• No results found

Solar power large scale electricity sector

Para compreender um pouco mais da interferência do PEC-G, no que diz respeito às mudanças nas vidas e trajetórias dos alunos, vale destacar o que Gilberto Velho (2003) contribuiu para as análises de trajetórias. Na medida em que buscava entender processos sociais a partir de diferentes combinações individuais. As demandas de sujeitos produzem assim, transformações, metamorfoses. Ou seja: “a construção da identidade e a elaboração de projetos individuais são feitas dentro de um contexto em que diferentes ‘mundos’ ou esferas da vida social se interpenetram, se misturam e muitas vezes entram em conflito” (VELHO, 2008, p. 36).

Essas transformações nas trajetórias são resultado de várias implicações que envolvem as ações dos sujeitos e os submete a novos possibilidades, cenários e horizontes. Nessa perspectiva, o conceito de projeto, pode nos ajudar a compreender as ações que possibilitam um campo amplo de possibilidades, sempre movidas com intuito de atingir objetivos específicos, mas de natureza relacional:

As trajetórias dos indivíduos ganham consistência a partir do delineamento mais ou menos elaborado de projetos com objetivos específicos. A viabilidade de suas realizações vai depender do jogo e interação com outros projetos individuais ou coletivos, da natureza e da dinâmica do campo de possibilidades. Os projetos, como as pessoas, mudam. Ou as pessoas mudam através de seus projetos. A transformação individual se dá ao longo do tempo e contextualmente (VELHO, 2003, p. 50).

Sendo assim, nos ajuda a perceber a relevância do PEC-G na vida dos estudantes, que por exemplo, não estariam na graduação, estariam trabalhando, exercendo as duas ocupações, ou mesmo teriam uma graduação sem a experiência internacional? Além do mais, pode demonstra que o Brasil se torna cada vez mais uma opção mais viável tendo em vista condições financeiras e de emigração para outros países.

57

Gráfico 9 - O que teria feito se não tivesse ingressado no PEC-G?

Fonte: Questionário aplicado aos estudantes PEC-G da UnB, 2018.

Quando perguntados o que fariam se não tivessem ingressado no PEC-G: 73% disseram que estariam fazendo graduação mesmo se não tivesse ingressado no PEC-G, sendo 47% em países estrangeiros e 26% em seu próprio país. Houve estudantes (4) que informaram já terem concluído graduação e outros que deixaram a graduação em seu país para vir estudar no Brasil. Além do mais, 50% dos homens disseram que iriam estudar fora do país e 38% das mulheres. Outrossim, nenhum beninense estaria fazendo graduação em seu país e 70% estariam fazendo fora do país. Por outro lado, 50% dos congoleses estariam fazendo graduação em seu país. Houve comentários de alunos que queriam trabalhar para pagar sua manutenção durante o curso. Vários mostraram uma vontade fixa em estudar fora do país.

O que é possível salientar diante dessas informações que nos foram apresentadas, é que há na maioria absoluta dos casos uma valorização pelos estudos independente da saída de seus países de origem, entretanto com forte valorização por sair do país para estudar e mesmo trabalhar. Sendo assim, vale observar, como bem destacou Andréa de Sousa Lobo (2006), ao falar do caso cabo-verdiano de emigração, que:

As práticas em torno da emigração estão associadas a um processo social e histórico no qual elas são reproduzidas. Quando os cabo-verdianos emigram, estão partilhando um sistema complexo de valores, ideias e percepções sobre o que significa emigrar. Porém, o indivíduo não é um mero reprodutor desse sistema. Os desejos individuais de emigração não são somente produtos da história. Ao optar por sair, ele lança mão de experiências de vida, ações e entendimentos que fazem do

47%

27% 12%

2%6%

6%

O que teria feito se não tivesse ingressado no Programa PEC-G?

Graduação em outro país. Graduação no meu país. Trabalhando em meu país. Trabalhando em outro país. Possivelmente

desempregado(a). Outra opção.

58 fenômeno migratório um processo multifacetado, que varia no tempo e no espaço (LOBO, 2006. p101).

