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36 BELYSNING, VENTILASJON OG SIKKERHETS- SIKKERHETS-UTRUSTNING

36.43 Kringkasting og radiokommunikasjon

Homem mente sempre, quando fala de si mesmo. Dostoiévski

4.1- O rato e a trama escritural

Recortes de realidades em exposição. Retalhos de imagens zoomórficas, familiares, de amizade, de objetos repetindo-se com insistência ora duradoura, ora passageira na memória de Luís da Silva. Flashes instantâneos que o fazem recordar das situações ocorridas e tramar as ações. Nesse tecer silencioso da palavra, erige-se a figura do rato, “acuado” na própria narrativa e agindo sorrateiro na escrita por ele mesmo contaminada: “Vitória resmunga na cozinha, ratos famintos remexem latas e embrulhos no guarda-comidas” (A., p. 8).

O rato, imagem que se dissemina no traçado escritural, espalha-se pelas micro- narrativas, ora infectando-as, ora rasgando-as. Poderosamente incontido como uma peste, esse rato-narrador percorre os espaços do discurso em diferentes direções significativas.

A partir da observação desse repugnante roedor que, fora de seu habitat natural, age na civilização e incomoda os humanos, Luís da Silva também se transforma neste ser, num intenso processo de mutação semântica. Ao modo do rato urbano, invasor e ladrão, que desvia a atenção do redator de sua tarefa – escrever o artigo para o jornal – insinua-se na roedura do nome Marina – “Em duas horas escrevo uma palavra: Marina. Depois, aproveitando letras deste nome, arranjo coisas absurdas: ar, mar, rima, arma,

ira, amar. Uns vinte nomes.” (A., p. 8).

O jogo textual adquire a confirmação do recorte, antecipando, na materialidade da palavra, o que se verá ao longo do romance: o rompimento do indivíduo e o processo que leva do uno ao múltiplo.

A cena acima mostra, logo em seguida, um fato curioso: a chuva de palavras começa a dissipar, interrompendo a divagação e o processo de criação. Nesse momento, Luís põe-se, novamente, em posição de auto-anulação:

Quando não consigo formar combinações novas, traço rabiscos que representam uma espada, uma lira, uma cabeça de mulher e outros

disparates. Penso em indivíduos e em objetos que não têm relação com os desenhos: processos, orçamentos, o diretor, o secretário, políticos, sujeitos remediados que me desprezam porque sou um pobre diabo. (A., p.8)

Desse segmento quase inconsciente de geração de imagens, nascem novos elementos que fazem parte do pensamento de Luís da Silva, diluindo a imagem Marina. Somam-se, ainda, pedaços de contextos “reais”, que se encontram e passeiam pela imaginação do narrador, porém, sem se misturarem, ou seja, como blocos estanques essas imagens se avolumam construindo uma pilha de elementos desconexos – lixo do cotidiano favorável ao esconderijo do rato.

O trecho evidencia, também, a facilidade que Luís da Silva possui para o distanciamento da “realidade”. Por meio de digressões, o ato escritural se processa e se prova como condição intrínseca da narrativa multifacetada, a fim de conferir o próprio dilaceramento do modo de ser Luís da Silva: como um “rato saudoso”, rói o nome da amada; como um “rato assustado”, encolhe-se nas paredes, tentando fugir do grupo social superior ao seu; como “rato escritor”, não consegue escrever, pois seu pensamento é entrecortado por “desejos violentos de mortandade e outras destruições.” (A., p. 9).

Assim, de uma imagem à outra, o narrador também passa da brincadeira à tristeza e à raiva:

O artigo que me pediram afasta-se do papel. É verdade que tenho o cigarro e tenho o álcool, mas quando bebo demais ou fumo demais, a minha tristeza cresce. Tristeza e raiva. Ar, mar, ria, arma, ira. Passatempo estúpido. (A., p. 8)

Em acepção dicionarizada, fragmentar quer dizer partir em pedaços, dividir, fracionar. Nesse sentido, Angústia configura-se como a própria fragmentação, que deixa transparecer suas quebraduras, e cuja coerência é concebida apenas pela condição totalizante do próprio romance: macro-narrativa somente percebida pelo leitor que alinhava as várias cenas – micro-narrativas – e a elas dá significação. Delas também participa escritor-narrador, que conhece todos os “espaços” narrativos e neles passeia, a fim de conferir-lhes uma unidade na multiplicidade.

