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1. INTRODUCTION

2.2 Organizational framework of the petroleum activities in Norway

2.2.3 Regulation

Como fora anteriormente comentado, a ascensão de Guilherme II ao trono imperial alemão e a demissão de Bismarck, no ano de 1890, representaram, juntas, um grande impacto

sobre os rumos da diplomacia alemã. A mesma se tornou “uma política mais imediata, carregada de decisões oportunistas” (LOHBAUER, 2005, p. 14). Muito dessa alteração se

deveu à extravagância do novo monarca, que fundamentou seu governo na ânsia de superar os britânicos, fomentando a instabilidade entre os Estados. O resultado acabou sendo o distanciamento em relação à cautela, até então adotada pelo velho chanceler de ferro. A Grã- Bretanha, ao mostrar-se afetada, saiu do seu isolamento neutralista e foi em busca de aliados que a resguardassem, no caso de um possível conflito (LOHBAUER, 2005).

As contestações à índole da Alemanha passavam pelo temor que o militarismo deste país despertava. O mesmo rótulo recaiu sobre os teuto-brasileiros, embora com maior suavidade na década anterior à guerra. Houve, inclusive, atividades de origem alemã que se difundiram sem maiores suspeitas. Algo a ser levado em consideração, uma vez que, o treinamento de tiro foi um traço cultural marcante do grupo (ACKER, 1996)36, que teve repercussão na organização militar do país.

O Brasil mantinha uma relação contraditória com as forças armadas. Havia críticas ao serviço militar obrigatório que se desejava implantar durante o início do período republicano

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O autor ressalta que a formação militar brasileira, no seu conjunto, envolvendo desde a organização no período anterior à independência, até os próprios Tiros de Guerra do início do século XX, estaria repleta de influência militar prussiana.

(ACKER, 1996; MCCAN, 2007; OLIVEIRA, 1990). A valorização das forças armadas era comumente vista pelos liberais como um arcaísmo herdado do Antigo Regime europeu (FAORO, 2006)37, o fantasma vivo das antiquadas maneiras violentas empregadas na resolução de problemas diplomáticos.38 Em compensação, no contexto do século XIX, as armas continuavam a se prestar como ícones de algumas das virtudes masculinas, como a força e a virilidade, que ainda eram idealizadas (GAY, 2001). Uma permanente relação contraditória

Nesse contexto, em que as opiniões sobre as artes militares se encontravam cindidas entre a aversão em decorrência do primitivismo, e a admiração, em virtude do charme, era possível encontrar alguns locais de entretenimento em Porto Alegre que se congratulavam em recepcionar comunidades de atiradores. Foi o caso do cinema Íris. Em um anúncio grande

publicado, a casa de espetáculos dedicara algumas sessões “à intemerata Liga dos Atiradores Alemães” contendo “programas em português e alemão” (CORREIO DO POVO, 3 de março

de 1914, capa). O nível de exposição revela que os atiradores, associação de característica meramente desportiva, não eram vistos como integrantes de algum grupo paramilitar, um perigo à segurança nacional; ilação feita anos mais tarde (item 4.4). Sessões especiais, realizadas em casas de entretenimento, com vias ao congraçamento junto à comunidade alemã da cidade, não eram raras. Anos antes, essas atividades haviam sido comuns em cinemas da

cidade: “Smart – O programa de amanhã, que é dedicado à colônia alemã” (A FEDERAÇÃO,

18 de janeiro de 1910, p. 3).39

Por certo, o significado desejado para referir à colônia alemã não fora o mesmo empregado nos anos da guerra. Estabelecimentos refinados como o anteriormente descrito (BONOW, 2007) eram frequentados por um público economicamente privilegiado, o que leva a crer que os jornais estavam a referirem um setor endinheirado da dita colônia. O importante é ressaltar que, a despeito da desconfiança gerada, alguns elementos de origem germânica puderam contar com um pouco mais de receptividade.

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O que, em certa medida, é absolutamente correto. Ao observar a reformulação do exército prussiano, vê-se que prevaleceram os valores do Antigo Regime. Guilherme I necessitou vencer uma queda de braço com a Landwehr (Guarda Nacional – conselho que contava com a participação de civis, responsável pela escolha dos oficiais) e a Câmara Baixa do país (baluarte dos valores liberais, sobreviventes de 1848), órgão responsável pela aprovação orçamentária para as despesas do governo. Ao eliminar esses entraves, o monarca efetuou a centralização das forças armadas e garantiu maior autonomia para a nobreza, que compunha a maioria do oficialato (VIDIGAL, 2006).

