A ideia de construir uma nova capital para Minas Gerais32 remontava a Inconfidência Mineira; o retorno da intenção, nos primeiros
anos da República, resultava não apenas das limitações oferecidas pela velha capital Ouro Preto, mas respondia também a demandas colocadas pelo rearranjo das forças econômicas e políticas do Estado (LEME, 1999, p. 222). Segundo SALGUEIRO (2001, p. 136), o federalismo republicano, que se cristaliza por volta de 1890, permitiu aos novos estados mudarem de capital.
Na primeira metade do século XX, outras cidades brasileiras idealizam e fazem intervenções que vão lastrear o desenvolvimento do urbanismo, definindo-se pela oposição a uma cidade antiga, colonial, sendo necessário priorizar a higiene, a estética, a fluidez33 –
elementos que foram norteadores do plano da nova capital de Minas Gerais. Belo Horizonte já nasce moderna em fins do século XIX, sendo uma experiência fundamental para o urbanismo no Brasil.
O projeto da cidade “inscreve-se, ao mesmo tempo, no discurso clássico sobre valores racionais e representativos das cidades capitais – técnicos, topográficos, econômicos e simbólicos – e na história dos primeiros debates sobre a planificação urbana no Brasil” (SALGUEIRO, 2001, p. 136). A autora prossegue afirmando que sua construção “revela-se exemplar, não somente para
32A criação de Belo Horizonte, a nova capital de Minas Gerais, é antecedida pela inauguração de outras duas capitais planejadas, Teresina (resultado do interesse em transferir a capital do Piauí da cidade de Oeiras, que se deu em 1952) e Aracaju (cidade planejada que resultou da transferência da capital de Sergipe da cidade de São Cristóvão, em 1855).
33 Entre 1895 e 1930, registram-se projetos de melhoramento em partes de cidades existentes. Profissionais como Saturnino de Brito, Theodoro Sampaio e Lourenço Baeta Neves se destacam na elaboração de propostas urbanísticas nesse período. As ações englobavam a melhoria das áreas centrais, a reforma e a ampliação de portos marítimos e fluviais, a construção de ferrovias e obras de melhoria da infraestrutura urbana: saneamento, abertura e regularização do sistema viário (LEME, 1999, p. 22-25).
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mostrarmos como se afirma a relação entre urbanismo e arquitetura no final do século XIX no Brasil, mas, sobretudo, para refletirmos sobre a transferência das categorias de pensamento e de modelos formais franceses que alimentam a geração de seus conceptores”.
A decisão de construir a nova capital Belo Horizonte sobre o antigo Curral d’El Rey resultou de um minucioso relatório coordenado pelo engenheiro politécnico Aarão Reis – que também dirigiu a Comissão Construtora da Nova Capital. A instalação da cidade foi inspirada no modelo de tábula rasa: o arraial foi devastado, foram destruídas suas casas e ruas. A “Cidade de Minas” surgia para dar sentido material e simbólico ao novo ideário de modernidade e progresso – a nova capital projetava-se para o futuro, em contraposição à antiga capital mineira, que representava o colonial, o passado.
Aarão Reis denota, em seu trabalho, conhecimento e proximidade com o plano de L’Enfant para Washington, com a reforma em Paris realizada por Haussmann e, sobretudo, com o plano contemporâneo de La Plata – fundada em 1882 para ser capital da Província de Buenos Aires, na Argentina (LEME, 1999, p. 222). Reis era adepto do positivismo e para ele, o planejamento da cidade deveria “obedecer às mais severas indicações e exigências modernas de hygiene, elegancia e embellezamento” (LEME,1999, p. 223). Do plano de Haussmann, Reis aproveita a ideia dos extensos bulevares arborizados e a importância concebida aos parques e às praças ajardinadas; para isso conta com a colaboração do arquiteto paisagista Paul Villon34. Com La Plata, o plano de Belo
Horizonte tem muito em comum: o sistema de quadrículas cortado por vias diagonais e circundado por um bulevar – a Avenida do Contorno –, a importância das áreas verdes, os quarteirões com 120m de lado. O número de habitantes previstos para as duas cidades também era semelhante: 200 mil em Belo Horizonte e 150 a 250 mil em La Plata (LEME, 1999, p. 137).