Isso não é de se estranhar, uma vez que ratos são animais familiares aos laboratórios de pesquisa. Propício à experimentação, o rato substitui o homem pela

semelhança imunológica, desmentindo qualquer gratuidade na analogia proposta entre o roedor e a personagem Luís da Silva.

Presente e passado se unem por meio das “imagens lúgubres” que Luís da Silva procura “enxotar”, porém elas “vão e voltam, sem vergonha, e com elas uma outra lembrança, intolerável: a de Julião Tavares. Luís se esforça por desviar o pensamento dessas coisas, confessando seu desejo: “Não sou um rato, não quero ser um rato. Tento distrair-me olhando a rua.” (A., p. 9). [grifos nossos]

Apesar do desejo vão – de não querer ser rato – a escritura se comporta como tal à medida que se move com a incrível velocidade do roedor. Ao instaurar a quebra de linearidade por meio das lacunas discursivas, o narrador dinamiza o discurso e materializa a velocidade do pensamento, que não necessita de elementos subordinativos para expressar-se e, portanto, fazer-se compreender.

Ao observar a rua, Luís avista casas de gente rica, de homens que o amedrontam e das mulheres que usam peles caras, diante das quais afirma: “Marina é uma ratuína” (A., p. 10) [grifos nossos]. Embora, a amada não use peles, a construção aglutinada das palavras rata e ruína apontam para a identificação desta com aquelas ou, possivelmente, da porção de Luís-rato que constitui os outros presentes na narrativa. Marina é, nessa ordem de idéias, rata que vive nas ruínas e que colocará em ruínas o edifício interior do autor-narrador.

Já as ruínas exteriores dizem respeito ao quintal da velha casa onde mora e que atrai o “rato-escritor” para um refúgio propício às leituras:

Em janeiro do ano passado estava eu uma tarde no quintal, deitado numa espreguiçadeira, fumando e lendo um romance. (A., p. 32)

[...]

Esse que eu lia debaixo da mangueira, saltando páginas, era bem safado.(A., p. 32-33) [grifos nossos]

Nesse ambiente, marcado pela presença da ficção, é que avistou a “sujeitinha vermelhaça, de olhos azuis e cabelos tão amarelos que pareciam oxigenados” (A., p. 33). No dia seguinte, sentou-se novamente “à sombra da mangueira, com o romance. A coisinha loura tornou a aparecer” (A., p. 34) e atraiu o sujeito feio, de olhos baços, “nariz grosso, um sorriso besta de atrapalhação, o encolhimento que é mesmo uma desgraça.” (A., p 34).

Nota-se que Marina, a ratuína, participa velada, mas intensamente da trama textual. Então, essa imagem nascida do “romance safado” passa a ser lembrada e

associada com imagens desdobradas do rato, agora, condutor de micro-narrativas onde a sedução da mulher é o elemento opressor:

Antigamente era uma existência de cachorro. As mulheres tinham cheiros excessivos, e eu me sentia impelido violentamente para elas. [...]

As ruas estavam cheias de mulheres. E o rato roía-me por dentro. [...]

Convidei d. Aurora e a neta para o cinema. [...]

Na sala de projeção a neta de d. Aurora abriu um leque enorme em cima das coxas e meteu a minha perna entre as dela. Subitamente o rato deixou de roer-me. O que eu estava era indignado. E calculava. Três passagens de bonde – mil e duzentos. Três sorvetes – três vezes cinco, quinze. E entradas no cinema. As coxas da moça eram frias. Com certeza fazia aquilo por hábito. Naquele tempo eu andava como um bode. Mas esfriei também. (A., p. 35) [grifos nossos]

Ou ainda:

Bonitinha, Berta. E mais decente que a neta da d. Aurora. Bonde, cinema, refrescos. Menina viciada. Dagoberto fugia dela. Uma piranha. Ser roído por aquilo! Ah! Não. Lembrava-me dos bancos do passeio, das botinas de elástico bambo. (A., p. 37) [grifos nossos]

Toda essa condição orgânica alimenta a imaginação refrativa de Luís da Silva que, embora deixe transparecer repúdio, sente-se atraído pela condição marginalizada diante da natureza bruta:

O meu horizonte ali era o quintal da casa à direita: as roseiras, o monte de lixo, o mamoeiro. Tudo feio, podre, sujo. Até as roseiras eram mesquinhas: algumas rosas apenas, miúdas. Monturos próximos, águas estagnadas, mandavam para cá emanações desagradáveis. (A., p. 39) [grifos nossos]

Como é possível perceber, a personagem é contaminada pelo cheiro excessivo e se deixa penetrar pelo rato que lhe dilacera as entranhas, levando-o a despertar sua libido. Seu estado fálico também permite a soltura desse rato, que encontra no cenário externo o ambiente hostil e novamente o odor desagradável, convidativo para seres roedores e para Luís da Silva que, como um rato, se sente bem nesse meio e por ele se permite moldar.

