Estando clara a destinação primeira de uma praça (discutida no primeiro capítulo, sobre o espaço público aberto e a praça) – que é ser lugar em que o contato entre pessoas se torna encontro, reunião, interação; ou seja, lugar onde as pessoas que estão passando finalmente pausam e se aglomeram – entendemos que vários atributos sejam necessários para que ela cumpra com êxito seu papel. Não obstante, algumas praças podem aglomerar mais pessoas que outras, apresentando maiores ou menores níveis de presença de pessoas.
Figura 18- Mapa de visibilidade do Campus da UnB, da área onde se concentram as edificações. As áreas vermelhas na margem sul do ICC são as mais integradas visualmente, pois se encontram livres de barreiras visuais. O acesso às edificações, inclusive os acessos norte e sul do ICC, apresentam visibilidade moderada alta (em laranja). Fonte: RODRIGUES, 2007.
Capítulo 2 – Aspectos teóricos, metodológicos e técnicos
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A presença de pessoas no espaço público está diretamente relacionada ao conceito de urbanidade, proposto por HOLANDA (2010c), que envolve a arte da convivência entre as diversidades: “Urbanidade é um atributo social que implica visibilidade do outro, negociação de papéis e frágeis fronteiras entre eles, mobilidade social, estruturas societárias mais simétricas etc.”
Conforme o autor, o princípio pode também ser estendido ao campo da arquitetura, de modo que podemos falar em urbanidade social e urbanidade arquitetônica:
‘Urbanidade’ obviamente se refere à cidade enquanto realidade física, mas também à qualidade de ‘cortês, afável, relativo à negociação continuada entre interesses. (...) Destrinchando a questão, podemos falar em urbanidade social – quando os atributos estiverem relacionados a modos de interação social – e urbanidade arquitetônica – quando os atributos estiverem relacionados ao lugar (HOLANDA, 2010c)
No que concerne à arquitetura, o termo “urbanidade” é utilizado para se compreender possíveis implicações das configurações dos lugares para o convívio das pessoas neles. Uma arquitetura que permita o florescimento da urbanidade se caracteriza fisicamente e de modo geral, por: a) espaço público bem definido; b) minimizar espaços abertos em prol dos ocupados; c) contiguidade entre edifícios; d) menores unidades de espaço aberto (ruas, praças); e) frágeis fronteiras entre espaço interno e externo, ou seja, maior número de portas abrindo para lugares públicos (jamais paredes cegas, sem janelas e/ou portas); f) minimizar espaços segregados27,
guetizados (becos sem saída, condomínios fechados) e efeitos panópticos pelos quais tudo se vê e vigia; g) continuidade e alta densidade do tecido urbano etc.
O que é contrário à urbanidade apresenta-se como atributos ou variáveis que tendem à formalidade. HOLANDA (2002) esclarece, no entanto, que essas são tendências polares de um modelo teórico e que pode haver conflito entre atributos de um mesmo espaço, alguns pertencendo ao paradigma da formalidade, outros ao paradigma da urbanidade.
A Esplanada dos Ministérios (figura 19) e sua grandiosidade “magnificente” podem ser comparadas à grandiosidade que emociona de outros lugares da história – como as Pirâmides de Guizano Egito antigo (figura 20), os Champs Élysées em Paris (figura 21), o
27 Espaços urbanos segregados ou isolados entre si por descontinuidades espaciais configuram uma entidade urbana descontínua e agravam estados de segregação espacial e derivados – implicam dificuldade de circulação, concentração de renda, distanciamento entre ricos e pobres etc.
