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Com a consolidação da laicidade do Estado brasileiro no final do Século XIX e o aumento do distanciamento entre a Igreja Católica e o Estado, especificamente a partir do começo do século XX, a economia religiosa brasileira ganha força no contexto nacional, tornando-se cada vez mais plural, ampliando a liberdade de ação de outras instituições e o leque de opções religiosas para os consumidores interessados em bens religiosos. O mercado religioso ganha um dinamismo não visto até então. As firmas religiosas

evangélicas passaram a trabalhar com uma liberdade muito maior e o Protestantismo até então concentrado, em grosso modo, nas comunidades étnicas de imigrantes europeus passa agora a atuar nos grandes centros urbanos aumentando, consideravelmente, a concorrência por fiéis.

O avanço das firmas protestantes acontece em toda a América Latina e no Brasil. Segundo Beach (apud READ, MONTEROSO E JONHSON, 1969, p. 45), excetuando-se os protestantes étnicos, o Brasil em 1900 contava com apenas 11.376 membros. Segundo o autor, a sombra da Inquisição se fazia sentir pesada sobre toda a América Latina. Todavia, o século XX inaugura uma fase de igualdade dos diversos movimentos religiosos institucionalizados, pelo menos ao nível da lei. Isso permitiu que as firmas evangélicas se estabelecessem com maior desembaraço. Evidentemente que a igualdade ante a lei era infringida pela Igreja Romana, constantemente. Algumas ondas de perseguição aconteceram em alguns movimentos evangélicos, mas esse era o último suspiro de contra- revolta da firma católica frente à perda do seu monopólio. Ainda, segundo Beach, as congregações evangélicas brasileiras se multiplicaram três ou quatro vezes nas duas décadas seguintes.

Observa-se que o Brasil recebe grandes contingentes de imigrantes até, pelo menos, a Segunda Guerra Mundial. Isso por si só, aumentava rapidamente o número de evangélicos no país. O Sínodo do Rio Grande, em 1925, contava com uma comunidade de comungantes de 21.151 membros dentro de uma comunidade de 123.616 adeptos.

Em 1917, um congresso no Panamá (Movimento de Educação Missionária) publicou um relatório de membros ativos (READ, MONTEROSO E JONHSON, ibid, p. 51).

Tabela 1

Tabela comparativa do crescimento evangélico • México --- 22.282 • América Central --- 10.442 • América do Sul --- 93.337 • Índias Ocidentais --- 159.642

A constatação preliminar do relatório era que o Brasil apresentava um índice de crescimento bem superior às demais igrejas da América Latina atingindo, naquele momento, 49.623 membros ativos. Apesar da forte presença das igrejas étnicas, o crescimento do número de evangélicos no Brasil aconteceu devido, também, à presença de outras firmas religiosas implantadas e em franca expansão. Observa-se que a América Latina, como um todo, e o Brasil, em especial, foram os alvos de incontáveis grupos evangélicos americanos. Sobretudo, devido à ascensão do nazismo e, posteriormente, do comunismo russo. A América do Norte começou a enviar um número expressivo de missionários e as missões passaram a trabalhar mais intensamente no continente. No princípio da década de 1930 começaram a chegar grande número de missões ao Brasil. Por um lado o governo americano vinha tentando transformar esse continente em área de sua influência, por outro, as firmas religiosas protestantes tinham especial interesse em ampliar seu campo de ação nessa parte do mundo e imunizá-la do ateísmo comunista. As missões que atuavam na América Latina passaram a solicitar um número cada vez maior de missionários para os países. O número desses agentes religiosos, especializados na prática proselitista, se multiplicou nos anos que antecederam, ocorreram e sucederam a Segunda Guerra Mundial. Havia 5.431 missionários evangélicos, em 1958, trabalhando na América Latina que correspondiam a 25% dos missionários que as firmas americanas sustentavam no mundo (READ, MONTEROSO E JONHSON, ibid, p. 59).

Observa-se ainda que o campo evangélico brasileiro passou a depender e sofrer conseqüências das mudanças que ocorriam nas instituições protestantes dos Estados Unidos. Segundo Read, Monterroso e Johnson, as missões no Brasil e América Latina eram sustentadas por, pelo menos, três movimentos religiosos distintos: por igrejas independentes, pelo movimento da Escola Bíblica e por grupos antidenominacionais dentro das igrejas denominacionais. Somam-se a isso, igrejas denominacionais americanas que enviavam seus missionários para abrirem sucursais por toda parte. O resultado da implantação dessas inúmeras firmas protestantes, principalmente no Brasil, é que, em 1967, dos quase cinco milhões de evangélicos da América Latina, mais de três milhões e trezentos mil eram membros brasileiros ativos.