38 José Veríssimo, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, chegara a afirmar que “a guerra deixou

de ser uma necessidade do estado social, como foi na antiguidade [...], para ser uma sobrevivência do passado e

uma anomalia” (1986, p. 55).

O Kaiser era conhecido também por ser um grande apreciador das ciências (STERN, 2004). Sobre isso, comenta Christian Krockow que o Kaiser “era moderno, empolgado com todas as novidades técnicas [...], fomentava escolas técnicas superiores e a pesquisa de base

na sociedade que levava o seu nome” (2002, p. 77). Esse duplo e controverso caráter da

personalidade do monarca (avanço técnico X belicismo) sintetizou o desenvolvimento do país. Ele pode ser observado nos artigos encontrados sobre a Alemanha em Porto Alegre, no período anterior ao começo do conflito.

Numa breve nota sobre os tipos de filme em exibição nas casas de cinema da Alemanha, o jornal O Independente, em março de 1914, saudava o imperador deste país, reforçando o seu argumento na lembrança da superioridade de um governante apreciador de assuntos que elevavam o espírito humano.40“Na Alemanha austera de Guilherme II, esse rei ilustrado, que sabe bem que sem moral esta vida nos nivelaria com os animais inferiores, as exibições

cinematográficas são sujeitas à censura, antes de sua vulgarização” (9 de março de 1914, p.

2).

Contudo, a evidente projeção mundial pretendida pela diplomacia alemã (KISSINGER, 1999), adotada principalmente a partir da década de 1890, tensionou as relações, e já era associada como componente da nacionalidade daquele país. Um exemplo é o artigo seguinte, também publicado pouco antes do início do conflito.

Profecias de um Almirante

- O Sonho naval da Alemanha

Levamos ao conhecimento dos nossos leitores o resumo que a seguir publicamos, de uma conferência feita na Suíça, por um almirante alemão.

[...]. A curiosidade ainda se tornou mais aguda, quando se soube o assunto de que ia tratar a notável potente da armada alemã: - NOSSA ESQUADRA – SEU FUTURO E SEU PAPEL POLÍTICO.

De fato, - que iria dizer o almirante Brensing? Que sinistras profecias sairiam de sua boca formidável? Que poderosos e estranhos remígios a Águia Negra projetaria sobre este mundo tão pequeno para suas ambições, maiores que as da Águia de Waterloo?

[...]. “O sonho naval alemão”, afinal, não seria um tremendo pesadelo para os outros

povos que não tem águias nos seus destinos? Vejamos: A lei do Mais Forte

A Espanha esmagada, A França humilhada,

Os fracos ... sem salvação (O DIÁRIO, 2 de julho de 1914, capa).

Uma das providências alemãs mais determinantes e controversas foi a de criar uma armada capaz de rivalizar com a britânica. Significou que setores da elite predominante

40 Na verdade, o artigo se integra à campanha moralizadora realizada pelo jornal contra lugares considerados

alemã, depois de 1895, haviam percebido que o país tinha “necessidade de expansão territorial

em grande escala [...], declarando o chanceler Bülow que „a questão não é queremos colonizar

ou não, mas sim que devemos colonizar, quer desejemos ou não‟” (KENNEDY, 1989, p. 207). Frases como essa ajudaram a fazer da imagem da Alemanha um espectro sombrio no horizonte dos demais Estados.

A necessidade de redefinir a ação alemã encontrou ressonância na insistência do almirante Tirpitz (ainda na década de 1890). Ele insistia, junto a Guilherme II, que somente com uma grande marinha o país conseguiria permanecer entre as grandes potências (KENNEDY, 1989).

Sem dúvida, o assassinato de Francisco Ferdinando deixou uma estranha sensação de perigo. Se a Alemanha não era ainda retratada na opinião porto-alegrense como a responsável pelo malogro das relações austro-sérvias, que redundaram na guerra, pairavam dúvidas sobre as suas intenções futuras. Que se veja, então, esse outro artigo.

O que quer a Alemanha

Tanto na Europa como no resto do mundo, há quem pergunte sempre, com inquietação, pela tranquilidade do mundo, o quer a Alemanha. Em plena paz, aumentou, a partir do ano último, mais 25.000 homens ao seu exército e tornou assim necessário o aumento do exército francês. Em plena paz, construiu metodicamente uma esquadra em número, que é a mais forte do mundo depois da Inglaterra.