Mallem Washington (figura 22), a Avenida dos Morto sem Teotihuacán, México pré-Colombo(figura 23), o centro cerimonial de Uxmal, México pré-Colombo, e a Cidade Proibida em Pequim, na China (HOLANDA, 2010c). Esses exemplos apresentam atributos
de formalidade em comum, como:
(...) a grande dimensão dos espaços abertos; a forte axialidade (o comprimento muito maior que a largura); o conjunto, ou os edifícios mais importantes, estarem sobre terraplenos, a destacá-los ante o entorno; os prédios serem soltos, lidos como volumes claros na paisagem; as transições entre o interior e o exterior serem elaboradas mediante diversos artifícios – escadarias, rampas, passarelas sobre espelhos d’água, túneis; o lugar ser especializado nas funções superestruturais da ordem social – política ou ideologia; exceto pelos trabalhadores especializados que abriga, não haver presença rotineira dos habitantes. Só dois exemplos têm todos os atributos: a Esplanada de Lucio Costa e a Avenida dos Mortos, em Teotihuacán (HOLANDA, 2010c).
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Figura 20- A monumentalidade formal da Grande Pirâmide de Guiza, no Egito. Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikimedia/common/e/e3/kheiops-pyramid.jpg. Figura 21- A monumental avenida parisiense Champs Élysées. Fonte: http://paris.franceprovince.net/paris/paris/images/champselysees.jpg
Figura 22-O Mall é um espaço monumental a céu aberto compreendido entre o Capitólio e o Monumento de Washington, no centro administrativo de Washington, D.C. Fonte:http://www.meticulous.com/media/portfolio_img/3d/2012/Mall_shot_plate.jpg
Figura 23- Exemplo de monumentalidade formal, a Avenida dos Mortos, em Teotihuacán, México.
Fonte:http://1.bp.blogspot.com/_FIgm5rFAn2Q/TAUiixWSwJI/AAAAAAAAASM/pfdOBdJd2UU/s1600/mexico_fig.jpg
A monumentalidade dos exemplos anteriores é aquela em que predomina a formalidade, mas existe outro tipo de monumentalidade. HOLANDA (2010c) contrapõe aos exemplos de “monumentalidade formal” alguns exemplos de “monumentalidade urbana”: a Piazza San Marco em Veneza (figura 24), a Piazza dela Signoria em Florença(figura 25),a Piazza del
Campo em Siena, a Cinelândia no Rio de Janeiro, a Praça Tiradentes em Ouro Preto. As praças citadas como exemplos de
monumentalidade urbana são espaços públicos notáveis, que se destacam na cidade seja por suas amplas dimensões, pelos edifícios ímpares ou pelas funções que abrigam (governamental ou religiosa). A despeito disso, são também espaços públicos abertos que abrigam o uso cotidiano, a vida secular, por onde passam e se aglomeram pessoas.
Praça cívica caracterizada por uma monumentalidade urbana, a Piazza del Campo de Siena(figura 26) é também uma praça emblemática da passagem da Idade Média para o Renascimento, período de fortalecimento do poder civil separado da Igreja, de
ressurgimento do comércio e de preocupação com a beleza do ambiente construído. Estrategicamente localizada no centro geométrico da área povoada e na confluência de ruas que eram prolongamento das três principais vias de acesso da cidade, a praça começou a ganhar sua forma atual em 1293. Reconfigurada no final do século XII, quando foi construído o Palazzo Pubblico (prefeitura), ocupa o sítio de um antigo fórum romano e do principal mercado de Siena. Suas amplas dimensões permitiam abrigar o mercado, reuniões e cerimônias públicas. Concluída em 1349, a praça tinha forma de um trapézio de cantos arredondados e media aproximadamente 85m nas bases e 100m na altura (figura 27).
Figura 24-Piazza San Marco em Veneza. Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/05/Venice_-_Piazza_San_Marco.jpg Figura 25-Piazza dela Signoria, em Florença. Fonte:http://lh6.ggpht.com/_SQDf11XgLx0/SlsfsjA0_mI/AAAAAAAABDw/KrvM7OcRTJE/16.JPG
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Figura 26-A Piazza del Campo e sua urbanidade. Fonte: http://www.travelpod.com/travel-blog-
entries/annalisamurray/1/1259687482/tpod.html#pbrowser/annalisamurray/1/1259687482/filename=piazza-del-campo-siena-italy.jpg
Figura 27-A praça cívica Piazza del Campo configura-se como um polígono em forma de leque, é bem delimitada pela arquitetura e possui onze acessos. Sua forma é irregular e os fluxos são multidirecionais. Fonte: ALEX, 2008, p. 33.
