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Para os teóricos do Pentecostalismo clássico do Brasil e da América Latina24, a face pentecostal do meio evangélico sempre foi compreendida como um refúgio das classes populares e como local de reintegração dos laços sociais perdidos com a transferência de enormes contingentes do meio rural para o urbano. As firmas pentecostais desempenhariam o papel de formadora de comunidades fraternais capazes de integrar os não privilegiados. Nas palavras de Willems (1967 apud MARIANO, 2001, p.49):

A rápida expansão das seitas pentecostais se deve a sua capacidade de suprir certas necessidades e aspirações dos indivíduos expostos aos impactos das mudanças socioculturais que não conseguem dominar nem compreender. Nesse contexto de elevada migração e drásticas transformações da estrutura social, as comunidades pentecostais cumprem as funções de reconstruir as relações primárias e a identidade perdida dos que percorrem o trajeto rural-urbano. Willems (1967) foi o primeiro pesquisador a estudar o crescimento do Pentecostalismo. Na sua visão, a rápida expansão do Pentecostalismo estaria, intimamente, associada ao fato de que os grupos pentecostais atendiam às necessidades particulares e correspondiam a certas aspirações das massas expostas às fortes mudanças sociais ocorridas no Brasil, a partir da década de 1930. Na visão desse autor, o Pentecostalismo é funcional, pois funcionaria como:

24 Principalmente Emílio Willems (1967), Cândido Procópio (1968, 1973), Beatriz Muniz de Sousa (1969, 1973) além de Francisco Cartaxo Rolim (1985).

Instrumento de adaptação das massas recém-chegadas do meio rural ao mundo urbano. As comunidades pentecostais forneceriam ao migrante a coesão e a segurança necessárias para a vida em um ambiente novo e hostil, como também proporcionariam oportunidades sociais e econômicas para os adeptos (1967 apud SIEPIERSKI, ibid, p. 566-7).

E acrescenta “a adesão ao Pentecostalismo também expressaria um protesto das massas contra a estrutura social tradicional e sua principal aliada, a Igreja Católica (1967, p. 118-119)”. Willems conseguia perceber dentro do Pentecostalismo uma espécie de rebelião das classes populares que substituíam o sistema de classes por uma sociedade sem classes. “As massas estariam escapando do Catolicismo hierárquico e autoritário e abraçando uma fé que enfatiza o igualitarismo” (1967 apud SIEPIERSKI, ibid, p. 567).

Para Procópio Camargo (1973), outro intérprete do Pentecostalismo, o crescimento pentecostal deve ser visto como uma resposta religiosa a situações de anomia em que se encontravam as classes populares desterradas de suas estruturas sociais originais. Seguindo essa mesma linha de raciocínio, Beatriz Muniz de Sousa (1969) observa o Pentecostalismo como uma religião funcional que serve para adaptar os indivíduos à sociedade moderna25. Read, o primeiro a estudar o Pentecostalismo brasileiro, levanta algumas explicações que seriam aceitas por outros autores. Para ele, a rápida urbanização, a propensão dos brasileiros para o sentimento religioso, sua natureza emotiva, os elementos místicos e miraculosos, presentes em sua cultura, o analfabetismo e, principalmente, o autoritarismo presente na estrutura pentecostal são os elementos que fariam as massas se dirigirem e engrossarem as fileiras e as firmas pentecostais.

A principal descoberta de Read, Monteroso e Johnson (1969) foi a constatação da importância da idéia de patrão no Brasil naquele período histórico.

Este logo havia percebido que os processos democráticos não funcionariam com pessoas que não estivessem aptas ou preparadas para as responsabilidades democráticas. Era o autoritarismo e não o igualitarismo, presente na estrutura pentecostal que fazia as massas se sentirem em casa no Pentecostalismo (1969

apud SIEPIERSKI, ibid, p. 568).

25 É importante conferir a tese de doutorado de Ricardo Mariano sobre o crescimento pentecostal no Brasil defendida na USP em 2001.