A que tendem esses preparativos formidáveis? Qual é o objetivo da política mundial

da Alemanha? Tais são as perguntas a que a “Gazeta de Colônia” respondeu agora,

num artigo inspirado pelo gabinete de Berlim, e onde se expõem, com tanta moderação como precisão, as ambições e os objetivos da política alemã (O DIÁRIO, 11 de julho de 1914, capa).

Para uma percepção mais acurada da mudança em andamento, a marinha mercante alemã passou, de 640 mil toneladas, em 1870, para 5 milhões, em 1914 (MAURO, 1976, p. 274). 70% das negociações alemãs passaram a ocorrer por mar e, do montante total transportado, 40% era realizado por duas companhias: a Hamburg Amerika e a Norddeutscher

Lloyd (que possuía escritório inclusive na cidade de Porto Alegre). Entre 1890 e 1913, as

exportações alemãs triplicaram (KENNEDY, 1989). A tonelagem dos navios de guerra também havia aumentado. Em 1880, era de 88 mil toneladas e, em 1914, a capacidade chegara a um milhão e 305 mil toneladas. No mesmo período, a Grã-Bretanha havia passado de 650 mil para 2 milhões e 714 mil toneladas (KENNEDY, 1989, p. 200).

O poder naval alemão era uma clara ameaça ao predomínio britânico. Da perspectiva dos analistas geopolíticos britânicos, os ganhos alemães eram secundários diante das

possibilidades territoriais de um império da extensão da Alemanha, enquanto a manutenção do controle de rotas comerciais era absolutamente vital para um pequeno arquipélago como a Grã-Bretanha (HOBSBAWM, 1988). Assim, as pretensões alemãs eram vistas como risco iminente.

Por outro lado, o Estado que mais cresceu e aumentou sua participação no comércio mundial, entre 1870 e 1913, foi o norte-americano. No começo do século XX, os Estados Unidos da América já ocupavam o primeiro lugar no mercado mundial, seguidos da Grã- Bretanha e da Alemanha. Em 1913, ocorreu a troca de lugar entre o segundo e o terceiro.

O artigo segue, mostrando quais seriam os objetivos a serem alcançados pela remodelação alemã das forças armadas.

- Nós não queremos uma política de aventuras; diz a “Gazeta de Colônia”; não queremos jogar numa só cartada o nosso futuro.

Não desejamos invadir velhos territórios. Sabem-no todos os políticos sérios. Mas sabem, também, que não queremos ser eliminados da concorrência econômica no mundo inteiro, e que nos oporemos a essa eliminação com toda a força de que dispõe o nosso Estado.

A questão de Marrocos manifestou essa vontade, uma vez por todas. Depois dela, entramos num período de explicações, que tiveram por fim nos assegurar territórios onde pudéssemos exercer o nosso comércio e derramar a nossa civilização. Foram muito discutidas as nossas combinações com a França e com a Inglaterra, aliás, norteadas pelos princípios da política neo-germânica.

Quisemos garantir, em certos e determinados territórios, a participação alemã na concorrência política mundial.

A partilha imperialista da África havia começado e, posteriormente, terminado no norte deste continente, exatamente no Marrocos. Local no qual, por muito pouco, não fora antecipada uma guerra entre Alemanha e França, uma vez que sua proximidade junto à Europa garantia uma vantagem geopolítica ao seu detentor.

Em seguida, se ponderou a respeito da grande diferença existente entre a Alemanha atual e aquela dos tempos de Bismarck.

[...]. Quase não temos necessidade de observar quanto difere da Alemanha de Bismarck a Alemanha que pensa e fala deste modo em matéria de política externa. Aquele grande homem de Estado, que tão claramente viu a necessidade de fundar, sobre a guerra de 1870 a unidade nacional alemã, não tinha qualidades de previsão, e por consequência, gênio, no domínio das questões coloniais.

Não adivinhou o papel que deviam desempenhar as colônias na expansão econômica e étnica das nações europeias; e foi por sua culpa que a Alemanha ficou desfavorecida na partilha do mundo.

