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6.4 Brukerfinansiering

6.4.1 Bompenger

Ao tratarmos de espaços públicos, remetemo-nos aos espaços urbanos em sua maioria abertos11 e acessíveis a todas as pessoas e a

qualquer momento, designados ou projetados para o uso cotidiano, cujas formas mais conhecidas são as avenidas, ruas, becos, travessas, largos, pátios, praças, parques e espaços afins que conformam a estrutura urbana não privada. Para definir com mais acuidade, citamos BAUMAN (2009, p. 69-70):

Um espaço é público à medida que permite o acesso de homens e mulheres sem que precisem ser previamente selecionados. Nenhum passe é exigido, e não se registram entradas e saídas. [...] Trata-se em outras palavras, de locais onde se descobrem, se aprendem e sobretudo se praticam os costumes e as maneiras de uma vida urbana satisfatória.

O espaço público é o lugar que “reconhecendo o valor criativo das diversidades e sua capacidade de tornar a vida mais intensa, encorajam as diferenças a empenhar-se num diálogo significativo” (BAUMAN, 2009, p.21). Sendo o lugar das diversidades, ali acontece convívio entre pessoas de diferentes segmentos, com diferentes expectativas e interesses, dentro das regras da civilidade(figuras 3 e 4). É o ponto da sociabilidade, “a mise-en-scène da vida pública em que se exercita a arte da convivência” (GOMES, 2002). Mas, como conferir alguma qualidade material a esse espaço?

Definições e atuais discussões sobre o conceito de espaço público no âmbito jurídico ou filosófico promovem uma espécie de evaporação da realidade física do espaço em si, pois deixam o espaço público “fora do espaço” e passam a não refletir sobre a cidade real, concreta (BLANC, 2008). A simples e habitual definição do espaço público que se dá em oposição ao espaço privado – no que se refere ao seu uso e caráter jurídico – não é suficiente para conferir alguma qualidade material a esse espaço (HUET, 2001).

11Os espaços públicos abertos são entendidos aqui como aqueles de acesso irrestrito e ao ar livre. Até o século XIX,o acesso público a edifícios como igrejas, templos, mesquitas, bazares, teatros, universidades etc. sofria certas restrições, impostas pelos encarregados por sua manutenção ou pelos proprietários. Os verdadeiros espaços públicos eram abertos, estavam quase sempre ao ar livre. A revolução industrial, a aceleração e a massificação dos sistemas de produção e distribuição, conduziram à construção de espaços públicos fechados: mercados cobertos, pavilhões de exposição, centros comunitários, estações ferroviárias e de metrô ou ônibus, entre outros edifícios (Cf. HERTZBERGER, 1999, p. 68).

Capítulo 1- Premissas

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Atrás de cada palavra que denomina os espaços públicos abertos da cidade – tal como rua, avenida, alameda, praça, parque, pátio, beco etc. – estão suas respectivas características inequívocas, insubstituíveis, aquelas que lhe dão seu significado milenar e que permanecem, apesar de variações em seu formato ou em seus elementos constitutivos.

A praça, especificamente, é um espaço público aberto que se destaca no tecido urbano por apresentar uma organização espacial particular – excluídas certas interpretações contemporâneas12. Primeiramente, a praça é um elemento apreensível por contraste –

algo aberto, um vazio, em contraposição ao cheio que o cerca. TENÓRIO (2009) reforça que este vazio não só é evidenciado por sua proximidade com o cheio, mas é indissociável dele – um vazio no meio de um vazio circundante não é, portanto, praça: o contraste não se estabelece. O vazio também é delimitado pelo cheio circundante, então, o vazio é finito e possui limites inequívocos que não são arestas: são planos, pertencem a elementos construídos – normalmente edifícios – que são tridimensionais.

Chegamos, portanto, à definição assumida neste estudo de que o espaço da praça é tridimensional. Possui comprimento, largura e altura – a altura dos planos limítrofes, de acordo com a percepção do indivíduo. Um vazio sem limites tridimensionais que o configurem não tem existência tridimensional, logo, não é praça. Para mostrar como o

12TENÓRIO (2009), baseada na ideia de que os padrões de configuração de uma praça foram determinados historicamente e constituem sua essência, denuncia que o termo praça vem sendo utilizado indevidamente (ainda assim, sem perder seu significado). A autora se refere aos muitos espaços projetados atualmente que pouco ou nada possuem das características fundamentais de uma praça, utilizando o termo entre aspas. As “praças” não possuem as características necessárias destacadas para serem reconhecidas em qualquer lugar como uma praça. Tomando como referência um livro recente da editora Monsa, de Barcelona, chamado Mini Praças (Mini Plazas, 2008), a autora exemplifica duas “praças”: uma rotatória de tráfego elevada do chão com iluminação por baixo e uma cobertura de um edifício feita de laje impermeabilizada, na qual foram pintados círculos concêntricos em dois tons de azul. Essas “praças” entre aspas são criadas como cenários, são voltadas para si mesmas, ignorando os limites que são a própria viabilização da sua existência.

