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1. INTRODUCTION

2.1 Natural gas value chain

PERSPECTIVA DOS BRASILEIROS ADEPTOS DO

“PERIGO ALEMÃO”

Um dos principais elementos a darem sustentação à suposta ameaça, que os imigrantes alemães e os seus descendentes, teuto-brasileiros, representariam ao Brasil, esteve ligada a um suposto enquistamento dos mesmos em espaços específicos. Nas mais variadas regiões do Brasil foi levantada a hipótese de que a concentração germânica em determinados lugares poderia fazer parte de um plano para seccionar o Brasil. Olgario Vogt (2007) esclarece que, entre os denunciantes, havia aqueles que temiam pela incorporação de territórios brasileiros à Alemanha, e havia aqueles que temiam pela formação de um Estado independente, não alemão, mas etnicamente germânico.

Para começar, desde o período imperial, a elaboração de um modelo imigratório para o Brasil foi um assunto controverso. Até 1850 (ano da Lei de Terras), a imigração estava imersa em uma problemática maior, que era a da caótica organização fundiária brasileira, baseada na posse da terra, no uso da força e da imposição da grande propriedade sobre as demais modalidades de propriedade (TRAMONTINI, 2004b). Posteriormente, inexistiu unanimidade na proposição de assentar os estrangeiros, pois faltava um plano a ser seguido. Coerente, naquilo que tangia à realidade brasileira, o pensamento preponderante entendia que o trabalho imigrante não deveria pôr em risco os moldes da economia agro-exportadora brasileira. Logo, qualquer que fosse o tipo de imigrante a escolher, não estava em discussão a doação de terras em determinadas áreas, que haviam se constituído como importantes ao longo da formação econômico-social brasileira. Nessa linha de abordagem, Carneiro pondera que,

fora da órbita do café, bem longe, no Rio Grande do Sul ou em Santa Catarina, vá lá que o governo imperial fundasse colônias de pequenos proprietários. Mas perto da lavoura de café, não. Essa lavoura é que lhes permitia acumular rapidamente [...] e

graças a ela é que se pagavam o funcionalismo, a corte, o exército e a marinha. Ela e não a pequena propriedade, é que era expressiva do processo de acumulação capitalista (1950, p. 11).

Entenda-se, portanto, que a possibilidade de formação de quistos, mesmo que não diretamente, em certa medida, adveio do desejo de preservação de uma lógica produtiva. Enquanto nas áreas mais aptas e de mais fácil estabelecimento de meios de comunicação a terra estava indisponível, a concentração populacional em outras áreas se tornara uma alternativa.

O próprio elemento europeu, apesar de concebido como sendo o mais conveniente, não representava um consenso. O Brasil foi uma caixa de ressonância de debates que correram em primeiro lugar no exterior, sobre os questionamentos que expunham méritos e defeitos de orientais, latinos, nórdicos e eslavos (SKIDMORE, 1976).

A opção pelo tipo caucasiano, para o povoamento do espaço brasileiro vinha ao encontro do desejo de conjugá-la à estabilidade estrutural existente. As terras postas à disposição dos europeus eram costumeiramente situadas em localidades longínquas, eram de difícil acesso e distantes em relação aos centros produtivos. Mesmo assim, não foi empecilho para a eclosão de sentimentos difusos, sendo os novos habitantes vistos tanto como sinal de modernização, quanto como motivo de receio. A preferência pelo Sul, enquanto local para efetivar essa colonização, foi resultado de diferentes argumentos, desde o climático até o estratégico (SEYFERTH, 2004).

Um elemento importante permeou o debate e pesou negativamente contra o elemento estrangeiro. No final das contas, tratava-se de uma situação que causava certo constrangimento, uma vez que, se ofertava a outros aquilo que estava sendo negado à população eminentemente brasileira e de baixa renda (CARNEIRO, 1950).

Esse argumento foi empregado por Alberto Torres para contestar a imigração. Para começar, ele achava que os imigrantes deveriam vir ao Brasil por vontade própria, do contrário seria uma temeridade (COSTA, 2004). Portanto, ele os via como algo dispendioso, ainda mais para um país que deveria ter outras prioridades sociais, como a educação, cujo objetivo seria resistir à influência cultural estrangeira. A imigração, independente da origem que tivesse, para Torres era uma ameaça à estabilidade social, porque impediria a solução do problema da terra, que ficaria fora do alcance do trabalhador nacional (MARSON, 1975).

