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PROSESSER MED TEKSTER

22 SPRENGNING I DAGEN

O processo de recordar é bastante diferente quando ouvimos diversas pessoas, variando, de pessoa a pessoa e conforme o momento em que ocorreu o fato, a importância que se deu ao acontecimento. Em cada esforço de lembrança, o passado foi reconduzido, atualizado, revelando as formas mais significativas para cada diretora entrevistada e mostrando a relação única e peculiar estabelecida com seu próprio passado. Para Halbwachs (1993) e Bosi (2006), reenfatizamos, a memória não é sonho, é trabalho, e lembrar não é reviver, mas refazer o percurso, repensando e reconstruindo, com imagens e idéias de hoje as experiências do passado.

[...] havia crianças que chegavam na escola machucadas e eu ia pessoalmente à casa delas ver o que estava acontecendo. Eram crianças mantidas trancadas dentro de casa, os pais saiam para fazer trabalhos “evangélicos”, [...] então eu tinha que tomar

providências. [...].Teve um caso que me comoveu demais: uma tarde depois do término as aulas, fui até a casa de uma criança que estava faltosa; a criança estava sozinha, amarrada numa corrente sentadinha numa sala, brincando com um caminhãozinho. Aquele caso me chocou profundamente [...] procurei imediatamente o promotor de justiça, que era na época Dr. Carlos Brandão. O promotor foi lá e tirou a criança dos pais [...] ela era muito maltratada [...] tinha apenas oito anos. Outro fato marcante foi de um aluno que morava no Cristal, um bairro de Pouso Alegre; ele começou a apresentar problemas na escola, [...] eu procurei saber o que estava acontecendo com esse menino, [...] ele foi conversar comigo e fiquei sabendo que a mãe dele, [...] morava com o assassino do pai [...] que o menino era maltratado [...], tive que achar a mãe [...] falar com ela. Ela continuou morando com aquele homem porque depois a criança saiu da escola. [...] foi uma coisa que me marcou muito, porque fiquei com muita pena do menino [...], ele estava no direito dele de não aceitar o assassino do seu pai.

(Terezinha) [...] nós plantamos no pátio duas árvores de carvalho e uma de pau-brasil; elas cresceram, [...] depois de um tempo, [...] em um período de férias alguns funcionários da prefeitura entraram no pátio da escola e cortaram as árvores [...], disseram que cortaram para fazer uma extensão do pátio, [...] não sei o que eles pensavam [...] as árvores eram um patrimônio da escola. Para falar a verdade, depois disso eu nunca mais vi uma árvore de pau-brasil plantada em lugar nenhum, [...] eu fiquei muito aborrecida [...], este fato eu não vou esquecer nunca [...].

(Diva) Eu vou contar um fato marcante: quando a Dona Celina começou lá como inspetora ela era muito exigente. No início a gente ficou com um pouco de medo, ela ajudou muito a gente. Nosso trabalho

era muito sério, nós não escondíamos nada. Eu me lembro na época as escolas aceitavam as crianças com menos de 7 (sete) anos para a primeira série sem atestado da psicóloga. Nós não aceitávamos, a não ser que os pais levassem o atestado.

(Ana Abdala)

Na análise das entrevistas, ficou evidente que os alunos eram considerados aspectos de referência para as diretoras:

[...] pela Escola Estadual “Monsenhor José Paulino” passaram muitos alunos que se projetaram na história de Minas Gerais e do Brasil; isto era um orgulho muito grande para mim.

(Jahel)

A escola “Dr. Delfim Moreira” chegou a ser a melhor escola de Santa Rita do Sapucaí, mesmo sendo uma Escola Estadual [...] Era uma escola que os alunos iam fazer vestibular para estudar na Escola Técnica de Eletrônica e brilhavam, até alunos da sétima série iam fazer para ver como estavam e passavam. A Escola Técnica de Eletrônica era e é uma escola muito conceituada, na época vinha gente de todo o Brasil estudar lá, o vestibular era muito difícil, vinha gente até do exterior fazer o curso Técnico de Eletrônica lá.