O cenário merece destaque, pois é nele que o autor ficcional vive intensamente seus sentimentos paradoxais: repudia o cheiro exalado pelo esgoto, mas é ele que desperta suas idéias anti-sociais; despreza a paisagem, mas é ela que alimenta suas

lembranças, (principalmente seus encontros com Marina); acomoda-se na espreguiçadeira para ler livros sem qualidade, pois maus escritores são os que vendem seu talento, numa sutil crítica autobiográfica àqueles que, como ele, se venderam ao mercado. Essa nova micro-narrativa mostra, assim, a aproximação entre o eu ficcional e o real, apontando para as semelhanças entre Luís da Silva e Graciliano Ramos:

Certos lugares que me davam prazer tornaram-se odiosos. Passo diante da livraria, olho com desgosto as vitrinas, tenho a impressão de que se acham ali pessoas exibindo títulos e preços nos rostos, vendendo-se. É uma espécie de prostituição. Um sujeito chega, atenta, encolhendo os ombros ou estirando o beiço, naqueles desconhecidos que se amontoam por detrás do vidro. Outro larga uma opinião à-toa. Basbaques escutam, saem. E os autores, resignados, mostram as letras e os algarismos, oferecendo-se como as mulheres da Rua da Lama. (A., p. 7)

Percebe-se no fragmento que o “rato-escritor” não pode entrar no lugar em que outros vendem livros, por isso passa enojado por diante de tantas produções, mas desejando ser um “rato de livraria”. Daí que talvez escrevesse um livro na prisão, pois o de poemas já havia sido dilacerado por ele mesmo, em tempos de mocidade.

O capitalismo enoja-o, mas também desperta nele a inveja, principalmente quando se reporta à imagem de seu rival: Julião Tavares – filho de família aristocrata, os Tavares & Cia, “negociantes de secos e molhados, donos de prédios, membros influentes da Associação Comercial, eram uns ratos” (A., p. 44), assim como “Julião, literato e bacharel, filho de um deles, tinha os dentes miúdos, afiados, e devia ser um rato, como o pai. Reacionário e católico.” (A., p. 44). [grifos nossos]

Do “rato de livraria” ao “rato literato e bacharel”, imagens que proliferam distorcidas: o eu e o outro. Postos assim, em paralelo, possuem uma posição comum: atingir um ponto no infinito. Ponto este que se distancia à medida que a linguagem-rato se sente acuada pelo próprio autor, que se contenta em roer a memória ao invés de libertar as imagens. Portanto, o que se tem aqui é, mais uma, vez a escritura feita presa e armadilha de si mesma, emboscada entre paralelas.

Sendo assim, Julião Tavares, uma dessas linhas em paralelo, nos remete à reflexão: “Não há arte onde não há nada a ser vencido” (PINTO, 1998, p. 148). Segundo esse raciocínio, Julião Tavares deveria, em tese para o herói, ser eliminado para que a arte literária de Luís ganhasse vida.

4.2- A invenção do eu pelo processo da criação verbal

Perrone Moisés, em posfácio a Aula (BARTHES, 2004), afirma que as palavras não são usadas como instrumentos, mas postas em evidência – encenadas ou teatralizadas – como significantes. Salienta, ainda, acerca da diferença entre literatura e escritura:

Em Barthes [...] a escritura substitui, historicamente, a literatura (a literatura é representativa, a escritura é apresentativa; a literatura é reprodutiva, a escritura é produtiva; o sujeito da literatura é pleno, pessoal, o da escritura é flutuante, impessoal; etc) (BARTHES, 2004, p. 76).

Posto isto, surge a dúvida acerca do que Luís da Silva, de fato, intenta produzir. Importa enfatizar que, quando tratamos a palavra em Angústia, nos referimos à ficcionalidade de Luís da Silva. No interior da obra, ele é o escritor que constrói sua suposta autobiografia, por meio de um ato escritural.

Segundo essa concepção, estamos diante de um escritor em processo: Luís da Silva é o redator de artigos (escreve-os, pois o trabalho na repartição assim exige, mas escreve por outros), é o escritor de poemas (pratica versos por passatempo, mas, sem conseguir publicá-los, vende-os a jovens estudantes) e, finalmente, é o potencial escritor de romances.

