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1. INTRODUCTION

3.1 Theoretical basics of Cost-Benefit Analysis

3.1.4 Steps of CBA

Até a década de 1850, havia anteparos morais que regulavam as atividades externas dos Estados. As monarquias europeias compunham, à exceção da britânica50, uma unidade de pensamento pautada pela defesa do princípio dinástico e por uma visão estamental da sociedade, avessa aos princípios de autodeterminação dos povos (KISSINGER, 1999). O problema foi que, depois da Guerra da Crimeia (1854), as relações não foram mais as mesmas, pois as três grandes monarquias (Prússia, Áustria e Rússia) deram vazão aos ímpetos expansionistas, até então contidos, deixando de lado a reciprocidade ideológica que antes as mantinha alinhadas (CERVO, 1997; KENNEDY, 1989; KISSINGER, 1999). A partir de então, a diplomacia passou a ser norteada por critérios que, majoritariamente, visavam a contentar os interesses dos seus próprios Estados, em detrimento dos demais. Uma conduta que persistiu até 1914.

Foi sob tais circunstâncias exasperadoras que alguns espíritos procuraram novas maneiras para aplacar a agressividade dos Estados em nome de um denominador comum. Aí residiu a importância dos encontros de Haia, já que poderia ter sido a oportunidade de reeditar uma teia de reciprocidades. Como não deu certo, em 1914, dificilmente haveria uma maneira de deter a catástrofe que se abateu sobre o continente. Portanto, não foi surpreendente que, quando o secretário das relações exteriores da Grã-Bretanha – Edward Grey – sugeriu que as potências se reunissem para arbitrar o caso austro-sérvio, que se estendia sem solução, a proposta fosse rechaçada (FROMKIN, 2005).

Os passos seguintes, e que provocaram a grande conflagração, estiveram marcados por sucessivos ultimatos e por mobilizações intimidadoras dos exércitos dos países.51 Em 28 de julho os austríacos declaravam guerra aos sérvios. No dia 31 do mesmo mês, os alemães davam um ultimato aos russos para que estes se mantivessem afastados das hostilidades. Obviamente, o aviso não deu em nada, e no dia 1º de agosto houve a declaração oficial de guerra da Alemanha a esse país. As mobilizações militares, de ambos os lados, que já haviam

50 Embora a solidez do liberalismo dos ingleses facultasse ao seu império outros valores sociais, Arno Mayer

(1987) ainda assim caracterizou a sociedade britânica como exemplo de perpetuação dos valores do Antigo Regime.

51 Os detalhes de julho de 1914 são pormenorizadamente descritos, mediante o estudo minucioso das fontes

iniciado antes mesmo da declaração, continuaram. Nesse mesmo dia, o governo alemão entrou em contato com o britânico, afirmando que seria impossível deter a guerra sem o final da mobilização russa, fato que provocou o contato entre o governo britânico e o russo, não antes que o primeiro precavesse os alemães de que a Bélgica52 deveria permanecer intocável,

com a sua neutralidade absolutamente preservada.

Qual a importância da Bélgica? Para compreender o seu papel, é necessário remontar no tempo outra vez. Novamente, na época de Bismarck está a origem da questão.

Bismarck não havia sido um gênio solitário. As vitórias obtidas em 1870 se deveram à parceria que realizara junto com o general Helmuth von Moltke (ARARIPE, 2006). Segundo Keegan (1978), Moltke sempre pensara as guerras dentro da dimensão política em que as mesmas estiveram, o que o fazia crer que as mesmas deveriam ser curtas. Ao que parece, os

seus sucessores não teriam tido a mesma lucidez, pois buscaram se preocupar com a “vitória [como] um fim em si” (KEEGAN, 1978, p. 15).53

O que teria ficado provado quando da escolha do sucessor de Moltke para o posto de chefe do Grande Estado-Maior-Geral, o general Alfred von Schlieffen. Como os alemães sempre manifestaram o temor de se verem obrigados a uma luta em duas frentes contra potências de porte igual ao seu (no caso, França e Rússia)54, Schlieffen pensara em um plano que desafogaria o país. Como uma mobilização russa duraria mais, em virtude das maiores distâncias e da menor qualidade nos transportes em relação à França, o general propunha um ataque surpresa e fulminante a esta última, antes que os franceses fossem capazes de terminar a sua mobilização militar, para daí sustentar uma luta mais prolongada contra os russos. Supondo que os franceses conseguiriam guarnecer a tempo sua fronteira com a Alemanha, somente haveria uma solução para manter a condição de surpresa: invadir ao norte, através da Bélgica, passando antes pelo Luxemburgo (ARARIPE, 2006; KEEGAN, 2005; TUCHMAN, 1998). Foi pensando nisso que Keegan se referiu à falta de visão do todo, anteriormente mencionado. Após a aposentadoria de Schlieffen, seu plano continuou aceito como a solução dos problemas estratégicos do país.

