Ao entrar na sala, Marta cumprimentou-me. Retribuí e informei-a sobre a continuidade da entrevista iniciada na semana anterior.
Logo de início, indaguei sobre a sexualidade de João, perguntei-lhe se ele manifestava curiosidade sexual, fato a que a mãe respondeu negativamente.
Marizilda: “Vamos falar um pouco sobre a sexualidade de João? João tem curiosidade sexual, pergunta sobre sexo?”
Marta: “Não. Ele é diferente desde pequeno, ele não se importa. Quando era pequeno, tomava banho todo mundo junto, eu, meu marido e os filhos. Quando eles começaram a mudar o corpo deles, eles mesmos separavam, não queriam mais tomar banho junto. Nós também vimos que eles estavam mudando e mudamos também. Mas o João não, o João é diferente, ele não se importa. Ele diz que ele ainda é criança, dança pelado, não tem preocupação. João não se percebe. Ele não se coloca no seu lugar, no lugar que ele já é.”
Marizilda: “Você acha o João infantil?”
Marta: “Não, ele não é infantil. Pensa em coisa de gente grande. Está trabalhando e com seu dinheiro comprou vídeogame e celular. Mas outras vezes... Ele fica no banheiro e eu fico olhando, ele fica jogando xampu no azulejo, estragando o creme da irmã.”
Marizilda: “Então, do ponto de vista da sexualidade, você não observa nada?”
Novamente, aquela mãe me deixava surpresa. Ela havia dado toda a descrição de um garoto infantilizado, que não consegue perceber o próprio crescimento, que não percebe a interdição, que faz coisas de criança de menor idade. Entretanto, quando apontei que sua descrição correspondia à de uma criança mais nova, a mãe negou o fato. Minha sensação era a mesma de sessões anteriores, havia algo ali. Havia algo que se colocava entre perceber e ignorar o crescimento do filho. Contudo, desta vez eu havia tido uma atitude diferente das que tive em outras ocasiões. Naquelas, embora tivesse percebido algo, não o havia compartilhado com a cliente. Agora, fizera o oposto e não tinha tido sucesso. A mãe não concordou com minha observação, fato que me fazia retornar ao ponto de partida. Na verdade, essa tentativa de intervenção veio a comprovar minha posição anterior: ainda não era a hora de abordar determinados aspectos. Isso deveria ser feito quando eu os compreendesse melhor.
Prosseguindo a entrevista, ela contou-me sobre a escolaridade de João.
Marizilda: “Quando começou a freqüentar escola?”
Marta: “Ele tinha vontade de ir na escola, entrou na escola com cinco anos. Quando entrou pegou uma professora estranha, muito seca. Ficou seis meses com essa professora e foi expulso. Foi assim, passou uma semana sem ir para a escola por dor de ouvido. Ah! Expulso não, suspenso. Ela disse que ele tinha batido numa criança e a mãe foi reclamar. Mas ele contou outra história, disse que o menino estava chorando e ele e outro amigo começaram a cantar uma música para a criança e ela chorou mais. Ele não quis mais ir pra escola por causa da professora que só era chata com ele. Não aprendeu nada. No outro semestre ele mudou de período, com outra professora, que mandava só elogio pra ele. Ele adorava fazer revistinha. Ele fazia a história e só recebia elogio. Na primeira série foi muito bem. Na segunda série teve o mesmo problema com outra
professora. Entrou numa sala como aluno novo, que os outros alunos já vinham juntos do outro ano. Era só reclamação, suspensão. Eu passei três meses na escola com ele. A professora dizia que ele parecia um monstro e que eu precisava ver o que ele fazia. Eu não acreditava nisso. Depois que fui para a escola que entendi o que estava acontecendo. Uma vez a professora disse que ele tinha falado milhares de palavrões e ele tinha falado ‘merda’. Outra vez, ela mandou um bilhete que ele tinha batido numa menina, voltado e chutado ela já no chão. Ele disse que derrubou a menina que estava com um prato de comida, ele empurrou ela, não chutou. Numa reunião, a professora falou que tinha um menino muito ignorante que aprendeu a bater no ponto fraco dos outros: ‘no saco’. Ele disse que tinha sido ele, mas não tinha chutado no saco, e sim na coxa. Teve uma vez que fui falar com a diretora e ela disse que ali não era lugar para meu filho. Ele queria trocar de professora, mas a diretora dizia que o problema estava no meu filho e não na professora. Aí a professora me convidou pra ficar com ele na sala de aula. Aí eu fui entender o que estava acontecendo. Ninguém gostava dele, ninguém brincava com ele, ele começou a engordar porque comia três pratos de comida porque ninguém queria brincar com ele. Daí ele falava que era bom eu estar com ele na escola, dizia que as pessoas tratavam ele diferente quando eu estava lá. Melhorou, terminava as lições primeiro que os outros. Daí eu percebi que eles nunca brincavam com ele, era aluno novo explosivo. Eu sempre ensinei falar a verdade, que se falar a verdade não apanha. Hoje também é mesma coisa. Ele não tem paciência com as crianças. Até hoje é assim, se tratar bem, ele trata, mas se não tratar ele fica muito bravo.
Marizilda: “E atualmente, como ele está na escola?”
Marta: “Atualmente, ele sempre foi assim, gosta de dar risada de tudo. No ano passado teve uma reclamação de que ele não termina a lição, ri de tudo. Se a professora dá atenção aos colegas, faz graça e tira a atenção dos colegas das lições. Eu não deixava ele ir no passeio da escola por causa do cocô. Ele nunca sai muito de casa.”
