6 A multilevel perspective on the scope for hydrogen in Norway's energy transition
6.3 From niche to industry?
Nossas considerações finais não atingem uma totalidade ou se aproximam de uma conclusão definitiva sobre os fenômenos com os quais nos deparamos no decorrer de sua produção. Ao término do trabalho apresentamos uma perspectiva, um recorte, pistas que podem ajudar a compreender como determinadas populações indígenas conseguem construir suas referências, com tradições/fragmentos de um lado, mundo contemporâneo-pós-industrial- informacional do outro.
Nossa preocupação foi investigar as relações decorrentes da utilização de dispositivos de mediação tecnológica na comunicação de determinadas populações indígenas, procurando compreender a consequente geração de conteúdos a partir dessa interação, para criar um “lugar” onde se articulam essas mediações. Além das relações, os estudos sobre a semiosfera valorizam as conexões capazes de aproximar sistemas tão diversos nos encontros culturais movidos por diferentes causas: choque, expansão ou
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emergência. Os espaços fronteiriços, porosos e dinâmicos, carregam maior capacidade para a geração dos híbridos, justamente por permitirem maior mobilidade no núcleo da semiosfera. Nesse sentido, as atividades relacionadas à comunicação carregam um potencial transformador maior do que as vias comumente utilizadas para o contato com os povos indígenas (ONGs, instituições governamentais e igrejas).
Ao veicular informação e criar vínculos, os meios comunicativos, auxiliados pelos dispositivos técnicos de comunicação, geram uma transformação nos ambientes. Através dessa qualificação do ambiente, os jovens indígenas de Dourados, por exemplo, produzem ou identificam lugares de pertencimento. As novas possibilidades comunicativas disponibilizam-lhes condições para transpor o status de puros receptores e lhes garantem outros padrões de sociabilidade e comunicação na relação jovens-aldeias e aldeias- cidade.
As habilidades com os dispositivos técnicos podem ter equivalência a um novo rito de passagem (celebrações que marcam mudanças de status de uma pessoa no seio de sua comunidade). Por meio de suas produções midiáticas, os jovens indígenas Guarani e Terena realizam o papel de mediadores entre os dois mundos por onde transitam; local de pertencimento entre sua cultura e a cultura do outro, que está envolto em permanente negociação de códigos culturais - renegociação da cultura. Entre os Ayoreo, percebemos que os novos meios de comunicação (gravadores, radiofonia, celulares, etc.) são usados como contraponto moderno aos modos tradicionais com que se comunicavam. Um exemplo claro dessa atualização
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é a gravação em fitas cassete ou em gravadores digitais de cantos e mitos (e sua posterior circulação), que mantém os valores de solidariedade, e também de intimidade (comunidade) entre os Ayoreo. As tecnologias são ferramentas para o diálogo e geração de espacialidades na relação com a diversidade não indígena, para o enfrentamento de novas situações de convívio com o mundo exterior e no interior de seus sistemas culturais, abalados com interações de códigos, linguagens, cosmovisões das mais variadas procedências.
Na pesquisa de campo, encontramos grupos vivendo imersos no mundo não indígena, relacionando-se também com outros grupos indígenas, negociando cotidianamente a continuidade de uma cultura considerada tradicional com a entrada de novos hábitos e recursos, remodelando suas práticas no tocante às ofertas comunicacionais de massa. Essa negociação ocorre de modo ativo e dinâmico e o uso das mídias tecnológicas é parte constituinte dos processos de mediação entre esses diferentes sistemas de signos. São situações distintas e muito particulares, porém reveladoras da dinâmica do processo de significação a partir das interações entre sistemas de signos nos espaços culturais, que nos ajudam a pensar nos mecanismos básicos da constituição do espaço semiótico: irregularidade, heterogeneidade, fronteira e hibridismo.
As tecnologias nunca representam, por si só, um progresso rumo à integração nas sociedades não indígenas; tampouco a absorção de bens industrializados representa necessariamente melhoria nas condições de vida daquelas populações. Ao apropriarem-se e ressignificar os meios técnicos, os sujeitos dessa pesquisa construíram formas de autorrepresentação que são
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parte de estratégias de fortalecimento de sua autonomia, na medida em que lhes permite melhorar suas condições de vida, de acordo com padrões culturais e formas de organização social que não pretendem abandonar.
Os meios comunicativos trazem consigo novas formas de situar- se em meio às heterogeneidades, gerar pertencimentos e vincular-se, no sentido descrito por Baitello Junior “de se ter ou criar um elo simbólico ou material, constituir um espaço (ou um território) comum, a base primeira para a comunicação” (1997, p. 86). Combinando práticas tradicionais de expressão cultural com as inovações permitidas pelos suportes técnicos, buscam uma nova espacialidade e visibilidade, buscam comunicar-se. Como afirma Ferrara: “Espacialidade, visualidade e comunicabilidade se interprocessam e dialogam ao fazer ver ou construir os territórios do espaço comunicante” (2008, p. 59).
Empregando a tecnologia para produzir suas próprias referências, a comunidade passa a entender o processo de produção midiática e desenvolve um raciocínio crítico a respeito de outras representações de sua cultura. A conquista da linguagem audiovisual, por exemplo, serve como ponto de partida para outra leitura de mundo, para uma mudança radical no paradigma de interpretação da realidade, tendo em vista o extenso repertório que as relações sociais reproduzem, uma vez que a apreensão da realidade é sempre mediação. Para Bhabha (1998, p. 17), o lugar da cultura é o “entre lugar deslizante, marginal e estranho, que, por resultar do confronto de dois ou mais sistemas culturais que dialogam de algum modo agonístico, é capaz de desestabilizar essencialismos”. Estudar os processos culturais, mais do que levar-nos a afirmar identidades autossuficientes, serve para conhecer
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formas de situar-se em meio à heterogeneidade e entender como se produzem as hibridações.
A grande maioria dos indígenas das comunidades que visitamos ainda tem seu acesso limitado aos suportes tecnológicos de comunicação. Essas populações ainda convivem diariamente com dificuldades para assegurar as condições básicas de sobrevivência física e material. Porém, consideramos que esses novos recursos comunicacionais tem um grande potencial na tradução e ressignificação dos diferentes códigos que as novas realidades pós contato levam a essas populações. Do ponto de vista comunicacional, os novos elementos representam a instrumentalização dos códigos do outro, através de suportes tecnológicos que permitam uma reinserção no mundo.
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