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A independência do país ocorrera na década de 1830 com apoio dos ingleses, após a coroação de um rei aliado (da mesma casa dinástica – Saxe-Coburg – do esposo da rainha Vitória), e com a proclamação da neutralidade deste novo Estado, muito importante aos britânicos (da qual os prussianos e, em seguida, os alemães eram iguais signatários), também porque é a distância mais curta entre o continente e o Reino Unido (DUROSELLE, 1976).

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Essa perspectiva talvez repercuta, ao menos em parte, a mudança ocorrida na ideia de nação. Moltke havia nascido em 1800, enquanto Schlieffen era trinta e três anos mais jovem do que o primeiro. Este último havia sido parte de uma geração de nobres cujo ethos guerreiro, pautado na virtude da força e da lacônica obediência, fora elevado à condição de elemento identitário da nação alemã (ELIAS, 1997).

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Para compreender o conjunto de fatores que promoveu a improvável aproximação entre a Rússia absolutista e a França republicana, ver: DÖPCKE, 2001, DUROSELLE, 1976; KENNAN, 1985; KENNEDY, 1989; KISSINGER, 1999; MILZA, 2002.

Um outro fator importante, e que ajudou a condicionar a visão sobre os belgas, foi a imprensa. Os periódicos ingleses e as agências de comunicação da Entente (posteriormente conhecidos como os Aliados) tiveram um papel primoroso mediante a realização de vivas descrições de crianças atravessadas por baionetas e de mulheres violentadas. Independente dos abusos ocorridos, a intensidade das narrativas correu rapidamente o mundo, chamando a atenção. Seria errôneo superestimar o papel da imprensa a ponto de computar a adesão à guerra, unicamente, por um motivo desses, ignorando questões estruturais que calavam mais fundo. No entanto, ela teve uma função estratégica considerável na medida que ajudou a inviabilizar a relação entre o público de países neutros, como o Brasil, com a Alemanha, cuja imagem ficou marcada pela violência.

A partir da declaração de guerra dos alemães aos russos, os franceses se exasperaram. A mobilização geral foi marcada para o dia 2 de agosto. Nesse mesmo dia, os alemães adentraram o solo luxemburguês e solicitaram, via ultimato, a passagem por solo belga, que lhes foi negada no dia seguinte, provocando a mobilização britânica. Esse foi o mesmo dia em que fora concretizada a aliança alemã com os turcos, também marcado pela declaração de guerra alemã aos franceses. No dia 4 de agosto, Londres exigiu o respeito alemão à neutralidade belga, através de um telegrama que nunca foi respondido. Assim, no primeiro segundo do dia 5 de agosto de 1914 começou a Primeira Guerra Mundial.

Inicialmente marcada por rápidos deslocamentos de tropas, havia um indisfarçável otimismo de que a vitória seria obtida rapidamente. O problema era que todos os países envolvidos pensavam assim. Na verdade, era apenas a primeira parte de uma longa e extenuante desgraça. A velocidade inicial, nada mais foi do que o introito de tudo, uma reles etapa, atualmente conhecida como “guerra de movimento”, que durou de agosto a dezembro desse ano (ARARIPE, 2006).

Obrigatoriamente, a guerra se tornava mundial. Além da lógica utilização do grandioso império britânico no esforço de guerra, os alemães premeditaram a ocorrência de revoltas no interior deste. Para tanto, contavam certamente com o apoio turco e, ingenuamente, também esperavam um novo ataque japonês55 aos russos, como ocorrera em 1905, o que não ocorreu (FROMKIN, 2005).

55 Na realidade, os japoneses eram alvo do desprezo do Kaiser, que via neles uma ameaça ao ocidente

Logo no início de agosto, os britânicos realizaram patrulhas e bloqueios eficientes no Mar do Norte. Nesse movimento impositivo, a marinha britânica cortou os cabos submarinos que comunicavam a Alemanha com a América, impedindo esse país de estabelecer contato com o continente que poderia ser diferencial no esforço de guerra (MATTELART, 2000). Em pouco tempo, a capacidade alemã para uma guerra prolongada ficou em risco. O sonho de grandeza mundial do Kaiser, principal estimulador do crescimento naval do seu país parecia estar se tornando um problema, pois foi fundamental para trazer os britânicos à guerra (HOBSBAWM, 1988), temerosos da rivalidade ao seu poderio, ao passo que a marinha concorria com os fundos que poderiam ser investidos no exército, enfraquecendo-o (TUCHMAN, 1998).

