As praças cívicas, diante de edifícios públicos importantes, são raras entre nós. São exceções. Nem sempre nossas câmaras municipais ou nossas sedes de governo tiveram prédio próprio; frequentemente se instalaram em casas alugadas, mudando muitas vezes, como se fossem nômades da cidade. E quando o esforço comum erguia uma construção para esse fim, era pouco provável que se situasse num ponto condigno, como uma praça que acolhesse os cidadãos, valorizasse o significado do prédio ou tirasse partido de seu projeto arquitetônico mais elaborado. (MARX, 1980, p. 50.)
Uma revisão na literatura dedicada ao estudo dos tipos das praças mostra que há dois grupos: primeiro o grupo dos estudos que se concentram na configuração, e segundo, os que se direcionam para a investigação da mudança do uso ou função das praças (MELIK, 2008).
Adotando a primeira abordagem, MANUEL TEIXEIRA (2001, apud CALDEIRA, 2007) avalia que no Brasil as primeiras praças geometrizadas surgem no século XVI, vinculadas a espaços religiosos, afirmando seu rigor formal ao longo dos séculos XVII e XVIII. Paulatinamente, as praças recebem tratamento especial, assumindo escalas compatíveis com sua importância simbólica e constituem pontos focais urbanos, possibilitando maior riqueza de perspectivas a partir dos edifícios que as limitam13.
Filiando-se ao segundo grupo, CALDEIRA (2007) analisa a trajetória da praça brasileira atrelada ao desenvolvimento dos processos urbanísticos no nosso território e propõe-se a investigar o caráter simbólico da praça14 nos diversos momentos de ruptura e
13“A praça como tal, para reunião de gente e para exercício de um sem-número de atividades diferentes, surgiu entre nós, de maneira marcante e típica, diante de capelas ou igrejas, de conventos ou irmandades religiosas. Destacava, aqui e ali, na paisagem urbana estes estabelecimentos de prestigio social. Realçava-lhes os edifícios e acolhia os frequentadores” (MARX, 1980, p. 50).
14A Praça Tiradentes, de Ouro Preto; a Praça XV, no Rio de Janeiro;e a Praça dos Três Poderes, em Brasília, retratam notadamente esse universo simbólico da praça. Para CALDEIRA (2007), são espaços síntese da memória urbana, pois contam a própria história dessas cidades.
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mudança estrutural no desenho da cidade. A análise da autora perpassa a apropriação pela sociedade de tal espaço e a concepção configuracional das praças – em particular, a mudança da constituição espontânea do espaço (praça) para o espaço projetado.
Ambas as visões revelam características que acompanham o desenvolvimento de novos tipos em função de sua adequação às mudanças que ocorrem na sociedade.
Do século XVII adiante, a praça brasileira vai adquirindo o papel de gerador do traçado e passa a ser concebida como “centro simbólico, funcional e formal da cidade”, onde se implantam os principais edifícios institucionais– nomeadamente a Casa de Câmara e Cadeia, a Santa Casa de Misericórdia e a Igreja Matriz Essas edificações importantes articulam-se à geração de um espaço livre destinado à aglomeração popular e à reunião cívica – as funções administrativas se concentram em locais específicos, conferindo às ruas as funções de ligação e acesso a esses pontos principais. O padrão de configuração das praças em geral dava-se então, a partir das edificações do seu entorno, elas eram configuradas pelo casario ao seu redor. Podemos inferir que nesse momento aparecem as primeiras composições espaciais que originam nossas praças cívicas (CALDEIRA, 2007).
A primeira praça cívica do Brasil foi a Praça Municipal de Salvador(figura 7). Segundo Marx (1980, p. 51):
Voltada pro mar, a cavaleiro do porto, reunia a Casa de Câmara e Cadeia, o paço do governador da colônia, a Relação, os negócios da fazenda e a alfândega. No centro da nova cidade projetada, marcava urbanisticamente o seu caráter de capital. É conhecida de todos por estar servida pelo elevador Lacerda [...]. Ela é a antecessora da atual Praça XV de Novembro no Rio, que aliou a igreja que serviu de catedral ao paço dos governantes da colônia e do Império, embora não tivesse sido para isso concebida, assim como, da Praça dos Três Poderes, que hoje reúne no coração do país os principais edifícios da República. [...] São logradouros que transcendem o uso e o significado local, interessando a todos nós. Cumpre entendê-los, respeitá-los, recuperá-los, defendê-los.
