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Com o recrudescimento da censura imposta pela ditadura militar que governava o Brasil, a partir do Decreto do Ato Institucional Número 5 (AI-5), a imprensa nacional viu tolhida como nunca a sua liberdade de expressão. Somente o que passava pelo crivo dos censores militares é que podia ser publicado. A situação chegou a tal ponto que o jornal O Estado de São Paulo, assim como o Jornal da Tarde, ambos pertencentes à mesma empresa, durante muito tempo usaram receitas de bolo ou versos de Camões nos espaços destinados originalmente às matérias que haviam sido vetadas pelos funcionários do regime. Por conta principalmente (mas não somente) disso, surgiu no espaço territorial brasileiro um grande número de jornais chamados “alternativos”.
Durante a ditadura militar, a censura à imprensa teve diversos momentos e se implantou segundo diferentes modelos. Deve-se assinalar que como quase toda a grande imprensa apoiou o golpe de 1964, com alguns dos jornais e seus proprietários participando ativamente da conspiração para derrubar João Goulart, houve um momento em que os próprios jornais, rádios e televisões praticavam uma espécie de autocensura, procurando construir versões das informações favoráveis ao regime autoritário, seguidamente apontado comoo “salvador da democracia” contra o perigo comunista. (MARTINS e LUCA, 2012, p. 238)
Produzidos de forma “não convencional”, o conjunto dos jornais “alternativos” também passou à história como “imprensa nanica”. O primeiro deles foi fundado em 1964, no Rio de Janeiro, pelo jornalista Millôr Fernandes, logo depois da tomada do poder pelos militares e chamava-se Pif-Paf. Depois vieram muitos outros (mais de uma centena), entre os quais alguns que ficaram famosos e marcaram época. Casos de O Sol, Em Tempo, Coojornal, Opinião, Versus, Movimento, De Fato, Repórter, Bondinho e Pasquim.
No Acre, dois desses jornais ditos “alternativos”, ambos de iniciativa da Igreja Católica, marcaram época: Nós Irmãos (1971) e Varadouro (1977). Sobre a criação destes dois jornais, vale à pena conhecer a explicação dada por Tatiana Costa (2007, p. 65).
Os governos militares queriam, através de políticas e medidas estratégicas, integrar a Amazônia à economia e sociedade nacional, derrubando a floresta e promovendo a expansão da fronteira agropastoril. Milhares de trabalhadores seringueiros e extrativistas foram expulsos de suas terras, ocupadas há várias gerações, muitas vezes de forma violenta. Surgiram então movimentos de resistência à bovinização, invasão e tomada de terras pelos ‘paulistas’, termo pelo qual ficaram conhecidos os fazendeiros de outras regiões do país que vinham ao Acre em busca de terras, protagonizados por índios, ribeirinhos e seringueiros. Neste contexto de violência, perseguição e censura surge e a imprensa alternativa, ligada às transformações sociais desencadeadas pelos acontecimentos iniciados na década de 1970. (COSTA, 2007, p.65)
O jornal Nós Irmãos era um boletim diocesano, editado pela Igreja Católica acreana, na gestão do bispo D. Moacyr Grechi, a partir de 1971. O principal objetivo era ser usado como veículo de comunicação entre a Igreja e os fiéis reconhecidos como pobres e oprimidos. Inicialmente era publicado com seis páginas (três folhas de papel A4 dobradas ao meio e grampeadas), com uma tiragem de duzentos exemplares. Alguns anos depois, esse jornal chegou a circular com 36 páginas e mil exemplares por edição, sendo distribuído em todos os Centros Comunitários e em centenas de grupos católicos de evangelização, ambos ligados às Comunidades Eclesiais de Base (CEB’S). De circulação marcada pela descontinuidade, Nós Irmãos parou de circular em 1983, mas voltou às mãos dos fiéis em 1984, permanecendo em circulação até 1986. Depois disso, ganhou ainda uma sobrevida, circulando por algum tempo no ano 2000. De acordo com Assmar (2007, p. 102), esse boletim defendia as ideias da teologia da libertação, servindo como uma espécie de órgão de resistência contra as atitudes de violência tão frequentemente desencadeadas no Acre, em função dos conflitos de terras, bem como tratava de dar visibilidade aos direitos dos trabalhadores rurais, discorrendo sobre todos os pontos do Estatuto da Terra.
A contribuição das Comunidades Eclesiais de Base, as CEB’S, encontrava- se no fato de ser este um movimento de suporte para outras lutas populares, atuando como forma de conscientização do povo frente às desigualdades impostas pelas condições precárias de sobrevivência encontradas pelas pessoas que chegavam às cidades oriundas da zona rural. Lançadas com o intuito de deter o avanço das Igrejas Evangélicas, as CEB’S funcionavam, ainda, como abrigo que o povo encontrou para defender-se do Estado cada vez mais opressor. (ASSMAR, 2007, p. 102 e 103)
No dizer de Costa Sobrinho, sintetizando a importância do boletim Nós Irmãos, este acabou se tornando “o escoadouro natural de todas as denúncias contra a opressão dos pobres, orientador dos movimentos e porta-voz de suas reivindicações” (2001, p. 153). Quanto ao
trabalho de evangelização propriamente dito, elemento, em tese, primordial das ações da Igreja, a este, explica Costa Sobrinho, “sobrava pouco espaço, mesmo levando-se em consideração que as novas práticas pastorais não dissociavam a religião da vida quotidiana das comunidades cristãs” (2001, p. 153).