Os destaques do primeiro ano de combates foram dois. A “batalha das fronteiras” foi a ilusão francesa de retomar a Alsálcia-Lorena, pois, após um sucesso inicial, as tropas francesas foram repelidas de volta para o seu lado da fronteira. Em segundo lugar, há de se lembrar da pequena Bélgica, pois fora terrível para a imagem alemã no mundo. A fama de cruel obtida pelo exército alemão se confundiu com a própria resistência belga ao avassalador ataque do inimigo. O alto-comando alemão esperava atravessar o país-baixo em apenas quarenta e oito horas (KEEGAN, 2005). Foi desse contexto que nasceu a heroica fama do rei Alberto I da Bélgica, justamente por assumir, diante da dificuldade, o comando do exército. Os eventos ligados a esse cenário foram largamente anunciados pela mídia mundial. Principalmente, foi famosa a tomada da cidade de Liège, devido à violência usada pelos alemães para debelar a resistência civil (TUCHMAN, 1998).

Sobre esse aspecto é fundamental comentar a extrema relevância alcançada pela propaganda. No caso belga, foi fundamental para todos os anos de conflito que se seguiram.

Durante a Grande Guerra surgiu a propaganda sistematizada, à qual a conduta dos alemães na Bélgica forneceu excelente base. [...].

[...]. A propaganda na Grande Guerra foi administrada com rara competência pelos Aliados e combatida com rara inépcia pelos alemães (ARARIPE, 2006, p. 333).

Igualmente singular no primeiro ano da guerra, embora ocorrida posterior, foi a batalha do Marne. Por muito pouco, o esforço do exército alemão não o levara para dentro de Paris. O trabalho conjunto, de ingleses e de franceses, em setembro de 1914, conseguiu provocar, com muito custo, o recuo alemão, em um esforço monumental que valeu a permanência da França no conflito, tendo sido necessário até a requisição de todos os táxis de Paris para garantir o envio dos soldados à frente de combate (KEEGAN, 2005; TUCHMAN, 1998; YOUNG,

1974). Ao mesmo tempo em que era considerada um milagre pelos franceses, a batalha do Marne também foi a que pôs fim à possibilidade daquela ser uma guerra curta.

Apesar do contratempo que elevou a autoestima francesa, as forças armadas alemães ainda eram as melhor municiadas, treinadas e disciplinadas. Os russos sofreram derrotas irreparáveis nos Lagos Masurianos e em Tannenberg (ARARIPE, 2006, ERICKSON, 1974; KEEGAN, 2005; TUCHMAN, 1998). Nos mares, apesar do savoir-faire britânico, reinava certo equilíbrio. Inicialmente, embora houvesse grande confiança por parte dos britânicos, os alemães foram capazes de algumas surpresas, tornando os conflitos menos óbvios do que o inicialmente suposto, sendo que, ainda no final do ano, podia-se contar vitórias navais para ambos os lados (PITT, 1974a). Afinal, os submarinos alemães provaram ser um pesadelo para o almirantado britânico (TUCHMAN, 1998).

A guerra trouxe consigo uma série de preocupações para o Brasil, iniciando pela diplomática, até chegar ao econômico, passando também pelo intelectual. Diferentes pontos de vista entraram em confronto, sendo que, aos poucos, a gravidade da contenda elevou a rispidez dos debatedores. Apesar da neutralidade oficial declarada pelo Brasil e defendida, incondicionalmente, pelo Ministro Lauro Müller56, das Relações Exteriores, houve pressão

para que o Brasil tomasse uma posição na conflagração. Apesar de ter havido uma maior excitação nos primeiros meses, em nenhum momento, dos quase cinco anos de conflito, as opiniões deixaram de ser dadas e as notícias deixaram de ser detalhadamente narradas, mesmo quando fatos posteriores provavam que os primeiros comentários estavam equivocados. As notícias não cessaram jamais. Uma onda de informação e de contrainformação atravessou o país.

Todos os fatos anteriormente mencionados, sobre as escaramuças nos campos de batalha europeus, bem como outros tantos, foram narrados em abundância através das páginas dos periódicos porto-alegrenses. Continuamente, chegavam novos informes, rapidamente afixados nos prédios dos jornais. Havia uma ânsia por respostas, supridas de diferentes maneiras. Alguns dos detalhes serão comentados, a seguir, nas próximas páginas.

56 Lauro Müller era Ministro das Relações Exteriores do Brasil. Nascido e criado em Santa Catarina, ele era de

família de origem germânica. Sua formação foi militar, tendo sido discípulo de Benjamin Constant durante a educação que tivera no Rio de Janeiro, portanto, era um republicano convicto. Posteriormente, renunciou à farda. Foi deputado constituinte pelo seu estado natal. Mais tarde, como senador recebera as pastas dos Ministérios da Indústria, Viação e Obras Públicas, durante o governo Rodrigues Alves. Após a morte de Rio Branco, durante o governo Hermes da Fonseca, foi elevado à condição de chanceler brasileiro (KONDER, 1982).

2.2 O INÍCIO DA CONTENDA MUNDIAL E A REPERCUSSÃO