Bismarck, por princípio pessoal, rejeitava a importância do papel econômico do imperialismo. Enquanto chanceler, sabendo da inferior condição naval e comercial da Alemanha naquilo que se referia às longas distâncias, achava muito difícil garantir proteção a colônias. Ele também receava os possíveis efeitos da posse delas. Contudo, por não lhe agradar a possibilidade de ser lembrado pelas futuras gerações como o chanceler que entravou o desenvolvimento do país, aderiu ao imperialismo que, na verdade, começou em seu governo. Aproveitando um parecer que lhe havia sido enviado, vislumbrando a possibilidade de obter colônias sem precisar recorrer à submissão ao Parlamento41, ele consentiu à empreitada (WESSELING, 1998).

Sua maior preocupação havia sido a de contornar as dificuldades enfrentadas pela nobreza naquilo que dizia respeito à entrada de grãos mais baratos do exterior, principalmente da Rússia. Em um momento crucial, no qual a política do governo dependia de uma postura mais enfática, ele adotara uma ação que privilegiava os senhores de terra do leste do país. Nesse momento, os industriais se inclinavam a colaborar com a antiga aristocracia (política do

pão e aço).

Paul Kennedy (1989) mostra como Bismarck buscara convencer a todos que a Alemanha não possuía maiores pretensões territoriais, algo que muito se deveu à crença na manutenção do potencial do mercado interno. Seus sucessores, juntamente com o novo

Kaiser, Guilherme II, não tiveram a mesma conduta, e envolveram o império em situações

comprometedoras. Embora a diplomacia alemã devesse muito ao temperamento intempestivo do imperador, em parte, ela também repercutiu as novas demandas econômicas que se apresentavam.

Prosseguindo, o texto passou a enfatizar a importância da entrada da Alemanha na corrida imperialista. No processo, ficou evidenciada a importância de Treitschke para a definição da mesma. Embora não fosse a única voz a defender a iniciativa, o historiador adquiriu, em decorrência do prestígio que detinha, um grande relevo entre os debatedores da questão, através de seus argumentos, que envolviam, economia, geopolítica e biologia.

41 Heinrich von Kuserow, funcionário do Ministério das Relações Exteriores alemão provou a Bismarck que se

uma empresa particular alemã detivesse o privilégio dos direitos administrativos sobre uma região da África, assegurando o monopólio comercial para o país, ao governo somente caberia o ônus de garantir a proteção diplomática e militar. Esse tipo de empreitada “era da competência do governo e não do parlamento, portanto

Foi preciso esperar até 1880, para que uma voz autorizada, a do historiador Treitschke, se erguesse na Alemanha em favor da política colonial, em que a França dava já o exemplo.

“Das colônias”, escrevia ele, “dependerá em que medida um povo poderá tomar

parte no domínio do Universo pela raça branca, - é muito possível que, no futuro um país sem colônias não tenha importância alguma entre as grandes nações europeias,

por mais poderoso que seja sob outros pontos de vista”.

Devemos ainda acrescentar que a voz de Treitschke se fez ouvir no vácuo; pelo menos, os alemães, que só depois de 1880 começaram a colonizar; e o próprio governo não a compreenderam.

A Alemanha de então só via, e ainda pensava contra Treitschke, que um país sem colônias pode pretender a hegemonia mundial.

Como viu sua ação malograr-se na exploração dos imensos territórios que ocupou em África em 1885, ainda passados muitos anos, nutria pelas questões coloniais ou indiferenças ou desgostos.

O pensamento de Heinrich von Treitschke, ao longo da trajetória de vida deste, migrara do liberalismo parlamentar, durante a juventude, para um conservadorismo elitista e xenófobo, mais claramente a partir da década de 1860. No seu pensamento, a laudatória aos feitos de Bismarck visava à glorificação do poder pela guerra e da força prussiana. Ele buscou enterrar definitivamente os resquícios do liberalismo que perduravam em algumas partes do

Reich (DROZ, 1985). Para ele, a casa imperial dos Hohenzollern era o único elemento capaz

de conferir substância a um Estado alemão (GUIBERNAU, 2003). Mais amplamente, Treitschke acreditava que a nação e o Estado deveriam coincidir e que o indivíduo deveria estar disposto a qualquer sacrifício em nome da nação. A sua reafirmação das ideias de Fichte42 partiam da perspectiva de que a tradição e os costumes conferem as características básicas da nacionalidade, e que a mesma aspira um Estado. “Treitschke pregava a supremacia do Estado, cujo instrumento de política era a guerra e cujo direito de fazer a guerra, pela honra

e interesse da nação, não podia ser contestado” (TUCHMAN, 1990, p. 350).

