Bruno, Clemerson, Charlie e Kelvin (ator em De mão em mão), jovens da Reserva Indígena de Dourados, venceu o Festival Rap Popular

Brasileiro no Rio de Janeiro. O Youtube é o principal instrumento de divulgação

das músicas, de acordo com entrevista dos integrantes do grupo ao site Rap

Nacional79:

78 Vídeo clipe de Eju Orendive, do grupo Bro Mc´s, mesclando português e guarani. 79

Endereço na internet da revista homônima. Entrevista disponível em: <www.rapnacional.com.br/2010/index.php/noticias/bro-mc%C2%B4s-1%C2%BA-grupo-de-rap-indigena/>. Acessado em 30 set. 2011.

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(Bruno) O rap pra nós é uma ferramenta pra própria defesa contra o preconceito, o racismo. E mostrar que nóis somos índios e nossa voz nunca vai se calar.

(Charlie) Porque também o rap é protesto, porque ai a gente pode falar o que a gente pensa né!

(Kelvin) Eu acho que o CD fala de muitas coisas, a maioria das músicas fala sobre o racismo…

(Clemerson) O nosso CD fala sobre a maioria das coisas que acontecem aqui, sobre a nossa realidade, aí a gente passa, a gente escreve no CD esfria nossa cabeça, falando dessas coisas, a realidade daqui da aldeia mesmo. Então sobre isso a gente grava, a gente escreve, a gente vê o fato que acontece aqui na reserva, então por isso a gente escreve nossas letras e os rap que a gente fala né?! Então a gente é o rapper que fala daqui da reserva, também da cidade, sobre um pouco das críticas que o parceiro tava falando, então é isso.

(Kelvin) Eu acho que a gente, sabe como que é? A cultura Hip Hop ele vem dos negros eu acho né? Começaram nas periferia né? Eu acredito que ele foi inventado pelos “brancos” não é por isso que a gente tá deixando nossa cultura, que a gente que é índio como a língua por exemplo que é mais importante nas nossas vidas né, e o rap ele vem das culturas dos “brancos” né? Só que eu acho que a gente não mistura isso daí né?! A gente coloca os dois juntos, tanto a cultura dos “brancos” como o que é da cultura dos indígenas, como o guaxiré (dança típica) mais o rap né!

(Clemerson) A maioria do rap nacional vem do que aconteceu nos EUA dos negros, surgiu lá, então veio os rapper`s, aí vejo como ele (Kelvin) falou também, não é por que a gente tá cantando rap que a gente tá deixando nossa cultura, a nossa cara, a nossa pele e o nosso sangue já mostra que a gente é índio mesmo, por ai a gente é reconhecido de longe como índio mesmo.

A possibilidade apontada por Kelvin do rap ter sido inventado pelos “brancos”, de ter vindo da cultura dos “brancos”, e a posterior correção de Clemerson de que tenha origem entre os negros dos Estados Unidos, revela

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também uma generalização dos não índios. Somos todos brancos. Somos todos outros.

Essa dicotomia entre nós e outros também é comum nos discursos de quem trabalha com os indígenas. Em diversas ocasiões, presenciei (e reproduzi) referências aos brancos feitas por não índios, com os autores excluindo-se dessa identidade, numa espécie de contradição performática em seus atos de fala.

3.3 – RUTA 86 E OS MUNDOS QUE SE CRUZAM

No mesmo ano de 2009, a repercussão do vídeo De mão em mão fez com que uma das agências financiadoras das atividades da AJI, a IWGIA (International Work Group for Indigenous Affairs)80, nos convidasse para uma viagem de intercâmbio à Argentina, mais precisamente para comunidades do povo Wichi, localizadas na periferia da cidade de Tartagal, ao longo da Ruta 86, na província de Salta.

Participei dessa viagem, no mês de julho, acompanhando a Emerson Cabrera, representante da entidade de Dourados indicado por seus pares. Foram 18 dias em Tartagal onde tivemos contato com experiências de outros grupos de apoio a povos indígenas, participamos de uma capacitação

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IWGIA é uma organização internacional sediada em Copenhague, na Dinamarca, dedicada ao apoio a povos indígenas em todos os continentes.