(Ana Abdala)

Alguns diretores referem a oportunidade de acompanhamento (das mais variadas formas) como decisiva para o bom andamento das escolas em que atuavam Extrapolando suas jornadas de trabalho, recepcionando os alunos na chegada e despedindo-se deles na saída, acompanhando, em parceria com os colegas, as atividades dos professores mais ausentes, acompanhando os alunos no recreio, enfim, permanecendo ao lado dos alunos sempre que possível.

Em uma das reuniões com os professores, eles me pediram que eu não aceitasse os alunos na diretoria. Então respondi: tudo bem, eu vou pôr a minha mesa e o meu material no pátio para que eu esteja junto dos alunos [...] é o aluno o foco da educação, é através dele que nós vamos fazer o nosso trabalho [...], de acordo com as necessidades dele.

(Maria Ivaneide) Eu me preocupava muito com os alunos que não podiam ter uniforme, nós dávamos desde o tênis até a merenda, cadernos e lápis.[...]. Eu fazia tempo integral na escola, almoçava na cantina para não ir em casa. Eu subia umas 20 vezes por dia, eram muitos alunos e para acompanhá-los bem de perto não era nada fácil.

(Leyde) Minha mãe reclamava porque eu não tinha tempo para ela, só para as crianças [...] eu funcionava também como assistente social, eu creio. Quantas vezes eu deixei a aula espichar, porque estava chuvoso, outras vezes, armando muita chuva, eu me preocupava muito, e pensava: como estas crianças vão embora caminhando serra acima [...] meninos de primeira série tinham que andar a pé de três a cinco quilômetros.

(Deolinda)

Um dos destaques da Lei 5.692/71 foi a ampliação da chamada educação obrigatória, estendendo-a até a 8ª série do 1º grau.

Quando! Não me lembro bem o ano, fui dar pela coisa que a gente precisava estender as séries [...] Senador José Bento, era uma cidadela, foi o primeiro local que nós conseguimos extensão de séries de quinta a oitava série. Nós dependíamos da Delegacia de Ensino de Itajubá,[...] enquanto estávamos montando o projeto para extensão de série íamos muito até a Delegacia de Ensino. Um

dia percebi que elas estavam segurando o processo, então falei para uma funcionária chamada Marina: vocês estão prendendo o nosso projeto porque vocês acham impossível uma cidade como Senador José Bento ter de quinta à oitava série? Vou te dizer uma coisa, Marina, meu marido é prefeito, é uma das metas dele também, ele não vai desistir. É melhor vocês autorizarem porque [...] meu marido tem boas amizades em Belo-Horizonte e ele falou: se não sair por aqui, vai sair por lá.[...] Aí conseguimos. Foi uma luta muito grande [...] foi muito difícil para conseguir.

(Deolinda ) Na Escola Estadual “Monsenhor José Paulino” só tinha até quarta série primária, [...] fui apresentada para o Governador de Minas Gerais Dr. Tancredo Neves. Quem me apresentou foi o queridíssimo Dom José D’Ângelo Neto, bispo de Pouso Alegre que foi um pai para mim, ele era amigo de Tancredo Neves. E fizemos a reforma do prédio da escola, construímos quatro salas de aula e fizemos a extensão de série, até oitava série, tudo isto era um meio para trazer o povo para a escola.

(Jahel) [...] eu fazia questão de ter tudo para proporcionar àquelas crianças tão carentes. Crianças do turno da manhã, voltavam para tomar sopa no período da tarde; foi um trabalho gratificante, muito gratificante [...] depois eu implantei na escola de 5ª(quinta) à 8ª(oitava) série [...] pude dar maior assistência para aquelas crianças.

(Terezinha Alves)

Para garantir o alcance dos objetivos educacionais e para superar as dificuldades, é indispensável ao diretor escolar a visão da complexidade da escola, do cumprimento da legislação vigente, da totalidade das suas funções, da sociedade e do mundo.