Marizilda: “O cocô acontecia na escola? Seria por isso que as crianças não gostavam dele?”
Marta “Era muito difícil acontecer na escola, não era por isso. Na outra escola as crianças não gostavam dele porque a professora não gostava. As crianças bagunçavam por tudo. Achei a escola um absurdo. Tinha um menino que ele disse que chutou, colocou um lápis e um ferro assim e começou a lutar com outro, com a professora na sala.”
Nesse discurso da mãe, novamente se percebe a mãe superprotetora, que se dispôs a passar três meses na escola para ajudar o filho. Durante todo seu relato, ela mostrou-se envolvida no episódio, criticando a falta de tato e de habilidade da professora para lidar com as crianças. Essa mãe que estava à minha frente em nada se parecia com a outra, que não manifestava nenhuma emoção com os graves acidentes sofridos por seu filho.
Além dessa constatação, foi possível visualizar João como um garoto fragilizado, com dificuldade para ser aceito pelo grupo, fato que supostamente teria desencadeado uma baixa auto-estima e uma grande carência afetiva.
Minhas hipóteses foram reforçadas pela continuidade do relato de Marta que descreveu João como um aluno que faz piadas durante as aulas, particularmente quando a professora está dando atenção à outra criança.
Marta: “Atualmente, ele sempre foi assim, gosta de dar risada de tudo. No ano passado teve reclamação de que ele não termina a lição, ri de tudo. Se
a professora dá atenção aos colegas, faz graça e tira atenção dos colegas das lições.”
Marta aludiu ainda às dificuldades de João em matemática e a seu relacionamento com o garoto.
Marizilda: “Você conversa com ele sobre isso?”
Marta: “Converso sim. Ele é muito carinhoso, daqueles que é até chato, gruda em mim. Tem preocupação comigo. No trem ele gosta muito de se mostrar e eu tenho medo que ele vá se mostrar andando com as pessoas erradas.”
Marizilda: “Você parece não confiar no seu filho, parece temer o que ele possa fazer.”
Marta:” É isso mesmo, eu tenho medo de drogas, eu converso sobre drogas. Às vezes ele olha as meninas no trem e diz ‘ tenho vontade de bater tanto’, porque elas se exibem. Ele leva tudo pra brutalidade, o pai dele é tão diferente! Mas eu não sei se fica isolado na escola, ele fala muito de um amigo que este ano não está com ele, ele tem poucos amigos, por mais que tente fazer amigos.”
Algo começou a ser esclarecido no caso. Talvez fosse possível, a partir do crescimento do menino, que sua mãe sentisse necessidade de estar mais perto dele, por não confiar no que pudesse fazer. Parecia temer suas atitudes, seu comportamento, suas ações em geral. Existia algo nele que a ameaçava, fazia com que sentisse necessidade de protegê-lo, de contê-lo. O que seria? Aparentemente, tal necessidade não existiu quando o filho era pequeno: parou de amamentá-lo com um mês, deixando-o aos cuidados da filha, uma menina; despreocupada, deixou-o sozinho com um cachorro; além disso, o garoto envolvera-se em diversos acidentes. E havia mais: e os outros dois filhos? Trouxe-os para trabalhar perto dela ela.
Desconfiaria também do comportamento deles? Seria isso um tipo de vigilância em tempo integral?
Prosseguindo a entrevista, Marta comentou que João nunca sofreu nenhum tipo de cirurgia, desmaio ou doença, exceto catapora. Entretanto, relatou vários acidentes sofridos por João, dos quais dois foram graves.
Marta: “Uma vez ele caiu em cima do cabo do guarda chuva. Meu marido ficou com ele. Quando cheguei ele estava dormindo, não percebi nada. No outro dia ele estava com o olho todo vermelho, era sangue puro, caiu em cima do cabo do guarda chuva e perdeu 80% da visão, pra sempre. Tinha que fazer mapeamento da retina e não consegui fazer. Ele passou muito tempo sem sair no sol. O médico pôs tampão no olho.”
Marizilda: “Quando você chegou, seu marido não te avisou sobre o que tinha acontecido?”
Marta: “Meu marido é muito sossegado demais. Só falou que ele tinha caído, mas não tinha machucado. Também quando ele tinha um ano e dois meses eu tenho uma laje no quintal, ele subiu e eu chamei ‘João’, ele me olhou e caiu. Eu precisei levar pro hospital, mas não deixei lá de novo. Uma outra vez, na frente da casa tinha um banco e um coleginha empurrou ele, ele caiu e quebrou o braço. Tinha um ano e meio. Também quando ele tinha dois ou três anos um colega bateu nele com um cabo de vassoura e cortou o supercílio. Depois disso só umas coisinhas pequenas.”
Mais uma vez, episódios graves foram narrados sem emoção. João perdera 80% da visão em um olho e sua mãe não demonstra preocupação quanto às seqüelas do fato. As coisas não combinavam. Não parecia a mesma mãe que conversava tanto com o filho, que se preocupava com o uso de drogas.
Marta contou ainda que comemoram Natal e Páscoa, e que costumam ler revistas e assistir a televisão, embora ela não o faça com freqüência. Atualmente, pensa em ir ao cinema, para assistir a um filme sobre Jesus Cristo.
A sessão chegava ao final e eu propus a Marta que nos encontrássemos mais uma vez, antes que eu visse João. Expliquei-lhe que precisava fazer mais uma entrevista para que pudesse entender melhor, as circunstâncias da vida de João. Esclareci que precisava compreender o que ela pensava, as coisas nas quais acreditava. Marta concordou e nos despedimos.