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cheio circundante (que é a cidade) evidencia, limita e configura o vazio (que é a praça), TENÓRIO (2009)destaca plantas de cheios e vazios que são recurso de representação recorrente na obra de autores que estudam praças, e que permitem ilustrar contraste, forma e dimensões em planta(Figura 5).

Segundo, a praça tem uma destinação. MARX (1980), ao explicitar o significado e a origem das praças brasileiras, expõe equívocos conceituais entre praças e jardins públicos, os quais têm implicado um uso da praça mais para atividades de ócio e de lazer contemplativo do que de outra natureza – atividades essas que são destinação primeira de um jardim público. ALEX (2008, p. 277) nos atenta para fato de o paisagismo atual enfatizar o verde e a recreação, eliminando as funções definidoras da praça – como acesso livre, uso múltiplo, boa integração com o entorno e articulação com o tecido urbano(figura 6) – e reduzindo seu caráter de espaço público.

TENÓRIO (2009) investiga definições que preconizam destinações à praça, tais como: a) lugar onde os habitantes da urbe podiam desenvolver atividades como festas pátrias, manobras militares, comemorações religiosasonde ficariam os edifícios públicos e igrejas (MORRIS, 1998, apud TENÓRIO, 2009); b) o espaço público aberto que, historicamente, acolheu estruturas de compra e venda, onde contatos e trocas se davam; c) o lugar que acolhia os principais papéis urbanos além do comercial, o municipal e o religioso (KATO, 1993); d) o lugar que tem como exemplos de seu caráter cívico, a ágora, onde o povo realizava suas assembleias, onde o mercado se instalava e era ainda um centro religioso e o fórum, praça pública dos romanos, destinava-se a reunião e debates (HOUAISS e VILLAR, 2001); e) espaço de necessidade vital e primeira grandeza, na medida em que ali tinha lugar uma grande parte da vida pública (SITTE, 1992); f) o coração da cidade, o elemento que faz de uma comunidade uma

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Figura 5-Representações de praças em a. KRIER (1981, p.42); b. ZUCKER (1959, p.90); c. SITTE (1992, p.40 – edifício religioso em destaque); d. CULLEN (1983, p.109), e. GEHL e GEMZOE (2002, p.88 – planta complementar representando o efetivo espaço destinado a pedestres), f. KATO (1993, p.50), apud TENÓRIO, 2009.

Capítulo 1- Premissas

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comunidade, e não apenas um agregado de indivíduos (ZUCKER, 1959); f) “unidades urbanísticas fundamentais” (LEITÃO, 2002), e chegam a ser imprescindíveis na cidade, pelo papel que desempenham na vida social de seus habitantes.

Figura 6-Representações de praças identificadas por Sun Alex como centros sociais multifuncionais, caracterizados por vazios delimitados e definidos pela arquitetura (sensação de fechamento espacial) e por múltiplos acessos – Piazza de Campo de Siena, Piazza Ducale de Vigevano, Plaza Mayor de Madri e o Convent Garden de Londres. Fonte: ALEX, 2008, p.60.

Conclui-se, portanto, que a praça admite uma multiplicidade de usos urbanos, sendo lugar para a realização de várias de nossas práticas cotidianas. Sua destinação maior é ser lugar de encontro e concentração de fluxos urbanos, de interação entre os habitantes da cidade, mesmo que através do contato interpessoal ou meramente visual. SENNETT (1998, p. 26) resume a natureza de uma praça pública com a natureza de mesclar pessoas e diversificar atividades. Simultaneamente uma construção e um vazio, a praça não é apenas um espaço físico aberto, mas também um lugar de convívio social, que para cumprir com seu papel está inserida na cidade de maneira integrada ao seu entorno e bem articulada ao tecido urbano (ALEX, 2008, p.23).