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Figura 7-Praça Municipal de Salvador. Para SITTE (1980, apud CHOAY, 1998), “cada cidade, por menor que fosse, poderia orgulhar-se de uma praça bela e original, se todos os edifícios importantes estivessem ali reunidos como numa exposição em que um valorizasse o outro”. Nesta foto: Câmara dos vereadores, Palácio Rio Branco e Elevador Lacerda. Fonte:http://picasaweb.google.com/lusitanameister/ESTBahiaBR#5169750720899432338
Assim como a Praça Municipal de Salvador e a Praça XV de Novembro do Rio de Janeiro, outros espaços de desenhos diferentes se assemelham por reunirem prédios públicos importantes e transcenderem o uso e o significado local. MARX (1980) destaca dois espaços cívicos notáveis em Minas Gerais – o Largo de São Francisco em Mariana(figura 8), que reúne a Casa de Câmara e Cadeia e as duas igrejas das irmandades mais importantes da época; e a Praça Tiradentes em Ouro Preto(figura 9), que ilustra o confronto entre o poder da elite local através do palácio municipal, hoje Museu da Inconfidência, e o poder
Figura 8-Logradouro público por excelência, a praça brasileira deve sua existência, sobretudo, aos adros das nossas igrejas. Adro da Igreja São Francisco de Assis em
João Pessoa. Fonte:
http://www.joaopessoaconvention.com.br/v 2009/?p=ponto_turistico.
Figura 9-Praça Tiradentes, Ouro Preto. Fonte:
http://jpviagensecaminhos.blogspot.com/201 0/12/ouro-preto-mg.html
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metropolitano, representado pelo paço dos governadores. “Uma, singela e harmônica, compondo um dos mais belos espaços públicos do Brasil, à altura de uma capital que não vingou. A outra, grandiosa e dramática, palco da capital de fato, espelhando as contradições da cidade e da sociedade de que foi o foco cristalizador” (MARX, 1980, p. 51).
O segundo momento de formação de nossas praças cívicas, conforme define CALDEIRA (2007), ocorre no período de consolidação das capitais estaduais, após a proclamação da República, com a implantação do aparato político-institucional – Palácio do Governo, Palácio da Justiça, Secretarias, Assembleias. Essas praças são espaços do poder republicano, quase sempre se baseiam na estética francesa, explorando a composição cênica de jardins distribuídos geometricamente com grandes perspectivas visuais. A Praça da Liberdade (figura 10), na cidade de Belo Horizonte, é a mais importante desse período que se inicia no fim do século XIX, pois é um espaço republicano que introduz novos princípios urbanísticos, advindos do padrão paisagístico europeu e das práticas cotidianas burguesas, como a valorização de espaços ajardinados. Posteriores à Praça da Liberdade, as outras praças cívicas planejadas junto ao plano de novas capitais são a Praça Cívica (figura 11) de Goiânia (1933), a Praça dos Três Poderes (figura 12)de Brasília (1957) e a Praça dos Girassóis (figura 13) de Palmas (1989).
Figura 10-Praça da Liberdade.Fonte: http://farm1.static.flickr.com/178/409065152_8990bfe9f1.jpg?v=0. Figura 11-Praça Cívica. Fonte:
http://www.anpoll.org.br/eventos/enanpoll2008/goiania.php. Figura 12-Praça dos Três Poderes. Fonte: Sedhab - GDF. Figura 13- Praça dos Girassóis. Fonte: Arquivo fotográfico da Secretaria de Comunicação de Palmas, SECOM– fotógrafo Márcio Di Pietro.