Por seu turno, do outro lado do Atlântico, as medidas adotadas serviriam apenas para gerar maiores desconfianças. Acontece que, uma sucessão de fatores levou a concentração germânica no Sul do país.

Durante o período imperial no Brasil, a emigração não contou com o apoio das autoridades germânicas. A sociedade escravista brasileira era vista como suspeita (SEYFERTH, 2004), portanto indigna de confiança. Na década de 1850, foi publicado um

artigo em Leipzig denunciando aquilo que seria uma “escravidão branca”, fato que gerou

protestos do governo brasileiro, através do secretário da Legação Brasileira em Londres. Em 1859, o governo da Prússia determinou a proibição da emigração para o Brasil, em virtude das denúncias de maus tratos feitas por indivíduos que haviam voltado para a Europa. Quando, no final da década de 1890, o governo alemão permitiu a migração para os três estados do Sul do Brasil, afirmando que seriam as regiões aptas ao desenvolvimento do povo alemão, ao invés de arrefecer, a aversão acabou se revigorando (CUNHA, 2000).

Para compreender o motivo desse sentimento negativo, há de se considerar a forma pela qual o brasileiro percebeu a entrada do elemento estrangeiro. No geral, o indivíduo natural do Brasil manteve uma postura entre a desconfiança e a hostilidade (ROCHE, 1969). As opiniões dentro do território brasileiro, contudo, ficaram mais contundentes após a unificação da Alemanha. A formação de um poderoso Estado se somou a outras razões para desconfiança, como o modo de vida das populações. Algo que, acreditava-se, em poucos detalhes mudaria com o tempo, mesmo sendo as gerações seguintes brasileiras natas.

Frequentemente, as informações eram tomadas parcialmente para justificar um sentimento de ameaça. Muitas das falhas do governo, como a baixa construção de vias de acesso e a desatenção com a educação para promover a aculturação dos novos moradores eram colocadas à parte. É preciso considerar que, os habitantes do meio urbano tinham como principal maneira para a obtenção de notícias sobre essa gente nova, as páginas dos periódicos, que, não raramente, transmitiam impressões parciais dos fatos (ESPIG, 1998). Para muitos que recebiam informações das colônias unicamente através dos periódicos, o

problema existia porque “a formação de enclaves de população com costumes, tradições,

língua e hábitos particulares foi interpretada como uma séria ameaça à soberania nacional” (LUCA, 2004, p. 45).

Apesar da diversidade cultural existente, a partir de 1870, prevaleceu o argumento de

uma possível intervenção direta, dando consistência ao famoso, e muito propalado, “perigo alemão”. Estimulada por um suposto risco de que as relações entre as colônias do sul do

Brasil e a Alemanha pudessem desencadear um movimento ameaçador à integridade do

território nacional, essa ideia “se estendeu com intensidade variável por quase quarenta anos, até a Primeira Guerra” (GERTZ, 1991, p. 15).

Cabe lembrar que muitos dos imigrantes que vieram para o Brasil professavam uma fé religiosa que não era a católica. Em virtude disso, também entraram vários líderes, oriundos de partes distintas do mundo, que não eram católicos. Tal fato produziu, ainda no tempo do império, temor na Igreja Oficial, o que fomentou entre os católicos um temor maior em relação aos imigrantes, que, além de estrangeiros, eram protestantes (MAGALHÃES, 1998).

Fica evidente que a ignorância a respeito das condições sócio-históricas das regiões alemãs favoreceu a difusão de impressões errôneas sobre as populações que aqui foram recebidas. Os pioneiros da imigração estavam alheios ao sentimento de amor à nação alemã. Como a unificação ocorreu em período posterior à chegada deles ao Brasil, o carinho e o sentimento de reciprocidade em relação à terra natal era dedicado à aldeia ou à família, e não à nação (MAGALHÃES, 1998). Terra que não tinha o mesmo significado político atual de pátria, mas uma relação cultural particular com o território específico da comunidade (SEYFERTH, 1990).

O tipo de sentimento manifestado na Alemanha, no período posterior àquele da unificação, diferia daquele expresso no período de Herder28, cujo caráter era absolutamente apolítico e sem qualquer relação com o Estado, pois este último tentou reafirmar os valores culturais expressos pelas rústicas comunidades agrárias (BERLIN, 2002), equivalentes daqueles que para o Brasil vieram. O que também era diferente do caráter político e progressista manifestado por volta de 1848 (DIRJARD, 1972, DROZ, 1985; ELIAS, 1997), presente no ideário daqueles que migraram após esse frustrado movimento.