Ricardo Mariano (2001) faz um balanço da Sociologia do crescimento pentecostal. Para ele, toda a Sociologia Clássica sobre o Pentecostalismo partilha de uma mesma idéia. Todos eles analisam o Pentecostalismo em termos de reconstrução de modalidades e estruturas primárias existentes nas sociedades tradicionais que foram perdidas no ambiente da cidade.

A religião pentecostal incumbe-se, então, do papel de fornecer-lhes novas comunidades, disciplina, valores adequados à vida nos centros urbanos, segurança psicológica e econômica (...). Quanto mais avançado for o deslocamento geográfico e o desenraizamento cultural da população de origem rural e, quanto mais desenvolvida a industrialização e urbanização, tanto maior será a expansão pentecostal. (MARIANO ibid. p. 51).

Na visão clássica, o Pentecostalismo seria o responsável: A) pela construção de comunidades emocionais com a finalidade de amenizar o impacto provocado pela chegada desses indivíduos nos centros urbanos; B) pela atualização cognitiva dos agentes levando- os a sua transformação em indivíduos econômica, social, política e produtivamente adaptados ao mundo moderno. Para D’Epinay (1970), o Pentecostalismo não deveria ser encarado como um avanço rumo à modernidade, mas inspira-se na sociedade tradicional como um esforço de restauração, uma espécie de reconstituição mais elaborada. Para esse autor, a estrutura pentecostal seria herdeira das estruturas do passado mais do que o precursor da sociedade emergente. Longe de representar uma rebelião contra a sociedade, era um refúgio para as massas temerosas de provocarem as necessárias transformações sociais. O pastor-patrão restabelece a posição do senhor, dono de engenho, com uma imensa comunidade sob suas ordens. Sobre isso Mariano (2001, p. 67) assevera que

As análises defendem que a afiliação ao Pentecostalismo ocorre em contextos sociais nos quais os indivíduos se encontram em posição desfavorecida ou em situação de marginalidade social e econômica. Daí, em ambas, o Pentecostalismo ser apontado como resposta (ou solução) para os problemas sociais desses indivíduos. Neste aspecto específico, as noções de anomia e indigência convergem. A noção de indigência, porém, baseada numa perspectiva marxista, apresenta conotação política e denota a possibilidade de superação das injustiças e desigualdades sociais neste mundo pela via religiosa, ao passo que a noção de anomia remete para a possibilidade de o converso encontrar solução individual para seus problemas de sentido e privação social.

Na visão de Siepierski, o que há em comum, entre os vários autores, sobre o crescimento do Pentecostalismo, é o fato de ele ter surgido em um ambiente com rápidas transformações sociais, simbolizadas pela urbanização, alcançando as camadas marginalizadas no processo. As comunidades pentecostais seriam uma metamorfose do sistema social tradicional em consonância com as demandas daqueles não privilegiados.

Uma outra interpretação, bastante importante para a Sociologia do crescimento evangélico, é a de Rolim (1980). Para ele, o Pentecostalismo atrairia, principalmente, os indivíduos de uma nova e pequena burguesia, ou uma classe média baixa, aqueles localizados no setor de serviços entre os trabalhadores assalariados e a classe média. Seria uma classe indefinida, sem coragem para se engajar no conflito de classes e cuja aspiração seria tornar-se classe média.

Além dessas interpretações, outras surgem ao longo do desenvolvimento da Sociologia do Pentecostalismo brasileiro nas últimas quatro décadas. Para alguns; como Ari Oro (1996, p. 40), que não descarta as interpretações anteriores, argumenta que o crescimento das instituições pentecostais se deve também aos méritos da própria instituição: “dinâmica expansionista, prática religiosa emocional, cuidado pastoral, mensagem significativa para seu público alvo, utilização eficiente dos meios de comunicação de massa e motivações espirituais” (1996 apud SIEPIERSKI, ibid, p. 574).