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para rádios comunitárias indígenas e tivemos oportunidade de oferecer uma oficina de fotografia para jovens da comunidade Lapachos II.

Nossa experiência foi registrada em vídeo e gerou o documentário

Rutas Cruzadas81 com 25 minutos de duração. O vídeo foi estruturado em

duas partes, na primeira apresentamos os indígenas argentinos (Wichis e Guaranis), suas comunidades e coletamos depoimentos sobre temáticas como autonomia dos povos indígenas, questões de gênero, educação, saúde, luta pela terra e a situação dos jovens nas comunidades indígenas. Na volta ao Brasil, mostramos os depoimentos dos argentinos aos brasileiros e gravamos seus comentários, tentando traçar um paralelo entre as duas realidades, criando um diálogo entre os personagens do documentário.

Durante a estadia em Tartagal, tivemos a oportunidade de compartilhar muitos materiais produzidos em Dourados com os Wichi. Em mais de uma ocasião, os Wichi pensavam que as fotos de Dourados eram fotos das comunidades de Tartagal. O mesmo aconteceu em Dourados. Além das parecenças físicas, a vivência dos mesmos desafios cotidianos também foi realçada nos comentários dos indígenas brasileiros.

Porque da luta dos indígenas do Brasil, a falta de espaço né, terra. E isso também é lá no país, na Argentina que a gente vê o depoimento. Saúde também, eles falam. Falam da educação. (AGUILERA, 22min23s)

Fico pensando o que eles vão sentir quando eles ver que aqui o problema é igual o deles. Eles vão falar o problema deles é

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156 igual o nosso né? Como é que se sente né? Como é parecido! Um lugar tão longe, Tartagal, no norte da Argentina... (KENEDY, 17min08s)

Quando eu me deparei com essa entrevista né, eu assim... Eu achei que era algum depoimento indígena do próprio país, do Brasil. (AGUILERA, 21min36s)

Não tem diferença nenhuma. É as mesmas lutas. É o mesmo grito de socorro deles, também é o nosso. (EDITH, 20min58s)

As semelhanças, apesar da distância geográfica, geraram surpresa em muitos dos entrevistados.

Estamos aqui en Tartagal, Salta, contentos de recebir algunos amigos de Brasil [...] Un lugar para mi muy lejano, pero ustedes llegaron aqui82. (LEONARDO, 02min10s)

Quando eu me deparei com essa entrevista né, eu assim... Eu achei que era algum depoimento indígena do próprio país, do Brasil. (AGUILERA, 21min36s)

Tem vezes a gente fala assim... Ah! Mas a gente tá nesse lugar e é assim... Mas a gente não pensa que talvez tem um patrício da gente; longe; que tá passando a mesma dificuldade da gente... Ou até pior. (MARIA, 21min50s)

Chama atenção também a circulação nos depoimentos de uma ideia de pertencimento a uma identidade coletiva: a indígena. No que pese as nacionalidades, as etnias, os contextos políticos e a língua, tanto Wichis como Guaranis se referem a esse outro/próximo como patr cios, “sangue como o meu” e nossos povos. Um outro assimilável e compreensível.

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Tradução livre: “Estamos aqui em Tartagal, Salta, contentes em receber alguns amigos do Brasil [...] Um lugar para mim muito distante, mas vocês chegaram aqui”.

157 Es bueno de conocer gente de otros lugares porque para mi... Yo me sentiría felíz, como que llega algo que es una unión, como que llegó una sangre mía83... (BRUNO, 12min12s)

No Brasil, é comum os diferentes povos indígenas referirem-se entre si como “parentes”. Esses conceitos são construções de indianidade, de uma identidade coletiva, concentram uma ideia de uniformidade e geralmente têm um uso político, que marca alianças, atravessa a constituição de organizações indígenas ou de coordenações de diversas etnias numa mesma entidade, como é o caso da Coordenação das Organizações Indígenas da

Amazônia Brasileira – COIAB.