ALEX (2008) pontua que sensação de fechamento do espaço da praça, proporcionada pela arquitetura, é ampliada pela curva e o relevo do lugar. Além do fechamento arquitetônico, a praça possui onze acessos: cinco sob edifícios que a circundam e seis a céu aberto. O espaço também conta com um sistema hierarquizado de vias perimetrais para veículos e múltiplas vielas para pedestres.
A pavimentação em tijolo e delimitada por balizas humaniza a escala, direciona o olhar e conduz a drenagem superficial. As balizas também organizam o tráfego de veículos, reforçando o desenho do “piso-praça”, e não o da rua. O Palazzo Pubblico se flexiona ligeiramente para conformar-se à praça e ao relevo. A torre/campanário de 86m de altura é marco referencial da praça e da cidade. A Piazza del Campo é, conforme ALEX (2008), um centro social e um espaço aberto integrado ao tecido urbano, “um amálgama das funções sociais e formas físicas atribuídas por topografia, sistema de ruas e caminhos e arquitetura, em que delimitação e definição espacial se fundem”. A ideia de praça “como plano inclinado convergindo para o edifício público propagar-se-ia como um dos arquétipos mais admirados de praça cívica e é imitada até hoje” 28.
Ao analisar diversas praças históricas, parques urbanos, projetos modernos americanos do pós-guerra, até chegar à análise de algumas praças da área central de São Paulo, ALEX (2008, p.279) identifica influências e riscos de transposição de valores estéticos ao projeto do espaço público:
A partir dos anos 1960, os projetos ostentaram uma crescente preocupação com o design ‘interno’ imbuído de programas funcionais, acessos controlados e desconsideração com o entorno. (...) e incorporaram, a partir da década de 1980, um ‘verdismo’ higienista mais contundente que o do século XIX e, recentemente, demandas universalizantes, como permeabilidade do solo e segurança. A cada inserção de novos valores, produziram-se praças mais fechadas ao acesso público e restritas ao uso coletivo, afastando, sob o acúmulo de atribuições, como recreação ou infraestrutura urbana, a praça de suas funções essenciais originais: convívio social e articulação do tecido urbano.
Para ALEX (2008), a integração da praça com o entorno e sua articulação com o tecido urbano são os princípios a serem resgatados para se favorecer a urbanidade, a presença e o convívio de pessoas nesses espaços. Outra condição que favorece a urbanidade é procurar estabelecer as dimensões do espaço em conformidade com as atividades desenvolvidas na praça, considerando que as dimensões muito grandes dificultam o contato visual e interpessoal e que as praças demasiadamente grandes normalmente têm sua capacidade máxima ocupada somente em eventos especiais ou eventos públicos de grandes proporções. Também é interessante que
28 A City Hall Plaza Boston e o Centro Georges Pompidou são exemplos de projetos inspirados na Piazza del Campo, entretanto, com resultados bem diferentes.
Segundo CARR et al. (2005 apud ALEX, 2008), a City Hall Plaza de Boston é “gigantesca, vazia e sem vitalidade”, enquanto o Centro Georges Pompidou é “uma entrada grandiosa para o museu e uma arena para atividades públicas variadas”.
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o espaço seja permeável, alimentado por portas e janelas que favorecem o entrar, sair, passar através, ver e ser visto, encontrar. E, por fim, é mais conveniente para evitar a subutilização do espaço e a falta de vitalidade, que a configuração da praça permita diferentes usos (comercial, religioso, cívico, cotidiano) mesmo que se dê uma ênfase maior em algum deles.