A pluralidade de financiamento dos mantenedores dos grupos evangélicos brasileiros também produziu uma infinidade de firmas religiosas diferenciadas, aumentando ainda mais a diversidade evangélica no Brasil. Contudo, apesar de fortes financiamentos externos, os grupos que mais cresceram no Brasil foram aqueles que dependiam, única e exclusivamente, dos recursos dos próprios fiéis, em especial, as Assembléias de Deus. Ao analisarmos, organizacionalmente, essa instituição,tentaremos encontrar o porquê do seu crescimento acima da média.

Trabalharemos aqui com os dados encontrados na análise dos censos demográficos e estudados por Rolim. Acrescentaremos, ainda, os censos de 1990 e 200023. Não foram mencionados aqui os censos de 1872 e 1920, pois de acordo com Rolim (1985, p. 20), ambos não falam da presença protestante. O censo de 1872 distingue, apenas, a existência de católicos romanos e não-católicos romanos, incluindo todas as outras expressões religiosas como não-católicos, e por isso, não pudemos utilizá-lo neste trabalho. Entre os não-católicos encontravam-se judeus, protestantes e outras expressões religiosas. O censo de 1920 omitiu o quesito religião, não sendo possível ser trabalhado nesta análise. A tabela e o gráfico abaixo, extraídos de dados do IBGE, mostram o crescimento dos evangélicos, desde 1890.

Tabela 2

Evangélicos em % sobre a população total

Total do Brasil 1890 1900 1940 1950 1960 1970 1980 1990 2000 Habitantes 142.235 177.727 1.074,857 1.741,430 2.824,775 4.814,728 7.885,846 13,189000 27.000,000 %porcentagem de evangélicos 1.0 1.1 2.6 3.4 4.0 5.2 6.6 8,98 15.4 23

Rolim (1985) em seu brilhante trabalho: Pentecostais no Brasil contribuiu consideravelmente para a construção de uma base de dados sobre a presença dos evangélicos no Brasil. Estaremos utilizando esta base de dados e acrescentando novos dados referentes ao censo de 1990 e 2000. Contudo nossa interpretação destes dados direcionar-se-á para um outro paradigma: o da economia e da competição religiosa.

Gráfico 2

Evolução do crescimento evangélico

1 1,1 2,6 3,4 4 5,2 6,6 8,98 15,4 1890 1900 1940 1950 1960 1970 1980 1990 2000 % de evangélicos

Entre 1890 e 1900 não houve, propriamente, um crescimento dos evangélicos no Brasil. Nesse período, o Brasil começava a implantar suas firmas religiosas proselitistas. Grande parte deste 1%; também, é composta pelo Protestantismo étnico, principalmente, colônias alemãs, suecas e de outros grupos imigrantes que se instalaram no Brasil e tinham no Protestantismo (Calvinismo e Luteranismo) elementos de identidade étnica, não constituindo firmas religiosas dedicadas à ação proselitista. Outra parte deste 1% é composta por batistas, congregacionais e presbiterianos que começavam a desbravar e implantar suas firmas religiosas proselitistas com muita dificuldade. A implantação acontecia com dificuldade porque a presença institucional da firma católica era sentida como instrumento de coerção das atividades proselitistas das firmas concorrentes.

Até 1920, a economia religiosa brasileira ainda se encontrava sob a forte influência institucional da Igreja Católica. O Estado já era laico, mas a firma religiosa católica exercia um poder muito forte na sociedade, especialmente, através da educação que gerava conflitos e perseguição religiosa aos concorrentes. Quatro séculos de dominação possibilitaram à firma religiosa católica um poder muito grande e ela o exerceu o quanto pôde para inibir o surgimento de firmas concorrentes. Mas essa é apenas parte da explicação em termos de paradigma do mercado religioso. Além da pressão da firma

estabelecida contra a quebra do monopólio da economia religiosa, as firmas que se implantaram até o fim da primeira década do século XX eram organizacionalmente inadequadas ao contexto do mercado religioso.

No início da década de 1940, os principais representantes do Pentecostalismo, como a Assembléia de Deus e a Congregação Cristã, possuíam cerca de cinqüenta mil membros, cada uma. Dez anos depois, esse número havia, praticamente, dobrado. Entre os anos de 1950 e 1960, a Assembléia de Deus chegou a quase um milhão de membros. Em 1965 teria cerca de um milhão e quatrocentos mil membros, contra quinhentos mil da Congregação Cristã.