Ou seja, as subjetividades individuais estão pesando na hora da escolha por sair ou não, para estudar fora do país, entretanto, dependendo do contexto histórico e geográfico, a valorização por sair é uma opção mais do que individual, sobretudo de peso social. Sair, para estudar ou trabalhar fora de seu país, em várias das trajetórias, têm e compõem valores sociais e simbólicos (BOURDIEU, 2008) especialmente em vidas que se mantêm em movimento (LOBO, 2012; 2014). As trajetórias dos sujeitos estão envolvidas por dinâmicas diversas de sentidos e valores referentes ao sair, seja para o trabalho ou estudo, assim com como o seu retorno ao lugar de origem.

Durante a pesquisa para este trabalho, houve estudantes que comentaram querer trabalhar para custear sua manutenção durante o curso. Isso aponta para questões financeiras enfrentadas durante sua permanência no programa, assim como nas dinâmicas que envolvem sua vida familiar em seu país de origem, em que há em alguns casos um constante retorno em relação à quem fica. Ademais, vários deles demonstravam uma vontade fixa em estudar fora do país. Outros disseram já terem iniciado algum tipo de graduação em seu país ou já ou mesmo concluído, como já citado, manifesta uma complexidade maior no fluxo migratório e seus sentidos. Conjugando com a constante vontade de exercer alguma atividade remunera demonstram tanto a preocupação com sua manutenção pessoal, das despesas, etc., assim como na questão do trabalho como um valor. Nesse sentido, ao passo que valorizam a função e o reconhecimento enquanto trabalhadores, torna possível perceber que “é no e pelo trabalho que se efetiva o salto ontológico que retira a existência humana das determinações meramente biológicas. Sendo assim, não pode haver existência humana sem trabalho” (LESSA, 2012:26). Por outro lado:

A existência social, todavia, é muito mais que trabalho. O próprio trabalho é uma categoria social, ou seja, apenas pode existir como partícipe de um complexo composto, no mínimo, por ele, pela fala e pela sociabilidade (o conjunto das relações sociais). A relação dos homens com a natureza requer, com absoluta necessidade, a relação entre os homens. Por isso, além dos atos de trabalho, a vida social contém uma enorme variedade de atividades voltadas para atender às necessidades que brotam do desenvolvimento das relações dos homens entre si. (LESSA, 2012:25).

Sem dúvida, os estudantes estavam envolvidos em valores que sobretudo destacavam o trabalho com uma ferramenta importante para suas vidas. Sobretudo porque estamos falando de tipos específicos de migrações, relacionados às migrações temporárias, com tempo de

59 permanecia estipulado no país de destino (DESIDÉRIO, 2006; GUSMÃO, 2012), o que torna a relação com o trabalho nesses contextos mais emblemáticas e, de certa forma, mais significativas. Ou seja:

O pressuposto assumido é de que a questão dos estudantes africanos no Brasil não é um movimento de simples deslocamento de indivíduos entre um país de origem e um país de acolhimento. Trata-se de um contexto complexo em que os indivíduos que migram dentro desse processo de migração especial cumprem metas postas por seus países em termos do próprio desenvolvimento. No entanto, para os sujeitos envolvidos nos processos migratórios, tais metas podem ou não ser conscientes, dado que a migração ocorre, na maioria das vezes, num jogo de aparente individualidade, de escolha e projeto de âmbito restrito aos indivíduos e às suas famílias. Para além da questão que diz respeito aos países de origem e suas metas e realidade, outro ponto a ser destacado é o da vinda desses estudantes africanos para um país como o Brasil. (CÓ, 2011, p40).

Sair para estudar fora não está livre de um constante retorno, independentemente de sua natureza, e sobretudo de um retorno final do esforço de ter saído para estudar fora. Sobretudo, porque as relações sociais dos sujeitos podem estar configuradas em saídas e regressos, em que muitas das vezes, antes mesmo de sua volta ao lugar de origem, é possível perceber uma circulação de bens e valores que mantem laços sociais e os sentidos do sair (DIAS, 2012).