No entanto, de fato, o sentimento de desconfiança não se origina do nada. Aquilo que os contemporâneos identificaram como digno de nota, e que em parte embasa o famigerado

“perigo alemão”, encontra real fundamento na manifesta intenção de aproximação da

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Prussiano e de sólida formação protestante, o pensamento de Johann Gottfried Herder tem origem no cosmopolitismo da ilustração, todavia, vai adquirindo matizes diferentes, até romper com o princípio do universalismo contido nela. Para melhor compreender o pensamento de Herder, ver: BERLIN, 2002.

Alemanha junto aos seus conterrâneos que viviam do lado de cá. Para o Brasil vieram representantes alemães imbuídos da esperança de estreitar os laços de afinidade. O resultado não pôde ser considerado favorável, pois, os

imigrantes pioneiros e os Brummer (os fugitivos de 1848), ao receberem esses novos grupos, não se harmonizaram, de pronto, com os por eles mesmos denominados Reichsdeutsche (alemães do Império). Consideravam-nos eruditos demais, excessivamente apegados à região de origem e defensores de um país que não dizia respeito à sua história (MAGALHÃES, 1998, p. 31).

Ao contrário daquilo que se poderia cogitar, havia conflitos internos naquilo que

poderia ser, para o restante, apenas “uma” comunidade germânica. A visão de que havia uma

comunidade coesa era mais um fenômeno externo a ela do que propriamente uma realidade interna das diversas comunidades de interesse existentes.

Muitos dos representantes que entraram depois de 1871 eram pastores luteranos e professores, que vinham com a intenção de prestar assessoria à vida espiritual das comunidades, entrando em atrito com os hábitos que foram desenvolvidos nas colônias (MAGALHÃES, 1998). O trânsito de alemães oriundos do Reich, principalmente no Rio Grande do Sul, pode ser observado nos diários deixados por muitos deles (FRANCO; NOAL FILHO, 2004).

O problema não foi solucionado no período posterior à proclamação da república. Como fator de agravo, ocorreu a grande naturalização.

Todos os imigrantes, habitantes do Brasil, que não viessem a se manifestar contra a cidadania brasileira no prazo de seis meses seriam considerados brasileiros. A maioria vivia longe das cidades e dos consulados e não teve como se manifestar. Contudo, mesmo sendo brasileiros, continuaram seus hábitos tradicionais e falando a língua de seus antepassados, o que fez aumentar a pecha de arredios. Ainda mais quando, nos anos posteriores, após ficarem sabendo da situação que envolvia a sua nacionalidade, muitos solicitaram a cidadania alemã de volta. Essa situação ficou pendente até 1913, quando a legislação alemã permitiu que fosse admitida a cidadania para descendentes que vivessem fora do país. Meses antes da eclosão da guerra, em 1914, muitas solicitações de cidadania alemã ainda estavam sendo analisadas (KOTHE, 2007).

A relevância dos acontecimentos citados deve ser analisada a partir de alguns conceitos- chave empregados nos meios letrados brasileiros. No caso, principalmente, o de evolução. É

preciso ponderar que, as teorias de Darwin foram retiradas do seu plano biológico original e aplicadas indistintamente, para o regozijo de muitos que viam nisso um reforço a ideias conservadoras, que foram úteis no contexto de reação antirevolucionária europeia (GAY,

2001). No Brasil, como afirma Éder Silveira, “uma vez instalada a lógica darwinista, a própria

ideia de nacionalidade passará a ser uma variação antropológica do conceito de raça, desta forma, naturalizando a cultura” (2004, p. 27). Inequivocamente, essa dificuldade de estabelecer a fronteira da biologia-antropologia com a política, que foi percebida por Éder Silveira, teve fundamental importância para o dilema experimentado durante a guerra.

Arno Mayer (1987) credita o sucesso disso ao fato dessas concepções se amoldarem à perseverança do Antigo Regime, ainda predominante, em luta pela própria sobrevivência. O fato é que as teorias evolucionistas foram responsáveis por grande impacto no mundo do século XIX, e se amalgamaram aos discursos existentes sobre a nação (HERMET, 1996; OLIVEIRA, 1990; RICUPERO, 2004; SMITH, 2004; VINCENT, 1995), o que constituiu um reforço às rivalidades políticas, que passaram também a se justificar em pretensas superioridades raciais.