Se lhe dão “um ofício, um relatório, para datilografar, na repartição” (A., p. 07), encara-o, escreve-o, mas deixa claro o desejo de ser literato, reconhecido como escritor: “Às vezes passo uma semana compondo esse livro que vai ter grande êxito e acaba traduzido em línguas distantes. Mas isto me enerva. Ando no mundo da lua.” (A., p. 132). Portanto, esse livro nasce ficticiamente, requisitando que a imaginação do autor ficcional entre em jogo: “Meus parabéns, seu Silva. O senhor escreveu uma obra excelente. Está aqui a opinião dos críticos.” (A., p. 132).

Na fala imaginária do outro, transparece sua latente necessidade de reconhecimento. É inútil apenas sonhar, pois sua estirpe, não o satisfaz. Por isso, quer ser o outro e é no outro que projeta as qualidades positivas que gostaria de possuir. Porque é ao outro – Julião Tavares, literato e bacharel – que pertence o poder, o status, a inteligência, a destreza de oralizar imponentes discursos, a elegância. Diante desse fato, Luís da Silva se rebela:

Foi por aquele tempo que Julião Tavares deu para aparecer aqui em casa. Lembram-se dele. Os jornais andaram a elogiá-lo, mas disseram mentira. Julião Tavares não tinha nenhuma das qualidades que lhe atribuíram. Era um sujeito gordo, vermelho, risonho, patriota, falador e escrevedor. No relógio oficial, nos cafés e noutros lugares freqüentados cumprimentava-me de longe, fingindo superioridade. (A., p. 43) [grifos nossos]

Os mesmos jornais que despendiam elogios “mentirosos” a Julião Tavares acolhiam os textos de Luís da Silva, mas nestes a conformação era oposta: nem o nome, muito menos os atributos do autor ficcional eram divulgados. Seus artigos eram assinados por outros, já que se tratava de textos nos quais inventava desaforos a personalidades políticas influentes.

É justamente por esses indícios de escritura que assinalamos a fragmentação da sua existência: nas marcas de um eu dilacerado, que escreve pela necessidade de buscar a si mesmo – “Encolhi os ombros, olhei os quatro cantos, fiz um gesto vago, procurando no ar fragmentos da minha existência espalhada” (A., p. 44) –, mas que também esconde a culpa de se vender ao mercado, conjugações de um Luís da Silva dilacerado, que começa a se delinear numa escrita bipartida entre o prazer - “Escreveria um livro. A idéia do livro aparecia com regularidade” (A., p. 215) – e o ganho:

Um dia, na pensão de d. Aurora, o meu vizinho Macedo começou a elogiar um desses sonetos, que por sinal era dos piores, e acabou oferecendo-me por ele cinqüenta mil-réis. Nem foi preciso copiar: arranquei a folha do livro e recebi o dinheiro, depois de jurar que a coisa estava inédita. Macedo transigiu comigo umas vinte vezes. Infelizmente voltou para São Paulo sem concluir o curso. Desde então procuro avista-me com moços ingênuos que me compram esses produtos. Antigamente eram estampados em revistas, mas agora figuram em semanários da roça, e vendo-os a dez mil-réis. O volume está reduzido a um caderno de cinqüenta folhas amarelas e roídas pelos ratos. [...]

Trabalho num jornal. À noite dou um salto por lá , escrevo umas linhas. Os chefes políticos do interior brigam demais. Procuram-me, explicam os acontecimentos locais, e faço diatribes medonhas que, assinadas por eles, vão para a matéria paga. Ganho pela redação e ganho uns tantos por cento pela publicação. (A., p. 45) [grifos nossos]

A personagem graciliânica, nesta micro-narrativa, convive com a esperteza e torna-se, portanto, um rato que se deixa dominar pela ideologia capitalista e burguesa, devido à sua subserviência ao mercado. Está diante da deteriorização de valores, tem

consciência do desvio da concepção prazerosa atribuída à escrita e se deixa dominar pela alienação capaz de corrompê-lo.

Diante dessa concepção, o “rato-escritor” continua a roer seu único livro, o de poesia. Dele restam apenas aquelas poucas páginas amarelecidas e já danificadas pelos outros roedores, com os quais se identifica. Mais uma vez, tem-se a fragmentação do eu contida na própria escritura, que confere vida às imagens desarquivadas da memória: o

rato, portanto, se reafirma como imagem que interliga o escritor a seu ato escritural. Daí

a importância dessa imagem-palavra na escritura-roedura.