Chegou um momento, porém, por volta de meados de 1975, que os criadores do boletim Nós Irmãos, mais especificamente o bispo D. Moacir Grechi, entendeu que o jornal já não atendia à demanda por espaço dos movimentos sociais. E então o bispo católico passou a pensar na criação de outro periódico, com formato diferente, impresso em gráfica e distribuído em bancas de revistas, que ficasse disponível a toda a comunidade. Começava a germinar o jornal Varadouro, cujo primeiro número viria à lume em 1977, permanecendo vivo e marcando sua passagem pelo povo do Acre como um veículo que divulgava o que os demais jornais do período excluíam das suas páginas.
Diferente de qualquer outro jornal que já havia desde sempre circulado no espaço geográfico do Acre (Território ou Estado), o Varadouro ampliou as possibilidades de divulgação das lutas populares iniciada com o Nós Irmãos. Para os editores do novo jornal, explica Costa Sobrinho (2001, p. 160), apenas a versão de posseiros, seringueiros e índios (os povos oprimidos) era merecedora de credibilidade, isso tanto no que diz respeito à cidade quanto à floresta.
No projeto editorial do Varadouro ficou evidenciada claramente a sua opção por índios, posseiros e seringueiros. Esses três personagens centrais estavam intimamente ligados à questão da terra, pois dela eram despossuídos na ótica das classes dominantes agrárias: seringalistas e fazendeiros (...). Ao dar voz à gente da floresta, Varadouro informava ao público local dos conflitos que estavam acontecendo ao seu redor, denunciava a violência de fazendeiros e seringalistas e apoiava o movimento de resistência dos oprimidos. Os editores do alternativo já contavam com a cobertura da imprensa nacional para uma parte dos conflitos que vinham ocorrendo, todavia a circulação dessa imprensa era mínima em Rio Branco, e quase nula no resto do Estado. Diante disso, coube ao jornal combater a desinformação veiculada pelos jornais locais, e atrair o apoio de parcela importante do público acreano para a causa dos deserdados: índios, posseiros e seringueiros (...). (COSTA SOBRINHO, 2001, p. 179)
Graficamente, pode-se dizer que o Varadouro era um jornal despojado de maiores recursos estéticos, primando por um estilo rústico e artesanal. Quanto à linguagem, os redatores procuravam evitar rebuscamentos, prevalecendo a linguagem do conflito em algumas ocasiões; em outras a linguagem era a da indignação. Além disso, segundo Costa
Sobrinho (2001, p. 160), procurava-se redigir textos usando uma linguagem compromissada com a cidadania, a ética, o respeito às etnias etc.
O texto era direto, simples, coloquial. Muitas vezes os depoimentos foram transcritos do gravador, passados a limpo e jogados no jornal, sem que houvesse maior preocupação com na elaboração da escrita. Um estilo jornalístico bastante experimental, que obteve uma boa repercussão, e daí por diante foi melhor elaborado, passando a ser a marca registrada do jornal. (COSTA SOBRINHO, 2001, p. 160)
Foram quatro anos de existência e 24 edições do Varadouro. Jamais a periodicidade mensal proposta foi conseguida. As dificuldades eram inúmeras, no final dos anos de 1970 e início da década de 1980, para se fazer um jornal no formato tabloide, com vinte páginas, e uma tiragem de cinco mil exemplares no Acre (os outros jornais circulavam com tiragens mínimas de 300 a 500 exemplares). Além do mais, para aumentar as dificuldades, o Varadouro jamais teve oficinas próprias, dependendo sempre do serviço de terceiros para a respectiva impressão. “Até o papel se constituía um problema, pois era necessária a formação de estoques para o consumo de pelo menos cinco meses” (COSTA SOBRINHO, 2001, p. 161). Esses cinco meses aludidos por Costa Sobrinho referem-se a um período de tempo em que acontece a estação das chuvas na Amazônia, sendo que na época não havia asfalto na BR 364, ligação rodoviária com o centro-sul do país, o que impedia o tráfego dos veículos de transporte de cargas pesadas. “No caso do Varadouro, suas edições exigiam um estoque de aproximadamente 200 resmas de papel plano 96 x 66 cm., para aguentar com folga o período” (COSTA SOBRINHO, 2001, p. 161 e 162).
Na última edição do mais emblemático dos alternativos acreanos, em dezembro de 1981, uma estranha coincidência. Como se anunciasse a sua própria extinção, o jornal abriu a seguinte manchete: “Movimento Morreu! Viva Movimento”. A matéria anunciava o fim da circulação do semanário alternativo Movimento, depois de 334 edições. “Por força do destino ou mera coincidência”, diz Costa Sobrinho, “o réquiem do Varadouro para o alternativo Movimento bem que poderia ser tomado como seu próprio necrológio” (2001, p. 164).
Como causas da morte do tradicional semanário brasileiro, evidenciam-se as de que o jornal já não conseguia sustentar os níveis de venda dos primeiros tempos e os atentados à bomba, sofridos pelas bancas que o vendiam. A notícia publicada pelo Varadouro, como se este falasse de si mesmo, transmutando uma realidade nacional para uma configuração regional, explicava o importante papel que o alternativo havia cumprido com sua linha editorial: “defesa intransigente das liberdades democráticas, independência nacional, e da
elevação do padrão de vida material e cultural dos trabalhadores” (COSTA SOBRINHO, 2001, p. 164).
O jornal acreano, à semelhança do que aconteceu com editores e repórteres de congêneres de outros estados brasileiros, recebeu muitas ameaças e sofreu constrangimentos sofridos. Mas nenhuma das suas edições foi censurada, muito menos bancas foram explodidas em represália pela venda. “Contudo, o nº 24, de dezembro, foi a última edição do jornal das selvas, que desapareceu em silêncio, sem uma explicação pública aos seus leitores” (COSTA SOBRINHO, 2001, p. 164).