Evitando esse argumento xenófobo, merece destaque outro intelectual brasileiro que, embora no sentido oposto ao racista, era igualmente avesso aos alemães, Álvaro Bomílcar. Sendo testemunha da guerra de 1914, ele defendeu a neutralidade do Brasil. Para ele, nenhum problema passava pela raça, tanto que defendia a mestiçagem. No entanto, reconhecia que o Brasil era acometido pelo problema do racismo. Latinismos (com sua ênfase na imitação da França) e germanismos eram variáveis dignas de desprezo, pois nos tornariam mera sombra dos outros países. Segundo Bomílcar, a imigração de alemães deveria ser muito apreciada quando se dirigisse ao campo, visando à assimilação no futuro. Conquanto, ao virem estes imigrantes para a cidade, deveriam ser impedidos. A razão dada por Bomílcar estaria no fato do brasileiro ser desorganizado. A desorganização política permitiria que os imigrantes participassem em demasia da vida política, enquanto empresários, controlando a produção e encarecendo a vida da população. Enquanto operários, promovendo greves e desrespeitando as autoridades. Logo, o autor, ao não se deixar levar pelo estrangeirismo, se colocou contra um nacionalismo brasileiro que passasse pela admiração dos valores alemães, ligados ao comércio e à incrível produção científica da Alemanha (OLIVEIRA, 1990).

Já, para Silvio Romero (apud SILVEIRA, 2004, p. 107), era terrível a perspectiva de futuro, ante a proliferação de imigrantes europeus no sul do país. Ele desejava um

branqueamento do brasileiro, mas depositando uma fé no futuro, oriunda da crença de que deveria haver um processo de assimilação do branco ao meio, formando um tipo novo de gente (ORTIZ, 1994). A questão se tornava crítica a seus olhos, por causa da superioridade do branco europeu, que traria desequilíbrio social ao se concentrar em um lugar específico. Antes da Primeira Guerra, o escrito mais importante sobre o assunto foi O alemanismo no sul do

Brasil, do próprio Sílvio Romero (GERTZ, 1991).

Com o mesmo propósito de evidenciar a desconfiança gerada, coloca Karen Lisboa o quão é

interessante notar que, no momento em que a Alemanha se apresenta no contexto europeu como ascendente nação, após a vitória da Guerra Franco-Prussiana, e assim luta pelo seu lugar entre os domínios extra-europeus, ela perde, por assim dizer, a sua especificidade como único grupo não português imigratório no Brasil. E é nesse contexto que as colônias de emigrantes alemães são vistas por muitos observadores através de uma lente imperialista (2008, p. 95).

Diferentemente de Alberto Torres, que não viam o problema brasileiro pela ótica racial, Sílvio Romero era defensor da imigração. Sua preferência, entretanto, recaía sobre os povos de origem latina, pela maior familiaridade que teriam conosco. A escolha desses, contudo, não

identificava qualquer preconceito “biológico” com relação aos povos germânicos, muito pelo

contrário, ele admirava a capacidade destes. A crítica à colonização germânica se relacionava à maneira pela qual a mesma estava distribuída (mal) no país e concentrada nos estados do sul, o que levou Romero a crer em um real risco de ruptura política no país (SILVEIRA, 2004). Para ele, todos os imigrantes deveriam ser distribuídos homogeneamente pelo Brasil, para que fossem assimilados, reproduzindo aquilo que considerava o sucesso do modelo norte-americano (VOGT, 2007).

No Brasil, os conceitos que permeavam os ideário daqueles que possuíam uma educação superior eram variados, e não raras vezes contraditórios. Como esclarece na sua obra, Ângela Alonso (2002) explica que rótulos atribuídos a pensadores foram criados mais por objetivos outros do que para realmente esclarecer a complexidade dos próprios, o que significa que o indivíduo poderia estar repleto de argumentos racistas e ao mesmo tempo se compreender como um liberal.29

Muito impressionada pelo evolucionismo de Spencer, a impressão de Romero a respeito dos povos que migraram para o Brasil deve ser ponderada à luz da sua orientação teórica

29 Dentro da esquerda europeia, serve de exemplo o caso de Karl Kautsky, cujo pensamento marxista se

(ORTIZ, 1994; SOUSA, 2001). O receio, por ele demonstrado em relação aos povos

germânicos, estava diretamente vinculado ao temor que Romero sentia perante uma “raça”

que o próprio considerava superiora àquelas que viviam no Brasil. Logo, da sua perspectiva, o Brasil não passava de uma construção limitada, realizada por povos inferiores.