34 Paul Villon, nascido na França (1842), foi discípulo e colaborador, em Paris e Marselha, de Jean-Charles-Adolphe Alphand (1817-1891), engenheiro politécnico responsável pelos parques e jardins de Paris durante a reforma empreendida por Haussmann. Estabelecendo-se no Brasil, Villon trabalhou no Rio de Janeiro com Glaziou, na Praça da Aclamação e na Quinta da Boa Vista. Em Belo Horizonte participou do projeto do parque municipal e projetou os jardins do Palácio da Liberdade, sendo-lhe também atribuído o projeto original da Praça da Liberdade. (LEME, 1999, p. 137).
O plano para a nova capital estabelecia nítida divisão em três zonas: urbana, suburbana35 e de sítios36 (figura 30). Para a zona
urbana, adotava-se um traçado conjugado de tramas ortogonais deslocadas a 45º. Segundo LEME (1999, p. 121), as avenidas diagonais foram pensadas como extensos bulevares, sendo a Afonso Pena a mais imponente – com 50m de largura e cerca de 3 km, marcando o eixo norte-sul da cidade. A Avenida do Contorno fazia a conexão entre os diversos setores e estabelecia a distinção entre as áreas urbana e suburbana.
“A zona urbana articulava-se em torno de um centro administrativo formado pelo palácio do Governo e pelas Secretarias, junto ao qual se desenvolvia o bairro dos Funcionários” (LEME, 1999, p. 223). Também englobava o “bairro Comercial, conjugando as praças do Mercado e da Estação, os palácios do Congresso e da Justiça, a municipalidade, uma capela, um hotel, escolas, hospital e jardim zoológico”.
Na composição da zona urbana, identificamos as praças como peças fundamentais na paisagem (figura 31). Elemento essencial da malha urbana, as praças aparecem em todos os cruzamentos das grandes avenidas, assim como em lugares estratégicos, defronte a edifícios públicos. Praças de todos os tipos, tamanhos, e funções: praça cívica, praça de lazer, praça do mercado, Praça da Estação,
rond-points37, e praça da Igreja (CALDEIRA, 2007). Além disso, percebe-se a vinculação do plano de Belo Horizonte às ideias
defendidas pela urbanística europeia em fins do séc. XIX – as praças, as ruas e os edifícios estão subordinados ao rigor geométrico; abusa-se do recurso de perspectivas, eixos de simetria, fachadas monumentais, pontos de fuga. O repertório estético define a paisagem da cidade, destacando a formação de conjuntos urbanos distintos, como é o caso da Praça da Liberdade.
Apesar de inaugurada em 12 de dezembro de 1897, a nova capital só se consolidou algumas décadas depois – sendo que o processo de desenvolvimento da zona suburbana foi menos rígido ou geométrico, contrastando com a ordem e o rigor da zona urbana.
35 A zona suburbana foi projetada com um traçado mais flexível e lotes maiores. Nela foram locados equipamentos como hipódromo, cemitério, reservatórios de água, matadouro, casa de máquinas de esgotos e oficinas do ramal férreo – a implantação foi determinada seguindo-se os preceitos higienistas (LEME, 1999, p. 122).
36 A zona de sítios foi prevista como a transição entre as zonas urbana/suburbana e a zona rural. Essa área se destinava à implantação de pequenas propriedades, tendo como finalidade garantir o abastecimento da cidade em gêneros alimentícios (LEME, 1999, p. 122).
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Figura 31- Planta da Zona Urbana de Belo Horizonte, 1956. Estão em cor laranja e amarelo os principais órgãos públicos, colégios, hospitais, bancos, cinemas, teatros, sanatórios, pontos de ônibus e abrigos de bondes. As diversas praças com diferentes formatos (em verde), racionalmente distribuídas, cumprem diversas funções: articular o sistema viário, configurar conjuntos urbanísticos e constituir marcos visuais. Fonte: Mapoteca da Escola de Arquitetura da UFMG.
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