Em sua tese de doutorado, Mariano (2001) faz um resgate das interpretações anteriores sobre o tema e segue uma linha de argumentação anteriormente indicada por Oro (1996), e acredita que a análise do crescimento pentecostal deve ser buscada não em fatores propriamente externos, como as condições socioeconômicas do Brasil, mas na própria eficácia do discurso pentecostal e em suas formas proselitistas. Ele critica a funcionalidade atribuída ao Pentecostalismo e afirma que o crescimento ou não de determinados grupos religiosos devem ser buscados nos fatores internos inibidores ou facilitadores que maximizam sua ação no meio social. Para Mariano (2001, p.86):

A adesão religiosa sempre resulta da atividade proselitista do grupo religioso, uma vez que, são seus agentes leigos e clericais que, por diferentes meios e artifícios evangélicos, como a intensificação da oferta de bens de salvação mágicos, aproveitam as ocasiões propícias para abordar, cativar, persuadir e recrutar os descrentes. (...) Ninguém adere ao Pentecostalismo simplesmente porque se encontra doente, por exemplo. Não se trata disso. É a promessa pentecostal de cura divina que chama a atenção do enfermo, atrai seu interesse e

pode levá-lo a optar pela filiação. É a propaganda dessa mensagem ou da oferta desse serviço mágico-religioso que atrai os indivíduos às igrejas pentecostais e eventualmente, desencadeia seu processo de conversão, não o contrário. O pensamento de Mariano não deixa de estar correto; é importante compreender a análise do crescimento pentecostal, como esforços dos próprios fiéis na atividade proselitista, entretanto, isso não anula o pensamento sociológico clássico de que também ele constitui uma resposta às demandas de uma classe de desfavorecidos.

Embora considerando as várias interpretações sociológicas plausíveis, nossa investigação é complementar e enriquecedora, uma vez que estamos estudando o crescimento dos grupos religiosos através da análise organizacional das firmas. Nossa pesquisa sobre estruturas organizacionais nos levou a outros fatores que corroboram essa resposta. O crescimento pentecostal deve também ser compreendido não somente em termos de retorno a uma demanda, ou devido a atividades proselitistas26. No nosso entender, os grupos religiosos pentecostais crescem porque são capazes de produzir respostas em curtos períodos de tempo, atendendo tanto às demandas, quanto modificando suas estruturas institucionais, e adaptando-se aos novos padrões sociais exigidos. Pouco se tem estudado sobre a lógica existente dentro das instituições religiosas e qual a relação entre elas e a sociedade.

O campo evangélico, que teria crescido muito nas décadas de 1960 e 1970, reestruturou-se internamente, adaptando-se a uma nova realidade na década de 1980, com crescimento contínuo. Em muito, isso se deve às próprias transformações sociais, econômicas e políticas que o país passou.

Em meados da década de 1970 já existe uma geração urbana de pentecostais. Essa geração não conhece nem o Catolicismo popular, nem o trauma da migração. Esses pentecostais são alfabetizados, e em geral vivem melhor do que seus pais. Eles forçarão algumas mudanças no Pentecostalismo que conheceram quando crianças. A conversão para eles não é uma ruptura radical com o passado. Por outro lado, o público alvo da pregação pentecostal não é mais os imigrantes desenraizados, mas uma população urbana totalmente inserida na economia capitalista. Essa população não almeja apenas sobreviver no meio urbano, como seus pais, mas desfrutar da sociedade de consumo na qual nasceram (SIEPIERSKI, ibid, p. 581).

26 Na verdade, a atividade proselitista seria aquilo que mais salta aos olhos no primeiro momento da investigação. É importante compreender outros mecanismos estimuladores dessa necessidade de fazer prosélitos.