Dada essa análise, Romero tirou algumas conclusões sobre o Brasil. A submissão (ou a aceitação) de parte das populações a alguns líderes, ao longo de todo o território brasileiro, seria uma característica inata dos povos que colonizaram o país. Então, ele acreditava que a força natural de um povo superior (como o alemão) seria decisiva, quando posta em contato com os brasileiros mais antigos. Enquanto o latino, na sua visão, seria pouco empreendedor, reforçando-se na relação com a coletividade, o germânico, ao contrário, estaria repleto de energia individual, que seria criadora e de iniciativa (ROMERO, 2001). De fato, a mistura gradual seria preferível, para diluir o que acreditava haver de ruim no brasileiro. Como afirma a seguir:

[...] em cada um dos estados, o clã triunfante, revivência dos clãs berberes, tronco primitivo principal das gentes ibéricas de que os portugueses são um ramo e nós um rebento na América [...].

É que o gênero apático da raça, a tendência grupista dos iberos-latinizados, verdadeiros comunários de estado, que sonham sempre com o chefe, o guia [...] (ROMERO, 2001, p. 187).

Para ele, como decorrência da lógica interna do seu raciocínio, o imperialismo era um perigo evidente. O tipo brasileiro seria dado à aceitação do mando e à submissão pela força, algo explicitado pelo controle exercido pelas oligarquias que o próprio autor revelava como exemplo. Em verdade, isso explicaria porque o Brasil se encontrava, naquele momento específico em que escrevia (começo do século XX), inapto ao federalismo, modelo que

considerava tão caro para si. Nada restaria, a não ser “esperar a ação lenta do tempo e da

cultura [...], talvez séculos, enquanto a obra sistemática da educação [...] e da seleção social no sentido da antropossociologia, não tiver produzido os seus efeitos” (ROMERO, 2001, p. 189). A força dos alemães só poderia ser sinceramente vista como uma ameaça à integridade territorial brasileira, em consonância com os seus princípios teóricos (OLIVEIRA, 1990).

A terra, na verdade, era mais um motivo de preocupação do que de alento. Se o brasileiro era um fracasso genético, sua cultura estaria prejudicada pela característica geográfica do Brasil que, ao invés de instigá-lo, o amoleceria. O Rio Grande do Sul, para Romero, compartilhava as mesmas peculiaridades morfológicas das estepes mongóis, o que produziria uma cultura rasteira semelhante, fato que o exasperava mais ainda (ROMERO,

1998). Pudera, então, crer sinceramente no risco real de usurpação alemã, diante de tanta mediocridade.

Fundamentadas em reais bases científicas ou não, o fato é que essas teorias tinham ressonância no meio político brasileiro. Não se tratava de opinião intelectual restrita a meios sociais particulares. Tanto que, em 1909, o congresso aprovou uma lei determinando que no mínimo 10% das terras nas quais se assentavam pequenos proprietários deveriam pertencer a brasileiros natos (LUEBKE, 1987).

O pensamento de José Veríssimo (1985) se coadunava com o anterior, no sentido em que, trabalhando com a temática da raça, convergia na mesma direção. Ao analisar a força de um povo, constatara que a Alemanha, em virtude do esmero do intelecto superior que detinha, compreendeu a importância do culto da educação física para o melhor desenvolvimento da sua gente como um todo, através de uma metodologia que incluiria exercícios, jogos, a esgrima para reforçar a defesa da honra, bem como o serviço militar. Para ele, a manutenção e o fortalecimento da saúde através da educação física tornariam um povo mais apto, enquanto revigoraria a afetividade com relação à sua terra. Nas circunstâncias colocadas, portanto, ele via com insegurança a contínua entrada de imigrantes, principalmente de alemães, motivo pelo qual fez um aviso:

uma propaganda que não quero, como o Sr. Sílvio Romero, chamar antipatriótica, mas que certo não viu o interesse do Brasil senão por um lado, atraiu e localizou em determinadas regiões do país uma imigração, forte pelo número e pelo vigor [...]. Essa propaganda continua e certo continuará a afluir e, em maior número, a