Esses conceitos são cambiáveis e pontuais. Os Enawene Nawe em Mato Grosso, por exemplo: não se aceitavam como índios ou indígenas e ao serem assim classificados como tais se recusavam a adequar-se a essa sociologia do não indígena e se diziam Enawene Nawe. "Somos os Enawene Nawe!" Mas com o passar dos anos e com a consolidação de relações com o Estado, com o entorno e a sociedade nacional em geral, se viram como índios. Assumiram essa representação frente ao Estado e aos demais interlocutores externos como sua estratégia de interlocução política. Nessa relação mais ampla entra o "parente", e assim conseguem se ver como um todo maior, mais forte politicamente.

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Tradução livre: “É bom conhecer gente de outros lugares porque para mim... Eu me sentiria feliz, como que chega algo que é uma união, como que chegou um sangue do meu sangue”.

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O ser “ ndio”, como forma de se imaginar, é resultado de um processo dialógico entre a tradução das culturas e sociedades com as quais se relacionam e elementos de suas próprias tradições, num constante remodelamento, num reposicionamento em meio às diferenças e hibridações. As fronteiras são pensadas não como áreas físicas, mas como signos/espacialidades onde ocorrem contatos entre os diferentes códigos culturais e as heterogeneidades entram em ação, nos processos de alteridade.

Por mais que eu me forme, por mais que eu tenha um conhecimento amplo, eu posso ser índio. Eu não vou trocar de cor. Eu vou ser indígena, eu falo minha língua, eu danço, eu canto. Eu conto minhas histórias. (ZÉLIA, 19min28s)

Não basta né... Eu por exemplo, dominar bem a minha língua, o guarani. Eu tenho que entender também essa política do não índio pra que eu enquanto indígena, eu posso estar levando pra comunidade, lideranças, discutindo qual o melhor projeto político pros nossos povos indígenas. (AGUILERA, 19min57s) La lucha de nuestros caciques es recuperar parte de que nos está quitando el gobierno: La tierra. Y nosotros como indígenas siempre hemos dado importancia a la tierra, porque nuestros antepasados se alimentaban de ella, la tierra, sea a través de las plantas, los árboles frutales, nosotros fuimos creados con eso [...] Nosotros tenemos nuestras raíces que salen de aquí, de la tierra84. (LEONARDO, 05min15s)

Os jovens Wichi também experimentam os mesmos desafios vivenciados por essa nova ordem produzida pelo devir com a cidade, ao mesmo tempo em que se institui uma revisão de ordenamentos tradicionais

84 Tradução livre: “A luta de nossos caciques é recuperar parte do que o governo está tirando de nós: A

terra. Nós como indígenas sempre demos importância à terra, porque nossos antepassados se alimentavam dela, a terra, seja através das plantas, das árvores frutíferas, sós fomos criados com isso [...] Nós temos nossas ra zes que saem daqui, da terra”.

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promovida por esse diálogo constante. As experiências desses jovens também retoma questões dos indígenas brasileiros descritas ao longo dessa investigação.

Hasta mismo jóvenes que van a la universidad… Ellos creen en la sociedad blanca porque andan con toda la gente blanca. Porque tienen dinero y piensan que van alcanzar y no quiere demostrarse como indígena. Porque anda con lente, anda con todo, pero más allá cuando ya tiene más edad vuelve a su comunidad porque indígena es indígena, no cambia a su rostro, pone lente, lo que sea, pero recién si da cuenta que en la otra sociedad esta marginalizado. Pero pelo menos ya tiene otro estudio que aprendió y la base esa sirve para su comunidad85. (FAUSTO, 01min15s)

Ele começa a pensar totalmente diferente em relação à sua vida. Ele abandona, ele sai da escola, ele vai para a usina que; hoje aqui; existe muitos trabalhos escravos nas usinas. (AGUILERA, 18min09s)

Ele sai da aldeia e quer ir para uma escola não indígena. Não consegue acompanhar também, muitas vezes é taxado de incapaz, muitas vezes até assim, de bobo, burro. Isso acaba com a autoestima do aluno. (AGUILERA, 18min19s)

Muitos saem com o propósito de quererem voltar... Tudo... Mas lá acaba sendo totalmente diferente. Lá você conhece outro mundo e muitos ficam iludidos com aquele mundo não índio. Muitos desistem de querer voltar. (INDIANARA, 19min41s)

No contexto da AJI de Dourados a utilização dos suportes tecnológicos de comunicação é compreendida como uma importante ferramenta para a interculturalidade, assim como em Tartagal, onde