O rato – ser que dilacera e que corrói – carrega em si toda uma gama de significação para a micro-narrativa do pseudo-escritor Luís da Silva. Em termos da macro-narrativa, porém, o rato vincula-se ao despedaçamento do corpo escritural de um

eu fragmentado e em busca de si mesmo.

O ponto de partida para essa reflexão, a nosso ver, é, sim, aquele livro de poemas esfacelado, primeiramente pelo próprio escritor e, depois, corroído pelos ratos. A devoração gradativa se faz em graus diferenciados: desde o desfazer-se das páginas por dinheiro, até mesmo a possível incompetência de lidar com as palavras que, além de envelhecidas, tinham grande serventia aos destrutivos roedores.

Ora, o rato, considerado simbolicamente pela humanidade como divindade maléfica por disseminar, no Egito e na China antigos, a peste, carrega consigo o estigma da doença e da morte.17 Essa idéia milenar associada à observação de Carvalho (1983) de que o rato “trabalha o texto, tecendo a estranha inquietude, a excitação angustiante, que atormenta o sujeito” (1983, p. 67) validam nossa hipótese de que essa imagem, no âmbito textual de Angústia, é responsável pela proliferação do despedaçamento da escritura, na já constatada excitação angustiante.

Excitação e angústia são duas pontas de uma mesma corda, ou seja, sentimos que se opõem e complementam. Tome-se, como exemplo desse deslocamento, a comercialização e conseqüente desvalorização do livro de poemas cujas páginas, a princípio, foram vendidas a cinqüenta mil-réis e, algumas delas, publicadas, antes de custarem dez mil-réis e figurarem em semanários da roça.

Sob a forte anulação valorativa de seus escritos – “julgo que meus escritos não prestam” (A., p. 45) –, Luís da Silva não faz questão de responder por eles, ao contrário, renega-os. Seria, então, sua tarefa um hábito, uma obrigação? Como resposta, ele nos

17

diz: “Habituei-me a escrever, como já disse” (A., p. 45) [grifos nossos]. Essa fala nos revela que o prazer para Luís da Silva existe apenas como possibilidade distante da escritura do sonhado livro, enquanto todo o resto não passa de hábito.

O diálogo intrínseco, implementado pelo narrador com seu leitor virtual, ganha ainda ares confessionais. Luís, ao eximir-se da culpa, explica seu fracassado intento escritural, que, junto com a negação, faz aflorar o ódio por Julião Tavares: “Ora, foi uma vida assim cheia de ocupações cacetes que Julião Tavares veio perturbar. Atravancou-me o caminho, obrigou-me a paradas constantes, buliu-me com os nervos.” (A., p. 46).

A escritura encena a linguagem e faz sentir a presença de seres que emergem do texto. Luís da Silva escritor faz emergir o Luís da Silva narrador-personagem, ser fragmentado, que carrega consigo múltiplas experiências, duas delas de imprescindível valor: a primeira está presente na constante projeção do assassinato de Julião Tavares; a segunda, na eliminação do rival. A valoração dessas cenas está no paralelo entre duas outras instâncias significativas:

I- Julião Tavares – vivo ≡ Luís da Silva – mero escritor de artigos e leitor de livros vagabundos.

II- Julião Tavares – morto ≡ Luís da Silva – escritor de livros ficcionais (seu intento) Percebe-se que a equação configura a imagem da própria anulação de sua tarefa de escritor de artigos, em prol da escritura ficcional: “Sair de si mesmo, ser outro, ainda que seja ilusoriamente, é uma maneira de ser menos escravo e de experimentar os riscos da liberdade” (LLOSA, 2004, p.23). Entretanto, a liberdade não fez de Luís da Silva um ser melhor; livre, o narrador-personagem ousou transformar-se num ser aquém do mero redator da vida cotidiana: transportou-se da redação para o esconderijo, como rato acuado:

Olhei os quatro cantos. Não tinha nada com aquilo. Ia trancar-me, enrolar-me nos lençóis, tremer, ranger os dentes como um caititu. Não tinha nada com aquilo.

[...] Senti-me vítima de uma grande injustiça e tive desejo de chorar. [...]

- Não fui eu. Escrevo, invento mentiras sem dificuldade. Mas as minhas mãos são fracas, e nunca realizo o que imagino. (A., p. 217) [grifo nosso]

É possível associar essa não realização ao fracasso do romance que sempre desejara escrever. Mas, então não seria ele, o autor de uma ficção em que uma das