Siepierski acrescenta que em situações de rápidas transformações sociais, quanto mais ajustada uma resposta está em um determinado momento, mais desajustada ela estará no próximo. A mensagem de parte do Pentecostalismo tornou-se anacrônica. A esperança de um reino futuro já não é mais atraente. “O que seduz agora é um reino de Deus presente e universal cujo desfrute está acessível a todos” (SIEPIERSKI, ibid, p. 581). O discurso e o modelo organizacional do Pentecostalismo clássico teriam envelhecido em certas áreas da sociedade brasileira, não conseguindo mais atrair grande quantidade de clientes. Em seu lugar, muitas outras instituições religiosas surgidas no decorrer das transformações sociais, econômicas e políticas dos anos 70, 80 e 90 ganham espaço e clientes; não somente novos adeptos, mas antigos fiéis pertencentes às suas concorrentes pentecostais.

Dessa forma, as transformações do Pentecostalismo podem ser compreendidas como fruto de constantes reestruturações das instituições religiosas e reelaboração de elementos culturais dentro de suas organizações, adaptando-se à uma cultura religiosa e a uma sociedade em evolução em curtíssimos períodos de tempo. Os novos grupos evangélicos que surgem são formados por estruturas religiosas dinâmicas com grande capacidade de atender demandas da sociedade rural, urbana, moderna, tradicional, contemporânea, carismática ou legal. As formas institucionais dos grupos mudam com vistas às novas ondas de crescimento. À medida que os produtos religiosos oferecidos pelas firmas vão envelhecendo, situações de tensão organizacional aparecem e descontentamentos surgem ocasionando cismas religiosas e produzindo novas instituições com modelos organizacionais diferenciados e oferecendo produtos religiosos novos no mercado. Quem melhor exemplificou essa nova realidade foi Paul Freston (1993) com sua elaborada explicação das ondas pentecostais.

Podemos rever as três ondas pentecostais como processos de rupturas com modelos organizacionais religiosos já ultrapassados. A primeira onda pentecostal, de 1907 e 1910, quando surgiram a AD (Assembléia de Deus) e a Congregação do Brasil de dentro dos grupos protestantes tradicionais; a segunda onda dos anos 40 e 50 quando surgiram firmas religiosas como a Quadrangular, Brasil para Cristo e Deus é Amor, também proveniente das firmas pentecostais; e a terceira onda com seus principais expoentes, IURD e Igreja Internacional da Graça de Deus, que seguiram o mesmo caminho das anteriores, questionando o modelo organizacional vigente e propondo novas formas de ação e sua

inserção no mercado, ao oferecerem novos bens religiosos e atraindo um público diferenciado. Por isso, na visão macrosociológica, a construção teórica de ondas pentecostais elaborada por Freston (1993) pode ser lida como rupturas e reestruturações de modelos organizacionais considerados ultrapassados ou incompatíveis com as demandas sociais e religiosas do período histórico. Aprofundaremos essa temática nos próximos dois capítulos, onde mostraremos a importância da grande metrópole e do dinheiro nessa reestruturação do campo evangélico e a transformação do fiel em consumidor de bens religiosos.

As reformulações institucionais e os incontáveis cismas dentro da economia evangélica podem ser igualmente interpretados aqui como fazendo parte da própria dinâmica desse campo que não permite a estagnação das firmas religiosas. Nos últimos trinta anos, esses processos de cisão e o fato das firmas encontrarem-se agora dentro de uma economia religiosa competitiva, aumentam as disputas entre as firmas religiosas, por espaço e por fiéis, resultando em milhares de cismas dentro do campo evangélico e mais ainda, na profissionalização de certas instituições com o intuito de sobreviverem e vencerem a disputa no mercado.

Destacamos, ainda, que se o Pentecostalismo, organizacionalmente, inspira-se na sociedade tradicional nesse esforço de restauração dos laços perdidos com o processo de êxodo rural de seus fiéis, esse modelo caducou com o processo de industrialização e modernização que o Brasil passou, principalmente, nas décadas após 1970. É verdade que certas firmas pentecostais ainda mantêm esse modelo organizacional, enquanto outras procuram modelos mais elaborados e mais adequados aos padrões sociais de um Brasil moderno, urbano e citadino, Podemos citar como exemplo do Neopentecostalismo, o modelo gestor iurdiano.

No próximo tópico apresentaremos outra interpretação do campo evangélico, voltada mais especificamente a este trabalho.