O seu pensamento vem a dar respaldo à condução política do país, cujo Kaiser faria descansar sobre a figura do seu chanceler uma autoridade cujo limite somente seria dado pelo próprio. Acontece que, na prática, o chanceler agia com plena autonomia, pois a conquista

42 A obra de Johann Gottlieb Fichte foi influenciada pela invasão napoleônica, da qual foi testemunha. Sua

filosofia parte do princípio de que as decisões não se relacionam à liberdade de um indivíduo que elege valores, mas da nação, e os valores dela são únicos e não compartilháveis. Daí o fato de ser visto por alguns como o pai do romantismo (BERLIN 1999; SANTOS NETO, 2005). Branco (2002) diz que ele não chegara a romper completamente com os valores universais, pois Fichte acreditaria que a língua alemã, a única ainda original, seria também a única em condições de transmitir alguns conceitos universais abordados pela filosofia, como liberdade e humanidade. Por essa razão, o considera o precursor do pan-germanismo. Guy Hermet afirma que através da

concepção de Fichte “surge o argumento que servirá mais tarde para justificar o alargamento do seu espaço vital – Lebensraum – pelos povos mais dotados pela natureza” (1996, p. 120). Para maior aprofundamento no

pensamento de Fichte, ver: VILLACAÑAS, 1991.

O pensamento de Fichte acaba degenerando numa necessária submissão do indivíduo à nação e ao Estado. A postura desenvolvida pela filosofia de Fichte faz Michel Löwy (1993) lembrar que, em realidade, ela representa apenas uma das tendências do romantismo, a que tenderia ao fascismo.

efetiva da nação fora resultado do próprio chanceler, cujos feitos encontraram ressonância na retórica dos intelectuais sobre a nação. Por sua vez, essa retórica ajudou a dar sustentação à autonomia relativa, em nome de novos feitos a serem realizados em prol da nação. Essa prática ajudou a formatar a Alemanha, para que a mesma tivesse mais dificuldade para ser algo além de uma Prússia estendida.

No geral, a visão predominante da história refutava o universalismo e afirmava as virtudes da especificidade da nacionalidade alemã. A singularidade era vista como fator da grandiosidade, o que denota o acento na etnia e na cultura. Por outro lado, o reforço positivo conferido a elas foi empregado para respaldar a ação de Estado.

A nação de Treitschke tinha na guerra algo que, além de natural, era salutar para a oxigenação do sentimento de fidelidade à nação.43 Integrava o pensamento dele a crença de que uma nação maior deveria submeter uma menor, pois a engrandeceria ainda mais44 (GUIBERNAU, 2003), algo compatível com o seu antissemitismo e com a defesa do imperialismo que ele fazia.

Implícito no texto, essas características expressavam um desejo de expansão às custas dos mais fracos. Acontece que a extensão das mesmas não foi avaliada pelos articulistas naquele momento. Seria preciso as notícias sobre a invasão da Bélgica correrem o mundo para o conteúdo implícito nessas palavras serem retomadas com intensidade.

Por fim, o artigo aborda as vantagens econômicas a serem obtidas pelo país, no caso de haver territórios colonizados por alemães. Tudo isso, levando em consideração os fundamentos daquilo que seria uma estratégia geopolítica e nacionalista com vistas a tornar a Alemanha a grande potência mundial.

[...]. A utilidade que as colônias podem ter para a Alemanha é de origem puramente econômica. As colônias devem fornecer à metrópole os produtos alimentares e as matérias primas de que a indústria tem necessidade; devem comprar da metrópole à medida que forem prosperando, os produtos da indústria alemã e os objetos manufaturados. Neste capitulo, tem a Alemanha direito a conceber vastas

43 A expressão utilizada para manifestar o pensamento do autor, naquilo que refere ao dito sentimento de

fidelidade, é patriotismo. Contudo, esse termo se enquadra dentro do debate existente, já no século XIX, sobre o que seria o bom e o mau nacionalismo. O patriotismo seria um exemplo de bom nacionalismo, nas palavras de Mazzini, o de bem-estar da coletividade, assim, o termo desfrutava de uma conotação positiva na Europa (DAVIS, 1979). No caso, estaria mais para figura de retórica.

44 Não se trata de criar uma nação universal, que o autor, em realidade, desprezava, mas de fortalecer os

predicados da nação, que não é uma entidade eterna, como ele mesmo pondera. Assim, na opinião de Treitschke,

a tentativa imperial de Napoleão foi uma aberração, por tentar reduzir, a partir de uma ideia de “soberania