O campo religioso evangélico não somente cresce em número, mas também em alternativas. Esse é o período de fragmentação do Pentecostalismo brasileiro. Muitas igrejas surgem a partir da década de 1950 e, também, experimentam índices de crescimento elevado. Segundo dados do IBGE, havia em 1965 cerca de 3.257.501 evangélicos e deste total, cerca de 2.230.144 eram de origem pentecostal, ou seja, 68,5%. Embora pesquisadores, como Read e Monterosoque, tenham realizado pesquisas sobre o crescimento dos evangélicos no Brasil nesse período, consideramos confiáveis os dados apresentados pelo IBGE.

Contudo, Siepierski (2002, p. 559) pondera que:

Como o Pentecostalismo havia apresentado grande crescimento nos períodos anteriores, e como ele alcançava cada vez maior visibilidade social através dos meios de comunicação de massa e da construção de templos em lugares bastante visíveis, a tendência geral foi a de superestimar o crescimento do Pentecostalismo. É verdade, porém, que este crescimento continuou acentuado, provocado principalmente pela multiplicação das igrejas pentecostais independentes, que chegavam, literalmente, aos milhares.

Na década de 1980 houve um acelerado crescimento dos evangélicos, principalmente, entre os novos grupos surgidos na década anterior. É interessante mencionar, nesse estudo, um dado levantado por Siepierski. Diz respeito à comparação entre o crescimento geral do Pentecostalismo. No censo de 1991, o IBGE classificou os cristãos não-católicos em cinco categorias, com as seguintes porcentagens, na população brasileira:

• Outros Cristãos tradicionais – 0,38 % • Evangélico tradicional – 2,99 % • Evangélico pentecostal – 5,57 %

• Cristão reformado não determinado – 0,42 % • Neocristãos – 0,60 %

Outros - 0,06 %

Essa nova classificação, criada pelo IBGE, dificultou a análise dos pesquisadores da religião que não entenderam o que o IBGE quis dizer com algumas dessas categorias. “Neocristão”, ou “outra cristã tradicional” são categorias que corroboraram negativamente à análise dos dados do censo de 1991. Todavia, alguns pesquisadores tentaram indicar que grupos estariam incluídos em algumas delas. “É possível que dentro de “outra cristã tradicional” estejam grupos como os ortodoxos e os católicos não- romanos. Dentro de “neocristãos” talvez grupos como as Testemunhas de Jeová e os mórmons ou mesmo adventistas” (SIEPIERSKI, ibid, p. 562).

Siepierski levanta uma hipótese muito interessante e plausível: o Pentecostalismo estaria decrescendo, após a década de 1980, dentro do conjunto dos evangélicos. Eles eram 68, 5 % em 1965 e 62% em 1991. A que se deve tal decréscimo?A resposta de Siepierski, e que concordamos, é a de que os grupos que mais cresceram naquele período e continuam a crescer no século XXI, são os grupos neopentecostais ou pós-pentecostais, como o autor classifica. Grupos que, claramente, procuram se diferenciar do Pentecostalismo clássico. O censo de 2000 indicou que boa parte dos 15,4% dos evangélicos descobertos pelo IBGE encontra-se em igrejas que não se classificam como protestantes históricas ou pentecostais, confirmando, assim, as expectativas e suposições de Siepierski,. São os neopentecostais com seu modelo arrojado de administração religiosa e de inserção no mercado competitivo que tende, teoricamente, a dominar o campo evangélico brasileiro do século XXI.

O Neopentecostalismo responde, na atualidade, pela maior parte do crescimento dos evangélicos no Brasil. Ele está presente em todos os grupos evangélicos do mercado religioso e muitas instituições se declaram neopentecostais ou pós-pentecostais como a IURD, por exemplo. O traço comum desse segmento é o seu crescimento acelerado. O Pentecostalismo e os demais grupos evangélicos tradicionais não conseguem acompanhar

esse crescimento. Igrejas, como a IURD, não têm concorrente à altura. Em Pernambuco, por exemplo, “ela se estabeleceu em 1981 e em 1985 já tinha três mil membros, um quarto do total da Igreja Presbiteriana do Brasil presente naquele estado desde 1878” (SIEPIERSKI, ibid, p. 565).

Trataremos, agora, da argumentação sociológica sobre o crescimento do mais importante grupo de firmas religiosas evangélicas no Brasil, o pentecostal. Em seguida, faremos a classificação das firmas evangélicas brasileiras.