1. INTRODUCTION
3.4 Environmental impacts of gas transportation
Segundo nos conta Vivaldo Coaracy61 (1962) em suas memórias, as comunidades germânicas como um todo, compostas pelos alemães de nascença e pelos teuto-brasileiros, eram vistas como arrogantes pelo restante da população da cidade. O autor conviveu com muitos de seus membros, e chegou a apreciar o contato que tivera com vários deles (no seu meio profissional eram, comumente, técnicos e engenheiros a lecionar na Faculdade de Engenharia), mas, apesar de ter reconhecido a prosperidade material obtida pelos imigrantes e seus descendentes como feito invejável (que até despertaria a má vontade das pessoas para com eles), também os via como soberbos, ciosos de uma superioridade cultural. Não obstante, sem querer refutar as críticas feitas contra eles, talvez o processo possa ter ocorrido pela via inversa. Essa inveja pode ter sido o fator que conferiu a eles a legitimidade social para que se tornassem arrogantes.
Ainda de acordo com Coaracy, os “alemães” (indistintamente colocados, os estrangeiros
de fato e os descendentes) individualmente, seriam pessoas afáveis e altamente solícitas, despojados de qualquer sinal de arrogância. Outro distintivo do comportamento germânico seria a criação dos filhos de casamentos mistos. Curiosamente, ele revela que as crianças desses casamentos eram criadas segundo padrões que seriam qualificados como totalmente brasileiros. No entanto, o fato de serem desdenhados, pejorativamente apelidados de
“lambotes” (COARACY, 1962, p. 64), e a “timidez e a desconfiança”, atributos que teriam “refreado a aproximação” (COARACY, 1962, p. 74), teriam acentuado o isolamento das
comunidades, o que, provavelmente, favoreceu o fracionamento da cidade em função do
caráter étnico. Isso, além do fato de “referirem-se aos brasileiros genuínos62
chamando-os de
Affen (macacos)” (COARACY, 1962, p. 64), que acentuaria a má vontade e o despeito em
relação a eles.
61 Ele habitou na cidade entre 1905 e 1919. Além de ter lecionado na Faculdade de Engenharia de Porto Alegre,
também escreveu um romance chamado Frida Meyer (1924), cuja história estava centrada em uma jovem porto- alegrense de origem alemã, cuja família caíra em desgraça em meio à conceituada sociedade germânica da cidade devido aos problemas financeiros e emocionais de seu pai.
62 Para maior esclarecimento, não foi ele quem considerou os teutos como não-brasileiros genuínos, mas teriam
No início dos combates na Europa a capital gaúcha possuía aproximadamente 150 mil habitantes.63 Naquilo que se refere à quantidade de imigrantes existentes na cidade, é difícil estabelecer números com precisão. Apesar disso, é sabido que os italianos já habitavam a cidade em maior quantidade, em relação aos demais estrangeiros, perfazendo mais de 10% da população (CONSTANTINO, 2007), sendo os alemães expressivos, mas em número inferior a esses.
Um dado encontrado, no entanto, pode ajudar a descortinar, pelo menos parcialmente, outras razões da antipatia demonstrada para com os alemães. Embora as críticas não fossem acerbas em 1914, no decorrer da guerra ficou bem evidente a pecha de serem baderneiros. Algum fundamento haveria de ter em tais acusações.
As ocorrências policiais, registradas entre os anos de 1913 e 1914, podem ser um indicativo. Das detenções realizadas pela polícia administrativa, cujo número total havia sido de 3.746, a maioria foi de brasileiros (3.371 casos), enquanto o número de alemães era de apenas 123. Apesar disso, foi proporcionalmente elevado, diante do restante dos delitos cometidos por todas as outras nacionalidades estrangeiras juntas (que chegou ao número de 252). Foram 86 prisões de italianos, contra 33 de polacos e 25 de portugueses.64 Em relação à totalidade, os delitos cometidos por alemães representavam pouco menos de 3,3%. Em compensação, ao relacionarmos com os outros estrangeiros a taxa subia para quase 33% das ocorrências ligadas ao universo de não-brasileiros. Dessas, destacam-se as detenções por embriaguez e desordem. Metade dos casos de embriaguez, envolvendo os estrangeiros, ocorreu com alemães (23 dos 46 casos levantados). Já por desordem, 38,5% das prisões ou 42 delas, do total de 109, que envolveram estrangeiros, foram de alemães. A detenção mais agravada, a de desordem por motivo de embriaguez (no caso, os dois delitos somados), registrou 9 casos de estrangeiros, sendo 8 deles relacionados a alemães. Além disso, dos 6 casos de ofensas à moral registrados, 5 deles foram cometidos por alemães, contra apenas 1 de italiano. A proporção total dos alemães, em relação ao conjunto das infrações citadas, que foram cometidas por estrangeiros, chegou a pouco mais de 45%.
Embora seja precipitado levantar qualquer conclusão sobre a índole dos imigrantes com base nas ocorrências de detenção, algumas impressões deixadas, por ventura, encontram justificativa nos dados expostos. Por exemplo, ao nos depararmos com adjetivações como as
63
Segundo estatísticas demográficas do próprio governo do estado. RIO GRANDE DO SUL. Relatório da Secretaria do Interior e Exterior ao Presidente do Estado do Rio Grande do Sul, 1915, AHRS.
de desordeiros, baderneiros ou violentos, atribuídas aos alemães, sabemos que os mesmos tiveram alguma responsabilidade na imagem social que lhes foi atribuída. A pequena amostragem, dada pelos alemães que tiveram o dissabor de se indisporem com o poder público, possibilitou que os seus contemporâneos se confundissem (ou melhor, os confundissem), equivocadamente, tomando o todo pelo específico. Apesar disso, esse foi um período em que não houve registro de hostilidades públicas contra eles.
Acontece que nos anos posteriores, até a declaração de paz, o comportamento dos alemães, observado em relação aos dados relacionados às detenções, e comparados ao desse ano de 1914, apresentou alteração. Houve uma diminuição dos casos envolvendo alemães. Em comparação às outras nacionalidades, sofreria uma queda significativa. Evidentemente, alguns retornaram à Alemanha, para se alistar (como veremos a seguir), mas os russos, os italianos e os polacos também foram. Isso leva a crer que comentários indiscretos sobre a índole germânica devem ter circulado, de tal monta que os indivíduos, temendo pela sua integridade moral em risco, alteraram a sua conduta.